Roberto
Amaral: Os ”fetiches ideológicos” da imprensa mainstream
Dois
fatos relevantes da diplomacia brasileira — a viagem do presidente Lula a Moscou
e o sucesso político e econômico das negociações em Beijing — foram reduzidos a
“fetiches ideológicos” (O Estado de S. Paulo, 15/5/25).
A
imprensa joga às traças a relevância da diplomacia para um país que, a duras
penas, tenta pensar com a própria cabeça e caminhar com seus pés, no contrapelo
do complexo de vira-lata que intoxica a classe dominante.
O
périplo de Lula, principalmente seu encontro com Putin, despertou, na chamada
grande imprensa brasileira, um insuspeitado fervor democrático que não poupa de
críticas acerbas nosso presidente por haver estado presente nas festividades
russas comemorativas da vitória contra o nazifascismo — comemorações as quais,
entendem os editorialistas, devem ser patrimônio exclusivo dos EUA.
O
comprometimento ideológico ignora que Brasil e Rússia são importantes parceiros
comerciais e políticos no BRICS, cujo banco (Novo Banco de
Desenvolvimento-NBD), presidido pelo Brasil.
Ignora
que Lula não deixou de dar o recado de que somos contra invasão de territórios
estrangeiros (princípio inscrito em nossa Constituição) e levou o pedido
ucraniano (somos parceiros dos dois beligerantes) por um cessar-fogo.
Ignora
sua reiterada defesa da paz — coluna de nossa política externa — e a defesa dos
interesses sociais e do multilateralismo, talvez, neste caso, porque isso não
agrade aos EUA de hoje.
A
iniciativa de Lula pela paz na Europa — que não interessa aos que desprezam os
riscos estratégicos em nome dos lucros da indústria bélica em alta — encontrou
eco na parceria diplomática com Deng Xiaoping, que se associa no esforço por
uma trégua seguida de paz duradoura.
A isso
se dá o nome de diplomacia — arte que não foi inventada por Lula e que é
cultivada por qualquer nação que se preze, grande ou pequena — e que a
competência do Itamaraty vem sustentando com arte e perícia, surdo aos apelos
da subalternidade. Mas não pode ser pensada por quem só pensa pequeno.
Esta é
a questão central: o sistema, estruturado para reproduzir a ideologia mainstream, se
irrita com essa teimosia brasileira de traçar seu próprio espaço — o que,
afinal, pode pôr em risco interesses do grande capital, mais próximos de Wall
Street.
Todas
as tentativas anteriores de abrir espaço para uma política própria (no sentido
de simplesmente privilegiar os interesses do país) foram combatidas com furor.
Assim a política de Vargas; os tímidos ensaios de JK; a política externa de
Jânio–Afonso Arinos e de Jango–Santiago Dantas.
E, nos
nossos tempos, a política ativa e altiva de Celso Amorim, Samuel Pinheiro
Guimarães e Marco Aurélio Garcia, presidida por Lula.
A
resistência haveria de ser ainda maior hoje, quando a disputa hegemônica se
acirra e a guerra — desde sempre instalada no “mundo que não conta” — atinge em
cheio a Europa.
O Estadão não
gosta de nossa política externa desde quando ela começou a levantar a cabeça.
Não lhe agradam as críticas de Lula aos responsáveis pelo genocídio palestino.
Deveríamos, segundo ele, simplesmente lamentá-lo.
Nossa
política, no geral, é acusada de antiocidental — de um Ocidente que sucumbe sem
grandeza — e faz cara feia para as relações com a China, principal parceiro
econômico do Brasil, que, ademais, não impõe taxas adicionais aos nossos
produtos e acaba de anunciar investimentos de R$ 27 bilhões (Valor, 13/5/25),
além de acordos nas áreas de semicondutores, energia e infraestrutura, e da
abertura do mercado chinês para produtos do agro brasileiro.
É o que
se lê no próprio Estadão (1º/05/25), no editorial que desanca
o presidente Lula. Faltou dizer que, entre os entendimentos logrados, está
nosso acesso direto ao grande mercado do Pacífico, via o porto peruano de
Chancay, construído pela China.
A
direita brasileira, pela qual fala a grande imprensa, nos quer engajados numa
disputa hegemônica de blocos econômicos que não nos diz respeito. E já tem
lado. Pode ser que a União Europeia tenha alguma razão para temer e odiar a
Rússia — mas nós não temos.
E
parece que nem mesmo Trump as cultiva, embora continue interessado em vender
armas para tentar salvar um parque industrial obsoleto (sua viagem à Arábia
Saudita parece ter-se constituído em um sucesso comercial).
A
disputa pela hegemonia se circunscreve à polarização com a China, que nada tem
a ver conosco — nada obstante a tragédia geopolítica que nos instala no que
antigas e atuais autoridades dos EUA, fiéis à sempre viva Doutrina Monroe,
consideram “seu quintal”.
Vivemos
a grande vitória ideológica do neoliberalismo, assimilado pelas chamadas elites
pensantes, que são as elites dominantes. Assim se explica a alienação dessa
imprensa — e da política — em face da questão nacional. E seu real desapreço
pela democracia.
No
Brasil, a chamada “grande imprensa” — com destaque para O Globo, O
Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo — não apenas defendeu o golpe
de 1º de abril de 1964 como logo abraçou a ditadura militar, ao ponto de
esconder seus crimes, e, nestes termos, tornar-se cúmplice.
Porque
o regime deposto, segundo a visão do Departamento de Estado dos EUA (que
supervisionou o golpe), prometia a ascensão das massas em um país que
representava algo como metade do continente sul-americano, em plena Guerra Fria
e após o acidente sem volta que foi a Revolução Cubana, a tão poucos passos da
Flórida.
O
ativismo antidemocrático e antipopular, porém, vem de longe. Nos meados do
século passado, os jornalões, suas emissoras de rádio e de TV foram decisivos
na preparação da crise que levou ao golpe militar e ao suicídio de Getúlio
Vargas (1954), frustrando o projeto de governo trabalhista-democrático.
Participaram,
com a direita militar, da tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek
(1956) e jamais aceitaram as teses do desenvolvimentismo. Combateram a
construção de Brasília, os ensaios de política independente de Jânio Quadros e
foram ativos na conspiração que visava impedir a posse de João Goulart (1961).
Não
podem, sequer, falar em liberdade de imprensa. Estiveram de mãos dadas na
tentativa de calar a voz da Última Hora, o único dos grandes
jornais então aliado ao governo Vargas, e buscaram o monopólio dos meios —
depois de assegurado o monopólio do discurso.
A
grande imprensa brasileira, repito, tem sua história ligada à ditadura
instalada em 1º de abril de 1964 e muito contribuiu para a longeva trajetória
de 21 anos dos governos da caserna, assim fazendo jus aos dividendos com que
foi premiada.
O
sistema Globo — jornais, rádios, revistas e televisão — apoiou com entusiasmo o
golpe e sustentou o mandarinato militar, até quando se anunciaram os primeiros
sinais de seu esgotamento.
Ainda
no auge da festa, o general Emílio Garrastazu Médici, ditador nos anos
1969–1974 — certamente a fase mais sangrenta do mando da caserna — encheria de
açúcar os ouvidos de Roberto Marinho:
“Sinto-me
feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal [Nacional]. Enquanto
as notícias [internacionais] dão conta de greves, agitações, atentados e
conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao
desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de
trabalho.”
A
gratidão da caserna, porém, não ficaria apenas nas palavras.
O
primeiro canal da hoje poderosíssima Rede Globo iniciou suas operações em abril
de 1965, a pouco mais de um ano da instalação do regime militar.
Passados
vinte anos de apoio incondicional à ditadura — apoio consistente no
encobrimento de crimes e na louvação de supostos êxitos — a empresa da família
Marinho, tendo eliminado suas principais concorrentes, ocupava o posto de maior
rede de televisão do país, com 46 afiliadas e uma audiência que variava entre
60% e 90% dos telespectadores.
O
jornal impresso, no Rio, como um Moloch insaciável, consumia seus concorrentes
e liderava as tiragens. Hoje, o “Grupo Globo” é o maior conglomerado de mídia
da América Latina e um dos maiores e mais diversificados do mundo.
O Estadão e
a Folha de S. Paulo foram ainda mais longe, embora mais
modestos nos ganhos. O jornal dos Mesquitas não só apoiou o golpe como
participou ativamente da conspiração antidemocrática, quando Júlio de Mesquita
Filho e Adhemar de Barros fizeram dobradinha. É o que revela o depoimento do
general Cordeiro de Farias, conspirador-chefe em São Paulo:
“As
fontes principais de arrecadação eram duas: o governador Ademar de Barros e o
jornal O Estado de São Paulo, através de Júlio de Mesquita [seu diretor e chefe
do clã]. O dinheiro não me era entregue diretamente, e sim a pessoas que eu
autorizava.” (Diálogo com Cordeiro de Farias, Aspásia Camargo &
Walder de Góes, p. 553).
É este
o jornal que, hoje, critica Lula e o acusa de fazer o jogo antidemocrático ao
dialogar com os que denomina de “dirigentes autocratas”.
A Folha
de S. Paulo, todavia, conseguiu passar a perna no Estadão, numa
corrida carente de dignidade. Envolveu-se diretamente na repressão. Cedeu
veículos para ações da Operação Bandeirante (Oban) e do DOI-Codi, que
resultaram em prisões, torturas e assassinatos de democratas que lutavam contra
a ditadura. Deu ainda aos agentes da repressão acesso livre aos seus arquivos.
Essa
imprensa não gosta de nossa política externa, que bate de frente com a
subordinação ideológica. Não entende o Mercosul e muito menos os esforços de
integração regional. Desprezando a coerência, reclama sem cessar do encontro de
Lula com Putin (voltamos a ele), porque o presidente da Rússia, além de
“autocrata”, invadiu a Ucrânia. Trata-se, segundo ela, de um “criminoso de
guerra”.
Mas
essa é a mesma condição do primeiro-ministro sionista de Israel, recentemente
recebido com pompa e circunstância na Casa Branca, sem provocar urticária nas
almas democráticas de nossos editorialistas.
Em
2003, não se ouviram — nem se leram — restrições à visita de Lula a George W.
Bush, que, depois do Afeganistão, acabara de invadir o Iraque sob o
consabidamente falso argumento de que Saddam Hussein detinha armas atômicas.
Aliás,
mantido o critério de considerar réprobo o presidente de todo país que invade
outro Estado soberano, estaremos enredados em sérias dificuldades com os EUA,
pois “criminosos de guerra” poderiam ser considerados quase todos os seus
presidentes. Ou, por cautela, devem ser ignoradas — exemplos tirados de extenso
inventário — as invasões da Coreia, do Vietnã, de Granada, da República
Dominicana, do Panamá, do Afeganistão, da Somália, da Síria, da Líbia…?
A
grande imprensa brasileira é a voz da classe dominante. Essa de hoje é filha
daquela que combateu o monopólio estatal do petróleo, que, de manhã, de tarde e
de noite lutou contra a criação da Petrobras, a participação dos empregados nos
lucros das empresas, a recuperação do poder de compra do salário-mínimo, e
combateu a criação do 13º salário.
É
exemplar a manchete (em letras garrafais) de primeira página de O Globo,
de 26 de abril de 1962: “Considerado desastroso para o país um 13º
salário.”
E ainda
hoje é contra a reforma agrária. Desempenha o papel de agente ideológico da
contrarrevolução. É-lhe estranho qualquer projeto de soberania e progresso
social.
Nosso
destino de província sem projeto de ser é, para ela, irrevogável — traçado por
um passado que interfere no presente, afastando de nosso horizonte as promessas
de futuro.
***
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Analfabetismo
— Diz
o Estadão: “O Brasil tem analfabetos demais.” Já O
Globo estampa: “Analfabetismo funcional envergonha Brasil” (ambos em
07/05/2025). A classe dominante faz sua autocrítica? Ou não se percebe como
parte decisiva do problema?
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Tudo como dantes no Castelo de Abranches
—
Cumprido seu mandato de todo-poderoso regulador do sistema financeiro
(deixando-nos como legado a mais alta taxa de juros do mundo), o banqueiro
Campos Neto teve anunciada sua contratação pelo Nubank. Volta para a Faria
Lima, de onde, aliás, nunca saiu. A propósito, o Banco Santander registrou no
primeiro trimestre de 2025 um lucro líquido de R$ 3,861 bilhões — um aumento de
27,8% em relação ao mesmo período de 2024. Já o Bradesco registrou, no mesmo
período, um lucro líquido de R$ 5,86 bilhões, crescimento de 39,3% sobre o
trimestre anterior (Valor, 08/05/2025). O Itaú registrou lucro
recorde de R$ 11,12 bilhões — salto de 13,9% sobre o semestre anterior (Folha
de S.Paulo, 09/05/2025). E la nave va…
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A culpa é sempre do mordomo
—
Coerente com seus interesses de classe, o banqueiro Armindo Fraga,
ex-presidente do Banco Central (governo FHC), dá a receita para “colocar o
Brasil nos trilhos” e aumentar a riqueza nacional:
“Manter
o salário-mínimo, atualmente R$ 1.518,00, sem aumento real por seis anos.” (O
Globo, 08/05/2025)
Nesse
diapasão, por que não congelar as pensões dos aposentados, manter a cobrança
sobre os assalariados de baixa renda e reduzir as alíquotas sobre ganhos de
capital, lucros, dividendos e aplicações financeiras?
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Ainda o Nubank
—
Essa fintech, que acaba de contratar o ex-presidente do Banco
Central do Brasil, é uma das maiores plataformas de serviços financeiros
digitais do mundo. É controlada pela Nu Holdings Ltd., registrada nas Ilhas
Cayman, e patrocina nada menos que o Jornal Nacional, da Rede Globo
— que emite, de segunda a sábado, um ainda influente noticiário econômico.
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Selic na estratosfera
— Por
obra e graça do Copom, em decisão unânime (portanto, com os votos dos diretores
nomeados por Lula), a Selic foi elevada ao patamar de 14,75%, a maior em 20
anos. Ao aumento do custo do capital corresponde o aumento da dívida pública —
que, em março, saltou para R$ 7,508 trilhões — e um “equilíbrio fiscal” que
manda para as calendas gregas qualquer expectativa de desenvolvimento no médio
prazo. Essa dívida financeira, que a banca cobra do governo, é paga por nós, os
contribuintes, e custa à grande maioria o adiamento (até quando?) do resgate da
nossa obscena dívida social.
¨ Fepal: Ao acusar Lula
de “antissemita”, Conib escancara o real objetivo do PL 472/25
Em
plena semana da Nakba, a maior limpeza étnica da história, com a qual os
sionistas mataram ou expulsaram até 88% dos palestinos da parte de seu
território na qual se autoproclamaram, ilegalmente, estado, a Confederação
Israelita do Brasil (Conib) emite nota acusando o presidente
Lula de “antissemitismo”.
Seu
“crime”: declarar que “na Faixa de Gaza é um genocídio, de um
exército muito bem preparado contra mulheres e crianças a
pretexto de matar terroristas. Já houve caso de explodirem um hospital e não
ter um terrorista, só mulher e criança”.
O
presidente brasileiro repetiu o falecido Papa Francisco, a ONU, a Anistia
Internacional, a Corte Internacional de Justiça, a Liga Árabe, a União
Africana, os BRICS, incontáveis líderes mundiais.
O dado
relativo às crianças palestinas é suficiente para demonstrar a monstruosidade
de “israel” e de seus apoiadores: são 9.970 crianças exterminadas por
milhão de habitantes em Gaza, em 584 dias, contra 2.813 por milhão de
habitantes da Europa da 2ª Guerra Mundial, isto é, 3,55 vezes mais que
todo período hitleriano, que durou quase quatro vezes mais tempo.
Em sua
declaração, Lula em nenhum momento citou o judaísmo ou os judeus; ele acusou um
regime racista e genocida, que usa o judaísmo como escudo para sua impunidade,
inclusive manipulando os crimes antijudeus na Europa para o mesmo propósito.
Mas não
custa a esta FEPAL afirmar: os judeus são grupo humano sequestrado pelo
sionismo para viver ilegalmente na Palestina e, sob ordens do regime de
“israel” e ameaça de prisão, exterminar em nome do judaísmo.
A Conib
escancara o real objetivo do PL 472/25 ao manipular as declarações de Lula
para farsescamente designá-las “antissemitismo”.
De
autoria do deputado federal Eduardo Pazuello (PL-RJ), o ministro da morte, este
PL criminaliza os defensores da Palestina e, com isso, amordaça os críticos do
genocídio de “israel” com a surrada chantagem acusatória de “antissemitismo”.
Ao
presidente Lula nossa solidariedade e agradecimento.
À CONIB
a força da lei, para que abdique de defender o totalitarismo no Brasil e de
incitar a opinião pública à defesa do genocídio na Palestina, crime equivalente
ao próprio genocídio.
NÃO À
MORDAÇA SIONISTA DO PL 472/25!
Palestina
Livre a partir do Brasil, maio de 2025, 78º ano da Nakba.
Fonte:
Viomundo/Fepal

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