Ted J. Kaptchuk: ‘o poder do efeito
placebo’
Um comitê consultivo
da FDA, a agência sanitária dos Estados Unidos, recentemente concluiu que um
popular descongestionante oral vendido sem receita não era melhor do que
placebo. A agência agora enfrenta a questão de retirar ou não das prateleiras
os medicamentos que usam esse princípio ativo – chamado fenilefrina.
A notícia gerou choque
e revolta: afinal, há quanto tempo medicamentos ineficazes estão à venda? Mas,
em meio às críticas, também houve quem lamentasse a possibilidade de que seu
remédio favorito para resfriado fosse tirado das lojas. Na opinião dessas pessoas,
o remédio pode até não funcionar – mas, mesmo assim, faz alguma coisa por elas.
Sou um pesquisador que
estuda o efeito placebo e, em algumas situações, ele é poderoso. Dito isto, a
fenilefrina oral vendida sem receita deve ser retirada do mercado: apesar do
amor de algumas pessoas pelos remédios para resfriado com fenilefrina, não há
evidências de que o medicamento traga benefícios de placebo.
Em ensaios clínicos
revisados pelo comitê da FDA, a fenilefrina e um placebo afetaram igualmente a
percepção dos pacientes sobre a congestão nasal – mas os estudos não nos dizem
até que ponto as pessoas se sentiram melhor por causa dos efeitos do placebo ou
porque o resfriado simplesmente se resolveu por conta própria.
Essa controvérsia
destaca as ideias desconcertantes que aprisionam os placebos em geral. Em
ambientes de pesquisa, as respostas ao placebo são poderosas, mas são também um
incômodo, pois dificultam a detecção da superioridade de um medicamento em
relação ao placebo.
E, na prática clínica,
as respostas ao placebo podem ser poderosas, mas muitas vezes exigem que se
enganem os pacientes, o que as torna antiéticas. Mas será que algum dia os
placebos poderão sair das sombras e virar um componente legítimo dos cuidados
de saúde? Minha pesquisa sugere que sim.
Os efeitos placebo são
melhorias na saúde iniciadas a partir de rituais, símbolos e comportamentos
envolvidos na cura. Uma revisão de 2020 que publiquei com colegas na revista
médica The BMJ examinou dados de mais de 140 mil pacientes com diferentes
problemas de dor crônica. Descobrimos que as respostas a placebo variam de
moderadas a fortes e podem ser responsáveis por 50% a 75% dos benefícios dos
tratamentos medicamentosos para a dor. Observam-se efeitos semelhantes em
pesquisas sobre sintomas como fadiga relacionada ao câncer e ondas de calor na
menopausa.
Quinze anos atrás, no
meio da carreira como pesquisador de placebo, tive uma crise. Meu objetivo de
pesquisa até então era aproveitar o poder do placebo para aliviar o sofrimento
desnecessário. Mas meus primeiros experimentos sempre implicavam dizer aos participantes
que eles poderiam receber – ou estavam recebendo – medicamentos de verdade,
quando na verdade não estavam. A trapaça fazia parte do placebo. Foi então que
comecei a questionar o dogma convencional de que os placebos só “funcionam” se
os pacientes não sabem que são placebos. Será que, em vez disso, eu poderia ser
honesto? Meus colegas achavam que eu era maluco.
Acontece que os
placebos podem funcionar mesmo que o paciente saiba que está tomando placebo.
Em 2010, meus colegas e eu publicamos um estudo provocativo mostrando que
pacientes com síndrome do intestino irritável que foram tratados com o que
chamamos de “placebos abertos” – porque contamos a eles que estávamos lhes
dando pílulas falsas – relataram maior alívio dos sintomas em comparação com
pacientes que não receberam placebo. (Esses placebos foram administrados com
transparência e consentimento informado).
Em outro golpe para a
ideia de que é necessário enganar os pacientes para gerar os efeitos do
placebo, minha equipe publicou recentemente um estudo comparando placebos
abertos e placebos duplo-cegos no tratamento da síndrome do intestino irritável
e não encontrou nenhuma diferença significativa entre os dois. Um mito médico
foi derrubado.
Atualmente, mais de
uma dúzia de ensaios randomizados demonstram que o tratamento com placebo
aberto pode reduzir os sintomas de muitas doenças em que os sintomas são
principalmente autorrelatados, como dor lombar crônica, enxaqueca, dor nos
joelhos e muito mais. Essas descobertas sugerem que os pacientes não precisam
acreditar, ter fé ou torcer pelas pílulas placebo para provocar efeitos
placebo.
• Como explicar tudo isso?
Até o momento, a
melhor explicação para os resultados dos testes com placebo aberto sugere que,
para certas doenças em que o cérebro amplifica os sintomas, o envolvimento em
uma história de cura pode estimular o cérebro a diminuir o volume ou o “alarme
falso” do que é chamado de sensibilização central – quando o sistema nervoso
amplifica ou enfatiza demais as percepções de desconforto.
Isso envolve
principalmente processos cerebrais inconscientes que os cientistas chamam de
“cérebro bayesiano”, que descreve como o cérebro modula os sintomas para cima
ou para baixo. Tanto a intensificação quanto o alívio dos sintomas compartilham
as mesmas vias neurais.
Evidências
consideráveis também mostram que os placebos, mesmo quando os pacientes sabem
que os estão tomando, desencadeiam a liberação de neurotransmissores como
endorfinas e canabinoides e mobilizam regiões específicas do cérebro para
oferecer alívio. Basicamente, o corpo tem uma farmácia interna que alivia os
sintomas.
• O que isso significa para a medicina?
É improvável que os
médicos comecem a prescrever pílulas placebo sem evidências muito mais
rigorosas – coisa que eu também gostaria de ver, embora pense que o placebo
possa ter um papel importante em certos tratamentos, especialmente para pessoas
que não encontram alívio com outras terapias.
Pelo menos 250 bilhões
de dólares são gastos todos os anos para sintomas, como a dor crônica, que
carecem de tratamentos adequados ou seguros, e os resultados são desanimadores.
As pessoas tratadas em nossos ensaios com placebos abertos geralmente expressam
ceticismo sobre o que estão fazendo; muitas vezes é só o desespero que as leva
a tentar nossa alternativa.
Mas os placebos não
devem ser a primeira opção de tratamento: os pacientes precisam receber os
medicamentos eficazes disponíveis. Afinal, os placebos raramente – ou nunca –
alteram a patologia subjacente ou os sinais de doença medidos objetivamente.
Gosto de lembrar às pessoas que os placebos não reduzem tumores nem curam
infecções.
É necessário promover
muita discussão e autorreflexão entre os médicos e nosso sistema de saúde como
um todo para compreendermos por que o ato de tratamento em si é tão poderoso
para os pacientes, mesmo que a pílula não contenha ingredientes terapêuticos. A
medicina não consiste apenas em medicamentos e procedimentos eficazes: é um
drama humano carregado de envolvimento.
Nossa equipe publicou
um estudo na revista The BMJ demonstrando que os efeitos do placebo podem ser
significativamente aumentados no contexto de uma relação respeitosa e atenta
entre médico e paciente. Atos de bondade humana em geral estão ligados a efeitos
placebo mais fortes. Qualquer intervenção de saúde, sejam placebos ou remédios
para resfriado, deve ser ética e ter benefícios mensuráveis. Mas os cuidados de
saúde precisam se lembrar de que os rituais, os símbolos e a bondade humana são
imensamente importantes quando se trata de cura.
Fonte: The New York Times/Agencia Estado

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