Marechal
Tito: o arquiteto da Iugoslávia Socialista
Há 133
anos, em 7 de maio de 1892, nascia Josip Broz Tito, um dos mais importantes
líderes do movimento socialista do século 20.
Capturado
pelo Exército russo durante a Primeira Guerra Mundial, Tito foi libertado pelos
trabalhadores sublevados e se juntou às tropas bolcheviques que concretizaram a
Revolução de Outubro.
À
frente do Partido Comunista da Iugoslávia, ele comandou a resistência dos
partisans contra as forças nazistas durante a Segunda Guerra Mundial,
conseguindo vencer e expulsar os invasores. Em seguida, depôs a monarquia e
fundou a República Socialista Federativa da Iugoslávia.
Marechal
Tito foi o principal formulador da tendência socialista conhecida como
“titoísmo”, ou “socialismo autogestionado”. Ele se destacou ainda pelos
esforços em manter a independência política em relação ao bloco soviético e foi
o fundador do Movimento dos Países Não Alinhados.
• Da juventude à Revolução de Outubro
Josip
Broz Tito nasceu em Kumrovec, na Croácia, à época parte integrante do Império
Austro-Húngaro. Ele pertencia a uma família modesta, filho do ferreiro croata
Franjo Broz e da eslovena Marija Javersek. Após cursar o ensino primário, Tito
teve de interromper os estudos para ajudar na manutenção da casa. Aos 15 anos,
começou a trabalhar como aprendiz de serralheiro.
Posteriormente,
Tito se mudou para Zagreb, onde iniciou sua atividade no movimento operário,
filiando-se ao sindicato dos metalúrgicos e ao Partido Social-Democrata da
Croácia-Eslavônia. Em 1913, ingressou no Exército Austro-Húngaro, onde galgaria
uma rápida ascensão, tornando-se o mais jovem sargento-major do país.
Após a
eclosão da Primeira Guerra Mundial, Tito foi enviado para a Frente Oriental,
onde combateu as tropas da Rússia. Ferido em combate, foi capturado pelos
russos e enviado para um campo de trabalhos forçados nos Montes Urais, onde se
tornou líder dos prisioneiros.
Durante
a Revolução Russa de 1917, trabalhadores revoltados invadiram a prisão onde
Tito estava detido e libertaram os prisioneiros. Tito uniu-se então aos
bolcheviques. Ele participou das Jornadas de Julho em Petrogrado, auxiliando os
anarquistas e comunistas que pretendiam derrubar o governo provisório da
Rússia.
Com o
triunfo da Revolução de Outubro, Tito ingressou na Guarda Vermelha de Omsk,
sendo incumbido de proteger a Ferrovia Transiberiana. Perseguido em uma
ofensiva do contrarrevolucionário Exército Branco, refugiou-se na Quirguízia.
Após
seu retorno a Omsk, Tito se casou com a militante comunista Pelagija Belousova.
Consolidada a vitória dos revolucionários, ele se filiou à seção iugoslava do
Partido Comunista Russo, em 1918. Dois anos depois, Tito retornou à sua terra
natal, agora parte do Reino da Iugoslávia, governado pela dinastia
Karadordevic.
• O Partido Comunista da Iugoslávia
Tito se
estabeleceu em uma vila nos arredores de Zagreb, onde passou a trabalhar como
mecânico. Ele retomou sua militância política, ingressando no Partido Comunista
da Iugoslávia (PCI) e se dedicando à organização do movimento operário local.
Embora
fosse um partido recente, o PCI estava em franco crescimento na Iugoslávia,
refletindo a pujança das mobilizações operárias no pós-guerra. Nas eleições de
1920, o partido conquistou 59 cadeiras na Assembleia Constituinte, formando a
terceira maior bancada.
O
avanço dos comunistas nas eleições parlamentares assustou o governo iugoslavo.
O assassinato do ministro Milorad Draskovic serviria de pretexto para o banir o
Partido Comunista e cassar os mandatos dos deputados de esquerda.
Tito
seguiu atuando clandestinamente no movimento comunista, organizando greves e a
agitação antigovernamental. Em 1928, ele seria nomeado secretário político do
comitê do PCI em Zagreb. Nesse mesmo ano, liderou os grandes protestos
convocados em repúdio ao assassinato dos deputados do Partido Camponês Croata.
Acusado
de agitação e incitação à desordem, Tito foi preso em agosto de 1928. Vários
correligionários do PCI teriam o mesmo destino nos anos seguintes. O partido
havia se tornado alvo da perseguição do rei Alexandre I. O monarca suspendeu o
parlamento iugoslavo, instalou uma ditadura e iniciou a repressão às
organizações de esquerda e aos movimentos nacionalistas não-sérvios.
Tito
ficou encarcerado por quase seis anos, até 1934. Na prisão, ele se dedicou à
leitura dos textos marxistas e se aproximou de Mosa Pijade, um respeitado
veterano e ideólogo do movimento comunista iugoslavo. Após sua libertação, Tito
foi nomeado para compor o comitê executivo do PCI e auxiliou na reestruturação
do partido.
Entre
1935 e 1936, Tito executou uma série de tarefas a pedido da União Soviética,
colaborando intensamente com a Comintern (Internacional Comunista) e com o
NKVD, o serviço secreto soviético. Entre as missões das quais que ele foi
incumbido, estava a de arregimentar voluntários para combater na Guerra Civil
Espanhola.
Em
1937, após a intervenção e os expurgos de Moscou no PCI, Tito assumiria o
comando do partido. Ele se manteria nessa função pelas quatro décadas
seguintes.
• A Segunda Guerra Mundial
Tito
teve um papel fundamental no combate ao nazifascismo durante a Segunda Guerra
Mundial. Em abril de 1941, forças da Alemanha Nazista, auxiliadas por tropas da
Itália e Hungria, invadiram a Iugoslávia e rapidamente subjugaram as defesas
nacionais.
Em
resposta, Tito formou um comitê militar dentro do Partido Comunista Iugoslavo e
passou a conclamar o povo a resistir à ocupação nazista, formando uma série de
milícias civis (ditos partisans).
Diferentemente
de outros grupos paramilitares nacionalistas, os partisans comandados por Tito
eram multiétnicos, congregando sérvios, croatas, eslovenos e bósnios. O líder
iugoslavo iniciava assim não apenas um importante movimento de resistência, mas
uma poderosa campanha ideológica em prol da unificação dos povos dos Balcãs.
O
exército popular comandado por Tito contava com quase um milhão de combatentes.
O líder comunista demonstrou grande habilidade estratégica no emprego de
táticas de guerrilha, ao mesmo tempo em que lograva manter a coesão do
movimento.
Os
partisans iugoslavos conseguiram libertar vários territórios do domínio alemão,
nomeadamente a República de Uzice, além de viabilizar a fuga de milhares de
prisioneiros judeus.
À
medida que libertavam os territórios, os partisans estabeleciam comitês
populares que atuavam como um governo civil, organizados em torno do Conselho
Antifascista de Libertação Nacional da Iugoslávia. O conselho estabeleceria as
bases para organização do país no pós-guerra, nos moldes de uma federação de
nações iugoslavas.
Apoiado
pelas nações aliadas durante a Conferência de Teerã, Tito assumiu o controle do
Comitê Nacional em 1943. No ano seguinte, os partisans iugoslavos prepararam
uma poderosa ofensiva geral que resultou na destruição da maior parte das
linhas alemãs.
A
expulsão definitiva dos nazistas ocorreria em 1945, quando os partisans
libertaram as regiões remanescentes do país, com apoio de algumas unidades do
Exército Vermelho.
• As reformas da Iugoslávia socialista
Após o
fim da guerra, o rei Pedro II foi deposto e a monarquia iugoslava foi abolida.
O país foi refundado sob o nome de República Federal Popular da Iugoslávia,
composta por seis nações (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina,
Montenegro e Macedônia) e duas províncias autônomas (Kosovo e Voivodina).
Marechal Tito assumiu o cargo de chefe de governo, no qual permaneceria até
1980.
Sob o
comando de Tito, a Iugoslávia implementou uma série de reformas estruturais de
inspiração socialista. O governo instituiu um amplo programa de reforma
agrária, conduzindo a coletivização parcial das terras, e nacionalizou os
setores estratégicos da indústria. Os sistemas de saúde e educação e o direito
à moradia foram universalizados.
Grandes
investimentos foram feitos no setor de infraestrutura. O governo socialista
construiu estradas, ferrovias e barragens e conduziu uma bem-sucedida política
de industrialização, voltado a setores como metalurgia, mineração e energia.
Regiões menos desenvolvidas, como a Macedônia e a Bósnia, receberam
investimentos significativos, o que possibilitou a superação de desigualdades
regionais históricas.
Foram
introduzidos benefícios como pensões, licença-maternidade e seguro-desemprego,
garantindo maior proteção social para os trabalhadores. O governo iugoslavo
também implementou medidas visando promover a igualdade de gênero e a
participação feminina em áreas tradicionalmente dominadas pelos homens.
Um dos
pilares do governo de Tito foi a política de “Fraternidade e Unidade”, que
buscava superar as tensões étnicas históricas entre os povos dos Balcãs. A
política conseguiu neutralizar o extremismo nacionalista e promover a
coexistência, mas não bastou para suprimir os ressentimentos latentes,
sobretudo entre sérvios e croatas.
• O “titoísmo”
Embora
buscasse a construção de um sistema socialista, a Iugoslávia desenvolveu seu
próprio modelo de gestão econômica, contrariando as diretrizes do planejamento
centralizado de Moscou. O modelo iugoslavo, posteriormente batizado de
“socialismo autogestionado” ou “titoísmo”, previa a introdução do lucro
compartilhado e a autogestão operária das empresas.
O
controle das companhias nacionalizadas foi entregue a conselhos de
trabalhadores, que decidiam sobre a produção, distribuição de lucros e
investimentos. Diferentemente de outros governos socialistas, a Iugoslávia
permita a existência limitada da iniciativa privada e a concorrência com as
empresas estatais.
Tito
também buscou preservar a independência da política externa da federação
balcânica em relação à União Soviética, o que causou sérios atritos com Josef
Stalin. Contrariado, o líder soviético expulsou Tito do Cominform — o órgão de
concertação internacional do Partido Comunista da URSS. Stalin também impôs
sanções econômicas contra a Iugoslávia e chegou a ameaçar o país com uma
intervenção militar.
O
rompimento com Stalin permitiu que Tito se reaproximasse dos países ocidentais.
Ao mesmo tempo, o modelo do socialismo autogestionado, mais tolerante em
relação ao capital privado, também era mais palatável para as potências
capitalistas.
Esse
contexto possibilitou à Iugoslávia manter melhores relações com o bloco
liderado pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria — ao ponto de permitir que
o país recebesse auxílios financeiros do Plano Marshall.
• O Movimento dos Países Não Alinhados e
os últimos anos
Embora
não rivalizasse com os Estados Unidos, Tito também recusou a adesão automática
aos interesses do Ocidente.
Ele se
aproximou de líderes de países recém-independentes, como Jawaharlal Nehru
(Índia), Gamal Abdel Nasser (Egito), Kwame Nkrumah (Gana) e Sukarno
(Indonésia), para formar o Movimento dos Não-Alinhados, oficializado em 1961 na
Conferência de Belgrado.
O
movimento defendia a soberania, a cooperação econômica e a resistência ao
neocolonialismo, reunindo nações da Ásia, África e América Latina —
estabelecendo uma alternativa para as nações que que pretendiam manter-se
neutras em meio às disputas da Guerra Fria.
Após a
morte de Stalin e a instituição da política da Détente por Brejnev, Iugoslávia
e União Soviética se reaproximaram. Tito também se reconciliou com o governo da
China, de quem havia se afastado após ser rotulado como “revisionista”.
A
Iugoslávia seguiu, entretanto, mantendo relações comerciais e diplomáticas
amistosas com nações ocidentais – embora tenha cortado relações diplomáticas
com o Chile após o golpe militar que depôs Salvador Allende.
Tito
foi reeleito para o cargo de presidente da Iugoslávia por seis mandatos
consecutivos. Na década de 1970, o mandatário introduziu uma série de reformas
políticas limitando a própria participação no governo e fomentando a
descentralização administrativa, dando maior autonomia às repúblicas e
províncias da federação.
Não
obstante, o governo iugoslavo conseguiu suprimir levantes emancipacionistas e
manter a unidade do país.
Tito
faleceu em Liubliana, na Eslovênia, em 4
de maio de 1980. A morte do líder iugoslavo e a subsequente dissolução do
governo socialista tiveram consequências drásticas para as repúblicas
balcânicas.
Ódio,
ressentimentos e disputas políticas e ideológicas entre diferentes grupos
étnicos regionais mergulharam a região em uma sangrenta disputa fratricida,
fragmentando a Iugoslávia e desencadeando o maior conflito bélico europeu após
a Segunda Guerra Mundial, marcado por genocídios e graves violações de direitos
humanos.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário