segunda-feira, 6 de maio de 2024

Após privatizações de estatais de saneamento, tarifas de água aumentaram mais de 100% em comparação à Sabesp

Após serem privatizadas, outras companhias de água e saneamento tiveram um aumento de mais de 100% em relação às tarifas da Sabesp, segundo levantamento realizado pelo Sindicato dos trabalhadores em água, esgoto e meio ambiente do estado de São Paulo (Sintaema).

Por decisão da Câmara Municipal de São Paulo e do prefeito Ricardo Nunes (MDB), nesta quinta-feira (02), a Sabesp será, definitivamente, privatizada.

A privatização das empresas responsáveis pelo abastecimento de água aumentou a conta da população fluminense. E os que mais sofreram após a privatização foram os mais vulneráveis. Isso porque o aumento mais drástico ocorreu nas tarifas sociais.

O levantamento do sindicato mostra que a tarifa social no Rio de Janeiro passou a custar R$ 45,32 após a a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) ser privatizada em 2021. Em comparação à tarifa social da Sabesp, que no final de 2023 chegava a R$ 22,38, é 102,4% mais cara.

Campo Grande teve um salto ainda maior nas contas da população vulnerável, com uma tarifa atingindo R$ 60,95 em 2023, ou seja, mais do 170% dos preços de São Paulo.

“O Sindicato dos trabalhadores em água, esgoto e meio ambiente do estado de São Paulo (Sintaema), tem denunciado que o aumento da tarifa é uma das consequências imediatas da privatização do saneamento”, disse a entidade, à época.

Os números levantados pelo sindicato foram trazidos ao Tribunal de Contas do Município de São Paulo para avaliação. Na ocasião, o próprio conselheiro João Antonio revelou a diferença das tarifas das companhias privatizadas para a de São Paulo, então controlada pelo governo do Estado de São Paulo.

“É a mesma coisa que vender a casa para pagar o aluguel”, comparou o conselheiro do TC de São Paulo.

<><><> Privatização da Sabesp pela Câmara e Ricardo Nunes: entenda o que significa

Imediatamente depois de a Câmara Municipal de São Paulo aprovar a privatização da Sabesp, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) sancionou o projeto de lei, nesta quinta-feira (02). A partir de agora, a estatal de água do Estado de São Paulo estará disponível para controle de acionistas.

A votação da Câmara era considerada a definitiva para a privatização da Sabesp, após a Assembleia Legislativa do Estado (Alesp) já ter aprovado, em dezembro passado, o projeto que a tornava privada. O motivo para a necessidade da votação pelos vereadores é que, apesar de a companhia ser controlada pelo Estado, a cidade de São Paulo tem entre 45% e 50% da sua receita total.

A primeira votação, que ocorreu na semana passada, já garantia o resultado desta quinta, e o prefeito da capital já estava a postos para sancionar a medida imediatamente após a liberação da Câmara. Na Casa, 37 vereadores votaram a favor da privatização da Sabesp, contra 17 que se posicionaram contra.

Agora lei, sancionada por Ricardo Nunes (MDB), o texto permite que a cidade de São Paulo mantenha o contrato de fornecimento com a empresa, mesmo após a venda. “A Sabesp continua em São Paulo, não muda de nome e não deixa de atuar no setor de saneamento básico”, disse o governo de São Paulo, em nota divulgada.

Por outro lado, o governo estadual poderá deixar de ser o controlador da Sabesp, e a lei permite a venda, por meio de ações e licitação, a empresas privadas. Com isso, grupos que tiverem as maiores parcelas das ações terão o controle da gestão da companhia de água e saneamento de São Paulo.

Ainda, apesar de o texto prever uma suposta redução – de 0,5% a 1% – no valor das tarifas de água para a população paulista, agora dependerá da pressão dos acionistas majoritários o resultado desse empenho aos grupos de situação vulnerável, que deveriam ser mais contemplados com as reduções nas contas de água.

De acordo com o movimento sindical, como a decisão caberá aos acionistas, a Sabesp provavelmente aumentará os preços nas contas de água e esgoto, principalmente da chamada tarifa social – que são os grupos vulneráveis, além de uma possível piora no atendimento da população, uma vez que ficará a mercê de entidades privadas, sem necessidade de responder às demandas e regulamentações estatais.

“Estivemos firmes durante todo o dia na Câmara, em luta, denunciando o nefasto projeto de Ricardo Nunes, que facilita a privatização da Sabesp e entrega nosso patrimônio à iniciativa privada. Também foi um dia de alerta sobre os impactos terríveis que esse projeto irá impor à população, sobretudo a mais vulnerável”, narrou o presidente do Sintaema, José Faggian.

As organizações sindicais afirmam que “continuarão a luta pela reversão desse processo de privatização da Sabesp, inclusive judicialmente”.

“Quando o lucro é prioridade, o que é essencial, o bem-estar das pessoas, o acesso democrático aos serviços, nunca será prioridade. O governo de SP deu essa demonstração ao privatizar a SABESP, atendendo a ganância neoliberal que despreza a classe trabalhadora”, escreveu a CUT, em nota, quando a Alesp aprovou a privatização em dezembro.

“A direção do Sintaema segue na luta e lembra que o Sindicato tem mais de 50 ações na Justiça contra o projeto de Tarcísio de Freitas e que seguirá firme e mobilizada pela defesa da Sabesp pública”, também frisou o Sintaema.

 

•        Sobre a privatização da Sabesp. Por Pedro Maciel Neto

 

O governador Tarcísio de Freitas retomou o tema da privatização da SABESP, na contramão do que ocorre no mundo, e parece que vai conseguir transferir um ativo de valor enorme para a iniciativa privada.

Não vou qualificar o projeto de privatização dos serviços de saneamento porque prometi ao meu amigo Ítalo Barioni me conter, mas posso fazer alguns registros:

•        três entre cada dez pessoas não têm acesso a água potável segura no mundo;

•        quase a metade das pessoas que consome água potável de fontes desprotegidas vivem na África Subsaariana;

•        seis entre cada dez pessoas não têm acesso a serviços de saneamento gerenciados de forma segura, e

•        uma em cada nove pratica a defecação ao ar livre. Esses números mundiais revelam as desigualdades significativas que há entre e dentro de regiões, países, comunidades e até mesmo bairros.

Estudos mundiais da Water, Sanitation and Hygiene (WASH), sobre o custo–benefício demonstraram que os serviços de água, saneamento e fornecem bons retornos sociais e econômicos quando comparados a seus custos, com proporções médias mundiais de benefício–custo de 5,5 para serviços de saneamento melhorados e de 2,0 para água potável melhorada.

É provável que os benefícios de melhores serviços de WASH para grupos vulneráveis alterariam o equilíbrio de qualquer análise de custo–benefício que considere mudanças na autopercepção do status social e da dignidade desses grupos.

Salvo raras exceções, essa realidade não é objeto de atenção ou preocupação das companhias interessadas na privatização, pois, o foco delas é o lucro, por isso aqueles de defendem a transferência desses serviços para a iniciativa privada são agentes de seus interesses e não do interesse público.

E mais, o acesso à água e ao saneamento é reconhecido internacionalmente como um direito humano, os direitos humanos não podem ser privatizados, ainda mais quando, em todo o mundo, mais de 2 bilhões de pessoas não dispõem dos serviços mais básicos e no Brasil existem cerca de 49 milhões de pessoas em residências sem descarte adequado de esgoto (24% da população); 18 milhões sem coleta de lixo (9%); 6 milhões sem abastecimento de água adequado (3%); 1,2 milhão sem banheiro ou sequer um sanitário (0,6%).

Mas para o governador e “melhor ministro da infraestrutura de Sucupira”, a SABESP deve ser privatizada por dois motivos: 1º – porque valeriam 140 bilhões de reais e, 2º – porque a universalização da água e esgoto não será atingida sem a venda das companhias o setor privado (uma bobagem, pois é a CEF e o BNDES que majoritariamente financiam investimentos em saneamento).

E sabe o que ele fará com parte significativa do dinheiro arrecadado com a privatização? Pelo que eu entendi será criado um fundo para subsidiar a tarifa de água, garantindo o lucro da empresa que comprar a SABESP.

Bem, vamos em frente.

São mentirosas as premissas que fundamentariam a orientação de venda das companhias ou concessão dos serviços.

Pesquisando, com honestidade, o que ocorreu no mundo com os serviços de água e afastamento de esgoto sem o controle do Estado observamos que a foi um retumbante fracasso.

De acordo com o Transnational Institute – TNI, organismo internacional de pesquisa e financiamento que há mais de 40 anos atua ao lado de movimentos sociais, sindicais e acadêmicos, há em todo o mundo 835 casos de retomada do controle sobre serviços públicos por governos locais, dos quais 267 na gestão da água.

No período de 2000 a 2017 – com número de “reestatização” cinco vezes maior a partir de 2009 – a remunicipalização dos serviços de saneamento ocorreu sobretudo na França, onde há 106 casos.

Segundo a TNI a remunicipalização ou reestatização vem sendo conduzida por políticos de todas as tendências político-partidárias, o que revela que, na privatização, ao contrário de suas promessas, as parcerias público-privadas são benéficas apenas para advogados e auditores e não para os cidadãos, que acabam pagando mais caro pelo mais essencial recurso natural à vida.

Para se ter uma ideia, quando Paris remunicipalizou a água, em 2010, os custos foram reduzidos de imediato em 40 milhões de euros, montante obtido anualmente pelas empresas do operador privado.

O TNI destaca ainda que a visão municipalista, cada vez mais forte em todo o mundo, proporciona janela de oportunidades para cidadãos e os trabalhadores recuperarem o controle democrático corroído pela lógica das privatizações ao longo das últimas décadas na Europa. Não precisamos passar por isso.

Curiosamente no 8º Fórum Mundial da Água, observou-se empresários defendendo soluções que não lograram sucesso em outros países onde o modelo já opera há mais tempo.

O último Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, intitulado “Não deixar ninguém para trás”, explora os sinais de exclusão e investiga formas de superar as desigualdades. O documento foi lançado em Genebra, na Suíça, durante a 40ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos.

Em 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que reconheceu “o direito à água potável segura e limpa e ao saneamento como um direito humano” e, em 2015, o direito humano ao saneamento foi reconhecido de forma explícita como um direito distinto.

Esses direitos obrigam os Estados a agirem rumo à obtenção do acesso universal à água e ao saneamento para todos, sem discriminação, ao mesmo tempo em que devem dar prioridade às pessoas mais necessitadas.

Água potável e saneamento seguros são reconhecidos como direitos humanos básicos, uma vez que eles são indispensáveis para sustentar meios de subsistência saudáveis e fundamentais para manter a dignidade de todos os seres humanos. A legislação internacional em matéria de direitos humanos compele os Estados a trabalharem para alcançar o acesso universal à água e ao saneamento para todos, sem discriminação, priorizando ao mesmo tempo as pessoas mais necessitadas.

A realização dos direitos humanos à água e ao saneamento exige que os serviços sejam disponíveis, física e financeiramente acessíveis, seguros e culturalmente aceitáveis. “Não deixar ninguém para trás” está no coração do compromisso da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que visa a permitir que todas as pessoas em todos os países se beneficiem do desenvolvimento socioeconômico e atinjam a plena realização dos direitos humanos. Deve-se tomar cuidado para diferenciar de forma clara os “direitos de uso da água” dos direitos humanos à água e ao saneamento.

Os direitos de uso da água, que normalmente são regulados por leis nacionais, são atribuídos a um indivíduo ou organização por meio de direitos de propriedade ou direitos fundiários, ou por meio de um acordo negociado entre o Estado e um ou mais proprietários de terras. Muitas vezes, tais direitos são temporários e podem ser retirados em certas circunstâncias. Diferentemente desses, os direitos humanos de acesso à água e ao saneamento não são temporários, não estão sujeitos à aprovação estatal, nem podem ser retirados.

Os governos não podem, portanto, transformar um direito humano em mercadoria, sob nenhum argumento; quando afirma que vai privatizar a SABESP Tarcísio, no mínimo, equivoca-se e atende interesses privados, esquecendo que é um agente dos interesses públicos.

Essas são as reflexões.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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