Na liderança do G20, Brasil articula Aliança Global contra a Fome
Entre as principais ações do governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste primeiro ano de gestão, sem
dúvida, destacam-se o resgate dos programas sociais duramente sucateados desde
2016, quando houve o golpe parlamentar em Dilma Rousseff até o final do
desgoverno Bolsonaro.
O Bolsa-Família, por exemplo, bate recordes nos
números. O governo contemplou, em média, 21,3 milhões de famílias com
investimentos, por mês, superiores a R$ 14,1 bilhões.
Para se ter ideia, no ano passado, os gastos, por
mês, chegaram em média a R$ 7,8 bilhões.
Agora, pela primeira vez na Presidência
do G20, grupo que reúne as maiores economias do planeta, o Brasil trabalha
para alavancar ações no âmbito global de combate à fome e as desigualdades
sociais.
Em entrevista exclusiva ao Portal Vermelho,
o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social,
Família e Combate à Fome (MDS), Osmar Júnior, diz que especialistas de diversos
países estarão em novembro de 2024, em Teresina (PI), formulando os termos da
Aliança Global contra a Fome e Miséria.
“Ao assumir a presidência do G20, o presidente Lula
estabeleceu como um dos objetivos colocar na agenda mundial, dos países que têm
as maiores economias, o combate à fome e à pobreza”, afirma.
O secretário lembra que Lula agiu dessa forma nos
governos anteriores quando gozava de prestígio na comunidade internacional.
“No seu retorno, vai dar um passo ainda maior no
sentido de deixar estruturado esse movimento para enfrentar e superar a fome e
a extrema pobreza do mundo”, aposta.
Osmar destaca as principais ações do MDS este ano e
diz que, sob o comando do ministro Wellington Dias, a pasta segue cinco
diretrizes orientadas pelo presidente Lula.
São elas: coordenar a política de combate à fome
para tirar o Brasil do mapa da fome; instituir um sistema de segurança
alimentar e nutricional; reestruturar o Sistema Único de Assistência Social
(SUAS); instituir a política nacional de cuidados; e instituição do sistema de
combate e redução da pobreza, que é a inclusão socioeconômica.
O secretário afirma ainda que a pasta foi um das
que mais sofreram no governo Bolsonaro com sucateamento dos programas e cortes
drásticos no orçamento.
Também destaca o trabalho que vem sendo feito com o
programa Bolsa Família e a perspectiva daqui para frente na área.
Confira a entrevista:
·
Como o ministro e o senhor receberam a pasta do governo anterior?
Acredito que foi uma das que mais sofreram com as
políticas implementadas após aquele golpe que afastou a presidenta Dilma
Rousseff. Naquele período estava sendo estruturado o SUAS, o sistema único da
assistência social. União, estados e municípios tinham dado passos e o
estabelecimento do financiamento dessa área. Os programas sociais,
especialmente o Bolsa Família, tinham alcançado também um nível importante de
presença em todos os estados e municípios brasileiros. Infelizmente, com o
golpe, isso foi desestruturado. O SUAS foi completamente desarticulado
·
Como se deu isso?
Para se ter uma ideia, no ano passado, o
cofinanciamento do governo, o dinheiro que ele passa para estados e municípios
para compartilhar responsabilidades com as ações sociais, foi de apenas R$ 800
milhões de reais. Uma demonstração de desapreço a essa área tão importante para
a vida, sobretudo das famílias e das pessoas mais pobres. Se comparado com
2014, esse valor era exatamente cinco vezes menor. No lado do programa de
transferência de renda, após o auxílio emergencial que foi instituído durante a
pandemia, o governo de então passou a se utilizar da estrutura do programa
Bolsa Família para estruturar um programa eleitoral. Só para ter uma ideia, a
despeito da elevação do valor da transferência de renda, o nível de fome no
Brasil cresceu.
·
Quais foram os primeiros passos para recuperar isso?
Ao assumir, o presidente Lula estabeleceu para o
MDS pelo menos cinco grandes responsabilidades. A primeira, coordenar a
política de combate à fome, cujo objetivo é tirar o Brasil do mapa da fome. Ao
lado dessa tarefa, instituir um sistema de segurança alimentar e nutricional.
Todo país precisa ter esse sistema, porque ele é que garante que o país não
retroceda como aconteceu com o Brasil. Então, esse sistema reúne políticas que
vão da produção, da armazenagem, da comercialização até o direito ao acesso à comida.
A terceira tarefa foi reestruturar a rede SUAS que é formada pelo governo
federal, governos estaduais e pelas prefeituras. Essa rede articula e
implementa a política de assistência social, uma política em regime jurídico
único no modelo que é o SUS. A quarta foi instituir a política nacional de
cuidados. O Brasil está muito atrasado em relação aos países do mundo, mesmo
aqui da América Latina. Hoje, nós temos milhões de pessoas que precisam de
cuidados. Uma criança, um idoso e uma pessoa com um doente precisam de alguns
cuidados para sobreviver. A quinta tarefa é a instituição do sistema de combate
de redução da pobreza, que é a inclusão socioeconômica. Essa é uma tarefa que
envolve grande parte do governo para fazer com que, por meio do emprego e do
empreendedorismo, a pessoa possa ter renda capaz de garantir a sua
subsistência.
·
O Bolsa Família passou a ser uma das grandes prioridades.
O Bolsa Família é um programa de transferência de
renda que nasceu no primeiro governo do presidente Lula. Em 11 anos conseguiu
um feito extraordinário: ao lado de outros foi o carro-chefe para retirar o
país do mapa da fome. Contudo, o programa foi completamente desestruturado e
desvirtuado. Até o empréstimo consignado foi autorizado durante o governo
passado. Uma pessoa que recebia R$ 500 ou R$ 600 para comer com sua família e,
de repente, foi entregue a ela um dinheiro para ser descontado dessa pequena renda.
Para vocês terem uma ideia, durante o período eleitoral, em apenas 18 dias, a
Caixa Econômica Federal emprestou mais de R$ 8 bilhões, exatamente no período
que vai do primeiro para o segundo turno da eleição.
·
E o que está feito para recuperar essa política de distribuição de
renda?
Hoje nós estamos recolocando o programa Bolsa
Família naquela direção de quando foi instituído. O programa instituiu também
uma categoria que é o atendimento às crianças, às gestantes, às nutrizes e aos
jovens de 7 a 17 anos que estão na escola. Com essa medida, nós já alcançamos,
em menos de um ano, quase 19 milhões de famílias com renda mensal de R$ 218,00
para cada pessoa, o que garante sua alimentação. Portanto, é um programa que
está voltando ao seu conceito original.
O Brasil assumiu comando do G20, grupo que reúne as
maiores economias do mundo, e uma das prioridades do grupo é o combate à fome e
às desigualdades. De que forma o MDS está inserido nessa política?
Ao assumir a presidência do G20, o presidente Lula
estabeleceu como um dos objetivos colocar na agenda mundial, dos países que têm
as maiores economias, o combate à fome e à pobreza. Sob a liderança do
Ministério das Relações Exteriores, nós estamos trabalhando para construir a
Aliança Global contra Fome e Miséria. Os primeiros movimentos já foram feitos e
a repercussão, entre outros governos, é positiva. Por isso, nós estamos
confiantes e o MDS tem a responsabilidade de trabalhar para que na reunião do
G20, que vai ocorrer no Brasil, em novembro de 2024, os termos dessa aliança já
estejam construídos. Nós teremos centenas de reuniões e debates buscando esse
entendimento. Uma dessas reuniões ocorrerá em Teresina, capital do meu Estado e
do ministro Welligton. Reuniremos técnicos e especialistas de diversos países
do mundo que contribuirão na formulação dos termos da Aliança. Tenho certeza
que, assim como nos seus dois primeiros governos, no seu retorno [Lula] vai dar
um passo ainda maior no sentido de deixar estruturado esse movimento para
enfrentar e superar a fome e a extrema pobreza do mundo.
·
Quais as perspectivas da pasta para os próximos anos de governo?
O Brasil vivenciou um período muito difícil,
corremos muitos riscos. Infelizmente, a miséria cresceu. Agora mesmo o
presidente Lula lançou um movimento, um programa para enfrentar o desafio do
apoio às pessoas que vivem em situação de rua, que em pouco mais de 13 anos
aumentou 10 vezes. São desafios grandes, mas tenho certeza que, com a
reconstrução da democracia, estamos avançando. O presidente Lula é um líder
extraordinário, reconhecido dentro e fora do Brasil. Ele foi capaz de conduzir
esse grande movimento que busca unir e reunificar o país, fazer com que o
Brasil possa voltar a ter crescimento econômico, desenvolvimento e, sobretudo,
resgatar o sentimento de solidariedade entre as pessoas. Esses são os desafios.
Nós estamos muito animados para esse enfrentamento, vencê-los ao longo dos
próximos três anos.
Ø Nilo Meza:
Mercosul, qual é o norte?
A negociação começou em 1999, quase em resposta à
pressão dos EUA sobre os governos sul-americanos para que aderissem à ALCA
(Área de Livre Comércio das Américas). Na época, a UE era vista como um
parceiro mais conveniente para o Mercosul.
Quando Lula se tornou presidente do Brasil (2003),
ele descobriu que o acordo havia progredido significativamente e estava a
caminho de ser assinado. Entretanto, a proibição da participação de empresas
públicas na definição de políticas públicas foi o motivo pelo qual Lula (2004)
rejeitou os termos do acordo.
O acordo ficou congelado até que Mauricio Macri
(2015-2019) decidiu reativar as negociações com a certeza de que seria útil
para seus propósitos de reativar a economia argentina, que estava sucumbindo
sob um formato neoliberal. Macri encontrou em Bolsonaro um aliado
entusiasmado e disposto a aceitar qualquer pedido da UE. Entre os elementos que
esses dois presidentes admitiram no texto do Acordo estavam os referentes à
questão ambiental, que não havia sido debatida detalhadamente.
Quando Lula retornou em seu terceiro governo,
observou que o conteúdo do acordo dificilmente poderia ser compatível com sua
agenda de defesa ao meio ambiente, especialmente à Amazônia. O que a minuta do
acordo estabeleceu foi típico dos processos de liberalização (privatização) da
última década do século XX, que, depois de 30 anos, tem se mostrado um modelo
que não foi muito bem-sucedido onde quer que tenha sido aplicado.
Além do componente comercial, o Acordo inclui
componentes de diálogo político e cooperação que tornam os debates mais
complexos e exigem atores que vão além da competência da UE. Prevendo
dificuldades de ratificação e implementação, o acordo prevê que a implementação
pode ser bilateral.
Com esse conteúdo, o acordo começou a ser negociado
em maio de 2016 com a esperança de que fosse assinado em dezembro de 2017,
dentro da estrutura da cúpula da OMC em Buenos Aires. Como isso não aconteceu,
adiaram seu tratamento e possível assinatura para a Cúpula dos Presidentes
(dezembro de 2023).
Naquela ocasião, foi Alberto Fernández, então
presidente da Argentina, quem se encarregou de bloquear ao máximo a assinatura
do acordo porque ele "agrava as assimetrias econômicas existentes"
entre os dois blocos. Essa posição, coincidentemente, estaria alinhada com a da
França (Emmanuel Macron), que foi o mais tenaz opositor do acordo, argumentando
que "as exigências ambientais" do Pacto Verde não poderiam ser
atendidas por seus produtores rurais.
Embora não tenha participado da reunião de cúpula,
Milei divulgou sua surpreendente disposição de promover a assinatura do acordo
o mais rápido possível. Os ajustes que eles proporão são, de acordo com Diana
Mondino, sua ministra das Relações Exteriores, "menores" em termos de
tarifas, sistemas de compensação e diretrizes ambientais. Não parecem tão
pequenos assim, não é mesmo?
Apesar das dificuldades em definir o conteúdo final
do texto, a decisão de Milei, apelidada de "Plano B", revela que a
Argentina se manterá firme no bloco, apesar de suas estridências anti-MERCOSUL
quando estava em campanha. Os quase US$ 22 bilhões (48% do total de exportações
para a UE), média anual para o período 2018-2022, de exportações de produtos
agroindustriais do Mercosul para a UE e, da Argentina, mais de US$ 6 bilhões
(71% de suas exportações para a UE), tornaram anedótico o "discurso
radical" de Milei.
Tudo parece indicar que a próxima cúpula UE-CELAC,
em julho de 2024, poderia ser o pano de fundo para a assinatura do acordo.
Da mesma forma, os argumentos ambientais e sociais apresentados por
alguns países europeus com interesses agroalimentares terão de ser ponderados
na estrutura do Acordo de Paris. Da mesma forma, o acordo terá que
considerar o cumprimento irrestrito dos direitos trabalhistas, as comunidades
indígenas e o papel do monitoramento ativo pela sociedade civil.
>>> Por que pode ser adiado mais uma vez?
- Se for
mantida a exigência de reduzir a 0% o imposto de importação sobre mais de
90% do comércio de mercadorias. No Brasil, esse imposto é de 15,2% e na UE
é de 1,8%. O mesmo ocorre, com mais ou menos pontos de diferença, nos
outros membros do MERCOSUL, de modo que é fácil deduzir quem ganha e quem
perde.
- Se for
mantido o cancelamento do imposto de exportação, que em países como o
Brasil permite processos de transformação e industrialização,
especialmente nos setores agrícola e de mineração.
- Se for
mantida a proibição de que empresas públicas façam parte da definição de
políticas públicas relativas a preços e compras de produtos locais. Isso
poderia ser compatível com a opção neoliberal de Macri, que privatizou
suas empresas públicas, mas não com o Brasil.
- Se for
mantida a liberalização total do comércio de alimentos, a agricultura
familiar de todos os países membros do Mercosul enfrentará uma
concorrência desigual com a importação de bens de consumo de massa de
origem agrícola, basicamente gêneros alimentícios, produzidos na Europa
com subsídios.
- Se não
houver uma proposta mais atraente para os agronegócios do bloco, então o
que está em vigor para eles não modifica suas condições atuais, pois as
"cotas" (inferiores às da UE) são mantidas e, além disso, tornam-se
fictícias devido à competitividade (subsidiada) dos produtos
europeus.
Em conclusão, os extremos do acordo mencionados
acima não são consistentes com o princípio do "benefício mútuo" e, ao
contrário, aprofundam as assimetrias. Além disso, há sanções para o Mercosul
caso ele não cumpra os mandatos climáticos, algo que não está estabelecido para
a UE. O "grande vencedor" do acordo, por enquanto, é a UE. O
elemento geopolítico do acordo UE-MERCOSUL, cujo escopo transcende as
fronteiras regionais, será abordado em nossa próxima publicação.
Fonte: Opera Mundi

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