domingo, 24 de dezembro de 2023

César Fonseca: Milei desmonta social democracia e fortalece luta socialista na Argentina

O ultrarradical presidente argentino, Javier Miley, baixou 30 medidas ultra neoliberais, com mais de 300 subitens, que desmontam a social-democracia erguida pelo peronismo e, consequentemente, renova dialeticamente luta política numa nova etapa com cores socialistas, como forma de reação popular contra o neoliberalismo fascista.

Nova história de luta política com viés radical se abre na América Latina, em meio à expansão da financeirização econômica, que destrói tanto capital produtivo como valor-trabalho, para favorecer tão somente o jogo capitalista especulativo, descompromissado com os valores sociais, configurando fascismo.

Podem, portanto, emergir lutas ideológicas encarniçadas, para reviver passado remoto e recente no contexto da luta de classes, pois, afinal, as massas voltam às ruas, para evitar violentas espoliações capitalistas, agora, em escala financeirizada, exponencial.

·        Socialismo Redivivo

Como se sabe, historicamente, a social-democracia nasceu na segunda metade do século 19 como colchão de liquidez para atenuar/combater a luta socialista que desembocou na Revolução Soviética de 1917.

O regime leninista-trotskista emergiu com as massas socialistas e comunistas nas ruas para derrubar a monarquia, tal como a burguesia havia derrubado o rei medieval em 1789, colocando abaixo a aristocracia de Versailles.

Caíram os estados gerais – clero e nobreza – para dar lugar ao terceiro estado, o povo.

Na sequência, Robespierre, inspirado em Rousseau, cortou a cabeça do rei e a burguesia tomou conta da situação.

O comunismo não pintou em 1789, porque a restauração, em 1815, com Napoleão, impôs a burguesia parlamentar.

Em 1871, porém, 82 anos depois da Revolução Francesa, as massas, adestradas pelas revoluções que pipocam, na Europa, a partir de 1848, voltam furiosas ao poder, com a Comuna de Paris, que lançaria as bases do que seria a revolução soviética, em 1917, 46 anos depois.

A burguesia, no poder, na segunda metade do século 19, com a revolução industrial, radicalizou o liberalismo puro, na linha de Stuart Mill, na Inglaterra, como tenta, agora, em 2023, Javier Milei, na Argentina, numa forçada marcha ré histórica radicalmente reacionária.

A Comuna de Paris, que duraria, apenas, 3 meses, de 18 de março a 28 de maio de 1871, representou motivo para a burguesia iniciar flexibilização do radicalismo fiscal e monetário, característica essencial do laissez-faire , cujo ideal, para o regime burguês, era sustentar salário zero ou negativo em sua máxima acepção do termo, como dizia Marx.

Para evitar fortalecimento dos movimentos socialistas que surgiam por todos os lados no continente europeu, a burguesia iniciou programas sociais, começando com redução da jornada de trabalho, acentuada na Alemanha de Bismarck, e lenta, porém, insuficiente valorização dos salários.

Essa foi a forma para tentar vencer a crônica insuficiência de demanda global que acompanha o capitalismo desde sua origem, como apontava o autor de O Capital e do Manifesto Comunista, em 1847/1848, beabá para atuação programática dos partidos comunistas contra a burguesia.

·        Ignorância neoliberal

Milei, economista ultraneoliberal sem conhecimento da história, parece não saber que o subconsumismo, decorrente da queda da taxa de lucro, leva às crises, geradas pelo processo de sobreacumulação de capital.

Não entendeu por que Keynes acabou renegando seus mestres neoclássicos, como Stuart Mill e Alfred Marshall, ao constatar o fim do laissez-faire, ao final da primeira guerra mundial, e diagnosticar que a crise liberal de 1929 decorreu, como Marx havia previsto, do excesso de acumulação de capital na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos.

A saída seria o Estado, diante da crise de realização dos lucros, que derrubou as bolsas, no crash de 29, romper com o liberalismo e puxar demanda global mediante novo padrão monetário – moeda estatal inconversível no lugar do padrão ouro – para tirar setor privado do colapso da economia liberal de livre mercado.

Desde então, a economia política capitalista, ao longo do século 20, vive da dívida pública que cresce no lugar da inflação porque não suportaria mais retornar ao século 19, sob padrão ouro, com a libra esterlina, que garantia o imperialismo inglês.

Os Estados Unidos, com dólar, ganharam a hegemonia mundial, justamente, porque seguiu o conselho antineoliberal de Keynes, dado a Roosevelt, em 1936:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego –, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força.”(Lauro Campos, em “Crise da Ideologia Keynesiana”, 1980, Campus, e 2016, Boitempo).

Lauro, estudioso de Keynes, já em 1958, na Universidade Federal de Minas Gerais, com sua tese “Controle Econômico e Social”, concluída na Universidade de Sussex, Inglaterra, alertava, conforme apresentação de Edmar Bacha, que o monetarismo orçamentário equilibrista levava às crises e que o âmago da economia política capitalista era a guerra, via expansão monetária.

Era repeteco da lição de Colbert, mago das finanças de Luís 14: “A dívida interna [bombeada por emissão inflacionária, enxugada por títulos do tesouro para evitar hiperinflação] é o nervo vital da guerra.”

·        Rito neoliberal da guerra

Keynes, ideólogo da economia de guerra, é amado pelos peronistas argentinos de esquerda keynesiana, com destaque para Raúl Prebisch, criador da Cepal e funcionário do Banco Mundial, autor de “Dinâmica do Desenvolvimento Latino-americano”, Fundo de Cultura, 1963.

A economia keynesiana de guerra, que se expandiu depois de 1944 com Bretton Woods, sob domínio do dólar, viveu seus momentos de glória até o final do modelo soviético, derrubado com o Muro de Berlim, em 1989.

De lá pra cá, os Estados Unidos reinam absolutos sob o neoliberalismo comandado pelos bancos centrais, interligados, a partir de Basiléia, em extensão planetária, ao BC americano, coordenador da economia de guerra do império.

A periferia capitalista, como América Latina, monitorada pela OEA, estaria em todo esse período, especialmente, a partir dos anos 1980, debaixo do Consenso de Washington, até que as crises financeiras, decorrentes das emissões monetárias destinadas a bancar expansão imperialista pelos cinco continentes, levaram às rachaduras neoliberais no compasso da financeirização econômica global.

Conseguiram escapar da tirania financeira neoliberal, apenas, quem, como China, Rússia e países asiáticos, fugiram da financeirização econômica coordenada pelos BCs.

Eles descolaram-se do mundo unipolar ocidental, geopolicamente, dirigido pelos Estados Unidos, condutores do neoliberalismo por meio do Consenso de Washington, montado no tripé econômico neoliberal – metas inflacionárias, câmbio flutuante e superávits fiscais elevados.

FMI e Banco Mundial, agências americanas, criadas em Bretton Woods, viraram os padrastos cruéis dos países devedores do terceiro mundo, Brasil e Argentina, entre eles.

Na Era PT, o Brasil, com Lula, conseguiu fugir da tirania da dívida externa e das condicionalidades impostas pelo FMI ao acumular reservas internacionais graças à expansão keynesiana dos gastos públicos.

A Argentina, não, afundou-se ao longo dos anos, sempre dependurada nos empréstimos externos submetidos à ditadura financeira do FMI/BIRD, razão pela qual cairia na armadilha da dolarização que arrasaria a moeda nacional.

Com Javier Milei, agora, completa-se a desgraça econômica portenha, depois do colapso peronista, com o pacotaço de 30 medidas ultraneoliberais que podem escravizar os argentinos, lançando-os ao colonialismo financeiro ultraneoliberal.

À população restará como saída a radicalização política diante da destruição do modelo econômico social-democrata em verdadeira guerra econômica, que se iniciou nesta semana com a reação popular ao pacotaço.

·        Calabouço neoliberal

O arcabouço fiscal e monetário, que, atualmente, o Banco Central Independente (BCI) prega, para vigorar, tanto no Brasil, como na Argentina, obedecendo ao rito neoliberal ditado pelo império, por meio do FMI/BIRD, é uma forma de guerra econômica contra população, ancorada em ideologia marginalista, equilibrista, puro suicídio econômico, que impulsiona os argentinos enfurecidos às ruas.

Javier Milei, monitorado pelo imperialismo, derruba toda a social-democracia, com uma penada de 30 medidas ultra neoliberais, que levará à agitação política, germe da revolução mundo afora sob neoliberalismo ideológico.

Milei é o condutor do rastilho de pólvora revolucionária.

No Brasil, o BCI segue o mesmo esquema de Miley, com diferenças, apenas, de graus proporcionais.

Lula, manipulado pela ideologia monetarista neoliberal do déficit zero, somente conseguirá governar, de modo a levar adiante o PAC desenvolvimentista, que prometeu em campanha eleitoral, se mobilizar a sociedade contra o monetarismo radical ditado pelo BCI, obediente ao FMI.

A estratégica neoliberal do BCI, de sustentar financeirização via juros Selic extorsivos, é uma das determinações do imperialismo ditado pelo Banco Central americano e FMI/BIRD.

Sua tarefa de financeirizar a periferia capitalista, impedindo industrialização e valorização dos salários, amarra o subdesenvolvimento à reprimarização econômica, eternizando o perfil colonial periférico.

É o passaporte, depois de eliminado o colchão de liquidez das medidas sociais democráticas contra o laissez-faire ultra neoliberal, para ressurreição das lutas de classes socialistas.

 

Ø  A Política Externa de Milei será adversária do Brasil. Por Marcelo Zero

 

Durante a campanha eleitoral, Jorge Milei prometeu uma política externa profundamente ideologizada, tal qual a política externa de Bolsonaro na gestão de Ernesto Araújo.

Milei, que segue confessadamente os ensinamentos de Conan, o mastim inglês, afirmou, entre outras coisas, que não manteria relações com países “comunistas”, como China, e que se afastaria do Brasil de Lula.

Também deixou claro que suas absolutas prioridades em política externa seriam os EUA e Israel. Em nenhum momento, mencionou, como relevante, a integração regional, bem como o Mercosul, a Celac e a Unasul, principais instrumentos de cooperação e de articulação de interesses da América Latina. Em tempo algum sinalizou que as relações bilaterais com o nosso país teriam alguma importância.

Embora o ultradireitista tenha feito alguns gestos de moderação antes de tomar posse, como enviar a futura ministra das relações exteriores à Brasília para aparar as arestas causadas pelos graves e reiterados insultos a Lula, a política externa de Milei não deverá ser muito diferente da implementada por Bolsonaro.

Há poucos dias, a ministra de relações exteriores da Argentina, Diana Mondino, anunciou que seu país retirará seus embaixadores em Cuba, Nicarágua e Venezuela. Na China, a Argentina continua sem embaixador, e está sendo representada por uma diplomata de baixo escalão.

A chanceler também já deixou claro que Argentina não entrará para o BRICS em janeiro, como estava previsto. A alegação é a de que a Argentina não teria condições e pagar a “taxa” de entrada. Em compensação, a Argentina de Milei deverá pagar, com orgulhoso regozijo, o devido pedágio para entrar na OCDE, o “Clube dos Ricos”, organização que demanda compromissos com políticas econômicas conservadoras e alinhamento geopolítico com o chamada Ocidente.

A Argentina, com Milei, também tentará articular apoio para a Ucrânia e a OTAN na América Latina, colocando-se, assim, em rota contrária à posição do Brasil, da maioria da região e do Sul Global de manter neutralidade relativamente a esse conflito e de contribuir para buscar uma paz realista e exequível.

Sua anunciada aliança com o governo de extrema-direita de Israel também se choca com a posição do Brasil e da maioria dos países em desenvolvimento, que estão empenhados num cessar-fogo em Gaza e na implementação da “solução dos dois Estados”.

A clara opção ideológica de Milei pelo alinhamento incondicional e acrítico à geopolítica belicista e confrontacionista estadunidense, que tenta impor uma nova Guerra Fria ao mundo, deverá ter efeito disruptivo no protagonismo internacional do Brasil, particularmente no que tange à integração regional.

A política externa do Brasil no terceiro governo Lula está fortemente dedicada a fortalecer os mecanismos que integram a América do Sul e a América Latina, abandonados no governo Bolsonaro.

Com efeito, o estímulo aos processos de integração política, comercial e de infraestrutura com os países vizinhos, além de ser um princípio constitucional da nossa política externa, sempre foi forte diretriz da diplomacia brasileira, sobretudo em governos progressistas.

Mercosul, Unasul e Celac não surgiram por geração espontânea. Eles foram criados a partir de um esforço conjunto, no qual o Brasil foi protagonista. A Argentina participou ativamente desse esforço. Na realidade, a integração regional soberana assentou-se fortemente, desde o início, na relação bilateral Brasil/Argentina.

Essas organizações fundamentais da integração regional compõem uma visão estratégica que procura promover a integração América do Sul e da América Latina como zonas geográficas de paz e desenvolvimento e como atores coletivos em um mundo multipolar e mais simétrico.

Uma região não comprometida com alinhamento algum e que tem interesses próprios. Uma região efetivamente soberana.

Milei e a direita argentina não parecem gostar muito dessa opção pela soberania.

Querem uma inserção subalterna na esfera de influência dos EUA e de alguns aliados dessa potência. Querem voltar ao passado de uma ordem mundial unilateralista que não mais existe.

Isso implica rejeitar o BRICS e a multipolaridade e manter uma relação de distanciamento, no mínimo, com China, Rússia e todos os países que não são considerados “bons aliados” dos EUA.

Implica também distanciamento do Brasil e da integração regional soberana.

Não surpreenderá se a Argentina, com Milei, apostar no fim da união aduaneira do Mercosul, como já propunha Domingo Cavallo ao final década 90, e abandonar a Unasul e a Celac. Tampouco causará surpresa se Milei decidir fazer acordos de livre comércio radicais, como conviria a discípulos da Escola de Viena, sem a participação dos demais sócios do Mercosul.

Não surpreenderá se Milei passar a sabotar os esforços do Brasil para manter a nossa região como uma zona de paz, não alinhada com nenhuma potência extrarregional, empenhada na multipolaridade e dedicada a manter pragmaticamente boas relações com todo o mundo, sem discriminações político-ideológicas.

Manter o antigo (e bom) embaixador em Brasília pode ajudar, mas não será suficiente para evitar um efeito disruptivo e negativo na região.

A política externa de Bolsonaro, especialmente na gestão de Ernesto Araújo, foi adversária dos interesses do Brasil, da integração regional e da multipolaridade. Nos tornou párias. Perdemos protagonismo regional e mundial. Perdemos soberania.

A política externa de Milei, que deverá seguir os mesmos cânones fortemente ideológicos, também será adversária do Brasil, assim como se contraporá à soberania argentina.

Argentina e Brasil são grandes parceiros estratégicos, mas Milei prefere outra estratégia de inserção mundial.

Vem aí um “DNU” contra a integração regional soberana.

 

Fonte: Brasil 247

 

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