Ruanda, 30 anos: As digitais colonialistas
no genocídio
Ruanda está na região
oriental da África, a última do continente a se integrar à economia do mundo
capitalista, onde antes dessa integração existia um sistema de castas que
dividia a população em tutsis, formada pelos grandes criadores de gado, e
hutus, formada pelos pequenos agricultores. O sistema político era fundamentado
em um clientelismo patronal, com o poder exercido pelos tutsis na forma de uma
aristocracia e de um rei denominado Miawmi, porém havia uma certa flexibilidade
que possibilitava que os Hutus exercessem cargos administrativos. A partir da
colonização belga, há uma intensificação da polarização desses grupos devido ao
processo de cristalização das identidades étnicas e da relação de poder,
baseada na suposta superioridade natural do grupo tutsi originada pelo mito
Hamítico. Este fora introduzido pela visão cristã e pelo cientificismo,
introduzido pelos eugenistas, baseado no fato de que alguns marcadores físicos
dos Tutsis serem mais próximos das características europeias.
Essa ideia servirá
para legitimar a relação de dominação exercida pelo colonizador branco e pela
aristocracia tutsi, bem como da exploração do trabalho, exercida na forma do
uso do trabalho forçado dos Hutus e do avanço das terras da aristocracia sobre
as terras de uso comuns, com o objetivo de expandir a agricultura voltada para
a exportação. Esse processo cristaliza a propriedade da terra na forma da
propriedade privada que rompe a antiga relação de equilíbrio. Nesse período a
configuração dos grupos em duas etnias se estabelece oficialmente, com o Miawmi
criando as carteiras de identidade étnica, que determinavam a inserção social
de cada indivíduo. Dessa forma, as populações das aldeias se tornaram força de
trabalho e os tutsis se consolidaram como uma aristocracia agrária,
proprietária de grandes extensões de terra.
A partir de 1950 há um
processo de abertura política que acirram as tensões, e que tem como
desdobramento a Revolução de 1959, quando ocorre a revolta dos hutus contra o
modelo aristocrático, que resulta na abolição da monarquia, sendo de grande
importância a mídia alternativa formada por imigrantes hutus que voltaram em
melhores condições de países vizinhos e que ingressaram nas escolas
frequentadas pelas classes dominantes, tornando-os lideranças intelectuais
responsáveis por articular a classe trabalhadora no processo de questionamento
e luta contra o monopólio tutsi.
A Primeira República,
governada por Kayibanda, manteve as fronteiras étnicas, porém estabeleceu um
sistema de cota para cada etnia na esfera social pela lógica de proporção
demográfica na população total do país, também servindo para determinar a
distribuição de terras. A economia volta ao modelo de pequenas propriedades
voltada à subsistência. Porém a dificuldade de implementar o modelo de cota e a
baixa produtividade agrícola, frutos dos baixos investimentos do governo, que
dificulta geração de excedentes para possibilitar a importação de bens
demandados pela população, levam a revolta da população contra as classes mais
elevadas, onde a instabilidade gerada e a inação do governo, favoreceu o apoio
ao golpe de Habyariama e o início da Segunda República.
O governo Habyariama
orienta a economia para a produção agrícola em pequenas propriedades, mas
dedicada à exportação para possibilitar o retorno das importações. O governo,
além de fornecer subsídios, também adota políticas que restringem a liberdade
dos proprietários como a proibição de cortar pés de café, de circular
internamente e a obrigação de vender o café a preço fixo para companhias
monopolizadoras de exportação, beneficiando a burguesia comercial apoiadora do
seu governo. Desse modo, os ganhos ocorridos durante a expansão da economia se
concentram nesse grupo, de modo que os grandes gastos do governo nesse setor da
economia durante o período de baixa do preço do café, levam ao seu
enfraquecimento e ao surgimento de grupos que visam sua substituição sendo o
mais proeminente a Frente Patriótica de Ruanda (FPR).
A FPR, à semelhança de
Habyariama, possui um modelo autoritário e violento de atuação, porém estava
ligada principalmente aos interesses de uma incipiente burguesia industrial,
bem como possuía uma visão negativa do campesinato, onde o objetivo era reorientar
a economia para um modelo industrial, por meio de um êxodo rural. Estabelece-se
um medo no campesinato relacionado ao risco de perder a propriedade das terras,
conquistadas durante a revolução de 1959, onde se faz uma correlação entre essa
vertente política e a antiga aristocracia agrária do período monárquico. À
medida em que as forças do governo iam perdendo terreno para a FPR, os meios de
comunicação reforçavam essa correlação e criavam outra estabelecendo uma
estreita ligação entre a RPF e os tutsis e destes com a riqueza, sendo culpados
pela situação socioeconômica, de modo que os tutsis seriam traidores a serviço
da RPF.
O genocídio se torna
uma espécie de resistência a um novo modelo social tido como restaurador das
antigas relações, onde as autoridades e os habitantes da cidade se articulam
para encontrar e executar as vítimas [1]. Porém, aliado a isso
há a adesão dos camponeses, atraídos pela suspeita da perda da terra e também
os benefícios oriundos da pilhagem da propriedade das vítimas, onde ocorre um
processo de alienação que transforma as perseguições em uma atividade econômica.
A antiga relação pré-colonial que estabelecia uma relação de solidariedade
entre esses grupos foi dissolvida a tal ponto que ocorre a desumanização do
outro, visto apenas como uma ferramenta utilizada para a obtenção de ganho,
algo que foi sendo desenvolvido ao longo dos processos de sociometabolismo
durante e pós-colonização.
A descolonização do
continente africano seguiu, em muitos casos, uma transição neocolonial pela
qual as potências coloniais, mesmo recuando da dominação política direta,
mantiveram o controle econômico e político de suas ex-colônias. Essa trajetória
significou a derrota de projetos pan-africanistas mais radicais e envolveu a
balcanização das nações africanas, bem como a aliança de algumas elites locais
com o imperialismo. Dessa forma, as potências conseguiram garantir seus
interesses no continente promovendo disputas locais que algumas vezes assumiram
contornos étnicos. A transição neocolonial produziu, portanto, a fratura de
Estados e, em casos extremos como o de Ruanda, o genocídio.
·
O papel da França
Assim, o papel da
França no genocídio em Ruanda foi multifacetado e controverso, tendo
implicações significativas para os direitos humanos. Antes do início do
genocídio, a França mantinha laços estreitos com o governo ruandês da época,
liderado pela etnia hutu. Esses laços incluíam fornecimento de apoio militar,
treinamento e assistência política ao governo hutu.
Durante anos, a França
foi vista como um aliado próximo do governo hutu, apoiando sua política e
contribuindo para a tensão étnica e política no país. Esse apoio pode ter dado
ao regime hutu uma sensação de impunidade e segurança para avançar em seus planos
genocidas. De acordo com a BBC, “A França estava ciente das preparações para o
genocídio e apoiou o regime hutu, tanto militar quanto logisticamente”.
Ressaltando as acusações graves de que a França não apenas estava ciente do que
estava por vir, mas também desempenhou um papel ativo em sustentar o regime.
Além disso, há
acusações de que a França ignorou ou minimizou os sinais de preparação para o
genocídio, tanto dentro de Ruanda quanto em relatórios de organizações
internacionais. Algumas fontes também alegam que a França forneceu apoio direto
a líderes hutus envolvidos nos massacres.
A atuação da França
durante o genocídio em Ruanda levanta questões importantes sobre sua
responsabilidade no cumprimento dos direitos humanos. Ao apoiar um governo
envolvido em crimes contra a humanidade, a França demonstra que sua atuação no
continente africano é neocolonial e corresponsável pela produção do genocídio,
e não comprometida com a proteção dos direitos fundamentais dos povos
africanos.
Portanto, o papel da
França no genocídio em Ruanda é uma questão complexa que requer uma análise
cuidadosa das políticas e ações do governo francês nos estágios colonial e
neocolonial. Esta questão tem implicações profundas para os direitos humanos e
para a maneira como os países devem agir em resposta a violações graves desses
direitos em outras partes do mundo. A implicação direta de um país como a
França em tais eventos também abre um precedente alarmante sobre a ética na
política externa e a importância do cumprimento rigoroso dos princípios de
direitos humanos internacionais.
·
Sobreviventes
Ruanda fez progressos
econômicos impressionantes nas últimas três décadas, transformando-se em um
exemplo de crescimento e desenvolvimento na África Subsaariana. Entretanto,
como reportado pela Folha de São Paulo, esse crescimento não apagou
as cicatrizes deixadas pelo genocídio. Muitos dos sobreviventes ainda lidam com
traumas psicológicos profundos, refletidos em toda a sociedade. Este cenário
evidencia uma complexa interação entre desenvolvimento econômico e saúde mental
coletiva, mostrando que os avanços materiais não são suficientes para superar
as feridas do passado.
A busca pela justiça
foi uma prioridade no pós-genocídio, com a criação do Tribunal Penal
Internacional para Ruanda e os tribunais Gacaca. Segundo a BBC,
embora muitos líderes e perpetradores tenham sido julgados, persistem críticas
quanto à abrangência e ao impacto dessas ações judiciais. Questões sobre a
eficácia dos tribunais Gacaca, em particular, refletem as dificuldades em
alcançar uma reconciliação plena, levantando debates sobre a melhor forma de
lidar com a memória coletiva e a responsabilização pelos crimes.
A maneira como Ruanda
tem administrado as consequências do genocídio ilustra a complexidade dos
direitos humanos em contextos de pós-conflito. A necessidade de tratar os
traumas, garantir justiça e promover uma verdadeira reconciliação são
essenciais para a saúde a longo prazo da nação. Enquanto Ruanda continua a
evoluir economicamente, a atenção aos direitos humanos e ao bem-estar
psicológico de sua população será crucial para garantir que o país não apenas
sobreviva, mas também prospere de maneira sustentável e inclusiva.
Trinta anos após o
genocídio, Ruanda ainda está no processo de cura. A resiliência dos
sobreviventes e o crescimento econômico são testemunhos da força do espírito
humano e da capacidade de recuperação. No entanto, as persistências de traumas
e a luta contínua por justiça e reconciliação lembram ao mundo que os impactos
de tais tragédias ultrapassam gerações. Assim, a memória dos eventos e das
vítimas deve continuar sendo uma peça central na narrativa nacional e um pilar
para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
·
Comentários de Paul
Kagame (atual chefe de Estado)
Paul Kagame, atual
presidente do país, teceu críticas aos países do ocidente que não agiram para
evitar o massacre e considerou falha a tentativa dos Estados Unidos em
expressar solidariedade por meio do seu secretário de Estado – Anthony Blinken
– nas redes sociais, sem reconhecer as verdadeiras vítimas que são o povo
tutsi. Outras autoridades corroboram o posicionamento do presidente pois
consideram que a ambiguidade estadunidense em não reconhecer as vítimas e,
principalmente, os algozes é uma deturpação da História.
Intrinsecamente ligado
a história do genocídio por ser o líder dos opositores ao governo de
Habyarimana, o presidente pede que o dia 7 de Abril seja um dia de comemorações
sem críticas ao povo ruandês. Por ser tutsi e um dos fundadores do FPR, compor
o governo pós-genocídio possui mais que legitimidade para representar Ruanda.
Kagame no 30º ano após o genocídio em discurso agradece aos países vizinhos que
na época os acolheu e não faz critica aos soldados que estavam ali em missão de
Paz, mas culpabiliza toda a comunidade internacional pela negligência a Ruanda
durante os 100 dias de massacre ao povo tutsi, principalmente a França que
fechou os olhos para a barbárie como foi revelado em relatórios franceses.
Contudo, Kagame gera
polêmica, pois é um personagem controverso, famoso por ser inflexível e não
aceitar discordâncias, acusado de perseguição política e até mesmo assassinatos
por vingança ao massacre de 1994. Especialistas das nações unidas possuem evidências
de que ele está apoiando uma operação militar na República Democrática do Congo
em apoio a um grupo de rebeldes do M23, que é justificado pelo suporte aos
tutsis congoleses, ação esta que está levando milhares de pessoas a pedir
refúgio em Ruanda. Em paralelo é elogiado por elevar o país subsaariano
por meio de políticas que afetaram diretamente no seu crescimento econômico,
comprovando sua política controversa.
¨ Imigração: os voos da vergonha na Europa. Por Flávio Aguiar
O Parlamento do Reino
Unido aprovou, depois de uma longa batalha, a lei que permite a deportação de
refugiados e migrantes considerados ilegais para Ruanda, na África Central, uma
ex-colônia alemã e belga.
O primeiro-ministro
Rishi Sunak, do Partido Conservador, se empenhou na aprovação da lei, retida
durante meses num impasse entre a Câmara Baixa, ou dos Comuns, e a Câmara Alta,
ou dos Lordes, e também entre governo e partidos de oposição, além de ser alvo
de uma crítica constante por parte de ONGs de defesa dos direitos
humanos.
O ministro do Interior
(Home Secretary), James Cleverly, saudou a aprovação da lei como “um marco no
esforço para deter o afluxo de barcos” que tentam trazer refugiados do
continente para o Reino Unido através do Canal da Mancha, e também como uma
“afirmação da soberania britânica” contra “bloqueios impostos por tribunais
europeus”.
Já Denise Delic, da
seção do Reino Unido do Comitê Internacional de Ajuda aos Refugiados,
considerou a medida “ineficaz, desnecessariamente cruel e demasiadamente cara”.
Argumentou que seria melhor aprimorar a rede de proteção aos refugiados e seus
familiares, estabelecendo, por exemplo, rotas legais e seguras.
Já há uma lista de 350
possíveis deportados e o primeiro voo para Ruanda está previsto para o mês de
julho. Cada candidato a ser deportado receberá uma carta comunicando-lhe esta
condição, e deve se seguir uma série de possibilidades de apelos até a decisão
definitiva por parte de um tribunal.
Há estimativas de que
com todos os procedimentos legais e a compensação devida a Ruanda cada
deportado custará cerca de 180 mil libras esterlinas aos cofres britânicos, o
equivalente a quase 1 milhão e 200 mil reais.
Os críticos da medida
lembram que nos anos 90 do século passado Ruanda foi palco de uma guerra civil
cruenta e do genocídio contra a etnia Tutsi, com uma estimativa de até 800 mil
mortos e de até 500 mil mulheres estupradas. O atual governo de Ruanda pede,
como condição para aceitar os refugiados, que o Reino Unido deporte para lá
cinco acusados de participarem deste genocídio.
A medida do governo
londrino vem na esteira de uma série de iniciativas discutíveis e polêmicas na
Europa sobre a questão dos refugiados e imigrantes. No ano passado a Comissão Europeia e o governo italiano
tentaram negociar com a Tunísia um esforço por parte de seu governo para conter
as levas de refugiados que passam por seu território em busca dos barcos no
Mediterrâneo que os levem para o continente Europeu, em troca de uma ajuda
financeira para equilibrar as contas do país. A iniciativa não prosperou, mas
foi suficiente para levantar uma série de críticas por parte dos defensores dos
direitos humanos.
No começo de abril
deste ano o Parlamento Europeu aprovou por estreita margem um chamado Novo
Pacto sobre Migração e Asilo envolvendo os países da União Europeia.
A resolução compreende
um conjunto de cinco leis visando agilizar e uniformizar os procedimentos para
concessão ou rejeição de asilo, além de prever uma sistemática e relocação dos
aceitos entre os países da União, com objetivo de aliviar a carga concentrada
nos países do sul do continente. Abre também a iniciativa de negociar medidas
de contenção com os países africanos que estão na rota dos migrantes, como
novamente a Tunísia, e mais a Mauritânia, o Marrocos e o Egito. Mais uma vez,
ONGs e desta vez a Anistia Internacional criticam a medida, dizendo que ela vai
mais restringir do que proteger direitos de pessoas em situação de
vulnerabilidade.
A controvérsia vai
continuar. Em 2023 a Europa recebeu 1,14 milhão de aplicações pedindo asilo.
Além disto detectou 380 mil migrantes em condições consideradas como
“irregulares”. Destes, 105 mil receberam ordem de deportação, e apenas 28 mil
foram de fato deportados.
No Reino Unido há quem
preveja que aquela nova lei de deportação aprovada vai implicar uma verdadeira
fuga de candidatos a sua aplicação para a clandestinidade, evitando o
recebimento das intimações. No fim de semana o primeiro-ministro Rishi Sunak
afirmou, comemorando, que muitos imigrantes estão saindo do Reino Unido para a Irlanda, com medo da deportação.
Por outro lado, esta
situação ao mesmo tempo massiva e delicada ressalta a importância de medidas
estruturais que promovam a paz, evitando guerras internacionais ou civis e
combatendo a pobreza e a violência contra pessoas e grupos vulneráveis, como
crianças, mulheres e idosos.
Fonte: Observatório de
Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil

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