sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

É preciso chamar a extrema direita pelo nome. E reforçar seu elitismo

Nas eleições presidenciais de 2018, no Brasil, a maior parte da mídia tradicional hesitava em classificar o então candidato do PSL Jair Bolsonaro como representante da extrema direita. Este não é um fenômeno apenas nacional, mas também alcança outros países.

O professor sênior de política na Universidade de Bath Aurélien Mondon aponta, em artigo, a equivocada simplificação em relação a determinadas figuras e partidos do cenário político chamados de “populistas”.

“A utilização do termo ‘populista’ em vez de termos mais precisos, mas também estigmatizantes, como ‘extrema direita’ ou ‘racista’, funciona como um legitimador fundamental da política de extrema direita”, argumenta, destacando que muitas vezes esta operação também é realizada no meio acadêmico.

Mondon concedeu uma entrevista por e-mail na qual aponta ainda que a utilização da palavra “populismo” vincula este grupo político a uma noção de "povo", por conta do elo semântico, mesmo que sua política seja “inerentemente elitista”.

Partidos não alinhados aos extremistas também acabam cometendo erros ao cair nas armadilhas deste segmento, buscando reagir ao que seriam falsas questões como a imigração em diversos países europeus. Isto ocorre, segundo ele, “apesar de as pesquisas de opinião mostrarem que, em muitos contextos, essa questão é construída de forma descendente (por atores de elite, com acesso privilegiado ao discurso público, colocando a questão na agenda) em vez de forma ascendente, por meio das queixas da população”.

Confira abaixo a entrevista:

·        De que forma o uso do termo "populismo" pela mídia mainstream, em vez de "extrema direita", acaba legitimando posições políticas extremistas?

O uso do termo "populismo" legitima a extrema direita de duas maneiras principais: 1) eufemiza a natureza da política desses partidos e movimentos, pois sua principal característica é serem de extrema direita. Alguns podem ser populistas, mas isso é apenas secundário, é no máximo uma ideologia tênue, adicionada a outras mais primárias, como o racismo ou o autoritarismo, ou é uma forma de discurso que simplesmente visa construir um povo contra uma elite. Como tal, o populismo não nos diz muito sobre a política desses partidos, pois pode se aplicar tanto à política de esquerda quanto à de extrema direita.

2) dá aos partidos de extrema direita um verniz de legitimidade democrática, pois os vincula ao "povo" através do elo semântico criado pelo populismo. Isso apesar do fato de seu apoio geralmente estar longe de ser majoritário (e, de fato, às vezes bastante marginal), seja em termos de resultados eleitorais ou atitudes mais amplas, e que sua política é inerentemente elitista.

·        No Brasil, Jair Bolsonaro, antes de se candidatar à Presidência, costumava aparecer diariamente em programas de TV populares. A busca da indústria do entretenimento por maior audiência também contribui para normalizar representantes da extrema direita?

Absolutamente. A plataforma acrítica de atores de extrema direita é extremamente prejudicial para o discurso público e a democracia. A política de extrema direita deve ser discutida, mas não nos termos da extrema direita, e certamente não por humanizar figuras que buscam minar os direitos das minorias. Vimos isso acontecer em muitos contextos e toda vez acabou levando à normalização de atores de extrema direita e de sua política.

·        Em países onde a extrema direita tem crescido ou até mesmo chegado ao poder, como o comportamento da direita tradicional auxilia nessa ascensão?

Não é apenas a direita tradicional que abriu caminho para a extrema direita chegar ao poder, mas também os partidos de esquerda. Em geral, esses partidos desempenharam um papel fundamental no processo de mainstreaming, aceitando que as ideias promovidas pela extrema direita são preocupações legítimas, embora geralmente negando que a extrema direita ofereça as soluções certas. Isso foi visto, por exemplo, pela forma como esses partidos exaltaram a "questão da imigração", apesar de as pesquisas de opinião mostrarem que, em muitos contextos, essa questão é construída de forma descendente (por atores de elite, com acesso privilegiado ao discurso público, colocando a questão na agenda) em vez de forma ascendente, por meio das queixas da população. Isso serviu para desviar a atenção das falhas dos partidos tradicionais em lidar com as muitas crises que sua população, seu país e o planeta enfrentam.

·        Para entender o crescimento desse segmento político, é necessário analisar o racismo, a misoginia, a homofobia e outros fatores que são inerentes à estrutura das sociedades?

É necessário e deve ser analisado como um todo, pois a extrema direita muitas vezes obteve sucesso em colocar certas comunidades umas contra as outras, enquanto todas perdem quando a extrema direita chega ao poder. Por exemplo, muito se falou sobre o apoio da classe trabalhadora ao Brexit no Reino Unido e a Donald Trump nos EUA, apesar de evidências que mostram claramente que seu apoio veio de setores ricos da população. Essa narrativa foi usada para colocar a classe trabalhadora contra a imigração, apesar dessas comunidades estarem intrinsecamente ligadas e ambas serem, em última análise, ameaçadas pela política de extrema direita em favor do capital. O mesmo pode ser visto quando se trata de estratégias de extrema direita de usar os direitos das mulheres como formas de ataque contra as comunidades muçulmanas ou pessoas trans.

·        Até que ponto a exploração de uma espécie de ressentimento em relação à ascensão das minorias, que ganharam reconhecimento material e simbólico em vários países, tem sido uma força motriz para o crescimento dos extremistas?

Os pânicos morais sobre as minorias que estariam ganhando direitos indevidos têm sido centrais no ressurgimento da reação, embora sejam baseados em um completo mal-entendido da situação. A igualdade de direitos para muitas minorias continua não apenas inconclusa, mas também extremamente precária, como demonstraram os acontecimentos recentes. É por isso que é absolutamente essencial manter-se firme nas exigências de direitos iguais para todos, uma vez que qualquer revés para alguns poderá conduzir ao desmoronamento dos direitos de todos.

 

Ø  Investigado por compra de votos para Fufuca também tratou sobre 'Roseana' e funcionário de Juscelino Filho

 

A investigação da Polícia Federal que apura a suspeita de compra de votos para o hoje ministro do Esporte, André Fufuca (PP) trouxe à tona um grupo de pessoas, entre empresários locais e servidores públicos, que se mobilizaram nas eleições de 2018 por candidatos do centrão e de partidos ligados à centro-direita.

Além de Fufuca, ao menos um outro político local, o atual secretário da Indústria do Maranhão e filiado ao Patriota, Júnior Marreca, é formalmente investigado pela Polícia Federal pela suspeita de compra de votos na disputa daquele ano. O nome dele surgiu na denúncia inicial de um morador que fez os policiais fazerem uma ronda no município de Santa Luzia (MA) que deu início às investigações de compra de voto. Marreca era deputado federal naquele ano, mas acabou tendo a candidatura impugnada pelo Ministério Público e desistiu de concorrer.

Ainda assim, o material encontrado pela PF indica que outros políticos locais, inclusive a filha do ex-presidente José Sarney, ex-governadora do Maranhão e hoje deputada federal, Roseana Sarney (MDB), também podem ter se utilizado do esquema ilegal naquela eleição. Naquele ano ela disputou o governo do estado, mas foi derrotada por Flávio Dino (PSB).

No aparelho celular de um dos suspeitos flagrados com santinhos de Fufuca e sacolas de dinheiro na véspera das eleições 2018, a PF se deparou com a articulação de apoiadores do hoje ministro dos Esportes e outros políticos que não tinham nenhum constrangimento em compartilhar imagens de bolos de dinheiro e discutir abertamente sobre compra de votos, chegando a atribuir valores por eleitor conquistado.

Em um retrato explícito de como ainda funcionam as articulações e estratégias de alguns grupos políticos pelo Brasil, as mensagens de celular e imagens analisadas pela Polícia Federal expõem um lado da eleição de 2018 que até agora não havia vindo à tona.

'Capim limão'

A maior parte das mensagens sobre compra de votos foi encontrada no aparelho celular do empresário Marcus Vinícius Sales, um produtor de eventos local que tinha contato direto com o ministro do Esporte, por meio do celular que o titular da pasta utiliza até hoje.

 A PF encontrou em suas conversas mensagens com referência a "Capim Limão", ou mesmo "Capim", expressão que seria uma possível referência a dinheiro e que aparece em duas mensagens de áudio de Marcus identificadas pela PF.

Em troca de mensagens por áudio de Whatsapp no dia 15 de setembro de 2018, a menos de um mês para a eleição, Marcus afirma a um interlocutor que iria se encontrar com Fufuca para ver se sai "capim limão". A PF não confirma nos autos do inquérito se o encontro ocorreu. A reportagem tentou contato com Marcus Sales por telefone e mensagem de Whatsapp, mas não obteve nenhuma resposta.

O Ministério dos Esportes informou por meio de nota que Fufuca "não compactua com qualquer ato ilícito, não é responsável por ação de terceiros e confia que a justiça vai esclarecer todos os fatos".

Em outra mensagem citada no relatório, Marcus afirma a um contato que está "esperando Sousa ajeitar um capim". De acordo com a PF, Sousa é uma referência a Sousa Neto, que naquele ano foi candidato a deputado estadual pelo PRP. Em outra mensagem com referência a "Capim Limão", no dia 30 de agosto daquele ano Marcus também cita o então candidato a deputado estadual para uma interlocutora identificada como Thamara.

Marcus apareceu como prestador de serviços da campanha de Sousa Neto em 2018. Segundo a prestação de contas entregue à Justiça Eleitoral, o empresário recebeu do então candidato R$ 1,5 mil naquele ano referente a locação de uma sala para servir como escritório de campanha.

A PF constatou uma proximidade de Marcus com Sousa Neto ao analisar o conteúdo do celular do empresário. "De acordo com os dados levantados através das análises das mensagens enviadas/recebidas por MARCUS SALES, foi possível identificar relevante ligação do mesmo com o então candidato SOUSA NETO. Foram identificados 25 registros de chamadas originadas e/ou recebidas entre os meses de agosto a outubro de 2018, entre MARCUS SALES e o terminal identificado em sua agenda telefônica como 'Deputado Sousa' além de registro de mensagens através do aplicativo Whatsapp", afirma o relatório da Polícia Federal.

'Minha eleição eu vendi pra Roseana'

É em um diálogo sobre a candidatura de Sousa Neto, que naquele ano foi eleito suplente, que Marcus Sales e um interlocutor identificado como "Clistenes" em sua agenda expõem alguns bastidores políticos locais e fazem menção a "Roseana". Naquele ano Roseana Sarney, filha do ex-presidente José Sarney e ex-governadora do Maranhão, era candidata ao governo do Estado. No inquérito da PF nenhum dos investigadores, porém, relaciona o nome a ela.

"Sabe quanto é que ele tem 'TAXINHA' (apelido dado a Marcus Sales). Sem mentira nenhuma, mas fica na tua. Sousa tem 50 mil só... 50 mil, que a Roseana deu pra ele. Disse que mais pra frente vão mandar mais um pouco, mas só tem 50 mil", afirmou Clistenes em mensagem de áudio transcrita pela PF. Naquele ano, segundo a prestação de contas entregue à Justiça Eleitoral, a campanha de Sousa Neto registrou apenas uma doação de R$ 50 mil, recebida do diretório estadual do PRP.

Mais pra frente, às 11h29 do dia 19 de setembro, Clistenes envia uma foto com dois maços de dinheiro e um áudio para Marcus Sales após perguntar se ele estava com Sousa Neto. "Dois mil aí de 10 reais, será se ele não quer não? Era bom pra ele. O povo saia pedindo e ele dava 20, 30...", afirmou Clistenes em áudio.

Em resposta, segundo o relatório da PF, Marcus afirma que não sabe ê que "vai ver com ele", e depois às 11h29 escreve: "Roseana 'vau'(sic) liberar o 'cacal'(sic) pra ele".

Em outra troca de mensagem por Whatsapp, com o interlocutor identificado como "Careca", Marcus Sales recebe um comprovante de pagamento de R$ 10 mil para Klennyo Jonnes Barbosa Ribeiro, na época servidor do gabinete do deputado federal Juscelino Filho (União Brasil), que virou ministro das Comunicações no governo Lula.

Segundo divulgou o Estadão, Klennyo seria o gerente de um haras de Juscelino Filho no Maranhão mesmo recebendo salário da Câmara. Após a saída de Juscelino da Casa para assumir o Ministério das Comunicações no começo deste ano, Klennyo seguiu contratado como secretário parlamentar no gabinete do suplente de Juscelino, o deputado Dr. Benjamin (União-MA). Segundo o portal da transparência da Câmara, Klennyo está até hoje no posto e recebeu, em outubro, um salário bruto de R$ 7,6 mil.

Nos autos do inquérito, a PF não avança sobre essa transferência feita na véspera da eleição daquele ano. Procurado, o Ministério das Comunicações informou por meio de nota que "o ministro das Comunicações, Juscelino Filho, não responde pelos supostos atos praticados por terceiros, tampouco comenta sobre investigações deflagradas pela PF".

Voto e bolo

Além das referências a "capim limão" e "cacau", as conversas no celular de Marcus Sales também chamaram a atenção da PF por um pedido inusitado. Em 27 de setembro daquele ano, o empresário recebeu uma mensagem de uma interlocutora identificada como Andreza perguntando quem ele apoiava dos "candidatos dele". Oficialmente, o empresário prestou serviço para apenas um candidato naquela eleição, Sousa Neto, para quem ele declarou ter alugado uma sala de escritório por R$ 1,5 mil.

"Marcos então responde, via texto, que são os candidatos: Federal André Fufucá 1111, Andréa Murad 44133 (candidata a deputada estadual); Roseana 15 (candidata a governadora); Lobão 150 (candidato ao senado Edison Lobão); e Samey 432 (candidato ao Senado, Sarney Filho)", afirma a PF no relatório.

Na sequência, Andreza afirma que "vota neles também" e pede um "patrocínio" para o aniversário de sua mãe, para comprar um bolo de R$ 80. Marcus confirma que pode ajudar e Andreza encaminha os dados de uma mulher para ele fazer a transferência. Na sequência ele envia o comprovante de transferência para a mulher que teria feito o bolo.

Ao pedir a prorrogação do inquérito por mais 90 dias no último dia 16 de novembro, a Polícia Federal informou que ainda pretende tomar os depoimentos de oito pessoas, dentre elas os interlocutores de Marcus identificados como Clistenes e Wandson da Silva Ximendes, que aparece na agenda de Marcus identificado pelo apelido "Careca" e que reside em Vitorino Freire, o reduto político de Juscelino Filho.

A reportagem tentou contato telefônico com os telefones de Clistenes, Thamara e Andreza, mas ninguém atendeu nem respondeu às perguntas sobre as mensagens de Whatsapp. A reportagem tenta, sem sucesso, contato com Marcus Vinícius Sales desde a semana passada, e encaminhou pra ele as conversas utilizadas na matéria, mas não obteve retorno.

Em relação a Roseana Sarney, a reportagem entrou em contato com a assessoria da deputada e encaminhou as mensagens que foram divulgadas neste texto, mas não obteve nenhum retorno até o fechamento dessa matéria. A reportagem também enviou email para a Secretaria de Infraestrutura do Maranhão questionando sobre a situação de Junior Marreca, mas não obteve retorno.

 

Fonte: Fórum/Brasil de Fato

 

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