Quem lucra com as cinzas em Gaza e na
Amazônia
A imagem é chocante: a terra está nua e esturricada
em uma paisagem do bioma brasileiro que é mundialmente conhecido pelos seus
rios caudalosos. O Rio Negro parece
irreconhecível, com parte de seu leito exposto ao sol, morte de peixes e botos,
e a consequente fragilização das comunidades que dependem do transporte fluvial
para sobreviver. O bioma amazônico agoniza em uma seca que já dura semanas,
enquanto a fumaça das queimadas (que ocorrem em volume
recorde desde 2008) cobre o ar de cidades como Santarém, no Pará, e
Manaus, no Amazonas.
Em outro canto do planeta, também vemos o céu virar
noite em pleno dia, devido às bombas despejadas sobre uma pequena faixa de
terra onde mais de 2 milhões de seres humanos vivem confinados, o que constitui
uma parcela expressiva do povo palestino. Gaza esteve
mais de um mês sob ataque contínuo de um dos exércitos mais potentes do mundo,
o do Estado de Israel. Protestos no mundo todo, inclusive dentro das
comunidades judaicas e mesmo entre judeus sionistas, não
parecem suficientes para impedir o massacre em curso, que já matou milhares de
crianças e tem impedido o acesso ao que é mais básico para a sobrevivência de
quem teima em seguir existindo.
Na Amazônia ou na Palestina, a água, sempre
imprescindível à vida, falta. Com ela, falta o alimento. E, quando chegam as
cestas de comida, trazidas como ajuda humanitária, elas também são,
invariavelmente, secas. O mesmo complexo financeiro industrial internacional
que submete populações a catástrofes, sejam elas climáticas ou militares, é
responsável pela produção dos pacotes de itens comestíveis processados que são
destinados ao socorro de quem ficou sem ter o que comer, em uma pirueta
contábil em que vale a pena destruir para lucrar.
Assim como as empresas de armas aceleram suas
máquinas em tempos de guerra, as empresas de “comida” empacotada também vêm a
reboque da fome das vítimas dos conflitos. Quem está em situação de emergência
não costuma ter nenhum direito a escolher o que comer, e, quando consegue algo
comestível, dá graças ao deus que inspira as suas crenças. É assim que, quanto
mais temos desequilíbrios sociais e ambientais, menos teremos alimentos in
natura na barriga das pessoas, intensificando um processo que já vem
em curso há décadas, em que os produtos industrializados tomam o
lugar de frutas, legumes, verduras, raízes, grãos e castanhas no dia a
dia da população.
Sim, já faz tempo que estamos deixando de comer
comida e passando a engolir mercadorias fabricadas em mega empresas,
especialmente criadas para permitir uma produção em grande escala, a partir de
poucos tipos de ingredientes de origem vegetal ou animal – aos quais
acrescenta-se um conjunto de aditivos artificiais que, por sua vez, foram
desenvolvidos em laboratórios especialmente para viciar nosso paladar.
Até mesmo no Programa Nacional de Alimentação
Escolar (PNAE), uma referência internacional no setor de Segurança Alimentar e
Nutricional, os biscoitos industrializados
consomem uma parte considerável da verba disponível. E isso em locais que não
estão submetidos a nenhum desastre natural, onde o que chamamos de cesta verde
– ou cesta viva, composta por alimentos cultivados pela agricultura familiar –
poderia suprir as necessidades dos estudantes e comunidades escolares.
Mas o lobby da
indústria alimentícia é poderoso e a dificuldade imensa que encontramos em tributar
produtos tão sem nutrientes, como refrigerantes e outras bebidas adoçadas, já
revela a força que nossos movimentos agroecológicos têm que fazer para que a
comida de verdade não suma da mesa do povo de vez.
·
De um lado, o lobby, de outro, a publicidade
Além de seus anúncios sedutores, muitas vezes direcionados às crianças, mostrando
produtos comestíveis que possuem os mais diferentes formatos e cores, simulando
uma variedade que estão muito longe de ter – já que sua base costuma ser
composta por farinhas refinadas, açúcar, sal e gordura vegetal, como o óleo de
soja –, os departamentos de marketing das organizações da indústria alimentícia
empenham-se em tocar o terror para manipular a opinião pública.
Peças publicitárias inundaram plataformas de grande
alcance midiático com a mensagem de que a Reforma Tributária – que finalmente
está em curso no país, em um processo que se arrasta há três décadas – não
poderia taxar os produtos comestíveis, sob o risco de aumentar a fome,
misturando os conceitos do que é minimamente processado com o que é
ultraprocessado ou até tentando
convencer as pessoas de que ultraprocessados são “do bem”. Uma campanha com
o sugestivo nome de Carrinho
Livre foi criada e traz uma petição para que “os consumidores tenham o
direito de decidir” o que querem comprar, sem pagar mais por itens alimentícios
industrializados. A batalha não terminou e ainda temos uma etapa junto à Câmara
dos Deputados, onde a proposta aprovada no Senado, ainda longe de
ser a necessária para corrigir as distorções fiscais existentes, será novamente
analisada.
Vale lembrar que indústrias como a de bebidas
artificiais, sobretudo a de refrigerantes, não apenas vêm nos sugando
financeiramente, através da isenção de impostos em nosso território, como
também nos sugam literalmente, se apropriando de nossas águas. Cada meio litro
de um refrigerante como a coca-cola exige 35 litros de água e
deixa como resíduo, além de sua garrafa plástica, um conteúdo químico que vai
contaminar não apenas o corpo de quem toma a bebida, mas, também, os corpos
hídricos e, portanto, os corpos de todos nós.
A mesma lógica vale para outros produtos, sejam
alimentos com agrotóxicos, sejam remédios ou produtos de cuidado diário. As
consequências da produção e do consumo sempre são coletivas e é por isso que
não adianta olhar só para o próprio prato – ou só para o próprio copo. Mesmo
para quem não estiver no grupo dos 33 milhões de
brasileiros/as que não têm acesso à água potável, a situação não é nada
tranquila e tende a ficar pior, se não houver uma forte mobilização popular.
As privatizações de empresas públicas essenciais,
como as de fornecimento de água (lembrando que a da Sabesp está em pleno
vapor), comprovam o caráter comunitário das ações necessárias para que cada um
e cada uma de nós assegure o direito de ter o que beber e o que comer. E isso
fica ainda mais urgente se quisermos ter comida e bebida não contaminadas pelos
resíduos das substâncias tóxicas que têm sido lançadas sobre territórios de
países como o nosso, em um processo muito bem definido pela pesquisadora Larissa
Bombardi como Colonialismo
Químico, termo que está no título de seu novo livro.
·
Armas de fogo e a água como arma
Os conflitos bélicos sempre nos mostraram que há
vidas que valem mais do que outras na geopolítica internacional, mas não é só
nas guerras declaradas que isso pode ser constatado. Vidas europeias valem mais
do que vidas brasileiras no mundo corporativo globalizado. Essa é a constatação
inequívoca trazida pelo livro, ao apresentar, entre muitos outros exemplos de
abusos, que o nível residual permitido do glifosato, agrotóxico mais usado no
mundo, é 5 mil vezes maior em nossas águas do que nas águas da União Europeia.
Isso fica ainda mais dramático por sabermos que o que é
fornecido a uma parcela expressiva dos municípios brasileiros contém um mix
de resíduos de substâncias tóxicas e que mesmo o acesso a esse líquido de má
qualidade tem sido difícil.
De fato, a luta pela água (seja qual for a
qualidade que ela tenha) vem se acirrando conforme o planeta ferve e as grandes
empresas tentam abocanhar o que ainda resta dos nossos bens naturais. Aqui, os
conflitos por ela cresceram quase 500% nas últimas duas décadas, de acordo com
o levantamento feito
pela Pastoral da Terra. Considerando que o Brasil é um dos países com alto
índice de assassinatos de ativistas, já podemos supor as consequências desses
embates, caso esse ritmo de crescimento se mantenha.
Sabemos que os maiores consumidores de água (e os
que proporcionalmente menos pagam por ela) são os grandes conglomerados.
Produzir comida seca, como salgadinhos e doces industrializados, consome muita
água. Basta pensar no quanto se usa para cultivar imensas monoculturas de
milho, soja e cana-de-açúcar, que são a base dessas guloseimas. Sem falar
na cadeia da
carne, com seus animais alimentados com uma massa gigantesca de grãos
transgênicos, para, afinal, virarem hambúrgueres, nuggets e embutidos
cancerígenos, afunilando os recursos hídricos, ao ponto de podermos dizer que
somos exportadores de água, ao fornecer bois e frangos em massa para o mercado
internacional. Só as emissões de gases de efeito estufa da pecuária bovina
brasileira já representam um volume
maior do que tudo o que é emitido pelo Japão.
·
O ovo ou a galinha
Mas, voltando às situações trágicas a que
assistimos, acabamos entrando naquele famoso circuito vicioso (que uma
propaganda de biscoito soube tão bem explorar), em que causas e consequências
se confundem. O fato é que, quanto mais desequilíbrio ambiental existe, mais as
cestas secas prosperam, já que são o auxílio que as comunidades afetadas pelos
desastres costumam receber. E quanto mais cestas secas forem consumidas, mais
desequilíbrio ambiental teremos, já que o modelo
agroalimentar que produz commodities para abastecer essa
indústria é diretamente responsável por boa parte da destruição dos nossos
ecossistemas e demais fatores que geram a crise climática.
É basicamente essa soma de caos ambiental com caos
sanitário – sendo este último caracterizado pelo adoecimento em massa da
população mundial devido à má alimentação – que define o que chamamos de Sindemia
Planetária: um sistema produtivo globalizado que, para se perpetuar,
destrói a natureza e entope a população com quantidades exorbitantes de sal,
açúcar, gordura e substâncias tóxicas. Obesidade, hipertensão, diabetes e
outras DCNTs (Doenças Crônicas Não Transmissíveis) tornaram-se comuns até mesmo
em crianças. A tendência é que aumentem consideravelmente nos próximos anos,
com o excesso de peso afetando mais da
metade da população mundial até 2035, como revela o Atlas Mundial da
Obesidade 2023.
Os custos com a (falta de) saúde de uma população
mundial ainda em crescimento geram uma sobrecarga financeira para a sociedade
que, engrossada pelos custos decorrentes do que é (e será cada vez mais) gasto
com as catástrofes causadas pela emergência climática, pode levar ao colapso das
contas públicas até mesmo de países que sempre foram conhecidos como
exemplos de bem-estar social. O impacto em economias “emergentes” pode fazer
com que elas retrocedam décadas em conquistas obtidas com o suor (e o sangue)
de várias gerações. Aqui no Brasil, calcula-se que até 3 milhões de pessoas
passarão a compor os índices de pobreza extrema até 2030 devido a esse impacto.
Enquanto puderem, as grandes corporações vão lucrar
nas duas pontas, vendendo tanto o que causa os problemas – sejam produtos
ultraprocessados que destroem individualmente as pessoas por dentro, sejam
armas que destroem massivamente povoados por fora – quanto o que amenizaria
tais desgraças – remédios, cestas secas, materiais de (re)construção civil,
sempre oriundos de processos que alijam a população quanto ao poder de escolha.
E, caso não ocorra uma forte mobilização popular, o
quadro seguirá assim até a hora que esse sistema político-produtivo chegar a um
limite e não tiver mais como se perpetuar devido aos níveis de esgotamento do
planeta e das sociedades humanas. Poderemos fazer uma escolha e mudar por livre
vontade enquanto há tempo, ou seremos obrigados/as a apagar incêndios, nadar em
meio às correntezas das enchentes e rastejar entre os escombros da guerra que
estamos travando contra nós mesmos.
Porque a ala desta guerra suicida que envolve
investidas militares, como na Ucrânia, em Gaza e em vários outros locais menos
noticiados pela mídia comercial, tem enchido os bolsos das corporações da
indústria bélica, ao mesmo tempo que desarmoniza ambientalmente ainda mais o
planeta, com suas intensas emissões de gases, sua destruição das paisagens
naturais, seus gastos
estratosféricos de dinheiro – que deveria ser destinado à transição ecológica, mas
é usado na extração nada cuidadosa de materiais para a produção das armas e dos
demais elementos de uso militar.
Genocídios, como o que está ocorrendo com a
população de Gaza e como os que ocorrem há séculos com os povos originários ao
redor do mundo, são combustível para um ecocídio em escala global e esse futuro
catastrófico há tempos tem enviado seus cumprimentos a uma humanidade que
parece já parcialmente anestesiada, tanto em relação ao sofrimento de
populações inteiras quanto aos alertas planetários dados por nossa Gaia.
Como afirma Luiz Marques, autor do livro O decênio
decisivo: propostas para uma política de sobrevivência e
pesquisador que é referência no tema da transição ecológica, “as guerras de
nossos dias não são (se jamais o foram) uma continuação da política. Elas são
uma continuação dos negócios.” E os negócios podem dar muito errado no atual
andar da carruagem – até mesmo para quem se julga detentor de sangue azul! Os
prognósticos feitos pela comunidade científica quanto ao futuro próximo seguem
cada vez mais pessimistas, com o tempo que temos para realizar as mudanças
necessárias para garantir o mínimo de segurança ambiental se tornando cada vez
mais ínfimo.
·
Virada Agroecológica já!
Quando iremos perceber que estamos guerreando
contra nós mesmos e cavando as covas em que seremos enterrados, ao seguir a
lógica do capital, belicista por natureza? A verdadeira luta deveria ser para
dar um basta na manipulação e na exploração que nós, povos de todas as etnias,
credos e territórios, sofremos por parte da elite financeira mundial, que tem
na destruição e na morte uma fonte generosa de seus lucros – e cujos líderes
preferem perder os dedos (e até suas próprias vidas, no caso de um conflito nuclear)
do que entregar alguns de seus anéis.
Corpos amazônicos ardem. Corpos palestinos
ardem. Crianças
daqui e de outros lugares do mundo estão sendo mortas. As bombas
lançadas pelas mãos dos detentores do poder econômico, sejam visíveis e
imediatas – como as que despencam em Gaza –, sejam invisíveis e de destruição
mais lenta – como as que assolam nossos ecossistemas – seguem explodindo. Se,
conduzidos pela minoria sedenta de poder e dinheiro, continuarmos guerreando
uns contra os outros e, portanto, contra a natureza, vamos todos nos condenar a
um verdadeiro inferno, instalado a nível planetário e sem qualquer julgamento
possível de quem mereceria ou não arder em suas chamas.
O fato de 2023 já estar sendo considerado o ano
mais quente dos últimos 125 mil anos, com séries seguidas de recordes de
calor, fazendo com que muitas cidades brasileiras atinjam temperaturas acima
de 40 graus, deveria desencadear uma mobilização massiva para nos prepararmos
para o que vem aí, tentando reduzir os efeitos dramáticos das mudanças
climáticas. A fervura já está em curso: fechar o vidro fumê do carro e ligar o
ar-condicionado para fugir do calor e não ver o drama dos mais vulneráveis é um
gesto que pode dar um alívio momentâneo para quem tem acesso a esse luxo, mas
que só vai piorar o cenário. A conta vai acabar chegando, mesmo para quem julga
que sua vida vale mais do que a do outro.
Nós, movimentos sociais brasileiros comprometidos
com a transformação do atual sistema alimentar predador da natureza, sabemos
que é necessário agir já e que, ao contrário do que a propaganda agrofascista
diz, há um outro caminho a seguir. É por isso que defendemos uma Reforma Tributária 3S –
Saudável, Solidária e Sustentável – e uma Reforma
Agrária Popular Agroecológica – que dê aos povos campesinos as
condições de cultivar comida de verdade para o povo e ponha um fim na atual
concentração pornográfica de terras no país.
E este mês de novembro está sendo um período bem
especial em nossa rede ativista, já que dois encontros nacionais aqueceram a
temporada. A 20ª edição
da Jornada de Agroecologia, entre os dias 22 e 26, na Universidade Federal de
Curitiba (UFPR), e o 12º Congresso Brasileiro de
Agroecologia (CBA), entre os dias 20 e 23, no Rio de Janeiro, reuniram agricultore/as,
estudantes, pesquisadores/as, políticos, integrantes de movimentos sociais e
pessoas apaixonadas pela filosofia e pelas práticas agroecológicas, para uma
intensa troca de saberes, em busca de caminhos para que, como bem coloca o lema
dessa edição do CBA, a Agroecologia
esteja na boca do povo!
Mesmo para quem não participou das atividades, é
possível descobrir, através dos sites dos dois encontros, muito do universo
vivenciado pelas pessoas enlaçadas nessa grande rede. São centenas de
organizações envolvidas, milhares de participantes presenciais, feiras,
oficinas, apresentação de trabalhos acadêmicos e experiências comunitárias,
revelando uma vitalidade que contrasta com a monotonia propagada pelo Agro que
se diz pop, mas que é fome, que é fogo, que é tóxico e que é morte, com suas
falsas respostas aos problemas que ele mesmo causa. E o percurso segue com cada
vez mais força, inundando de esperança quem se aventura por ele e fazendo a diferença
em comunidades dos quatro cantos do país, como revela o filme Antes do Prato, documentário
recém lançado que está disponível em várias plataformas online.
Convidamos vocês a virem conosco, seja no plantio de
árvores nativas, seja na organização de um grupo de consumo solidário, seja em
audiências públicas no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas
Câmaras Municipais. Somente ocupando os espaços físicos, nos campos, nas
cidades, nas florestas e nas águas, e políticos, em todas as instâncias do
poder público, é que poderemos dar uma virada nessa mesa indigesta e abrir
caminho para que pessoas e natureza possam ser bem alimentados e ter a
resiliência necessária para enfrentar o que virá. Como disse
Ailton Krenak no encerramento do CBA, “a Agroecologia tinha que acontecer agora
numa escala planetária”.
Que nossas cestas vivas – suculentas, saborosas e
nutritivas – possam chegar em todos os lares, freando o ritmo de produção
enlouquecedor das megaempresas, com seus produtos comestíveis ressecados,
tóxicos e sem vida. Que os povos do mundo consigam se livrar da opressão
corporativo-militar e possamos espalhar sementes nativas ao invés de bombas
estrangeiras. Gaia nos conclama a cuidar de nossa Casa Comum, único corpo
celeste conhecido até hoje que possui uma teia altamente complexa e biodiversa
de seres vivos, em todo o vasto universo que nos rodeia.
Fonte: Por Suzana
Prizendt, em Outras Palavras

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