segunda-feira, 6 de maio de 2024

Aula digital da gestão Tarcísio usa vídeo do MBL, e governo finge que abre apuração

O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) distribuiu para as escolas estaduais de São Paulo uma aula digital com um vídeo do MBL (Movimento Brasil Livre) para ser trabalhado com os alunos do 2º ano do ensino médio.

O MBL, movimento político liberal e conservador, teve como uma das principais bandeiras a defesa do projeto Escola sem Partido, que combatia uma suposta doutrinação de esquerda nas escolas brasileiras.

Após a reportagem questionar o uso do vídeo, a Secretaria da Educação diz que retirou o vídeo e abriu uma apuração preliminar sobre o caso.

A aula de língua portuguesa propõe que os professores abordem o "protagonismo estudantil". Para tratar do assunto, o governo Tarcísio incluiu um vídeo do MBL Estudantil, que fala sobre a função dos grêmios nas escolas.

No vídeo, postado pelo MBL EM 2019, uma jovem explica como foi o processo de construção dos grêmios no país, como é o processo de eleição e, no fim, exalta que o MBL Estudantil "já está em mais de 3.000 escolas".

A jovem ainda incentiva os estudantes a participarem do grêmio das escolas onde estudam e pede para que deixem um "comentário sobre como está sendo a inserção do MBL Estudantil no ambiente escolar".

O vídeo termina com uma propaganda do MBL pedindo doações para o "movimento que está construindo um país melhor". A cada valor de contribuição, o doador recebe um tipo de brinde. O kit para doações de R$ 750 é chamado de "exterminador de pelegos".

As aulas digitais foram criadas no ano passado pela gestão Tarcísio. Elas começaram a ser produzidas quando o secretário de Educação, o empresário Renato Feder, decidiu abrir mão dos livros didáticos impressos do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).

Na ocasião, ele alegou que iria produzir um material próprio porque os livros didáticos "perderam conteúdo, qualidade e estão superficiais". Depois de uma série de críticas sobre a inviabilidade de se usar apenas o material digital e de diversos erros serem encontrados nas aulas produzidas pela secretaria, o governo Tarcísio anunciou um recuo parcial.

Ele decidiu que São Paulo voltaria a aderir ao programa nacional para continuar recebendo os livros impressos, mas manteve a produção e envio de slides para serem usados nas aulas

Para o terceiro bimestre deste ano, o secretário apostou em uma nova mudança na produção das aulas digitais. Elas passarão a ser feitas por uma ferramenta de inteligência artificial, em vez de serem produzidas por professores.

Agora, os docentes passam a ser apenas editores das aulas produzidas pelo ChatGPT.

Fernando Cássio, professor da USP e pesquisador da Repu (Rede Escola Pública e Universidade), lembra que professores e especialistas desde o início da produção das aulas alertaram para a falta de controle de qualidade e a possível orientação ideológico que poderia conter em um material produzido pelo governo, sem revisão externa.

"É um governo preparando materiais didático de baixa qualidade, o que já ficou evidente. Mas agora estão utilizando recursos ideologicamente orientados por movimentos, grupos políticos de extrema direita para dar aula a milhões de alunos da rede estadual", diz Cássio.

Procurada, a Secretaria da Educação enviou nota em que afirma que a aula foi retirada da plataforma e que seu conteúdo foi "completamente editado a fim de se adequar aos protocolos pedagógicos da rede".

A pasta afirma ainda que abriu uma apuração preliminar para responsabilizar os envolvidos.

<><><> Oposição promete barrar queda de repasses para USP, Unicamp e Unesp

Após críticas e ameaças da oposição, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), anunciou que desistiu de alterar o orçamento das três universidades públicas do estado, USP, Unicamp e Unesp.

Na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para 2025 enviada à Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) na quinta-feira (2), o governador incluiu as faculdades de medicina de Marília (Famema) e de São José do Rio Preto (Famerp) e a Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo) no bolo de repasses a USP, Unicamp e Unesp.

Essas três últimas têm por direito, desde 1989, receitas de 9,57% da arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Caso a proposta fosse aprovada na Alesp e sancionada pelo próprio Tarcísio, as universidades teriam de dividir essa fatia de 9,57% do ICMS.

Com essa nova divisão, os reitores das três instituições acionaram deputados de oposição ao governo e emitiram nota de repúdio à proposta do governador.

Diante da pressão, Tarcísio recuou nesta sexta (3). Em nota enviada à coluna Mônica Bergamo, o governo se comprometeu a enviar uma retificação à Alesp, garantindo a destinação dos 9,57% do ICMS a USP, Unicamp e Unesp.

"A Lei de Diretrizes Orçamentárias é revista anualmente pelo Governo de São Paulo e todas as medidas são tomadas de forma a garantir e ampliar os investimentos nas universidades públicas do estado de São Paulo", afirmou a gestão Tarcísio.

"Importante informar ainda que, diante do atual cenário econômico e com as projeções que indicam aumento da expectativa de arrecadação para 2025, o orçamento da USP, Unicamp e Unesp deve ter um aumento de mais de R$ 1 bilhão com relação à LOA de 2024 -uma variação positiva de 8%, superando R$ 16 bilhões no próximo ano", acrescentou a nota.

Antes de Tarcísio recuar, os reitores Carlos Gilberto Carlotti Junior (USP), Pasqual Barretti (Unesp) e Antonio José de Almeida Meirelles (Unicamp) emitiram um comunicado conjunto em que manifestaram preocupação com a eventual mudança.

"A inclusão de outras três instituições no percentual de 9,57% alocado à USP, à Unesp e à Unicamp altera uma prática vigente desde 1989", afirmaram. "Nesses 35 anos, a autonomia universitária tem sido decisiva para que as três universidades sirvam, com crescente excelência, a sociedade paulista, com importantes reconhecimentos recentes, como o fato de termos uma universidade entre as cem melhores do mundo", seguiram.

Os dirigentes ainda destacaram que as três instituições integram rankings nacionais e internacionais por suas contribuições em todas as áreas de conhecimento, que, por sua vez, são capazes de melhorar a vida de toda a sociedade.

Em 2019, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) organizou um evento para celebrar o aniversário de 30 anos do decreto, considerado um instrumento de autonomia às instituições.

Diante da proposta, os reitores também recorreram aos deputados de oposição ao governo na Alesp. O deputado Simão Pedro (PT) disse que a proposta soava como um ataque às instituições. "Eu acabei de ser comunicado por alguns contatos de universidades, o orçamento já é apertado. Vamos criar uma frente para resistir esse ataque", disse o petista.

No momento do recuo, o deputado Carlos Giannazi (PSOL) chegou a dizer que iria protocolar emendas para aumentar o repasse às universidades para 12% ou para 15% com a inclusão das faculdades. "Esse percentual existe desde final dos anos 1980, está defasado", disse Giannazi.

Essa não é a primeira vez que Tarcísio desiste de alguma proposta na área da educação. O governador já voltou atrás, em agosto de 2023, da decisão de abandonar o livro físico.

No dia 16 daquele mês, a Justiça de São Paulo concedeu liminar obrigando o governo a voltar a fazer parte do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), do Ministério da Educação.

A gestão Tarcísio então anunciou que desistiu de sair do programa federal e que rescindiu o contrato para a compra de 200 milhões de livros digitais.

 

•        Convidado a deixar a Rota por matar “muito”, Secretário de Segurança Pública de SP coleciona 16 investigações por homicídio

 

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, já foi investigado por 16 homicídios – todos ocorridos durante operações policiais das quais participou, de acordo com dados levantados pela reportagem do jornalista João Batista Jr., publicada pela revista Piauí nesta sexta-feira (3).

O levantamento tem como plano de fundo a certidão criminal de Derrite apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante sua candidatura a deputado federal, anos antes de integrar a equipe do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Esses documentos apontam que o atual secretário de Segurança Pública de SP esteve presente em intervenções policiais que resultaram em um total de dez homicídios, em um período de apenas três anos e nove meses.

Contudo, há um sétimo inquérito, não mencionado na certidão entregue ao TSE, que revelou mais seis mortes em uma operação que teve o seu comando, pela qual três policiais militares foram denunciados e presos por tortura e assassinato. Com isso, o total de homicídios sobe para 16.

A reportagem ressalta que o número não significa que Derrite tenha matado 16 pessoas, uma vez que esses inquéritos raramente apontam o autor do disparo fatal. Contudo, há dúvida sobre o real papel do então policial militar nessas ações, já que ele “foi investigado em todos esses sete inquéritos, mas nunca foi denunciado”.

Além disso, segundo a Piauí, chama atenção o padrão das mortes dos casos investigados, nos quais todas as vítimas eram homens com ficha criminal por roubo ou uso de drogas e foram executadas a partir de disparos em órgãos vitais, como coração ou pulmão. Em todos os episódios essas pessoas teriam atirado contra os policiais sem sucesso. Além disso, raramente há testemunhas civis dos fatos.

•        Caso Barrucuda e saída da Rota

Foi justamente a operação que resultou em seis mortos em 2014, conhecida como Caso Barrucuda, que motivou a saída de Derrite da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo. Isso porque “seus superiores entenderam que sua letalidade era alta demais”.

Em entrevista a um canal do YouTube em 2021, o próprio Derrite contou os detalhes de sua saída da Rota, onde comandou pelotão de 2013 a 2015. “Porque eu matei muito ladrão. A real é essa, simples. Pá! Tive muita ocorrência de troca de tiro, eu ia para cima, entendeu? Quem vai para cima, está sujeito. Troquei tiro várias vezes, e uma atrás da outra. Acabou incomodando, não sei quem, mas veio a ordem de cima para baixo, questão política: ‘Tira o Derrite da Rota.’ E fui convidado a me retirar”, afirmou.

•        Eu Sou a Morte

A reportagem também traz à tona depoimentos de Wallace Oliveira Faria, um ex-soldado temporário da PM, que confessou que fazia parte de um grupo de extermínio de Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo, batizado como “Eu Sou a Morte”, que seria integrado por policiais dos 42º e 14º  batalhões da PM da região.

Antes de integrar a Rota, Derrite era membro do 14º Batalhão. Segundo Faria, condenado a 102 anos de prisão por cinco mortes e seis tentativas de homicídio, as operações do “Eu Sou a Morte” eram do conhecimento de Derrite. “Tudo o que a gente ia fazer avisava o Derrite. Ele tinha comando total”, afirmou.

Em cartas enviadas à Piauí, Faria deu detalhes sobre a suposta atuação de Derrite no grupo. “Ele e outros policiais, nos dias de serviço, levantavam o endereço de ladrões, traficantes, pontos de tráfico etc., e selecionavam as vítimas, passavam para eu e outros PMs que estavam de folga fazer as execuções. Depois, ele mesmo ia até o local das execuções colher alguma informação e, como sempre, alterar o local do crime para dificultar a perícia. Ele que era o líder, ordenava onde as viaturas tinham que ficar e, quando ia acontecer alguma execução, ele tirava as viaturas dos bairros para facilitar o serviço. Tudo era combinado antes.” E completou: “Os homicídios aconteciam só na noite em que o tenente Derrite era o comandante. […] Ele dava as ordens e organizava as execuções.”

Os depoimentos de Faria, no entanto, não contam com provas materiais e por isso não foram adiante. Em resposta à Piauí, a assessoria do secretário Derrite disse que “lamenta que as acusações infundadas, colocadas a partir da denúncia de um criminoso que cumpre pena neste momento, tenham espaço”.

•        Operações mortíferas

Vale lembrar que com Derrite à frente da SSP-SP, o número de pessoas mortas por policiais militares em serviço no estado saltou 138% nos primeiros três meses de 2024, em comparação ao mesmo período do ano passado.

De janeiro a março, foram registrados 179 casos, contra 75  nos primeiros três meses de 2023. É o maior número de mortes em ações da PM no estado desde 2020, quando foram 218 vítimas.

Além disso, desde o ano passado, após a morte do soldado da Rota, Patrick Bastos Reis, foram desencadeadas as operações mais mortíferas da PM paulista desde o massacre de 111 presos no presídio do Carandiru.

 

Fonte: FolhaPress/Jornal GGN

 

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