terça-feira, 7 de maio de 2024

ONU: ‘Fome bate recorde e atinge mais de 280 milhões no mundo’

Mais de uma em cada cinco pessoas em 59 países enfrentaram insegurança alimentar aguda em 2023. O número de pessoas ameaçadas pela fome chegou a 281 milhões no ano passado, um recorde.

Os dados foram divulgados em um relatório global sobre crises alimentares pela FAO, braço da ONU para alimentação, pelo UNICEF, fundo da ONU para infância, e o Programa Mundial de Alimentos (PMA), em parceria com organizações internacionais, como a União Europeia, e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

O documento faz um raio-x detalhado da fome no mundo e destaca que a situação se agravou significativamente desde 2016, quando cerca de uma em cada 10 pessoas em 48 países passavam fome. O relatório revela que a insegurança alimentar subiu pelo quinto ano consecutivo e piorou sobre 2022, quando 257 milhões de pessoas passaram fome.

“Quando falamos de insegurança alimentar aguda, estamos falando de uma fome tão grave que representa uma ameaça imediata aos meios de subsistência e à vida das pessoas. Essa é a fome que ameaça se transformar em inanição e causar mortes generalizadas”, disse Dominique Burgeon, diretor da FAO em Genebra.

Em temos percentuais, a parcela da população global que enfrenta elevados níveis de insegurança alimentar aguda aumentou acentuadamente e passou de 14% em 2018 para mais de 20% em todos os anos desde 2020, atingindo o nível máximo em 2022, com 23%.

Em 2023, o percentual caiu para 21,5%, o que poderia indicar uma ligeira melhora, mas os autores explicam que como a área de abrangência do estudo ficou maior, houve um aumento absoluto de pessoas afetadas pela insegurança alimentar aguda.

·        Gaza e Sudão

Os autores do relatório citam Gaza e Sudão como algumas das regiões de maior preocupação. Segundo Gian Carlo Cirri, diretor do PMA em Genebra, “as pessoas estão claramente morrendo fome” nas duas regiões.

Cirri afirma que depois de quase sete meses de ofensiva israelense em Gaza, as pessoas não conseguem satisfazer as necessidades alimentares mais básicas e já esgotaram todas as estratégias de sobrevivência, como comer ração animal, mendigar e vender pertences para comprar comida.

Ele acrescenta que a única forma de enfrentar a fome é garantir entregas diárias de alimentos “em um espaço de tempo muito curto” e diz que para isso é fundamental a entrada de ajuda humanitária de maneira consistente.

Em linha com relatórios anteriores, o diretor do PMA também afirma que 30% por cento das crianças com menos de dois anos estão agora gravemente desnutridas em Gaza e 70% da população no norte do enclave enfrenta uma situação de fome catastrófica. “Há evidências razoáveis ​​de que todos os três limiares da fome insegurança alimentar, desnutrição, mortalidade serão ultrapassados ​​nas próximas seis semanas, afirma Cirri.

Sobre o Sudão, o relatório da ONU revela que 42% da população ou 20,3 milhões de pessoas lutaram para encontrar o suficiente para comer no ano passado.

É o maior número de pessoas no mundo que enfrentam níveis “emergenciais” de insegurança alimentar aguda. Dentro da escala do IPC (acrônimo em inglês para Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar), esses milhões de sudaneses estão no nível IPC4, apenas um abaixo do IPC5, a faixa mais elevada de perigo.

Em 2019, o Sudão passou pela maior onda de protesto da história, que levou à deposição de Omar al-Bashir, o líder autoritário que governava o país há 30 anos.

Generais assumiram o poder e iniciou-se uma série de disputas que culminaram um conflito entre forças rivais em abril de 2023.

·        Conflitos armados, crises econômicas e mudanças climáticas

As crises em Gaza e no Sudão provam que os conflitos armados são a principal causa da fome hoje, segundo os autores.

E acrescentam que são o principal fator para fome também em países como a República Democrática do Congo, o Iêmen, a Síria e em países que acolhem refugiados sírios, como Egito, Jordânia, Iraque e Turquia.

Mas as crises econômicas e as mudanças climáticas também são fatores que provocam a fome.

O relatório cita o impacto das crises econômicas em países asiáticos, por exemplo, e afirma que a inflação global foi persistentemente elevada no Paquistão, em Mianmar e Bangladesh ao longo de 2023, além de ressaltar que no Afeganistão, os choques causados pela estagnação dos salários e pelo desemprego generalizado foram os principais fatores de insegurança alimentar aguda.

O relatório lembra ainda que eventos climáticos extremos foram um fator mais proeminente para a fome em 2023 do que em 2022 por causa do fenômeno do El Niño, que provocou chuvas irregulares e reduzidas, temperaturas acima do normal e redução do rendimento das colheitas em países da América Latina, como Guatemala, Honduras e no Corredor Seco de El Salvador e Nicarágua.

<><><> “Fome total” afeta Gaza em meio a negociações travadas

O norte de Gaza está enfrentando uma “fome total” que se espalha rapidamente por toda a faixa após quase sete meses de guerra, alertou o Programa Alimentar Mundial (WFP), uma filial de auxílio alimentar da Organização das Nações Unidas.

Enquanto isso, negociadores se reúnem no Cairo na esperança de chegar a um acordo para um cessar-fogo no conflito que assola o território.

As observações colocaram em evidência a escala da catástrofe humanitária que se desenrola.

“Sempre que há conflitos como este, a fome acontece”, disse a diretora executiva do WFP, Cindy McCain, ao “Meet the Press” da NBC, num clipe divulgado antes da entrevista ir ao ar no domingo (5).

“O que posso explicar é que há fome – fome total – no norte, e está se movendo em direção ao sul.” Embora as observações de McCain não constituam uma declaração oficial, ela disse que se basearam no que o pessoal do WFP viu durante atuação na região.

“É um horror”, disse ela sobre a situação em Gaza. “É tão difícil de olhar e é tão difícil de ouvir.”

McCain disse que o WFP pede um cessar-fogo e “acesso irrestrito” a Gaza, uma vez que a entrega de ajuda ao território tem sido extremamente difícil.

Israel tem enfrentado uma pressão crescente nas últimas semanas para permitir a entrada de ajuda em Gaza depois dos seus ataques militares terem matado sete funcionários da World Central Kitchen, uma instituição de caridade com sede nos Estados Unidos.

As agências de direitos humanos há muito alertam para uma crise humanitária crescente em Gaza sob o ataque militar de Israel, lançado em resposta aos ataques de 7 de outubro liderados pelo Hamas.

Mais de 34.600 palestinos foram mortos por ataques israelenses em Gaza até 1º de maio, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

Ao longo da guerra, mais de 1,9 milhões de palestinos foram deslocados à força, segundo a ONU, sendo que muitos deles foram abrigados em tendas de acampamento apertadas, em locais que não conseguem oferecer acesso suficiente a saneamento ou alimentos.

Toda a população de mais de 2,2 milhões de pessoas está agora em risco de fome e pelo menos 30 crianças já morreram de desnutrição e desidratação em Gaza, segundo o Ministério da Saúde.

As preocupações também aumentam com uma potencial operação militar israelense em Rafah, no sul de Gaza, o que levou a novos apelos a um cessar-fogo.

Enquanto as negociações continuavam no Cairo, o líder do gabinete político do Hamas, Ismail Haniyeh, emitiu um comunicado no domingo dizendo que “o movimento Hamas ainda está interessado em chegar a um acordo abrangente e interligado que ponha fim à agressão, garanta a retirada [dos militares israelenses de Gaza] e consiga um acordo sério de troca de prisioneiros.”

Haniyeh disse que a delegação defendeu “posições positivas e flexíveis” destinadas a impedir “a agressão contra o nosso povo, que é uma posição fundamental e lógica que estabelece as bases para um futuro mais estável”.

Uma delegação do Hamas chegou ao Egito no sábado (4) para discutir um possível cessar-fogo e acordo de reféns.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, emitiu uma declaração em vídeo acusando o Hamas de fazer exigências inaceitáveis ​​nas negociações.

Ele disse que Israel “demonstrou vontade de percorrer um longo caminho”, mas “o Hamas permaneceu entrincheirado em suas posições extremas, entre elas a exigência de retirar todas as nossas forças da Faixa, acabar com a guerra e deixar o Hamas intacto”.

“O Estado de Israel não pode aceitar isto”, continuou Netanyahu. “Israel não concordará com as exigências do Hamas, o que significa rendição, e continuará a lutar até que todos os seus objetivos sejam alcançados.”

·        Potencial operação em Rafah

Autoridades dos EUA avaliam atualmente que um número limitado de tendas está sendo construído no sul de Gaza com a finalidade de abrigar temporariamente civis que seriam retirados de Rafah no caso de uma incursão das Forças de Defesa de Israel, informou um alto funcionário da administração na sexta-feira (3).

No entanto, o responsável sublinhou que as tendas que estão sendo construídas não chegam nem perto da quantidade que seria necessária para abrigar as mais de 1 milhão de pessoas que precisariam ser atendidas.

“[Não há] nenhum sinal de que eles estejam iminentemente capazes, dispostos ou prontos para entrar em Rafah”, disse o oficial sobre as forças israelenses. “Certamente não estão preparados para cuidar, alimentar e sustentar um milhão e meio de pessoas.”

O governo israelense informou organizações de ajuda humanitária nos últimos dias sobre seus planos para evacuar civis de Rafah, segundo uma fonte familiarizada com o assunto.

O governo avisou que uma operação em Rafah estava a caminho, mas não forneceu qualquer tipo de cronograma e não sugeriu que fosse iminente.

Espera-se que um acordo final entre Israel e o Hamas leve mais alguns dias para ser negociado na capital egípcia.

<><><> ONU: População sobrevive a grama e cascas de amendoim no Sudão

O tempo está se esgotando para evitar a fome em Darfur, no oeste do Sudão, alertou uma agência da ONU, enquanto a escalada da violência devasta a nação africana.

As pessoas foram forçadas a consumir “grama e cascas de amendoim”, disse, nesta sexta-feira (3), o diretor regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA) para o leste da África.

“Se a assistência não chegar em breve, corremos o risco de testemunhar uma fome generalizada e mortes em Darfur e em outras áreas afetadas pelos conflitos no Sudão”, acrescentou Michael Dunford.

Sudão está mergulhado em uma guerra civil desde abril de 2023, quando combates irromperam entre o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (FAR), uma milícia paramilitar. Rapidamente, transformou-se em um conflito brutal caracterizado por relatos de violência sexual e violência genocida, além de baixas civis, desencadeando um êxodo de refugiados.

Na quinta-feira (2), dois motoristas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) foram mortos por homens armados em Darfur do Sul, em um ataque que deixou outros três funcionários feridos, de acordo com a organização humanitária.

A equipe do CICV foi atacada a caminho para avaliar a crise entre as comunidades afetadas pela violência armada na região, disse a organização.

O mais recente aumento da violência ocorre enquanto as FARs cercam a capital do Norte de Darfur, El Fasher.

Na cidade e em suas localidades vizinhas, houve “aumento de assassinatos arbitrários”, “queima sistemática de aldeias inteiras” e “escalada de bombardeios aéreos”, disse o vice-coordenador humanitário da ONU para o Sudão, Toby Hayward.

Hayward acrescentou que El Fasher é a única cidade em Darfur que não foi capturada pelas FARs e hospeda milhares de pessoas que foram deslocadas pela guerra. Pelo menos 500 mil das pessoas abrigadas na cidade foram deslocadas pela violência em outros partes do Sudão, de acordo com o fundo da ONU para a infância, o UNICEF.

Mais de 36 mil pessoas foram forçadas a fugir de suas casas em El Fasher nas últimas semanas, informou o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Pelo menos 43 pessoas foram mortas na cidade e nos arredores desde a escalada dos combates há pouco mais de duas semanas, disse na quinta-feira a diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell.

“Ataques recentes a mais de uma dúzia de aldeias no oeste de El Fasher resultaram em relatos horríveis de violência, incluindo violência sexual, crianças feridas e mortas, casas incendiadas e destruição de suprimentos e infraestrutura civis críticos”, detalhou Russell.

Enquanto isso, as entregas de assistência alimentar em Darfur “têm sido intermitentes devido ao combate e a inúmeros obstáculos burocráticos” e pelo menos 1,7 milhão de pessoas na região estão passando por níveis emergenciais de fome, de acordo com o Programa Alimentar Mundial.

“A mais recente escalada de violência em torno de El Fasher interrompeu os comboios de ajuda que vêm da travessia de fronteira de Tine, no Chade – um corredor humanitário recentemente aberto que passa pela capital do Norte de Darfur,” acrescentou o PMA. Restrições impostas pelas autoridades na cidade costeira de Porto Sudão têm dificultado as entregas de ajuda, disse o PMA, impedindo o transporte de socorro via Adré, uma cidade vizinha ao Chade.

Mais de 8,7 milhões de pessoas, incluindo 4,6 milhões de crianças, foram deslocadas pela guerra no Sudão e 24,8 milhões precisam de assistência, segundo o OCHA.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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