A matemática da desordem informacional
Nos últimos anos, boa
parte da sociedade e suas lideranças políticas e intelectuais responsáveis
tiveram a atenção despertada para um aparente novo problema que uns denominam
“desinformação”, outros “desordem informacional”, a maioria chama apenas de “fake
news“. Trata-se da difusão, através das assim chamadas “redes sociais”, de
mentiras, teorias conspiratórias, discursos de ódio, manifestações
obscurantistas ou anti-científicas de toda ordem, que além de promoverem
crescentes comportamentos anti-sociais, o pior deles violências contra
indivíduos por quaisquer banais motivos, atingindo principalmente mulheres e
grupos mais vulneráveis, estão afetando profundamente o presente e o futuro das
sociedades democráticas.
A causa real de todo
esse problema é o esfrangalhamento do tecido social e, com ele, de certo
ordenamento político e cultural hegemônico até alguns anos atrás nas sociedades
capitalistas liberal-democráticas, por força do reordenamento neoliberal,
promovido e patrocinado, paradoxalmente, por essas mesmas democracias,
reordenamento que levou à fragmentação do mundo do trabalho e à emergência de
ressentimentos sociais catalisados, através das “redes”, por financistas
bilionários e agitadores oportunistas filiados a ideologias fascistas,
obscurantistas, retrógradas. Entendido isso, as “redes sociais” não são
“causa” mas apenas meio, bastante eficiente, utilizado por essa neodireita para
arregimentar e mobilizar aqueles ressentimentos e ódios a favor de suas causas
nazi-fascistas e fundamentalistas.
São meios eficientes
porque estão técnica, política e economicamente organizadas de tal modo que
servem como luva às causas reacionárias. Controladas pelo capital
financeiro e podendo operar globalmente, a partir dos Estados Unidos, à margem
de qualquer regulação efetiva, essas “redes”, propriedades de corporações
como Alphabet, Meta, Telegram, lucram bilhões de dólares anualmente, graças, em
grande parte. ao impulsionamento dos discursos de ódio ou obscurantistas.
Enquanto não se adotarem medidas – que só podem ser de cunho regulatório – que
afetem diretamente os modelos de negócios dessas corporações, outras medidas
não passarão de dipirona no tratamento de sepse: sem dúvida, baixar a febre é
necessário, mas insuficiente.
Este artigo, porém,
não tem por objetivo debater o problema mais geral, mas um ponto específico.
Recentemente, surgiu uma nova expressão na confusão semântica que caracteriza o
debate: “integridade da informação”. Este conceito parece ter nascido no início
deste século, no campo da Engenharia, conforme podemos depreender de um artigo
publicado no sítio da IEEE – Institute of Electric and Electronic
Engineers, em 2003. A definição do conceito é bem de Engenharia:
A integridade da
informação é a fiabilidade ou credibilidade da informação. Mais
especificamente, é a exatidão, a consistência e a fiabilidade do conteúdo, do
processo e do sistema de informação. Trata-se de uma questão que preocupa todas
as organizações empresariais, governamentais e sociais. As falhas de informação
têm sido vistas até agora como um problema universal e generalizado, apesar de
custarem à economia muitos bilhões de dólares.
O espaço do conceito
considera várias perspectivas, entre as quais: prevenção, monitorização e
correção de erros de informação; auditoria e controle de segurança; concepção,
desenvolvimento e operação de sistemas de informação para uma maior
integridade; e requisitos de integridade da informação de indústrias
específicas, tais como instituições financeiras, cuidados de saúde, defesa e
transportes.
Apesar de estarmos
aqui tratando de problemas que são basicamente de natureza social e cultural,
também política, esse conceito foi recentemente assumido como chave para o
enfrentamento da pandemia mundial de desinformação e mentiras. Como observam
Kamya Yadav e Samantha Lai, “desinformação é apenas um sintoma de um problema
muito maior” – e esse problema se encontra nos contextos sociais onde a
informação é produzida e circula.
Trazendo para esses
contextos, aquele conceito não só contém os muitos vícios de conceitos oriundos
do assim chamado “Norte Global” (outrora entendido como “países
imperialistas”…) de onde se espraiam como novas verdades paradigmáticas para o
“Sul Global” (outrora entendido como “países colonizados ou dependentes”…),
como carece de maior rigor, ou qualquer rigor. O fato é que, súbito, a partir
de 2023, o “mundo” passou a falar de “integridade da informação” como se fosse
algo assim tão natural quanto o sol ou a chuva…
Em setembro de 2023,
Canadá e Holanda lançaram uma Declaração sobre a integridade da
informação nas redes (“online”), imediatamente assinada por cerca de
20 outros países, inclusive o Brasil. Segundo esse documento
O termo “integridade
da informação” é definido na presente Declaração como um
ecossistema de informação que produz informação exata, fidedigna e fiável, o
que significa que as pessoas podem confiar na exatidão da informação a que
acedem enquanto estão expostas a uma variedade de idéias. Ao utilizar o termo
“integridade da informação”, queremos oferecer uma visão positiva de um
ecossistema de informação mais alargado que respeite os direitos humanos e
apóie sociedades abertas, seguras, protegidas, prósperas e democráticas.
Parece óbvio que
continuamos com o problema de definir o que seja “informação exata, fidedigna e
fiável”. Citemos um exemplo no limite: “Deus existe?” Para um ateu, não passa
de crença; para uma pessoa religiosa, é uma verdade, é informação fidedigna e fiável.
O debate sobre
“integridade da informação” ganhou maior dimensão no encontro pré G-20,
realizado em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1º de maio. Promovido e
organizado pela Secretaria de Políticas Digitais da Secretaria-Ministério de
Comunicação Social do governo brasileiro, com apoio também do Comitê Gestor da
Internet no Brasil (CGI.br), o “Diálogo G20 – Integridade da Informação”,
soma-se a outros eventos que estão acontecendo neste momento, preparatórios da
grande reunião do G-20 no Rio de Janeiro, em novembro próximo. Foi sem dúvida
um encontro de grandes dimensões e muito provável impacto no debate futuro,
dada a qualidade e quantidade de acadêmicos e militantes presentes. O Brasil
pôs os dois pés nessa discussão.
Dito tudo isto, este
artigo está focado apenas no discutível conceito de “integridade da
informação”. Visto não estar claro o que pode significar e, muito
provavelmente, tem diferentes significados para diferentes atores ou
formuladores, este artigo pretende apenas contribuir para a busca de maior
rigor conceitual, se possível.
Já que o conceito
nasceu na Engenharia, vamos retomá-lo a partir de lá: examinemos melhor a
Teoria da Informação aplicável ao caso, através de exemplos bem didáticos.
Para iniciar uma
partida de futebol, o juiz propõe um jogo de “cara e coroa” aos capitães das
duas equipes. A moeda só permite essas duas escolhas. Não importa se, ao cair
no chão, a moeda mostre a face “cara” ou a face “coroa”: de duas escolhas
possíveis, obteve-se um resultado. Quando, entre duas escolhas possíveis
obtém-se um resultado (não importa qual), diz a Teoria da Informação que se
obteve 1 bit de informação.
Agora, consideremos um
semáforo. Em princípio, seu objetivo é dar a motoristas e pedestres duas
opções: “pare” ou “ande”. Essas duas mensagens poderiam ser expressas por
apenas uma lâmpada: acesa (“pare”) ou apagada (“ande”). Um bit de informação.
Porém, as chances de erros num sistema assim, considerando sua finalidade, são
elevadas. Se a lâmpada estiver apagada por causa de pane no sistema elétrico?
Para evitar erros, são introduzidas três lâmpadas com cores diferentes e uma
regra básica: apenas uma lâmpada pode acender de cada vez (L –
ligar), enquanto outras duas ficam apagadas (D – desligar). Não
importa, neste caso, qual lâmpada está acesa e quais estão apagadas: cada uma
delas fornece 1 bit de informação, logo, a cada instante, ou a cada nova
mensagem, o semáforo fornece 3 bits de informação: L/D/D; D/L/D; D/D/L.
Esse sistema, porém,
contém mais estados possíveis do que aqueles que realmente transmite: três
lâmpadas totalmente apagadas (D/D/D), todas as três lâmpadas acesas (L/L/L),
três diferentes combinações de duas lâmpadas acesas e uma apagada (L/L/D;
D/L/L; L/D/L). Quaisquer dessas demais combinações transmitirá uma única
mensagem: erro. Ou seja, para garantir a segurança da mensagem a ser
transmitida, ou se quiserem a “integridade da informação”, foi necessário
introduzir um excesso de mensagens possíveis sobre as realmente necessárias ou,
de fato, válidas (“pare”/”ande”). A este excesso dá-se o nome de redundância.
O senso comum costuma
confundir redundância com duplicação. Esta é apenas uma das formas possíveis de
redundância. Também, por isto, confunde-se redundância com algo um tanto
inútil; desperdício. Nada mais equivocado. A redundância é absolutamente necessária
para garantir a “integridade”, ou “fiabilidade”, ou “exatidão”, de qualquer
código pelo qual se pretenda transmitir alguma informação. A língua pela qual
nos comunicamos, por exemplo, é plena de redundâncias, delimitadas pelas regras
de sintaxe, semântica e estilísticas. Informação sem redundância é como
semáforo quebrado…
No caso do semáforo,
um motorista, ao ver a luz vermelha com duas apagadas, recebeu 3 bits de
informação. Passados alguns minutos, o estado do sistema muda, acende amarelo,
duas outras lâmpadas apagadas: outros 3 bits. Em alguns segundos, o amarelo
passa a verde, sempre com outras duas lâmpadas apagadas: mais 3 bits. O
motorista, ao todo, no tempo que permaneceu recebendo e obedecendo às mensagens
do semáforo, processou 9 bits de informação. Como, porém, vimos, o semáforo
poderia transmitir mais informação do que as realmente válidas, ao todo ele
transmitiria 24 bits (3 x 8 estados possíveis). Esta seria a informação total
contida no sistema.
Sabendo-se que a taxa
de redundância R de um código qualquer é dada pela fórmula R =
(Hm – Hr)/Hm para Hm =
informação máxima; Hr = informação real, no caso do semáforo,
substituindo-se Hm por 24 e Hr por 9, obteremos
uma taxa de redundância de 62,5%. Graças a essa taxa de redundância, o código
do semáforo pode garantir a “integridade”, “fiabilidade”, “exatidão” de
mensagens que, no todo, só devem conter 9 bits de informação.
Admitamos, porém, que
por alguma súbita falha eletro-mecânica, o semáforo disparasse loucamente todas
as suas lâmpadas, apagando-as todas ao mesmo tempo, num instante seguinte
acendendo todas, ou combinando duas acesas e alguma apagada, também as três combinações
válidas. É fácil imaginar a confusão que se estabeleceria no trânsito, neste
cruzamento com um semáforo assim maluco…
Matematicamente,
aplicada a fórmula acima, teríamos R = (24 – 24)/24 = 0/24 = 0. Se a
redundância é nula, ou se a informação pudesse ser total, estaríamos num estado
caótico, conforme a prática confirma.
Não há informação
válidaque não contenha alguma taxa maior ou menor de redundância. A redundância
resulta de coerções impostas aos códigos, graças às quais podemos identificar e
distinguir as mensagens válidas, ou “fiáveis”, das inválidas, ou inexatas. Se
estamos falando de sistemas tecnológicos, essas coerções, conforme alguma
programação bem definida, são de natureza física, ou química: sinal elétrico
que deve, ou não, ser acionado; molécula orgânica que deve, ou não, interagir
com outras. Mas se estamos falando de sistemas sociais, coerções também são
necessárias em qualquer sociedade humana, até nas originárias.
Conhecidos tabus, como
o do incesto ou o da proibição, entre os povos semitas, da carne de porco como
alimento, são exemplos de coerções sociais que se mostraram necessárias ao
processo de humanização do ser humano, seja à humanidade como um todo, seja a
algum de seus muitos diversos agrupamentos culturais, ante os desafios com os
quais se defrontaram ao longo de nossa evolução como ser social.
Podemos definir a
desordem informacional na sociedade como um estado social no qual a taxa de
redundância da informação socialmente válida tende a zero.
Por informação
socialmente válida vamos definir aquela que o sistema social, através de suas
instituições legítimas, define como válida. É óbvio que poderíamos entrar aqui
numa enorme e inconclusa discussão sobre “instituições legítimas”, “validade”
etc. Grupos revolucionários põem em questão a legitimidade das instituições e,
se ou quando vitoriosos, determinam outras e distintas regras de “validade”.
Estamos aqui tratando das instituições formais ou mesmo informais cuja
legitimidade foi conquistada através das revoluções culturais e políticas que
se alastraram da Europa para o resto do mundo, a partir dos séculos XVII e
XVIII, sem ignorar as importantes contribuições teóricas, políticas,
artísticas, oriundas da América Latina, África e Ásia, muitas vezes críticas,
transformadoras, enriquecedoras daquelas instituições, mas sem negar, no
limite, aquelas raízes.
Um exemplo óbvio, mas
nem de longe o único, é o marxismo, inclusive os regimes políticos que
engendrou, originário na esquerda iluminista européia mas muito transformado e
enriquecido por pensadores e lideranças políticas cujas práticas teóricas e
políticas se deram na América Latina, África ou Ásia.
Num exemplo simples e
muito sintomático, até poucas décadas atrás ninguém contestaria ser a Terra um
planeta esférico, não importasse a condição política, ideológica, social,
étnica, até mesmo religiosa, de diferentes grupos de indivíduos; não importasse
se europeu, sul ou norte americano, asiático ou africano, desde que dotado de
uma mínima base de escolaridade e cultura, por maiores que fossem suas
diferenças outras. Essa é uma informação que organiza não apenas a instituição
científica enquanto tal, mas apoiado nela, o ensino básico, a cultura
cotidiana, inclusive as crenças, mesmo as religiosas, já há alguns séculos.
De repente, surgem
grupos sociais defendendo que a “terra é plana”. Ora, de um ponto de vista
informacional, tal afirmação e esforços feitos para comprová-lo (até agora, por
óbvio, infrutíferos e mesmo com trágicos resultados) seriam como lâmpadas de
semáforo que deveriam permanecer apagadas para que os códigos sociais
funcionassem com segurança e validade. Se a taxa de redundância decresce,
começam a acontecer casos, como sabemos, de professores(as) desafiados(as) nas
escolas de ensino básico por crianças ou seus pais contestando, não raro com
violência verbal e ameaças físicas, a validade da forma esférica da Terra, daí
toda a validade do ensino científico conforme nossa Civilização o concebe e o
convalida desde pelo menos os tempos de Colombo e Galileu.
Por motivos sociais ou
culturais já sugeridos acima, que não podemos aprofundar nesse texto, mas que
não podem ser ignorados, é fato que, de duas ou três décadas para cá, um amplo
conjunto de códigos básicos que organizavam nossa vida social, portanto também
recalcavam como redundantes (no conceito acima apresentado) um amplo conjunto
de outras mensagens possíveis, passaram a ser questionados. Emergiu um novo
regime informacional, porém a latere do que definimos como
civilizado, que vem pondo em questão, não apenas as instituições políticas
democrático-liberais formais, mas conquistas civilizatórias que pareciam estar
consolidadas para sempre, desde os princípios de direitos humanos até os
avanços da ciência e seus impactos na educação, na saúde pública e na nossa
vida cotidiana.
Por exemplo: a
vacinação universal, um comportamento social (código social) que parecia
consolidado (no Brasil, com certeza!), passou a ser alvo de maciço ataque por
parte de crenças outras, cujo resultado, do ponto de vista informacional, como
temos visto, seria comparável a motoristas e pedestres passarem a ignorar,
desprezando confusões e riscos, as mensagens válidas do semáforo, mesmo que as
autoridades legitimas não autorizassem tal comportamento denegador da
redundância legalmente estabelecida.
O processo de desordem
informacional que estamos vivenciando foi favorecido, em boa parte, pela
leniência das próprias democracia liberais, talvez por demais confiantes na
solidez definitiva de suas instituições. Porém, para isso, sem dúvida,
contribuição decisiva foi dada pela “ágora informacional” que se constituiu
sobre a infra-estrutura da internet. É sempre necessário distinguir a internet
propriamente dita, um sistema sócio-técnico organizado conforme determinações
lógicas de Engenharia, da camada que opera sobre ela, organizada por grandes
corporações de fundo financeiro, para distribuir conteúdos conforme a lógica do
mercado capitalista. Ainda que as duas camadas possam ter elos imbricados, é
nesta camada superior que se concentram os grandes e graves problemas políticos
e culturais.
Esperava-se que as
“redes” servissem para aprofundar o debate iluminista, para finalmente
consolidar a ambição de uma “esfera pública” popular, porém comprometida com a
razão, a justiça e a democracia: as únicas lâmpadas que deveriam acender no
semáforo da sociedade. Porém o que se viu foi a liberação generalizada, através
das “redes”, de ressentimentos, frustrações, idiossincrasias, raivas, até então
sem espaços para se manifestarem além dos socialmente muito limitados em
conversas nos botequins, reuniões familiares, papos de barbeiro ou
cabeleireira. “A internet deu voz a milhões de imbecis”, bradou Umberto Eco.
Revelou-se para todos e todas nós, um “outro mundo”, não aquele que desejávamos
possível conforme o slogan dos Fórum Social Mundial, mas um que parecia
impossível, até inimaginável.
De um ponto de vista
informacional, as “redes” permitiram reduzir as taxas sociais de redundância ao
limite de zero. Todas as instituições que viemos construindo ao longo dos
últimos cem, ou duzentos, ou mesmo trezentos anos estão postas em questão. Trata-se
portanto de saber se vamos seguir permitindo avançar esse processo de
destruição da Civilização, ou se vamos reafirmar, talvez mesmo endurecer, as
redundâncias sociais que permitiram o avanço da nossa sociedade até o estágio
em que nos encontramos.
Cabe relembrar Karl
Popper: “não se pode ser tolerante com intolerantes”.
Qualquer palavra é
relativamente polissêmica. A palavra “coerção” normalmente é entendida num
sentido negativo, como alguma obrigação indesejada, imposta. Mas, vimos, não há
sociedade, nem mesmo as originárias, que não estejam organizadas graças a
coerções, leis explícitas ou tácitas, que nos permitem conviver uns com os
outros.
Para dirigir nossos
veículos de passeio ou trabalho, obedecemos às coerções das leis de trânsito,
entre elas obter uma licença especial que nos autoriza a conduzir veículos.
Medicamentos não chegam nas farmácias sem antes passarem pelas investigações
coercitivas dos órgãos reguladores, obedecendo às coerções de leis específicas.
Empresas grandes ou pequenas estão submetidas às coerções fiscais e monetárias,
também as relacionadas ao meio ambiente e à justiça social, direitos
trabalhistas etc., sempre conforme leis debatidas, aprovadas e implementadas
por instituições políticas legítimas, como o Congresso e os demais poderes
democráticos. A lista não cessaria.
De seu emprego social
genérico, a palavra “coerção” ganhou sentido preciso na Cibernética: trata das
regras que organizam um código qualquer. Nossa língua só funciona como meio de
comunicação porque submete-se a muitas coerções sintáticas, semânticas, estilísticas.
São as coerções que determinam o que pode ser informação válida e o que é
redundância indicativa de erro, num sistema informacional qualquer.
A internet, por sua
história, se expandiu pelo mundo sem maiores coerções, além daquelas
estritamente técnicas. Nem mesmo as coerções determinadas pelas fronteiras
jurisdicionais de cada país, foram respeitadas em sua expansão inicial. A
partir dos Estados Unidos, assumiu-se que as mensagens que por ela transitariam
não deveriam estar submetidas a maiores coerções (no sentido cibernético), além
das naturalmente próprias dos elásticos códigos linguísticos.
Pela primeira vez na
história dos meios de comunicação eletro-eletrônicos, um sistema tecnológico de
emprego comercial e cultural, com ampla penetração na vida cotidiana de toda a
sociedade, foi posto à margem de coerções regulatórias públicas já nas suas
origens. No que concerne ao tráfego de conteúdos, assumiu-se que a taxa de
redundância deveria situar-se no limite de zero.
Sublinhe-se que, por
mais amplas que sejam as condições de liberdade de expressão na imprensa e na
radiodifusão, sempre, em qualquer democracia, elas estão submetidas a códigos
coercitivos explicitados em lei ou tacitamente aceitos nos comportamentos de seus
profissionais: jornalistas, artistas, comunicadores etc. Um exemplo simples:
praticamente nenhum jornalista ou convidado a uma entrevista, falando para uma
câmara de televisão ou microfone de rádio, empregará alguma palavra de baixo
calão. Um código não escrito mas socialmente estabelecido impõe esse limite.
As organizações de
comunicação social constituem elas mesmas, com suas hierarquias profissionais e
seus habitus comportamentais, sistemas coercitivos que, porém, por isto mesmo,
são sistemas reprodutores de informação legítima, naquele conceito acima definido.
Mesmo assim, nem de longe trata-se de um sistema altamente redundante pelo qual
transitaria apenas um único padrão de mensagem. Sim, sabemos das muitas também
legítimas críticas que são feitas a certos padrões informacionais predominantes
nessas organizações, determinados por seus interesses políticos e econômicos.
É verdade que certos
campos de mensagens, principalmente os da Esquerda, embora também válidos
naquele conceito apresentado mais acima, encontram muitas dificuldades para
atravessar os canais das organizações dominantes. Mas, ficando nos exemplos
brasileiros e sem fazer juízo de valor, também não dá para ignorar as
diferenças de padrão informacional entre uma Rede Globo ou Band,
ou entre uma rádio CNN e uma Jovem Pan. Ao
contrário: cabe mesmo perguntar, apesar de seus filtros hierárquicos, se Band, Jovem
Pan e outras similares também não estariam situadas mais para perto do
campo da desordem informacional do que a Globo ou CNN.
Implica dizer, como reivindicam movimentos críticos desde a entrada em vigor da
Constituição de 1988, que um projeto regulatório não pode ignorar também a
regulação dos meios “tradicionais”.
As organizações que se
estabeleceram sobre a internet não tiveram nenhum interesse de determinar
coerções formais ou informais que fossem proximamente similares às que
condicionam as atividades na imprensa e radiodifusão “tradicionais”. Essa
ausência de maiores redundâncias resultou nesse cenário que, agora, motiva
investigações e debates sobre “desordem informacional” ou “integridade da
informação”.
Peço licença para
fazer referência a um exemplo pessoal. Certa vez, num post no Twitter,
empreguei a palavra “suicidar”. O envio do post foi imediatamente bloqueado, e
minha conta foi imediatamente suspensa. O Twitter alegou que eu violara seus
“termos de uso”. Obviamente, eu usei aquela palavra em algum sentido
metafórico, num contexto de debate político, não no seu significado denotativo,
muito menos dirigida a alguma pessoa. Mas o algoritmo não percebe essas
sutilezas. Tive que, literalmente, reconhecer o “erro” para ter minha conta de
volta, ou precisaria entrar numa disputa administrativa, cujo tempo de duração
e o resultado eram, para mim, totalmente incertos (redundância quase nula).
Esse episódio revela
que (i) os algoritmos das plataformas podem, num tempo no limite de zero,
bloquear mensagens que não estariam de acordo com os códigos da plataforma;
(ii) esses códigos, ou seja, esses particulares sistemas de coerções, são
determinados por uma empresa privada, eventualmente, mas não necessariamente,
com base em códigos sociais mais amplos. Não são determinados por alguma
legislação de natureza pública, nem são em nada transparentes.
Trata-se portanto de
estabelecer, por lei e regulamentos, princípios que determinarão as taxas de
redundância relativas aos conteúdos que poderão ser postados ou não, nas
plataformas. Evidentemente que, aqui, a expressão “taxa de redundância” é uma
metáfora: matemática nenhuma poderá medir isso… O que medirá isso é o projeto
de sociedade que queremos construir e a necessidade de defendê-lo de outro
projeto que quer nos destruir.
É necessário retirar
das plataformas o poder de decidir o que se pode postar ou não, conforme seus
difusos e opacos “termos de uso”. Ao contrário, estes é que deverão amoldar-se
a leis e regulamentos estabelecidos por poderes públicos legítimos. Porém, é
sumamente necessário tornar as plataformas um ambiente política e culturalmente
sadio para a democracia e a civilização. As coerções necessárias não devem ser
tímidas diante da necessidade de reenviarmos para o espaço das redundâncias, os
eventos informacionais que pretendem e vêm, infelizmente, conseguindo
desorganizar a sociedade inteira: obscurantismo, negacionismo, racismo,
xenofobia, intolerâncias diversas, pregações de ódio etc. São também mensagens
possíveis como as três lâmpadas apagadas de um semáforo. Porém, diante dos
códigos da democracia liberal e da Civilização, não passam de erro. Como tal,
que retornem ao socialmente inevitável excedente sociocultural redundante de
onde não deveriam nunca ter tido a chance de se manifestarem.
É hora de concertar o
semáforo social para que voltem a brilhar apenas as luzes da razão!
Fonte: Por Marcos
Dantas, em A Terra é Redonda

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