Em 5 pontos, entenda processo que pode levar à cassação de Moro no Senado
O Ministério Público Federal defendeu nesta
quinta-feira (14) que seja acolhida parcialmente a ação eleitoral contra o
senador Sergio Moro (União Brasil-PR) com a cassação do mandato do ex-juiz da
Operação Lava Jato por abuso de poder econômico durante a pré-campanha em 2022.
Embora entendam que houve abuso de poder econômico,
eles não observam utilização indevida dos meios de comunicação social. O
processo tramita no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Paraná.
Em linhas gerais, ação aponta que a campanha de
Moro ao Senado se beneficiou da pré-campanha dele à Presidência da República
ocorrida meses antes, com uma linha narrativa partindo desde sua filiação ao
Podemos, em novembro de 2021, quando o hoje senador ainda mirava a disputa ao
Planalto.
Perto do prazo final para trocas partidárias, em
2022, Moro abandonou o Podemos, anunciando sua ida à União Brasil. Ele então
tentou uma candidatura ao Senado por São Paulo, mas a transferência do
domicílio eleitoral -do Paraná para São Paulo- acabou vetada pela Justiça
Eleitoral.
1) O que é a ação e quem a propôs?
A ação eleitoral foi proposta no final do ano
passado pelo PL, de Jair Bolsonaro, e pela federação formada por PT, PV e PC do
B, de Lula. As legendas acusam Moro de abuso de poder econômico e utilização
indevida de veículos ou meios de comunicação social durante o período de
pré-campanha e querem a declaração de sua inelegibilidade e a realização de
nova eleição para a vaga no Senado.
2) Qual a alegação para cassação e o
que diz o Ministério Público?
Moro se filiou ao Podemos em 2021 de olho na
disputa presidencial. Mas, perto do prazo final para trocas partidárias, em
2022, abandonou o Podemos, anunciando filiação à União Brasil e sua candidatura
ao Senado.
Por isso, os partidos opositores apontam que os
gastos de pré-campanha, voltados inicialmente para a disputa ao Palácio do
Planalto, tornaram-se “desproporcionais” e “suprimiram as chances dos demais
concorrentes” ao Senado no Paraná.
“A lisura e a legitimidade do pleito foram
inegavelmente comprometidas pelo emprego excessivo de recursos financeiros no
período que antecedeu o de campanha eleitoral, porquanto aplicou-se monta que,
por todos os parâmetros objetivos que se possam adotar, excedem em muito os
limites do razoável”, diz trecho da manifestação da Procuradoria.
3) Há divergência sobre os gastos da
pré-campanha?
Sim. Acusação e defesa possuem cálculos diferentes,
já que as despesas do então pré-candidato foram bancadas tanto pelo Podemos
quanto pela União Brasil.
Enquanto a defesa de Moro fala em gastos módicos e
calcula R$ 141.034,70 na pré-campanha, PT e PL apontam que as somas das
despesas são superiores até mesmo ao teto de gasto permitido no período
eleitoral para a campanha ao Senado pelo Paraná no ano passado, R$
4.447.201,54.
Para o PL, Podemos e União Brasil gastaram ao menos
R$ 7.600.702,14 com a pré-campanha de Moro. O PT aponta ao menos R$
4.790.051,25.
A diferença nos valores acontece porque cada um
seguiu um critério diferente sobre o que pode ou não ser considerado gasto com
pré-campanha e o que era efetivamente despesa ligada ao ex-juiz ou ao conjunto
de pré-candidatos.
4) O que diz a defesa de Moro?
A defesa argumenta que a eleição de Moro se deu
diante de todo o capital político obtido pelo ex-juiz desde a Lava Jato,
concluindo não haver impacto relevante dos gastos na pré-campanha no resultado
eleitoral. Diz ainda que a ação de investigação tem natureza política.
“A eleição não se deu pelos gastos em celular,
coffee break ou seguranças, mas sim diante de todo o capital amealhado em
decorrência do combate à corrupção alcançado pela Operação Lava Jato, sediada
no Paraná e de conhecimento amplo dos paranaenses”, afirma o advogado Gustavo
Guedes, responsável pela defesa do senador no TRE.
5) Quando haverá uma decisão sobre o
caso?
O relator do processo, juiz eleitoral Luciano
Carrasco Falavinha Souza, deve divulgar seu voto em janeiro. O caso pode ser
levado para julgamento no plenário do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) logo em
seguida. Caso condenado, Moro ainda poderá recorrer ao TSE (Tribunal Superior
Eleitoral).
Ø XADREZ DA
CASSAÇÃO: Moro poupa Michelle Bolsonaro, cotada para sua vaga no Senado, ao
rebater críticas por suposto voto em Dino
Isolado diante das sinalizações de que teria votado a favor da
indicação de Flávio Dino como
o novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e cada vez mais
perto da cassação, o senador Sergio Moro
(UB-PR) dispara para todos os lados, mas tem procurado poupar
críticas à família Bolsonaro.
Ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, o
parlamentar, desde o abraço caloroso em Flávio Dino e os sinais de que apoiou a indicação do
comunista para a Corte, vem sendo tachado de traidor pelo ex-presidente,
seus filhos e até mesmo Michelle Bolsonaro.
Nesta quinta-feira (15), por exemplo, a
ex-primeira-dama publicou uma sequência de stories no Instagram atacando
Moro. Em um deles, publicou a foto em que Moro aparece abraçando Dino e a
imagem que mostra a troca de mensagens com um assessor o orientando a não divulgar voto em
favor do ministro.
"Não há nada escondido que não venha a ser
descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido", escreveu
Michelle.
Moro, por sua vez, foi às redes na
tentativa de rebater os ataques que está recebendo - sem negar que apoiou Dino
- e culpou o governo Lula e o "PL do Paraná", deixando de
mencionar qualquer crítica do clã Bolsonaro.
"Não me surpreende o intenso
ataque daqueles que almejam assumir a posição que conquistei de maneira
legítima nas urnas, com o respaldo do povo paranaense. Aos meus eleitores e
apoiadores, esclareço: não divulgar o voto na indicação de autoridades é uma
prerrogativa do parlamentar. O vigoroso embate que tenho enfrentado do atual
governo Lula, de parte do próprio PL paranaense, aliado às ameaças do PCC, me
levam a agir, neste momento, com prudência e no pleno exercício de uma
prerrogativa que possuo, tudo isso visando preservar minha independência",
escreveu o ex-juiz.
Cabe lembrar que a crítica de Michelle Bolsonaro a
Moro vem justamente no momento em que o ex-juiz corre o risco de ser
cassado e com o nome da ex-primeira-dama entre os cotados para
concorrer à vaga do ex-juiz no Senado através da eleição suplementar que
será convocada caso o senador, de fato, perca o mandato.
MPE do Paraná pede cassação de Moro
A Procuradoria Regional Eleitoral do Paraná emitiu
nesta quinta-feira (14) parecer favorável à cassação da chapa e a
decretação de inelegibilidade de Sergio Moro e Luís Felipe
Cunha.
De acordo com o parecer, a “responsabilidade
pessoal dos Srs. Sergio Fernando Moro e Luís Felipe Cunha encontra-se
solidamente comprovada através da participação direta de ambos nas viagens,
eventos e demais atos de pré-campanha, frisando-se que, ainda que apenas o
primeiro investigado tenha figurado em destaque e apresentando-se ao público
como pré-candidato, o segundo investigado o acompanhou por toda trajetória
política, inclusive na condição de advogado”.
A conclusão da procuradoria é a seguinte:
“Diante de todo o expendido neste parecer, somente
baseado no que consta dos autos, a Procuradoria Regional Eleitoral no Paraná
manifesta-se pelo julgamento de procedência parcial dos pedidos formulados nas
Ações de Investigação Judicial Eleitoral nº 0604176-51.2022.6.16.0000 e
0604298-64.2022.6.16.0000, a fim de que se reconheça a prática de abuso do
poder econômico, com a consequente cassação da chapa eleita para o cargo
majoritário de Senador da República e decretação da inelegibilidade dos Sergio
Fernando Moro e Luís Felipe Cunha”.
Cassação de Moro: entenda as acusações
No início de 2022, Sergio Moro estava filiado
ao Podemos e iniciou uma pré-campanha à presidência. Contudo, o Podemos
vetou sua candidatura, levando Moro a se desligar da sigla e filiar-se ao União
Brasil, buscando concorrer ao Senado. Inicialmente visava São Paulo, mas a
Justiça Eleitoral o proibiu devido à falta de residência e vínculo com o
estado. Desta maneira, o ex-juiz se candidatou ao cargo pelo Paraná.
Apesar do tumulto partidário e da questão do
domicílio eleitoral, Moro foi eleito senador com 1.953.159 votos. No entanto,
durante a campanha, duas ações, unificadas pelo Partido Liberal e pela
Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), foram protocoladas no TRE-PR
contra o ex-juiz.
As legendas alegam abuso de poder, caixa 2, uso
indevido nos meios de comunicação e irregularidades nos contratos. A principal
acusação é que Moro teria iniciado a pré-campanha à presidência antes de ser
candidato ao Senado no Paraná. As ações argumentam que ele não incluiu na
prestação de contas à Justiça Eleitoral os valores gastos na pré-campanha,
ultrapassando o teto de R$4,4 milhões para a campanha de senador no Paraná.
"Em atitudes que se estendem desde a filiação
de Moro ao Podemos até sua candidatura ao Senado pelo Paraná, pelo União
Brasil, há indícios de que o investigado utilizou recursos do Fundo Partidário
e do Fundo Especial de Campanha, além de outras movimentações financeiras
suspeitas, para construção e projeção de sua imagem enquanto pré-candidato a um
cargo eletivo no pleito de 2022, independentemente do cargo em disputa",
destaca um trecho de uma das representações.
Ø Mario
Sabino: A caça a Moro é implacável e o senador facilita para os caçadores
A caça ao senador Sergio Moro segue implacável. Ter
desbaratado, como juiz da Lava Jato, uma organização criminosa no topo da
cadeia alimentar da política brasileira é pecado mortal. Ele vem sendo
castigado também para dar exemplo: que ninguém ouse mais enfrentar a grande
corrupção e o patrimonialismo.
Dito isso, Sergio Moro é um desastre como político,
não pelas bandeiras que defende, mas por sua atuação em um meio que lhe é quase
totalmente hostil. A sua maior culpa é a ingenuidade, e por vezes ingenuidade
que se acha esperteza, o que o faz duplamente ingênuo. Isso facilita muito o
trabalho dos caçadores.
Ele saiu do Ministério da Justiça atirando contra
Jair Bolsonaro, mas entrou de cabeça na campanha do seu algoz, depois de
protagonizar uma confusão ao mudar de partido, de estado e da candidatura
presidencial para a senatorial.
A confusão poderia ter sido evitada se ele tivesse
examinado melhor o quadro partidário e não houvesse confiado em gente
inconfiável. Resultado: as sequelas do episódio estão na base do pedido de
cassação do mandato de Sergio Moro.
O desastre como político também está nas companhias
que escolheu, como a desse amigo advogado que recebeu dinheiro de campanha,
embora não seja especializado em direito eleitoral.
Não dá para ter amigo advogado recebendo dinheiro
de campanha, mesmo que ele reunisse todos os atributos que o tornassem o melhor
profissional do país para assessorar qualquer candidato. Obviamente, o
Ministério Público Eleitoral explora o personagem no seu pedido de cassação.
Outra companhia que cria um ambiente de suspeição:
esse inefável Mestrão, que surgiu para a posteridade trocando mensagens com
Sergio Moro durante a sabatina de Flávio Dino, É um sujeito complicado. Mestrão
foi contratado para cuidar das redes sociais do senador, apesar de ter sido
acusado de fazer rachadinha quando trabalhava no gabinete um deputado estadual
do Paraná.
É o mesmo estado de Sergio Moro, de onde se pode
concluir que o histórico do rapaz já devia ser do conhecimento do senador e dos
seus assessores. Mesmo assim, ele foi integrado à equipe. Como é que alguém
que, além de ser honesto, precisa desesperadamente parecer honesto não
antecipou que o sujeito era um problema?
Sabatina. O abraço
afetuoso em Flávio Dino, acompanhado de conversinha ao pé do ouvido e sorrisos
quase amorosos: precisava? Concordo com Sergio Moro que a cordialidade é
aspecto a ser preservado, mas aquilo foi demonstração que ultrapassou os
limites toleráveis pelo eleitorado dele.
O senador e o agora ministro do STF jogavam juntos
na arena corporativa, quando ambos eram juízes, de acordo com fonte confiável.
Pode ser, então, que certa nostalgia amigável tenha tomado Sergio Moro ao ir
cumprimentar Flávio Dino. Mas, por cálculo político, o passado de glórias não
deveria sobrepor-se ao presente de antípodas.
Esse abraço afetuoso somado à brandura das
perguntas afáveis na sabatina, ao voto que Sergio Moro mantém secreto, “para
evitar retaliações”, e à mensagem de Mestrão captada pela lente de um
fotojornalista (como é que o senador não imaginou que poderiam fotografar a
conversa, diante de tantos precedentes?) — o conjunto leva a pensar que Sergio
Moro foi a favor da nomeação de Flávio Dino para o STF, perdendo, assim, boa parte
do seu eleitorado.
Se tal é o caso, qual teria sido o motivo? Se o
senador acha que, em retribuição, o agora ministro do Supremo moverá meia palha
para salvá-lo da degola, ele está sendo ingênuo novamente. A retaliação está em
andamento. O senador é o inimigo figadal, renal, cerebral e cardíaco de Lula.
Tudo o que o atual presidente quer é ver quem o colocou na cadeia cassado, sem
direitos políticos por 8 anos, além de preso, se for possível.
Uma explicação possível para a atitude de Sergio
Moro na sabatina é ele ter ouvido a sugestão de um ministro do STF para pegar
leve com Flávio Dino e, em troca, quem sabe, receber uma facilidade na Justiça
Eleitoral que impedisse a cassação do seu mandato. É uma aposta arriscadíssima
no resultado — e, se der certo, ela comporta um custo que certamente não se
restringirá ao da sabatina. As faturas em Brasília são cobradas eternamente dos
ingênuos.
Fonte: FolhaPress/Fórum/Metrópoles

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