segunda-feira, 6 de maio de 2024

Amar seu emprego é bom, mas pode fazer você julgar e prejudicar os colegas, diz estudo

Embora anos de pesquisas anteriores mostrem que amar o próprio trabalho traga apenas benefícios para os funcionários e seus empregadores, um artigo publicado no Academy of Management Journal revelou uma desvantagem significativa disso.

Os inúmeros benefícios do que os pesquisadores chamam de “motivação intrínseca” – “um desejo de trabalhar pela satisfação obtida com o trabalho em si”, de acordo com Mijeong Kwon, da Universidade do Colorado em Denver – incluem:

•        Ser mais comprometido e persistente no trabalho;

•        Demonstrar maior criatividade e desempenho melhor;

•        Ser mais propenso a ir muito além das exigências básicas do cargo exercido.

Além disso, “os gestores avaliam de forma mais positiva os subordinados com mais motivação intrínseca, e os empreendedores que expressam características alinhadas com a motivação intrínseca ao apresentar suas propostas de negócios têm mais chances de conseguir apoio financeiro. As empresas cada vez mais listam atributos relacionados à motivação intrínseca em seus anúncios de emprego, e os candidatos que enfatizam a motivação intrínseca também aumentam suas chances de conseguir um emprego, mesmo depois de levar em conta suas qualificações objetivas”, observaram Mijeong e os coautores Julia Lee Cunningham, da Universidade de Michigan, e Jon M. Jachimowicz, da Universidade Harvard, em “Discerning Saints: Moralization of Intrinsic Motivation and Selective Prosociality at Work” (Discernindo Santos: A Moralização da Motivação Intrínseca e a Pró-sociabilidade Seletiva no Trabalho, em tradução livre).

Mas depois de realizar estudos com milhares de funcionários, Mijeong, Julia e Jachimowicz descobriram um problema.

“Se você ama o que faz, talvez apoie mais aqueles que pensam da mesma forma e julgue de modo mais severo aqueles que trabalham por motivos diferentes”, escreveram.

“A moralização da motivação intrínseca” significa que as pessoas que amam o próprio trabalho são mais propensas a ver sua mentalidade como moralmente correta, descobriram os autores.

O problema é que as pessoas que amam o próprio trabalho também são mais propensas a ver as pessoas com “motivações extrínsecas”, que trabalham por outros motivos, como pelo dinheiro ou pelo status social, como moralmente erradas.

“Os funcionários sem motivação intrínseca – independentemente da razão disso – podem ser julgados como menos éticos e, portanto, talvez recebam menos ajuda de seus colegas, o que pode complicar sua evolução na empresa”, escreveram.

As descobertas de Mijeong, Julia e Jachimowicz são baseadas em pesquisas com:

•        784 funcionários, que faziam parte de 185 equipes, de uma grande instituição financeira latino-americana;

•        1.733 adultos em duas sondagens on-line e um experimento adicional.

“Um exemplo clássico de moralização é o vegetarianismo, embora as pessoas que não moralizem o fato de se tornarem vegetarianas talvez escolham fazer isso por motivos não necessariamente morais (gostam de comida vegetariana ou acreditam que ela seja mais saudável do que a não vegetariana), aqueles que moralizam o vegetarianismo consideram a forma vegetariana de se alimentar como moralmente correta (e não ser vegetariano como moralmente errado) e fazem julgamentos de valor sobre as preferências alimentares dos demais”, escreveram.

“A motivação intrínseca pode fazer com que você se torne mais crítico em relação às razões pelas quais seus subordinados e colegas estão trabalhando. Se você acha que eles são menos motivados intrinsecamente, a probabilidade de se oferecer para ajudá-los pode ser menor. Se você acha que eles são mais motivados intrinsecamente, as chances de ajudá-los podem ser maiores. Isso poderia possivelmente prejudicar seus subordinados ou colegas que trabalham por motivos diferentes de “amar o que se faz”, disse Mijeong.

“Os funcionários que são menos motivados intrinsecamente pelo próprio trabalho podem sentir uma pressão extra para parecerem apaixonados [pelo que fazem] aos olhos dos outros, ou seja, podem recorrer ao trabalho emocional. Tentar passar a imagem de que se ama verdadeiramente o próprio trabalho pode ser uma fonte de estresse. Nosso artigo sugere que a moralização da motivação intrínseca nas organizações contemporâneas tem o potencial de transformar o local de trabalho numa arena onde precisamos exibir nosso amor pelo trabalho”, disse ela.

“Se você ama o que faz, (no geral) isso não parece trabalho.” - Elon Musk no Twitter.

“Seguir suas paixões torna você mais interessante, e pessoas interessantes são encantadoras.” - Guy Kawasaki no Twitter.

As descobertas sugerem que os gestores e líderes de negócios talvez devam ser mais cuidadosos ao endossar a importância de se amar o próprio emprego e levar em conta como as declarações de missão e os anúncios de emprego com pedidos explícitos de “amar o trabalho” podem ecoar nos funcionários, disse Julia.

“Nossas descobertas revelam dinâmicas possivelmente desafiadoras no lugar de trabalho”, afirmou Jachimowicz.

“Se um ambiente de trabalho é dominado por aqueles que ostensivamente amam o que fazem, as pessoas com motivação intrínseca têm mais chances de chegar ao topo. Mas isso cria desafios para as pessoas motivadas a trabalhar por outras razões legítimas e importantes. Se sou motivado extrinsecamente e estou cercado por outras pessoas que são motivadas intrinsecamente e moralizam a própria motivação, talvez eu seja ostracizado e impedido de progredir. Deveria ser totalmente aceitável trabalhar por razões diversas, mas uma cultura que valoriza ‘faça o que você ama!’ pode levar os funcionários com motivação extrínseca a gerenciar suas impressões pessoais, esconder o que sentem de verdade e parecer que são motivados intrinsecamente – o que pode ser exaustivo.”

 

•        Lidar com as individualidades é o segredo para acolher pessoas neurodiversas no trabalho

 

Falta de foco e organização e dificuldades em tomar decisões são alguns dos problemas que pessoas neurodivergentes enfrentam no mercado de trabalho. Apesar delas estarem cada vez mais presentes nas empresas, as companhias ainda precisam lidar de uma forma adequada.

Segundo informações da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), mais de 2 milhões de pessoas são diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) no país. De acordo com o IBGE, 85% dos brasileiros que possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) estão desempregados.

Embora existam leis de inclusão que buscam garantir a presença de pessoas neurodiversas no mercado, como a Lei nº 12.764/12 e a Lei nº 13.146/15, muitas vezes, as empresas não estão preparadas para lidar com as especificidades de cada indivíduo, que, em certos momentos, precisam de determinadas condições para exercer sua função de maneira confortável.

Apesar das companhias poderem prestar apoio ao funcionário, se ele assim desejar, o diagnóstico do funcionário precisa ser tratado com discrição, respeitando o desejo do trabalhador neurodivergente.

“O indivíduo deve ter o direito de ter suas questões emocionais ou diagnósticas reservadas. Caso seja do seu interesse, seu médico psiquiatra poderá dialogar com médico do trabalho para melhorar condições ambientais e/ou da rotina  que ampliem o conforto psicológico do trabalhador e consequentemente suas entregas”, disse Camila Magalhães, psiquiatra e cofundadora da Caliandra Saúde Mental.

•        Como as empresas podem ajudar?

Uma das empresas que possuem uma atenção especial para pessoas neurodiversas é a Sofist, especialista em engenharia de qualidade. Para Geovana Pavaneli, Gerente de Pessoas e Cultura da companhia, o mais importante é respeitar as especificidades de cada profissional.

“Acredito que o ideal para lidar com pessoas neurodiversas é tratá-las de acordo com suas especificidades. Cada uma possui alguma característica única que pode ajudar a mantê-la mais confortável dentro do ambiente de trabalho. É importante escutá-las e estar sempre atento para oferecer ajuda, quando necessário”, disse.

A analista de Recursos Humanos da empresa Heloísa Monteiro conta que tinha dificuldades de se concentrar e de realizar tarefas simples como escolher um produto no supermercado por conta do seu TDAH.

“Desde a minha liderança até o CEO, foi identificado e valorizado um potencial em meu trabalho que nem mesmo eu reconhecia. O resultado dessa parceria é aumentar as nossas conquistas, uma vez que um entende o modo de trabalhar do outro”, apontou. 

Já o assistente de testes funcionais Felipe Sales foi diagnosticado com TEA conta que precisou superar até mesmo os próprios preconceitos para conseguir se inserir em uma nova profissão.

 “O primeiro passo para a empregabilidade é o tratamento, sem sombra de dúvidas. Eu tenho certeza que, se eu não estivesse em tratamento, não teria passado na entrevista. Não conseguia ler duas, três páginas de um livro sem esquecer. Hoje, eu vejo os benefícios da decisão de ter tomado essa atitude de procurar ajuda”, aponta.

Por conta do seu quadro, Sales tinha muita dificuldade em aglomerações no transporte público, e conta que o trabalho remoto o ajudou nesse sentido.

“Eu me descobri na questão do home office, está sendo algo muito bom pra mim. Achei que teria um pouquinho mais de dificuldade, mas não, tem sido bem fácil a rotina de acordar, ter um horário para entrar, outro para almoçar e depois sair”, encerrou.

 

Fonte: Agencia Estado/IstoÉ

 

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