terça-feira, 20 de maio de 2025

Servidores do INSS sofreram ameaças após barrarem descontos ilegais de associações

O Jornal Nacional teve acesso com exclusividade a novos detalhes sobre desvios ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. Há cinco anos, mais um servidor do instituto denunciou à Polícia Federal que passou a sofrer ameaças depois de descredenciar associações irregulares.

Em setembro de 2020, a mãe de um servidor do INSS recebeu uma mensagem no celular. O texto pedia o endereço do filho para "fazer uma surpresa".

Três dias depois, outro servidor do INSS recebeu uma ameaça no celular. “Estamos de olho”, dizia a mensagem, que também citava o nome da mãe dele, o modelo do carro dela e dois endereços do servidor. Esse servidor é o mesmo que já tinha feito uma denúncia de irregularidades à Polícia Federal.

Os dois servidores atuavam para combater fraudes contra aposentados por meio de descontos ilegais na folha de pagamento.

Eles procuraram a Polícia Federal em Brasília para prestar queixa. Dois inquéritos foram abertos, mas as investigações foram transferidas para a PF no Paraná, já que o número de telefone de onde partiram as ameaças era de lá.

Na denúncia, um dos servidores diz:

“Em decorrência de decisões proferidas em processos administrativos de apuração de irregularidades, foram encerrados 3 acordos. Nos últimos dois meses, outros dois foram suspensos, situação que reflete diretamente no repasse financeiro das entidades acordantes."

"Considerando que as mensagens contêm informações acerca da minha atividade profissional e o interesse em minha exata localização, temo que as ações tenham como objetivo causar intimidação ou coação."

No depoimento, o servidor listou dez entidades que foram descredenciadas em 2019 e 2020 por conta de irregularidades.

Outro servidor disse à PF que estavam “reforçando um trabalho de controle e que acredita que as mensagens, que entendeu como ameaças, seriam decorrentes do trabalho de suspensão e/ou cancelamento de referidos acordos".

Um mês depois das ameaças, o então presidente do INSS, Leonardo Rolim, editou uma portaria que transferiu essa atribuição de fiscalização para outro setor.

Essa movimentação coincide com uma mudança de rota no controle dos descontos no INSS. Entre janeiro de 2019 e outubro de 2020, dez entidades foram canceladas e nenhum novo acordo foi assinado.

Já a partir de outubro de 2020 até abril do ano passado, 24 novas entidades foram credenciadas e outras seis, que tinham sido descredenciadas, foram reabilitadas.

Dados do Portal da Transparência mostram que essas novas associações, juntas, foram aumentando exponencialmente os descontos.

Em 2020, descontaram R$ 36 milhões. Em 2024, R$ 2,4 bilhões. Entre janeiro e março de 2025, foram R$ 655 milhões. Ao todo, essas entidades receberam R$ 4,3 bilhões.

Depois de três anos, os inquéritos foram encerrados sem chegar ao autor das ameaças. Mesmo após o relato dos servidores, a Polícia Federal não ouviu representantes das associações e não realizou nenhuma diligência no INSS e nem nas entidades.

O inquérito que levou à Operação Sem Desconto, que revelou várias irregularidades nessas entidades, só foi aberto em abril de 2024, depois que a imprensa já tinha noticiado o caso.

O ex-presidente do INSS, Leonardo Rolim, já disse que a mudança de atribuição das diretorias que analisavam os contratos das associações ocorreu no processo de reestruturação do INSS e que ele deixou a presidência do instituto em 2022 e não sabe o que aconteceu com os contratos depois disso.

•        Testemunha-chave de investigação diz que Conafer adulterava documentos para retirar dinheiro de aposentados

A Conafer - entidade que mais aumentou o volume de descontos em benefícios do INSS de 2019 até 2024, segundo uma testemunha-chave essa organização adulterou documentos para retirar dinheiro de aposentados.

O depoimento foi na Delegacia de Repressão aos Crimes Contra o Consumidor no dia 10 de junho de 2021. O empresário de Brasília Bruno Deitos afirmou que a empresa dele, Premier Recursos Humanos, "foi contratada de forma terceirizada pela empresa Target Pesquisas de Mercado, que havia sido contratada pela Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil – Conafer - para fazer um serviço de atualização de cadastro de associados”.

Bruno disse que a empresa dele tinha sido contratada para atuar no Distrito Federal, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; e que, de posse da listagem dos associados, a Premier deveria recrutar promotores de pesquisa que iriam pessoalmente aos endereços fornecidos pela Conafer para colherem assinaturas dos associados em formulários de exclusão do desconto de mensalidade, associação, e relatório de ausência ou mudança de endereço. E que Randel, dono da Target, teria dito em uma reunião que o que interessava era simplesmente o quadro de assinaturas, pois ele contrataria uma empresa especializada em alteração de documentos em PDF, que transformaria os referidos formulários em formulários de adesão.

Bruno contou à polícia que, depois de executado o serviço, não recebeu o pagamento total e que, ao reclamar, foi ameaçado pelo irmão do presidente da Conafer. Tiago Ferreira Lopes aparece em uma foto ao lado de Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer. Tiago já havia sido condenado em uma ação por improbidade administrativa, com enriquecimento ilícito e dano ao patrimônio público.

Em um segundo depoimento, no dia 11 de junho de 2021, Bruno voltou a relatar ameaças e disse à polícia que "o presidente da Conafer comentou em uma reunião que tinha domínio sobre os diretores do INSS, mas não especificou quais diretores seriam; que o domínio que o presidente da Conafer mencionou seria repasse de vantagens financeiras para tais diretores, a fim de alterar dados do sistema do INSS, bem como fornecer informações relativas a aposentados e pensionistas". Bruno ainda disse à polícia que tinha, em arquivo digital, 28,7 mil fichas de assinaturas coletadas.

Na quarta-feira (14), o Jornal Nacional mostrou que a Conafer foi a entidade que mais aumentou o volume de descontos de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2023. Em números absolutos, passou de R$ 400 mil por ano em 2019, para R$ 57 milhões em 2020 e R$ 202 milhões em 2023, segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU).

A Polícia Civil do Distrito Federal enviou todas essas informações para a Polícia Federal em 2021. Os documentos fazem parte do inquérito que investiga as fraudes. A operação para desarticular o esquema só ocorreu agora, em abril de 2025, e acabou levando à queda do ministro da Previdência e do presidente do INSS.

A Conafer declarou que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações e que esclarecerá os fatos no inquérito.

O Jornal Nacional não conseguiu contato com o autor das denúncias, Bruno Deitos, com Randel Machado de Faria e com a empresa dele, a Target Pesquisas de Mercado.

•        Perfil falso do INSS engana aposentados com promessa de reembolso de descontos indevidos

Um perfil falso do INSS em uma rede social está sendo usado para enganar aposentados e pensionistas vítimas de descontos associativos indevidos. O alerta foi feito pelo próprio instituto.

O perfil @assistencia_inss parece oficial: tem fotos e enunciados que induzem o cidadão a achar que ele é real. Mas, de acordo com nota divulgada pelo INSS, o perfil está "utilizando de forma indevida o nome, a identidade visual e informações do INSS, principalmente sobre a liberação de reembolso de descontos indevidos."

O INSS avisa que "não realiza atendimento por meio de redes sociais, e tampouco solicita o envio de documentos pessoais, fotos, senhas ou dados bancários por estes canais de comunicação".

Segundo o Instituto, o perfil falso tenta atrair usuários por meio de postagens copiadas dos canais oficiais e sugere facilidades para resolver pendências ou acelerar a liberação de valores referentes aos descontos associativos para a aplicação de golpes.

O INSS alerta que o portal falso pode coletar dados sensíveis dos usuários, como o CPF. E que as informações podem ser usadas para acessar indevidamente contas do INSS ou para contratar empréstimos consignados em nome dos aposentados ou pensionistas.

O INSS reforçou que todos os serviços e informações sobre benefícios devem ser acessados apenas pelos canais oficiais do instituto. O site gov.br/meuinss, o aplicativo Meu INSS e o telefone 135. É a única maneira de saber, de forma segura, se algum valor foi descontado ilegalmente.

🔎 Uma vez no aplicativo de celular ou no site do instituto, clique em "Consultar descontos de entidades associativas". O sistema vai informar quais associações fizeram descontos. É só marcar se os débitos foram ou não autorizados. Também é possível se informar pelo telefone 135.

Até agora, 1.467.933 aposentados entraram no aplicativo Meu INSS e contestaram os descontos feitos por associações — isso corresponde a mais 98% das respostas recebidas.

Neste sábado (17), o presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, disse que as pessoas devem ficar atentas pra não cair no golpe e que, mesmo na rede social do instituto, aparecem apenas informações gerais.

"Ali não há atendimento ao público. Infelizmente, sim, em um momento desse, de dor, de angústia, pessoas tentam aproveitar esse desespero dos nossos aposentados e pensionistas para poder aplicar mais um golpe. E o risco que isso tem é que esse golpe não vai poder ser mediado pelo INSS. Esse golpe a gente tenta prevenir, mas a gente precisa da colaboração de toda a população. Não abra nada, não aceite facilidades. Não há facilidade pra poder receber esse seu dinheiro, que é devido a você", disse.

•        Golpe do ressarcimento do INSS envia mensagem pedindo pagamento de taxa

Beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) vítimas de fraude no órgão estão recebendo boletos e mensagens de golpistas com pedidos de pagamento de taxas para liberação de um suposto ressarcimento.

🚨Os criminosos ainda ameaçam bloquear o suposto valor devido caso o pagamento da taxa não seja realizado imediatamente. Esses pedidos são #FAKE (leia mais abaixo).

Um beneficiário, que preferiu manter a identidade em sigilo, recebeu um desses boletos — que imita um documento oficial numa página que simula o portal do governo "gov.br". O boleto é acompanhado de uma mensagem de voz.

Em um trecho da mensagem, uma voz feminina diz: "Você está a um passo de receber sua indenização."

🚨Em outro momento, promete pagamento do ressarcimento pela chave PIX do beneficiário — algo que o INSS reiterou que não é feito.

"É necessário efetuar o pagamento do imposto sobre o valor da sua indenização [...]. Após você finalizar o pagamento sobre essa taxa de imposto, você receberá o valor completo na sua chave PIX no mesmo minuto", diz outro trecho da mensagem do golpe.

Os golpistas ainda reforçam a necessidade do pagamento rápido do valor sob a ameaça de bloqueio da indenização.

No caso específico desse beneficiário, a taxa do boleto falso é de R$ 61,90 e do suposto ressarcimento de R$ 5.960,50.

No documento falso ainda constam os termos "indenização governamental" e "vazamento de dados pessoais".

<><> Alertas do INSS

O INSS vem alertando as vítimas sobre os golpes e sobre as notícias falsas desde que a fraude veio a público.

Outra estratégia dos golpistas é enviar mensagens que oferecem um link para supostamente agilizar a devolução dos valores descontados.

🚨O conteúdo dessas mensagens também é #FAKE e visa roubar dados pessoais das vítimas.

Em entrevista ao g1 nesta quinta-feira (15), o presidente do INSS, Gilberto Waller, alertou que o órgão entra em contato com os cidadãos apenas pelo aplicativo "Meu INSS".

O próprio telefone oficial 135 "não liga pra você", reforçou na ocasião. "Você querendo, você liga para o 135."

"Não aceite nenhum intermediário nesse procedimento. Ele é muito simples. Não abra link, não assine nenhum documento, não junte documento. O INSS não cobra nada de você. Então, fique atento. Se alguém bater na sua porta, oferecendo uma facilidade, é golpe", afirmou o presidente.

O INSS reforçou, via assessoria de imprensa, que os beneficiários não devem aceitar ajuda de estranhos ou repassar seus dados pessoais.

"É preciso desconfiar de mensagens com promessas fáceis e em caso de dúvidas buscar informações apenas pelos canais do INSS ou demais páginas oficiais do governo", informou o INSS.

 

Fonte: g1

 

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