sábado, 16 de dezembro de 2023

Brasil ganha com investimento em infraestrutura na América do Sul? Conheça o Rotas para a Integração

Com investimento de cerca de R$ 50 bilhões, o projeto de integração entre os países da América do Sul pretende dinamizar o escoamento de produtos, ao passo que aumenta a produtividade e diminui o gargalo do tempo logístico.

Durante a Cúpula do Mercosul, realizada na última semana, o governo brasileiro apresentou a iniciativa Rotas para a Integração, com 124 projetos que ampliam a conexão entre os países do continente e envolvem obras de hidrovias, rodovias, infovias, ferrovias, portos, aeroportos e linhas de transmissão de energia elétrica.

Novo Programa de Aceleração do Crescimento

De acordo com Simone Tebet, ministra do Planejamento, a maior parte das obras estão incluídas no Novo Programa de Aceleração e Crescimento (PAC). Entretanto, dez projetos, divididos em cinco eixos, foram apresentados como prioritários:

Ilha das Guianas: vai interligar o Norte do Brasil com Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela;

Manta-Manaus: vai promover e facilitar conexões entre a região Norte do Brasil com Colômbia, Equador e Peru;

Quadrante Rondon: vai interligar os estados do Acre, Mato Grosso, Rondônia com Bolívia e Peru;

Capricórnio: a proposta inclui dinamizar a logística entre os estados do Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina com Argentina, Chile e Paraguai;

Porto Alegre-Coquimbo: vai interligar o Rio Grande do Sul à Argentina, Chile e Uruguai.

As novas Rotas para a Integração estão sendo tocadas a partir do Consenso de Brasília, assinado por 12 presidentes dos países da América do Sul em maio deste ano.

Segundo Robson Cardoch Valdez, pesquisador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (NEL) da Universidade de Brasília (UnB), o programa remonta a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana (IIRSA), criada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso e o Conselho de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan), apresentada no segundo mandato de Lula.

Apesar dos homônimos que antecederam o projeto Rotas para a Integração não terem avançado — no sentido de tirar os estudos desenvolvidos do papel —, Valdez acredita que, com recursos carreados para as demandas específicas e apoio político para que essa agenda perdure enquanto política de Estado, o plano pode ser concluído.

"Para que todos esses projetos possam ser concretizados, vai precisar de um comprometimento do governo federal, do empresariado, no sentido de apoiar a alocação de recursos para esses projetos no orçamento da União", comenta.

Os recursos que serão destinados ao programa já estão definidos sob a seguinte divisão, conforme o governo federal: R$ 17 bilhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), R$ 15 bilhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), R$ 15 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômicos e Social (BNDES) e R$ 3 bilhões do Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). Os recursos do BNDES, esclareceu Tebet, contemplarão apenas obras de prefeituras e governos estaduais dentro do Brasil.

Valdez ressalta que uma característica comum entre os bancos de fomento da região é estarem conectados com a agenda do desenvolvimento sustentável, o que pressupõe um impacto positivo na área socioambiental.

•        Investimento em integração da América do Sul

Em relação aos benefícios que o Rotas pode gerar ao continente, Tebet contou, durante a Cúpula do Mercosul, a respeito de um processo de transação para ilustrar as vantagens do programa. Em 2022, Rondônia comprou US$ 2,7 milhões (R$ 13,5 milhões) de azeitonas do Peru.

Por conta da ausência de um canal que interliga as partes, a mercadoria teve de passar pelo canal do Panamá, chegar ao Brasil pelo Porto de Santos e percorrer quase todo o país pelas estradas, multiplicando por cinco a distância de 2 mil quilômetros entre o estado e as áreas produtoras no país vizinho.

Além dos ganhos logísticos regionais, Valdez aponta que as Rotas para a Integração podem incrementar a balança comercial do Brasil com o bloco asiático.

"O crescimento das exportações será muito benéfico para que a vulnerabilidade externa da balança de pagamentos do Brasil seja cada vez mais reduzida, haja vista que teremos a entrada de um fluxo maior de dólares nas reservas do Brasil."

O desenvolvimento das regiões impactadas pelas obras de infraestrutura também são pontos que, para o pesquisador, merecem ser destacados. "A partir da hidrovia do Mercosul, com a dragagem da lagoa Mirim, teremos ali a primeira hidrovia que vai ajudar a escoar ou receber a produção do Brasil para o Uruguai, do Uruguai para o Brasil, dinamizando uma região muito sensível do ponto de vista econômico, que é essa região do Uruguai."

Na medida em que a região passa a ter maior dinamismo econômico e logístico, Valdez aponta que esses locais passam a ter potencial para se tornar um polo cada vez mais atrativo de investimentos estrangeiros. "Isso fará com que esses investimentos venham para a região, com que as empresas desses países possam investir aqui e auferir seus lucros e remeter o lucro desses investimentos de volta para os seus países de origem, ou seja, os países desenvolvidos também poderão se beneficiar dessa infraestrutura."

"Os produtos brasileiros manufaturados são produtos com maior valor agregado na América do Sul e na América Latina em geral, e a infraestrutura logística é uma agenda positiva tanto para o pessoal do setor econômico-industrial, quanto para o setor produtivo do agronegócio brasileiro", conclui o pesquisador.

•        Quais os principais obstáculos de integração na América do Sul?

Na contramão dos ganhos e benefícios que a América do Sul pode ter com os investimentos em infraestrutura para melhorar a logística no continente, Valdez cita a ortodoxia de governos neoliberais como o grande desafio para atingir os resultados esperados. "São governos com maior restrição ao investimento público", destaca.

Como nesse cenário o investimento do setor privado acaba não sendo imediato, segundo o pesquisador, uma vez que o empresariado tem preferência "em alocar esses recursos em investimentos de curtíssimo prazo como bolsas de valores".

É aí que o investimento público se torna ainda mais importante, porque "possui o capital paciente, aquele capital destinado a investir e a esperar que esse investimento tenha maturação adequada para que possa render os frutos", disse, ressaltando ser importante que esses fatores sejam explicados à sociedade.

 

       Indenizações pela escravidão: Brasil entra como 'autor e réu' ante União Africana, afirma analista

 

A União Africana aumentou a pressão ante a comunidade internacional para pagamento de indenização aos países atingidos pelo comércio de escravos sequestrados do continente entre os séculos XV e XIX. Dentre as nações cobradas está o Brasil, com multa calculada em US$ 4,4 trilhões (R$ 21 trilhões), mas esse não é o único papel do país nessa história.

Para os especialistas ouvidos pelos jornalistas Melina Saad e Marcelo Castilho, apresentadores do Mundioka, podcast diário da Sputnik Brasil, o Brasil terá um lugar um tanto quanto singular dentro desses processos indenizatórios, que totalizam US$ 131 trilhões (R$ 640 trilhões) em reparações.

•        Como começou a escravidão africana no Brasil?

A escravidão africana no Brasil começou por volta de 1530, quando os portugueses estavam fincando as bases da colônia extrativista no Brasil.

A colonização da América portuguesa era, de início, para atender a mão de obra para produção nas lavouras.

A solução encontrada pelos colonizadores portugueses foi, então, sequestrar e trazer à força pessoas negras egressas de países da África.

Começaria ali um tráfico humano ultramarino que se perpetuaria pelos três séculos seguintes, até ser interrompido em 1850, por meio da promulgação da Lei Eusébio de Queirós.

"Somos um país que foi colonizado e, dentro dessa premissa, nós não tínhamos uma soberania, não tínhamos autonomia para escolher qual o caminho que poderíamos seguir", afirmou Priscila Caneparo, professora de direito internacional da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

De acordo com a analista, a dívida brasileira de US$ 4,4 trilhões (R$ 21 trilhões) é um valor muito mais atrelado às responsabilidades de Portugal, Holanda e Inglaterra do que a brasileira.

Nesse contexto, pode caber ao país pedir indenizações à essas nações europeias relativas a esse histórico.

"O Brasil vai ser autor e réu dentro dessa perspectiva."

•        Qual o objetivo da União Africana?

As indenizações requeridas pelos países da União Africana foram descritas no Relatório Battle, documento que detalha as responsabilidades financeiras e cria etapas concretas para o reparo histórico aos países da África.

Segundo o documento, "os Estados Unidos devem quase US$ 27 trilhões (R$ 132 trilhões), o Reino Unido US$ 24 trilhões (R$ 118 trilhões), e Portugal US$ 21 trilhões (R$ 103 trilhões)", aponta Caneparo.

Priscila Caneparo ressalta ainda que a escravidão e a comercialização de pessoas são crimes internacionais, que "ultrajam a consciência da humanidade, são os crimes mais decadentes em termos de direitos humanos".

"E crimes internacionais não prescrevem. Então, não dá para argumentar que aconteceu no século XV e no século XIX, já estão prescritos."

Nesse sentido, afirma, se a comunidade internacional perante às instituições supranacionais, como a ONU, não tomar uma atitude de reparo, "só vamos perpetuar as consequências da escravidão do século XV até o século XIX".

•        Quais os desafios da União Africana?

No entanto, Jean Menezes, advogado e professor de MBA em direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou que embora os crimes sejam imprescritíveis, a indenização não é. "O crime não é a indenização. A indenização é uma responsabilidade pecuniária no plano civil, ou no plano internacional civil, o crime é outra esfera."

Para Menezes, embora haja a cobrança por parte das nações africanas, é difícil que ela se concretize, uma vez que no cenário internacional não há a possibilidade de se forçar o pagamento. "Quando o devedor não paga, o juiz chama a polícia, vai lá ou pega a receita e tira dinheiro da conta do cara, manu militari, quer dizer, à força."

Por isso, o especialista ressalta o caráter exemplar da indenização, "no sentido de passar um exemplo para o mundo".

"Esses valores são válidos, mas eu diria que eles valem politicamente como uma flâmula, como uma ideia exemplar e ética para que o mundo se conscientize."

Caneparo concorda com a opinião de Menezes de que dificilmente um montante do tamanho de US$ 131 trilhões (R$ 640 trilhões) será pago em sua integridade, ainda que "sendo reta e direta, o problema é deles".

Para ela, contudo, as indenizações, além de serem uma reparação histórica, serve para abrir portas para as pautas do Sul Global dentro do mundo jurídico internacional e "vejamos uma reconfiguração do discurso e também daqueles temas trabalhados a partir também dos nossos interesses".

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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