terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Caso Choquei: Magno Malta ataca esquerda, mas ‘esquece’ que arruinou vida de pai ao acusá-lo de estuprar filha bebê

O senador bolsonarista Magno Malta (PL-ES) usou a morte da jovem Jéssica Canedo, que cometeu suicídio após ser alvo de fake news e ódio pelo perfil de fofocas Choquei, para atacar a esquerda.

Nas redes sociais, usuários condenam a Choquei, apontando a notícia falsa divulgada pela página como causa da morte de Jessica. Já a extrema direita explorou o viés editorial pró-Lula da Choquei, criando uma narrativa em torno da morte da jovem.

No X, antigo Twitter, o simpatizante do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou que a tragédia deve colocar o país em estado de alerta, atentando para a possível utilização do “caso Choquei” como pretexto para ampliar o controle da internet, referindo-se ao debate sobre a regulamentação das big techs.

“É muito triste uma vida tão jovem se perder por conta da fome de likes e engajamento que muitas vezes não leva em conta as consequências que terão sobre a vida das pessoas envolvidas”, escreveu.

“A situação também nos coloca em estado de alerta. Sabendo do histórico da esquerda e a atual situação do Brasil, é um momento propício para que se utilizem desta tragédia para ampliar o controle da internet. Atualmente já existem mecanismos jurídicos que podem e tenho certeza que vão fazer com que o culpado pague. Sufocar a liberdade de expressão não é a solução”.

Ao final, o parlamentar também propôs uma “solução” para lidar com a situação: “A solução é denunciar, investigar e julgar os fatos com os mecanismos que já estão disponíveis em nosso ordenamento jurídico e que, quando bem utilizados, são efetivos”.

A ACUSAÇÃO DE MAGNO MALTA

Em 2009, o então senador e pastor evangélico Magno Malta (PR), acusou o cobrador de ônibus Luiz Alves de Lima de ter abusado sexualmente de sua própria filha, que tinha apenas dois anos na época.

Durante esse período, Malta era presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia, mais tarde renomeada para CPI dos Maus-Tratos. Luiz Alves foi preso por nove meses, quando sofreu torturas que resultaram na perda de visão de um olho. O outro tem visão parcial.

Dia sim, dia não, ele era colocado amarrado dentro de um tonel de água gelada. Teve dentes arrancados por alicates, mas as marcas visíveis da tortura não podiam ser observadas por seus familiares: a polícia impedia a presença dos seus parentes.

Posteriormente, ele foi absolvido das acusações após exames confirmarem que sua filha ainda era virgem. Segundo o delegado, ele prendeu o cobrador depois de ouvir que Magno Malta tinha convicção de que teria ocorrido um estupro, baseado apenas na experiência do senador com a CPI.

 

Ø  Choquei toma atitude drástica diante das críticas na web

 

Desde a morte da jovem Jéssica Canedo, de 22 anos, que tirou a própria vida após sofrer ataques digitais sistemáticos decorrentes de uma fake news envolvendo o seu nome e o do humorista Whindersson Nunes, a página Choquei, que tinha cerca de 30 milhões de seguidores ávidos pelas suas fofocas de última hora, agora é alvo da revolta das redes sociais.

A maior página de fofocas do Brasil é apontada como uma das que espalharam as mentiras sobre a jovem. Uma conversa falsa entre Jessica e o humorista Whindersson Nunes foi divulgada em perfis nas redes sociais, incluindo a própria Choquei.

Usuários nas redes sociais exigem que a página de fofocas seja responsabilizada pela morte de Jéssica, que relatou,antes do suicídio, estar sofrendo ataques por conta da notícia falsa. A Choquei então apagou as postagens sobre a jovem após a veiculação da tragédia, que foi confirmada pelos próprios familiares de Canedo nas redes sociais na noite de sexta-feira (22).

No sábado (23), após apagar as postagens referentes, a Choquei publicou uma nota de esclarecimento se eximindo da culpa pela tragédia. Também apelou para a defesa da liberdade de expressão a fim de se antecipar a um eventual processo.

“Cumpre esclarecer que não há a responsabilidade a ser imputada pelos atos praticados, haja vista a atuação mediante boa-fé e cumprimento regular das atividades propostas (...) Por fim, reafirmamos nosso respeito pela intimidade, privacidade, bem-estar e pela integridade”, diz a nota.

Mas os internautas, não satisfeitos, adicionaram suas próprias notas à publicação, naquele formato de esclarecimento a respeito de possíveis fake news. Entre outras coisas, rebateram o argumento da página de que só publicaria informações verificadas.

“O compromisso do perfil nunca foi com responsabilidade e ética . Mais de 20% das postagens são falsas e não são verificadas. Não há cuidado com intimidade e privacidade”, marcaram os internautas.

E nesse contexto, de olho na Justiça, a página tomou uma atitude drástica, que afeta diretamente os seus negócios. Uma vez que monetiza a partir do volume de interações nas suas postagens, a página não poderia ficar inativa. Pois é exatamente o que aconteceu. Desde a publicação da nota de esclarecimento, a Choquei não fez mais nenhuma publicação mesmo estando entre os assuntos mais falados do momento.

 

Ø  Ministros e aliados de Lula cobram responsabilização de redes sociais após morte de estudante

 

Ministros do governo Lula (PT) defenderam neste domingo (24) a responsabilização de redes sociais por causa da propagação de notícias falsas.

A opinião de representantes do Executivo ocorre após a morte de Jéssica Canedo, 22, na sexta-feira (22). A estudante mineira cometeu suicídio após ter o nome envolvido em conversas falsas com o humorista Whindersson Nunes. De acordo com o conteúdo, os dois teriam um relacionamento.

"Tragédias como esta envolve questões de saúde mental, sem dúvida, mas também, e talvez em maior proporção, questões de natureza política", afirmou, em uma rede social, o ministro Sílvio Almeida, titular da pasta de Direitos Humanos e da Cidadania.

"A irresponsabilidade das empresas que regem as redes sociais diante de conteúdos que outros irresponsáveis e mesmo criminosos (alguns envolvidos na politica institucional) nela propagam tem destruído famílias e impossibilitado uma vida social minimamente saudável."

Almeida afirmou ainda que a regulação das redes sociais torna-se "um imperativo civilizatório" e que não implementá-la seria uma "aposta no caos, na morte e na monetização do sofrimento".

Perfis de fofocas compartilharam prints falsos de uma troca de mensagens entre Jéssica e Whindersson no Instagram, da empresa Meta. Uma delas fazia referência a um suposto pedido de encontro pessoal.

Os dois negaram a autenticidade do conteúdo e afirmaram que nem sequer se conheciam. Apesar disso, o conteúdo continuou circulando nas redes sociais.

A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, também se manifestou nas redes sociais sobre o episódio. Ela condenou "perfis nas redes sociais que lucram com a misoginia e disseminação de mentiras" e cobrou a responsabilização das plataformas.

"É inadmissível que o conteúdo mentiroso contra Jéssica, que fez crescer uma campanha de difamação contra a jovem, não tenha sido retirado do ar nem pelo dono da página nem pela plataforma X ao longo de quase uma semana, mesmo depois dos apelos da própria Jéssica e de sua mãe", afirmou Cida.

Em nota, a produtora que gerencia a carreira de Whindersson Nunes divulgou o posicionamento do artista sobre "a dimensão catastrófica de uma história inventada a partir de uma fake news".

"Whindersson Nunes foi surpreendido com a triste notícia do falecimento da jovem Jéssica. Perplexo com o desencadeamento desse novo massacre público proporcionado pelo uso negativo das redes sociais, o artista lamenta: 'Estou extremamente triste. Voltei ao dia em que perdi meu filho. Que ninguém passe pela dor de enterrar um filho'", disse o comunicado.

"A Nonstop Produções S.A. e Whindersson Nunes lamentam profundamente o ocorrido e prestam solidariedade à família da jovem Jessica, bem como repudiam, veementemente, o linchamento virtual e o uso nocivo das redes sociais."

Relator de um projeto de lei que prevê a criminalização da divulgação em larga escala de notícias falsas, Orlando Silva (PC do B-SP) afirmou que o caso da jovem é um episódio resultante da "cultura irresponsável e repugnante da 'lacração'". O texto tramita na Câmara dos Deputados.

"É preciso enfrentar esse estado de coisas, que remunera perfis e plataformas por mentiras que causam danos. As responsabilidades precisam ser apuradas e os autores, identificados e punidos. Não é um debate de esquerda ou de direita, é da civilização!", disse Silva, em uma rede social.

Após ter aprovada a tramitação em regime de urgência, o projeto de lei das Fake News perdeu fôlego e está paralisado em um impasse entre o setor artístico e empresas de radiodifusão, o que tirou o tema do radar de votações da Câmara dos Deputados.

A divisão e a polêmica em torno do projeto levaram os parlamentares a fatiá-lo na expectativa de facilitar a aprovação, mas a estratégia não vingou e segue sem previsão de votação.

 

Ø  Conheça as marcas que patrocinam o perfil de fofocas e o valor dos contratos

 

Um levantamento do Metrópoles, realizado em 2021, apontou que perfis de fofoca chegam a lucrar até R$ 20 mil por dia com publicações sobre celebridades e até mesmo sobre pessoas anônimas.

O caso de Jéssica Vitória Canedo, de 22 anos, que sofreu as consequências de uma difamação viralizada por essa rede de alta interação, é emblemático dessa indústria milionária.

Entre os principais beneficiados dessa tendência da publicidade no país está a agência Mynd8, que agenciava a Choquei, principal divulgadora da fake news envolvendo Jéssica e Whindersson Nunes.

A página mostra a força do retorno financeiro de uma mentira.

Em uma entrevista concedida ao Flow Podcast em 2022, Raphael Souza, proprietário do Choquei, revelou que seu perfil chegava a alcançar mais de 2 milhões de visualizações diárias. Esse sucesso de audiência atraiu contratos publicitários significativos para a página.

Ele preferiu não divulgar o maior valor que já obteve com publicidade, mas citou algumas das grandes marcas que investiram em seu perfil, entre elas Netflix, Nestlé, Carrefour, Lacta e Americanas.

A Banca Digital, um grupo de influenciadores geridos pela Mynd8, possui mais de 30 milhões de seguidores nas redes sociais.

Os primeiros famosos a se aproximarem do influenciador goiano, segundo ele, foram Wesley Safadão, a então dupla Simone e Simaria e o influenciador digital Carlinhos Maia. “Eles apoiaram mandando mensagem, incentivando”, contou.

“Com o passar do tempo, o alcance foi aumentando e comecei a ter contato com artistas, a fazer publicidade de clipes e vídeos, cobertura de eventos…”

 

Fonte: DCM/FolhaPress

 

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