Como a extrema direita insiste em manter a mobilização no Brasil
Poucas horas depois de ser eleito
para a presidência da Argentina, o economista populista Javier Milei
interrompeu as resoluções iniciais da transição para atender um dos seus
principais entusiastas no exterior: o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
A conversa foi intermediada por seu filho, o
deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mantém laços com o agora líder
do governo argentino pelo menos desde 2021, e que até fincou uma base
provisória em Buenos Aires nos últimos meses para ajudar- a corrida eleitoral
contra o então candidato ao governo, Sergio Massa. Por tudo isso, o tom de
Milei na chamada era de agradecimento.
Naquele mesmo dia, como prova disso, a nova equipe
da Casa Rosada anunciou que Bolsonaro era o primeiro convidado internacional
confirmado para a posse, que ocorreu em 10 de dezembro.
A vitória de
Milei – um antigo comentarista de televisão que adaptou e radicalizou o
libertarianismo do economista norte-americano Murray Rothbard no contexto
argentino, prometendo “dinamitar” o Banco Central e dolarizar a economia do
país enquanto fez alianças políticas com grupos que relativizam a ditadura
militar (1976-1983) – atiçou as redes ao redor de Bolsonaro.
Desde o início da votação na Argentina, em 19 de
novembro, os canais que o ex-presidente brasileiro sustentam no Telegram e no
WhatsApp, além de diversos grupos paralelos que reúnem seus apoiadores ou
diferentes movimentos de direita, acompanhando o pleito na Argentina com
atenção.
Quando do anúncio da vitória de Milei, perto do fim
da noite, as mensagens passaram a puular em meio a imagens de pessoas
comemorando em vários do Brasil – com fogos de artifício e gritos pelas ruas
cidades. Em um vídeo postado na madrugada de 20 de novembro, um apoiador
Aparecia buzinando por uma avenida com uma bandeira de Bolsonaro presa no
para-brisa do automóvel. Outro membro respondeu dizendo que o triunfo do aliado
no país vizinho o faria torcer para a seleção argentina no jogo contra o
Brasil, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, dias depois (o jogo, marcado por
brigas nas arquibancadas, terminou em 1 a 0 para uma Argentina).
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Agitar a base após 2022
"A chegada de Milei ao poder na Argentina
revigorou a base bolsonarista no Brasil”, aponta a pesquisadora Camila Rocha,
autora de Menos Marx, Mais Mises: O liberalismo e a nova direita no
Brasil (2021). “Sem contar que Bolsonaro e seus aliados políticos
vieram a aparecer para além dos grupos fechados que frequentam normalmente”,
completa ela, lembrando que o ex-presidente esteve na capa de quase todos os
jornais argentinos no dia seguinte à eleição.
De fato, mesmo inelegível para cargas públicas até
2030, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os estudiosos apontam
que Bolsonaro ainda encabeça praticamente todo o universo da extrema direita
brasileira – usando a mesma ferramenta de sempre: o celular. O que mudou foi
apenas a visibilidade desse seu governo paralelo.
"É o líder com a maior audiência dessa esfera.
O canal dele no WhatsApp está crescendo muito em número de membros nesses
últimos meses e, recentemente, ele perdeu o acesso a um grupo imenso que tinha
no Telegram. Preciso começar outro do zero que, hoje, é maior do que o
anterior”, aponta o pesquisador Wagner Alves, da Universidade de Dublin, na
Irlanda. O canal antigo possuía cerca de 63 mil membros. O atual já soma quase
2 milhões de inscritos.
Alves – que já estudou sobre os propagadores da
cloroquina durante a pandemia, e agora se debruça sobre as narrativas que
circulam nesses grupos em aplicativos de mensagens – observe que a extrema
direita mantém força no Brasil cotidiano muito por conta do seu discurso moral,
mesmo sem os holofotes que pertenciam à mídia tradicional.
"O conjunto de valores, ideias e perspectivas
altamente moralizantes sobre a vida, que é sempre acessível sobre a posição de
que é possível ‘conhecer a verdade' e, a partir dela, de tomar uma posição, de
salvar a nação, tem se renovado”, explica ele.
"Na verdade, o dispositivo de colocar o
sujeito no centro da ação, com a intenção de ‘remoralizar’; o país, permanece
tão forte quanto na época em que Bolsonaro era presidente. Só não é tão visível
como antes”, completa Alves.
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Mobilização e ecossistema de comunicação
A cientista política Thais Pavez, corrobora essa
visão adicionando outra camada: a extrema direita conseguiu manter sua base
mobilizada mesmo depois de perder sua representação institucional mais
relevante: a cadeira da Presidência.
“Antes da eleição de 2018 se criou um ecossistema
de comunicação capilarizado, que passa desde membros das forças de segurança
até entidades empresariais, e que não só continua durante o mandato de
Bolsonaro como, principalmente segue funcionando depois dele”, explica ela.
Para Pavez, que leciona no Departamento de Ciência
Política da Universidade de São Paulo (USP), esse universo se manteve intacto
por se basear, antes de tudo, em um senso de proximidade. Não é à toa, assim,
que o próprio Bolsonaro – ou seus filhos – frequentam muitos grupos de
apoiadores locais em aplicativos de mensagem.
"Isso se expressa nos conteúdos que circulam
por esses canais, cuja discussão permeiam os valores e as visões do mundo
dessas pessoas. É um processo que as aproxima da política, inclusive”,
completa.
Entre esses valores estão pautas que fizeram parte
do debate público brasileiro nos últimos anos, como o afrouxamento das regras
de posse de armas de fogo e regras mais severas de proteção aos crimes, por
exemplo. Tudo isso sem contar a insatisfação – muitas vezes violenta – com as
instituições políticas.
"Essa postura tem fôlego na sociedade civil
porque é continuamente conquistada por influenciadores políticos ou mesmo por
parlamentares bolsonaristas. Além disso, muitos nomes relevantes da direita
mais radical seguem lançando livros e organizando grandes eventos com as mesmas
temáticas”, conta Rocha.
Um exemplo disso é o Brasil Paralelo, uma produtora
de documentários que ajudou a sedimentar um revisionismo histórico à direita,
de cunho popular, e que hoje reúne 800 mil seguidores no X (antigo Twitter) e 3
milhões no Instagram.
Wagner Alves, da Universidade de Dublin, tem
justamente esse esforço de Bolsonaro em seguir sendo influenciador digital – da
extrema direita – em um país onde, só no Instagram, mais de 6% da população
ocupa o mesmo papel em diferentes áreas, de acordo com dados da consultoria
Influência.
É por isso que o bolsonarismo permanece como base
do específico no Brasil. "Com isso ele alcança duas coisas: espaço para
falar tudo o que ele quiser e, em paralelo, amplia diálogos com outros grupos
relevantes para o discurso dele, como os empreendedores pautados pela lógica da
meritocracia, por exemplo”.
Esse diagnóstico, aliás, tem ganhado cada vez mais
força entre os estudiosos do tema – baseado, sobretudo, na ideia de que uma
extrema direita impactou as estruturas da política contemporânea. “Morreu a
esfera pública nascida com a Revolução Francesa e nasceu uma nova, trazendo
consigo outra gramática política”, reflete, por exemplo, o historiador Julio
César Vellozo, da universidade Mackenzie, em São Paulo. “Saímos do tempo em que
a política tinha a crítica como centro e entramos em outro, cuja política tem
como centro a performance-denúncia”, continua.
É inclusive por isso que muitos candidatos ainda
viáveis institucionalmente têm procurado capilarizar ainda mais suas redes
sociais, como o deputado mineiro Nikolas Ferreira, apontou como possíveis herdeiros dos votos de Bolsonaro e
que tem 9 milhões de
seguidores apenas no Instagram – além de um canal próprio sem telegrama. É quase um terço de outro nome lembrado sempre pela
militância: a
ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (6,4 milhões de seguidores).
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Eleições 2024
Para além das comemorações pela vitória de Milei na
Argentina, especialistas apontam que o momento ideal para medir a força
subterrânea da extrema direita brasileira será nas eleições legislativas do ano
que vem.
Thais Pavez, da USP, não duvida que nomes ainda
desconhecidos do eleitorado mais amplos aplicados nas urnas a partir do ano que
vem – saídos, inclusive, da multidão que lançou as sedes do Executivo e do
Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, em janeiro. "Há uma série de
políticas de liderança que atuam na mobilização dessa base e que, caso
Bolsonaro perca força, têm condições de acampar o discurso e materializá-lo em
votos. Mesmo alguns que sofreram nos ataques e que estão presos hoje”.
Camila Rocha, por sua vez, entende que o nome do
ex-presidente terá impactos significativos nos resultados eleitorais em regiões
onde ele venceu no pleito de 2022, como o Sul, o Centro-Oeste e partes marcadas
do Sudeste e do Norte. “Eu diria que, em locais como esses, o apoio dele será
fundamental para eleger prefeitos e vereadores”, observa. “De fato, será o
momento de medir a força política de Bolsonaro e da própria extrema-direita no
país”, completa.
Pelos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
Bolsonaro foi amplamente mais votado em estados como Santa Catarina (venceu com
69% das urnas), no Mato Grosso (65%) e Roraima (76%). No total, o ex-presidente
venceu em 11 unidades federativas – incluindo o principal reduto eleitoral do
país, São Paulo (62%). “Esses dados continuam sendo muito significativos tanto
na mensuração da força de Bolsonaro quanto dos valores defendidos pela
extrema-direita”, prossegue Camila Rocha.
O nome de Nikolas
Ferreira, porém, é unânime entre os especialistas: jovem (27 anos), com uma
votação expressiva no seu estado (mais de 1 milhão de votos em Minas Gerais) e
com capilaridade altíssima nas redes sociais, ele é apontado como uma liderança
inequívoca do futuro próximo. No Congresso, ele é o principal responsável por
manter a narrativa bolsonarista no horizonte.
No entanto, apesar do peso nas urnas, pesquisadores
como Wagner Alves defendem que o interesse mais relevante permanece incrustado
no dia a dia da população, onde o discurso radicalizado à direita ainda se
esconde nas cotidianas. “A extrema direita perdeu força institucional, mas
segue firme na sociedade”, observa. “É uma bomba política”, finaliza.
Fonte: Deutsche Welle

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