É preciso chamar a extrema direita pelo
nome. E reforçar seu elitismo
Nas eleições presidenciais de 2018, no Brasil, a
maior parte da mídia tradicional hesitava em classificar o então candidato do PSL Jair Bolsonaro como
representante da extrema direita. Este não é um fenômeno apenas
nacional, mas também alcança outros países.
O professor sênior de política na Universidade
de Bath Aurélien Mondon aponta, em artigo, a equivocada
simplificação em relação a determinadas figuras e partidos do cenário político
chamados de “populistas”.
“A utilização do termo ‘populista’ em vez de termos
mais precisos, mas também estigmatizantes, como ‘extrema direita’ ou ‘racista’,
funciona como um legitimador fundamental da política de extrema direita”,
argumenta, destacando que muitas vezes esta operação também é realizada no meio
acadêmico.
Mondon concedeu uma entrevista por e-mail na qual
aponta ainda que a utilização da palavra “populismo” vincula este grupo
político a uma noção de "povo", por conta do elo semântico, mesmo que
sua política seja “inerentemente elitista”.
Partidos não alinhados aos extremistas também
acabam cometendo erros ao cair nas armadilhas deste segmento, buscando reagir
ao que seriam falsas questões como a imigração em diversos países europeus.
Isto ocorre, segundo ele, “apesar de as pesquisas de opinião mostrarem que, em
muitos contextos, essa questão é construída de forma descendente (por atores de
elite, com acesso privilegiado ao discurso público, colocando a questão na
agenda) em vez de forma ascendente, por meio das queixas da população”.
Confira abaixo a entrevista:
·
De que forma o uso do termo "populismo"
pela mídia mainstream, em vez de "extrema direita", acaba legitimando
posições políticas extremistas?
O uso do termo "populismo" legitima a extrema
direita de duas maneiras principais: 1) eufemiza a natureza da política desses
partidos e movimentos, pois sua principal característica é serem de extrema
direita. Alguns podem ser populistas, mas isso é apenas secundário, é no máximo
uma ideologia tênue, adicionada a outras mais primárias, como o racismo ou o
autoritarismo, ou é uma forma de discurso que simplesmente visa construir um
povo contra uma elite. Como tal, o populismo não nos diz muito sobre a política
desses partidos, pois pode se aplicar tanto à política de esquerda quanto à de
extrema direita.
2) dá aos partidos de extrema direita um verniz de
legitimidade democrática, pois os vincula ao "povo" através do elo
semântico criado pelo populismo. Isso apesar do fato de seu apoio geralmente
estar longe de ser majoritário (e, de fato, às vezes bastante marginal), seja
em termos de resultados eleitorais ou atitudes mais amplas, e que sua política
é inerentemente elitista.
·
No Brasil, Jair Bolsonaro, antes de se candidatar à
Presidência, costumava aparecer diariamente em programas de TV populares. A
busca da indústria do entretenimento por maior audiência também contribui para
normalizar representantes da extrema direita?
Absolutamente. A plataforma acrítica de atores de
extrema direita é extremamente prejudicial para o discurso público e a
democracia. A política de extrema direita deve ser discutida, mas não nos
termos da extrema direita, e certamente não por humanizar figuras que buscam
minar os direitos das minorias. Vimos isso acontecer em muitos contextos e toda
vez acabou levando à normalização de atores de extrema direita e de sua
política.
·
Em países onde a extrema direita tem crescido ou
até mesmo chegado ao poder, como o comportamento da direita tradicional auxilia
nessa ascensão?
Não é apenas a direita tradicional que abriu
caminho para a extrema direita chegar ao poder, mas também os partidos de
esquerda. Em geral, esses partidos desempenharam um papel fundamental no
processo de mainstreaming, aceitando que as ideias promovidas pela extrema
direita são preocupações legítimas, embora geralmente negando que a extrema
direita ofereça as soluções certas. Isso foi visto, por exemplo, pela forma
como esses partidos exaltaram a "questão da imigração", apesar de as
pesquisas de opinião mostrarem que, em muitos contextos, essa questão é
construída de forma descendente (por atores de elite, com acesso privilegiado
ao discurso público, colocando a questão na agenda) em vez de forma ascendente,
por meio das queixas da população. Isso serviu para desviar a atenção das
falhas dos partidos tradicionais em lidar com as muitas crises que sua
população, seu país e o planeta enfrentam.
·
Para entender o crescimento desse segmento
político, é necessário analisar o racismo, a misoginia, a homofobia e outros
fatores que são inerentes à estrutura das sociedades?
É necessário e deve ser analisado como um todo,
pois a extrema direita muitas vezes obteve sucesso em colocar certas
comunidades umas contra as outras, enquanto todas perdem quando a extrema
direita chega ao poder. Por exemplo, muito se falou sobre o apoio da classe
trabalhadora ao Brexit no Reino Unido e a Donald Trump nos EUA, apesar de
evidências que mostram claramente que seu apoio veio de setores ricos da
população. Essa narrativa foi usada para colocar a classe trabalhadora contra a
imigração, apesar dessas comunidades estarem intrinsecamente ligadas e ambas
serem, em última análise, ameaçadas pela política de extrema direita em favor
do capital. O mesmo pode ser visto quando se trata de estratégias de extrema
direita de usar os direitos das mulheres como formas de ataque contra as
comunidades muçulmanas ou pessoas trans.
·
Até que ponto a exploração de uma espécie de
ressentimento em relação à ascensão das minorias, que ganharam reconhecimento
material e simbólico em vários países, tem sido uma força motriz para o
crescimento dos extremistas?
Os pânicos morais sobre as minorias que estariam
ganhando direitos indevidos têm sido centrais no ressurgimento da reação,
embora sejam baseados em um completo mal-entendido da situação. A igualdade de
direitos para muitas minorias continua não apenas inconclusa, mas também
extremamente precária, como demonstraram os acontecimentos recentes. É por isso
que é absolutamente essencial manter-se firme nas exigências de direitos iguais
para todos, uma vez que qualquer revés para alguns poderá conduzir ao desmoronamento
dos direitos de todos.
Ø Investigado
por compra de votos para Fufuca também tratou sobre 'Roseana' e funcionário de
Juscelino Filho
A investigação da Polícia Federal que apura a suspeita de compra de votos para o hoje ministro do Esporte,
André Fufuca (PP) trouxe à tona um grupo de pessoas, entre empresários locais e
servidores públicos, que se mobilizaram nas eleições de 2018 por candidatos do
centrão e de partidos ligados à centro-direita.
Além de Fufuca, ao menos um outro político local, o
atual secretário da Indústria do Maranhão e filiado ao Patriota, Júnior
Marreca, é formalmente investigado pela Polícia Federal pela suspeita de compra
de votos na disputa daquele ano. O nome dele surgiu na denúncia inicial de um
morador que fez os policiais fazerem uma ronda no município de Santa Luzia (MA)
que deu início às investigações de compra de voto. Marreca era deputado federal
naquele ano, mas acabou tendo a candidatura impugnada pelo Ministério Público e
desistiu de concorrer.
Ainda assim, o material encontrado pela PF indica
que outros políticos locais, inclusive a filha do ex-presidente José
Sarney, ex-governadora do Maranhão e hoje deputada federal, Roseana
Sarney (MDB), também podem ter se utilizado do esquema ilegal naquela eleição.
Naquele ano ela disputou o governo do estado, mas foi derrotada por Flávio Dino (PSB).
No aparelho celular de um dos suspeitos flagrados
com santinhos de Fufuca e sacolas de dinheiro na véspera das eleições 2018, a
PF se deparou com a articulação de apoiadores do hoje ministro dos Esportes e
outros políticos que não tinham nenhum constrangimento em compartilhar imagens
de bolos de dinheiro e discutir abertamente sobre compra de votos, chegando a
atribuir valores por eleitor conquistado.
Em um retrato explícito de como ainda funcionam as
articulações e estratégias de alguns grupos políticos pelo Brasil, as mensagens
de celular e imagens analisadas pela Polícia Federal expõem um lado da eleição
de 2018 que até agora não havia vindo à tona.
'Capim limão'
A maior parte das mensagens sobre compra de votos
foi encontrada no aparelho celular do empresário Marcus Vinícius Sales, um
produtor de eventos local que tinha contato direto com o ministro do Esporte,
por meio do celular que o titular da pasta utiliza até hoje.
A PF encontrou em suas
conversas mensagens com referência a "Capim Limão", ou mesmo
"Capim", expressão que seria uma possível referência a dinheiro e que
aparece em duas mensagens de áudio de Marcus identificadas pela PF.
Em troca de mensagens por áudio de Whatsapp no dia
15 de setembro de 2018, a menos de um mês para a eleição, Marcus afirma a um
interlocutor que iria se encontrar com Fufuca para ver se sai "capim
limão". A PF não confirma nos autos do inquérito se o encontro ocorreu. A
reportagem tentou contato com Marcus Sales por telefone e mensagem de Whatsapp,
mas não obteve nenhuma resposta.
O Ministério dos Esportes informou por meio de nota
que Fufuca "não compactua com qualquer ato ilícito, não é responsável por
ação de terceiros e confia que a justiça vai esclarecer todos os fatos".
Em outra mensagem citada no relatório, Marcus
afirma a um contato que está "esperando Sousa ajeitar um capim". De
acordo com a PF, Sousa é uma referência a Sousa Neto, que naquele ano foi
candidato a deputado estadual pelo PRP. Em outra mensagem com referência a
"Capim Limão", no dia 30 de agosto daquele ano Marcus também cita o
então candidato a deputado estadual para uma interlocutora identificada
como Thamara.
Marcus apareceu como prestador de serviços da
campanha de Sousa Neto em 2018. Segundo a prestação de contas entregue à
Justiça Eleitoral, o empresário recebeu do então candidato R$ 1,5 mil naquele
ano referente a locação de uma sala para servir como escritório de campanha.
A PF constatou uma proximidade de Marcus com Sousa
Neto ao analisar o conteúdo do celular do empresário. "De acordo com os
dados levantados através das análises das mensagens enviadas/recebidas por
MARCUS SALES, foi possível identificar relevante ligação do mesmo com o então
candidato SOUSA NETO. Foram identificados 25 registros de chamadas originadas
e/ou recebidas entre os meses de agosto a outubro de 2018, entre MARCUS SALES e
o terminal identificado em sua agenda telefônica como 'Deputado Sousa' além
de registro de mensagens através do aplicativo Whatsapp", afirma o
relatório da Polícia Federal.
'Minha eleição eu vendi pra Roseana'
É em um diálogo sobre a candidatura de Sousa Neto,
que naquele ano foi eleito suplente, que Marcus Sales e um interlocutor
identificado como "Clistenes" em sua agenda expõem alguns bastidores
políticos locais e fazem menção a "Roseana". Naquele ano Roseana
Sarney, filha do ex-presidente José Sarney e ex-governadora do Maranhão, era
candidata ao governo do Estado. No inquérito da PF nenhum dos investigadores,
porém, relaciona o nome a ela.
"Sabe quanto é que ele tem
'TAXINHA' (apelido dado a Marcus Sales). Sem mentira nenhuma, mas fica na
tua. Sousa tem 50 mil só... 50 mil, que a Roseana deu pra ele. Disse que mais
pra frente vão mandar mais um pouco, mas só tem 50 mil", afirmou Clistenes
em mensagem de áudio transcrita pela PF. Naquele ano, segundo a prestação de
contas entregue à Justiça Eleitoral, a campanha de Sousa Neto registrou apenas
uma doação de R$ 50 mil, recebida do diretório estadual do PRP.
Mais pra frente, às 11h29 do dia 19 de setembro,
Clistenes envia uma foto com dois maços de dinheiro e um áudio para Marcus
Sales após perguntar se ele estava com Sousa Neto. "Dois mil aí de 10
reais, será se ele não quer não? Era bom pra ele. O povo saia pedindo e ele
dava 20, 30...", afirmou Clistenes em áudio.
Em resposta, segundo o relatório da PF, Marcus
afirma que não sabe ê que "vai ver com ele", e depois às 11h29
escreve: "Roseana 'vau'(sic) liberar o 'cacal'(sic) pra ele".
Em outra troca de mensagem por Whatsapp, com o
interlocutor identificado como "Careca", Marcus Sales recebe um
comprovante de pagamento de R$ 10 mil para Klennyo Jonnes Barbosa Ribeiro, na
época servidor do gabinete do deputado federal Juscelino Filho (União Brasil),
que virou ministro das Comunicações no governo Lula.
Segundo divulgou o Estadão, Klennyo
seria o gerente de um haras de Juscelino Filho no Maranhão mesmo recebendo
salário da Câmara. Após a saída de Juscelino da Casa para assumir o Ministério
das Comunicações no começo deste ano, Klennyo seguiu contratado como secretário
parlamentar no gabinete do suplente de Juscelino, o deputado Dr. Benjamin
(União-MA). Segundo o portal da transparência da Câmara, Klennyo está até hoje
no posto e recebeu, em outubro, um salário bruto de R$ 7,6 mil.
Nos autos do inquérito, a PF não avança sobre essa
transferência feita na véspera da eleição daquele ano. Procurado, o Ministério
das Comunicações informou por meio de nota que "o ministro das
Comunicações, Juscelino Filho, não responde pelos supostos atos
praticados por terceiros, tampouco comenta sobre investigações deflagradas
pela PF".
Voto e bolo
Além das referências a "capim limão" e
"cacau", as conversas no celular de Marcus Sales também chamaram a
atenção da PF por um pedido inusitado. Em 27 de setembro daquele ano, o
empresário recebeu uma mensagem de uma interlocutora identificada como
Andreza perguntando quem ele apoiava dos "candidatos dele".
Oficialmente, o empresário prestou serviço para apenas um candidato naquela
eleição, Sousa Neto, para quem ele declarou ter alugado uma sala de escritório
por R$ 1,5 mil.
"Marcos então responde, via texto, que são os
candidatos: Federal André Fufucá 1111, Andréa Murad 44133 (candidata a deputada
estadual); Roseana 15 (candidata a governadora); Lobão 150 (candidato ao senado
Edison Lobão); e Samey 432 (candidato ao Senado, Sarney Filho)", afirma a
PF no relatório.
Na sequência, Andreza afirma que "vota neles
também" e pede um "patrocínio" para o aniversário de sua mãe,
para comprar um bolo de R$ 80. Marcus confirma que pode ajudar e Andreza
encaminha os dados de uma mulher para ele fazer a transferência. Na sequência
ele envia o comprovante de transferência para a mulher que teria feito o bolo.
Ao pedir a prorrogação do inquérito por mais 90
dias no último dia 16 de novembro, a Polícia Federal informou que ainda
pretende tomar os depoimentos de oito pessoas, dentre elas os interlocutores de
Marcus identificados como Clistenes e Wandson da Silva Ximendes, que aparece na
agenda de Marcus identificado pelo apelido "Careca" e que reside em
Vitorino Freire, o reduto político de Juscelino Filho.
A reportagem tentou contato telefônico com os
telefones de Clistenes, Thamara e Andreza, mas ninguém atendeu nem respondeu às
perguntas sobre as mensagens de Whatsapp. A reportagem tenta, sem sucesso,
contato com Marcus Vinícius Sales desde a semana passada, e encaminhou pra ele
as conversas utilizadas na matéria, mas não obteve retorno.
Em relação a Roseana Sarney, a reportagem entrou em
contato com a assessoria da deputada e encaminhou as mensagens que foram
divulgadas neste texto, mas não obteve nenhum retorno até o fechamento dessa
matéria. A reportagem também enviou email para a Secretaria de Infraestrutura
do Maranhão questionando sobre a situação de Junior Marreca, mas não obteve
retorno.
Fonte: Fórum/Brasil de Fato

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