terça-feira, 20 de maio de 2025

Hugo Albuquerque: Papa Leão XIV e Trump, dois Estados Unidos

Seis dias antes da escolha do novo papa, Donald Trump, enquanto se encontrava às turras na guerra comercial contra a China, arranjou tempo para publicar uma arte, de gosto duvidoso, dele mesmo em trajes papais. Poucos dias antes disso, Steve Bannon, seu ex-estrategista, dizia ao jornalista Piers Morgan que o cardeal Prevost era um “azarão” com reais chances de ser escolhido como papa. O trumpismo estava mesmo de olho no Conclave.

Além do conhecido poder da Igreja Católica, há um elemento interno muito importante quando falamos de catolicismo e Estados Unidos: é entre a comunidade católica, maior religião em termos particulares, que as últimas eleições têm sido decididas. Os católicos são um grupo grande, dividido, mas ainda flexível para mudar seu voto em um cenário político cada vez mais polarizado nos Estados Unidos.

Em 2016, Trump venceu entre os católicos, mas em 2020 perdeu entre eles, voltando a vencer nesse grupo em 2024. Isso coincide com sua vitória, derrota na reeleição e retorno ao poder. Muitos dos estados-pêndulo, na verdade são, não por acaso, estados com uma grande quantidade de católicos – e embora se olhe muito para os evangélicos e o lado mais radicalizado do sionismo, parte da alt right dos Estados Unidos passa pela Igreja Católica.

O cardeal Raymond Leo Burke é um dos religiosos de alto escalão mais presentes na defesa do trumpismo. O então cardeal Prevost, ao contrário, se levantou e fez críticas expressas ao atual governo americano, principalmente sobr sua política de deportações de imigrantes – além de ter enfrentado o vice-presidente recém-eleito, JD Vance, um católico convertido, quando este disse que Jesus nos pediu para hierarquizar nosso amor pelo próximo.

Não poderia ser diferente: Prevost tem uma longa história missionária no Peru, onde foi bispo da diocese de Chiclayo, razão pela qual ele obteve cidadania peruana há poucos anos – além de ter ascendência haitiana e hispânica por parte de mãe. Ex-líder da ordem dos agostinianos, Prevost tem uma atuação que atravessa fronteiras e, longe de ser um grande progressista, está mais distante ainda de ser um tradicionalista católico.

·        Os Estados Unidos nunca foram utopia para os católicos

Parte do imaginário americano parte da ideia de uma utopia religiosa, mas ligada à reforma protestante na Europa. E isso certamente inspirou a política de ocupação de seu território inicial e sua expansão posterior a oeste. A democracia de pequenos proprietários, é claro, foi construída com mão de obra africana escravizada, além de ter simplesmente tomado a terra de inúmeras comunidades indígenas – mas ela não tinha lugar para os católicos.

O número de católicos no país nos seus anos iniciais não chegava a 2% da população total. Décadas mais tarde, em meados do século XIX, a população católica se expande, e não por acaso era formada por uma nova leva de imigrantes pobres, destinados a servir como o grande exército proletário do nascente capitalismo americano. Eram irlandeses, italianos e eventualmente poloneses e alemães do Sul.

Como Marx observa no final do Livro I d’ O Capital, a construção do capitalismo americano passou pelo fim das leis que antes garantiam o acesso à terra aos que chegavam da Europa: “a grande República deixou, assim, de ser a terra prometida dos trabalhadores emigrantes [da Europa]”. Uma vez sem possuir a terra e confinados nas grandes cidades da costa leste, o imigrante europeu já não tinha escolha senão vender sua força de trabalho.

Esse imigrante que já não tinha mais à disposição “a propriedade privada fundada no trabalho próprio” se tornando, desse modo, um proletário. O que Marx não se atentou é que grande parte desse novo imigrante americano era católico, se tornando brancos de segunda classe – enquanto os negros recém-libertos estavam em uma condição ainda inferior, convivendo com a segregação racial que duraria cem anos depois do fim da escravidão.

O branco americano de segunda classe, não por coincidência quase sempre católico, era a imagem padrão do operário industrial, que apesar do seu progresso material, ainda permanecia numa condição marginal até os anos 1960 – e a grande coalizão daquela época foi liderada não à toa por John Kennedy, o primeiro católico a chegar à presidência dos Estados Unidos, que caminhou junto das reivindicações de negros e judeus.

·        A segunda onda católica nos Estados Unidos: os hispânicos e não-brancos

Com a chegada em massa de imigrantes da América hispânica, um novo panorama foi aberto para o catolicismo nos Estados Unidos. Miscigenados e racializados abaixo dos “brancos de segunda classe” – de todo modo, americanos já há várias gerações –, os hispânicos se tornaram um fator central da nova classe trabalhadora americana do quarto final do século XX em diante. E, novamente, enquanto um elemento católico.

Enquanto irlandeses e italianos se mantiveram católicos durante gerações, iniciando um mimetismo social na grande República protestante só depois de muito tempo, os hispânicos apresentaram um novo padrão: católicos de início, a passagem para se aclimatar aos Estados Unidos, ou mesmo conquistar cidadania, passou muitas vezes pela conversão ao protestantismo. Esse cenário levou a uma instável renovação do catolicismo americano.

Enquanto paróquias de regiões imigrantes hispânicas tomavam, pela força dos fatos, uma dinâmica bastante distinta das paróquias de subúrbios da decadente aristocracia operária irlandesa e italiana. A Igreja nos Estados Unidos se dividiu, portanto, em dois grandes grupos bem diferentes de fiéis – com uma ambiciosa ala tradicionalista crescendo entre os católicos americanos mais antigos.

O cardeal Prevost é uma mistura desses dois grupos, já que é de descendência italiana e francesa por parte de pai, enquanto sua mãe era descendente de haitianos negros e hispânicos. Ele ainda encontrou a América Latina na sua trajetória missionária, o que de certa forma foi um reencontro com parte de suas raízes, produzindo um vínculo profundo com o Peru, onde foi crítico do fujimorismo.  

O Pew Research Center captou bem isso em um recente estudo do catolicismo nos Estados Unidos, 10 facts about U.S. Catholics, a comunidade católica americana está dividida, o que é fruto não somente da dinâmica social americana dentro da Igreja, mas também do inverso, com boas polêmicas em relação a questões como aborto, cuja legalidade é defendida por seis em cada dez católicos dos Estados Unidos.

·        O papado permanece nas Américas

Longe do carisma e do ímpeto popular de Francisco – a quem fez questão, contudo, de recordar e mencionar em seu primeiro pronunciamento –, Leão XIV adotou seu nome papal em razão de Leão XIII, pontífice que editou a encíclica Rerum Novarum, a qual inaugurou a doutrina social da Igreja, mas também foi uma resposta ao ascendente movimento socialista, que levantava a bandeira da luta pelo paraíso na terra.

Agostiniano e oriundo da gélida, ainda que progressista, Chicago, Leão XIV dificilmente reproduziria o ethos de um jesuíta argentino – e as duas ordens, dos agostinianos e a dos jesuítas, não poderiam ser mais diferentes na forma de abordar o catolicismo. Ainda assim, foi Francisco a criar o Robert Prevost como cardeal – e a nomeá-lo para chefiar o Dicastério para os Bispos, responsável por administrar as dioceses do mundo.

A moderação de Leão XIV, apesar de parecer uma atenuante, se torna um problema agravado para Trump, na medida em que o novo papa é americano e fala, portanto, para as plateias internas dos Estados Unidos. Se a ala direita da Igreja nos Estados Unidos, com suas constantes sugestões de cisma, contribuiu para puxar o papado ao centro, paradoxalmente, ela arranjou um grande problema para si com um “o papa americano” que não é dela.

Um papa mais progressista e de fora dos Estados Unidos manteria, certamente, a ala direita da Igreja na sua posição cômoda de excepcionalismo tradicionalista. E ajudaria Trump na sua narrativa ambivalente que sorri ao anticatolicismo de sempre dos Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, pisca para o tradicionalismo católico, que não quer se misturar com nada que lembre o Concílio do Vaticano II.

O pior ainda é que a biografia e a atuação do cardeal Prevost junto à migração, e como ele pode falar sobre isso, pode ser muito duro para uma das principais bandeiras de Trump: a deportação em massa de imigrantes hispânicos. Em suma, possivelmente os católicos progressistas vão sentir falta de Francisco, mas o quadro atual não é nada confortável para Trump – ou para o católico JD Vance, seu vice e pretenso herdeiro político.

¨      A paz do Papa Leão XIV. Por Leonardo Boff

Estamos ainda no contexto de eleição do novo Papa Leão XIV que em sua fala inaugural por seis vezes falou de paz, tema urgente. Ocorre, porém, que por toda parte vigora uma onda mundial de ódio, discriminações e vários lugares de guerra. Depois que Donald Trump sobrepôs a força à diplomacia e a utilização de meios violentos para estabelecer a nova ordem mundial, compreendemos a importância que o atual Papa confere à paz.

Aprofundemos um pouco o tema da paz. Começo com a recordação da troca de cartas entre Albert Einstein e Sigmund Freud sobre a guerra e a paz em 30 de julho de 1932. Einstein pergunta a Freud: “há um modo de libertar os seres humanos da fatalidade da guerra? Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica a ponto de tornar os seres humanos mais capazes de resistir à psicose do ódio e da destruição?”.

Freud respondeu: “Não existe a esperança de poder suprimir de modo direto agressividade dos seres humanos”. Depois de ponderações que davam alguma esperança à pulsão de vida e assim à paz possível, Freud termina de forma cética e resignada com a famosa frase: “esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”. Que dizer, que a paz fica no âmbito da esperança esperante devendo ser construída dia a dia.

Não obstante esta dura constatação, continuamos a buscar a paz e jamais desistiremos dela, mesmo que não seja um estado permanente, negado aos mortais. Pelo menos nutrimos sem cessar um espirito ou um modo de ser que nos faz preferir o diálogo ao confronto, a estratégia do ganha-ganha ao ganha-perde e a busca cordial de pontos em comum ao enfrentamento conflitivo. É o legado nos deixado pelo falecido Papa Francisco e renovado pelo novo Papa Leão XIV.

Ousamos, na esperança, colocar algumas precondições que tornariam, de algum modo ou por momentos, a paz alcançável. Vejo quatro precondições:

A primeira é de acolhermos, com a máxima seriedade, a polaridade sapiens/demens, amor-ódio, bondade-maldade, luz-sombra como pertencendo à estrutura da realidade universal e também inerente à condição humana: somos a unidade viva dos contrários. Isso não constitui um defeito da evolução. Mas a situação concreta da condição humana, assim como existe hoje. Isso vale para o pessoal e também para o social.

O ser humano proveio da primeira singularidade, uma inimaginável violência, o big bang, seguido do confronto violentíssimo entre matéria e anti-matéria, restando um mínimo de matéria, algo como 0,00000001% que deu origem ao atual universo conhecido. O ruído deste estrondo, uma onda magnética baixíssima, a radiação cósmica de fundo, pôde ser constatada em 1964 por Arno Penzias e Robert Wilson. Tomando como referência a galáxia mais distante e em rota de fuga, permitiu datar a idade do universo de 13,7 bilhões de anos.

A segunda é de reforçarmos de tal maneira e por todos os modos o polo positivo e luminoso desta contradição de tal modo que ele possa manter sob controle, limitar e integrar o polo negativo no positivo e daí fazer surgir, por momentos, uma paz frágil mas possível, mas sempre ameaçada de dissolução. No dia 12 de maio o Papa Leão XIV falando aos jornalistas foi claro: “A paz começa com cada um de nós, com a forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros e falamos sobre os outros”.

A terceira é refazer o contrato natural com a natureza que foi violado e resgatar matriz relacional que existe entre todos os seres e nos faz a nós seres de relação em todas as direções. Somente nos realizamos na medida em que vivemos e expandimos estas relações. A história, no entanto, tem mostrado que “é esse ser, o humano, é altamente criativo, agitado, agressivo e pouco afeito à medida. Por esta razão, modificará a face do planeta, mas está destinado a ter vida curta sobre a Terra” como diz o economista ecólogo Georgescu-Roegen.[1]

Não obstante este “fracasso histórico” devemos reconhecer que é desta estrutura relacional resgatada que pode nascer a paz como a compreendeu a Carta da Terra numa famosa definição: “a paz é a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o grande Todo do qual somos parte” (n.16 b). A paz tem sua base, portanto, em nossa própria realidade relacional, por mais frágil e quase sempre rompida. Note-se que a paz não existe em si mesma. É resultado de relações corretas, na medida em que são possíveis aos degradados filhos e filhas de Adão e de Eva.

A quarta precondição é a justiça. O que mais rompe a estrutura relacional é a injustiça. Ética é fundamentalmente justiça. Significa: reconhecer o direito e a dignidade de cada ser humano e de cada ser da criação e agir em conformidade com este reconhecimento.

Em outras palavras: justiça é aquele amor mínimo que devemos devotar ao outro e aos outros, sem o qual nos apartamos de todos os demais seres e introduzimos logo desigualdades, hierarquizações, marginalizações e submetimentos e nos transformamos em ameaça às demais espécies. Jamais haverá paz numa sociedade de injustiça. Os injustiçados reagem, se rebelam, fazem guerras no micro e no macro.

Bem advertia o revolucionário mexicano Emílio Zapata: “Se não há justiça, não se deve dar paz ao governo”. O Brasil nunca terá paz enquanto continuar uma das sociedades mais desiguais, quer dizer, mais injustas do mundo.

Esse caminho de paz foi ensaiado por poucos da humanidade e testemunhado por seus melhores líderes espirituais atuais como Gandhi, o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Martin Luther King Jr, o Papa Francisco e retomado fortemente pelo atual Papa Leão XIV, sem nos referir outros da história, especialmente Francisco de Assis.

A teologia costuma dizer que a paz é um bem escatológico, vale dizer, começa seminalmente aqui, mas só se realiza mesmo quando a história se concluir na sua culminância. Portanto, continuemos a semear essa semente da paz possível.

¨      Presidente da África do Sul visita Trump em tentativa de melhorar relações com os EUA

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, iniciou uma visita de Estado aos Estados Unidos nesta segunda-feira (19/05), no que seu governo descreve como uma tentativa de “reiniciar” a relação entre os dois países, atualmente considerada a mais fria em décadas. A visita ocorre poucos dias após os EUA terem acolhido um grupo de 59 “refugiados” sul-africanos brancos que, segundo o presidente norte-americano, Donald Trump, estão sendo perseguidos na África do Sul por sua raça e enfrentam um “genocídio”.

Eles voaram para os EUA com um plano especial de realocação e terão permissão para se estabelecer lá. O governo de Ramaphosa nega as alegações e afirma que os brancos, que possuem mais de 70% das terras, apesar de representarem apenas 7% da população, não sofrem discriminação.

Em um comunicado, o gabinete de Ramaphosa afirmou que os dois líderes discutiriam questões de interesse “bilaterais” e “globais”. A Casa Branca ainda não se pronunciou sobre o encontro. Esta é a primeira vez que Trump receberá um líder africano na Casa Branca desde que assumiu o cargo em janeiro. A África do Sul, que atualmente preside o G20, entregará a liderança aos EUA em novembro.

Ramaphosa se encontrará com Trump na Casa Branca na quarta-feira (21/05). Seu gabinete não divulgou a agenda das negociações, mas deve incluir o tratamento dado aos sul-africanos brancos – historicamente privilegiados -, cortes na ajuda humanitária e as guerras em curso na Ucrânia e em Gaza.

Os africâneres brancos são descendentes de colonizadores, principalmente holandeses, que, até 1990, controlaram o país sob um sistema de apartheid que segregava e excluía a maioria negra. Muitos dos líderes empresariais e proprietários rurais mais bem-sucedidos do país ainda são brancos. Mais da metade da população negra é classificada como pobre.

Trump e seu aliado bilionário, o sul-africano Elon Musk, criticaram severamente o suposto tratamento inadequado dado pelo governo Ramaphosa a essas pessoas brancas no país, após o presidente sancionar uma Lei de Expropriação que permite ao governo confiscar terras, em alguns casos, sem indenização. A lei, assinada em janeiro, permite a expropriação de terras de qualquer proprietário para redistribuição a grupos marginalizados, como mulheres e pessoas com deficiência.

Alguns grupos africâneres afirmam que a lei poderia permitir que suas terras fossem redistribuídas a parte da maioria negra do país, alegação destacada por Trump. Esses grupos dizem que fazendeiros brancos enfrentam um número desproporcional de agressões violentas, que equivalem a “genocídio”.

O governo sul-africano negou que haja um genocídio e afirma que os ataques fazem parte de um problema criminal mais amplo. Falando no fórum Africa CEO em Abidjan, na Costa do Marfim, em 13 de maio, Ramaphosa disse que o governo dos EUA “entendeu a situação de forma errada”, já que a África do Sul sofre, em geral, com altos índices de crimes violentos, independentemente da raça das vítimas. Agricultores brancos e negros têm sido alvos de ataques a fazendas, nos quais criminosos armados agrediram, roubaram e, às vezes, assassinaram trabalhadores rurais em locais geralmente remotos.

Enquanto isso, Musk, fundador da empresa de internet Starlink, também culpa o governo pelo fracasso do lançamento da empresa na África do Sul devido às suas leis de empoderamento negro, que exigem que grandes corporações e empresas que buscam contratos governamentais sejam, em parte, de propriedade de marginalizados.

 

Fonte: Opera Mundi/A Terra é Redonda

 

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