terça-feira, 5 de setembro de 2023

Militares vivem clima de desconfiança com PF, e ministro da Defesa tenta contornar rusgas

O avanço das investigações contra militares ampliou o mal-estar entre integrantes das Forças Armadas com a Polícia Federal, instituições que já protagonizaram episódios de desconfiança mútua desde a transição de governo.

Generais da cúpula do Exército viram na coincidência de datas das operações que atingiram fardados e dias de festividades da Força uma possível ação dos policiais para ofuscá-los. Eles reclamam, sob reserva, que todas as datas de destaque do Exército até agosto foram marcadas por operações da PF.

Integrantes da Polícia Federal rechaçam que tenha havido qualquer intenção nesses atos além do mero cumprimento de decisões baseadas em achados de investigações e dizem que a avaliação não passa de teoria da conspiração.

A desconfiança de militares sobre a PF, porém, reflete como a relação vai mal, avaliam governistas. Diante dessa constatação, o ministro José Múcio (Defesa) e militares têm atuado para minimizar as rusgas.

Integrantes da cúpula do Exército reclamam, por exemplo, que em 3 de maio, quando o presidente Lula (PT) se encontrou com o Alto Comando e anunciou que o general Marcos Antonio Amaro assumiria o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), a Polícia Federal realizou a operação que prendeu o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL).

Também apontam que horas antes de Lula anunciar o investimento de R$ 53 bilhões do novo PAC para as Forças Armadas, em 11 de agosto, a pauta havia se tornado a operação contra o general da reserva Lourena Cid, pai de Cid, pela suspeita de participação no caso das joias.

Militares ainda reclamam de que o Dia do Exército, em 19 de abril, tenha sido marcado pela divulgação das imagens do circuito interno do Palácio do Planalto pela CNN Brasil, referentes aos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Como ação para melhorar a relação, Múcio tem falado com frequência com Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF. No último dia 23, o ministro fez questão de ir à PF para convidar Rodrigues para a cerimônia do Dia do Soldado, que ocorreria dali a dois dias, em 25 de agosto.

"Para mim, era importantíssima a presença dele. Eu vim enfatizar, e fiz questão de vir pessoalmente, poderia dar um telefonema, mas para mim é muito importante a presença dele, do ministro Dino e de todo um governo para mostrarmos à sociedade que estamos todos de um lado só", afirmou Múcio no dia.

Já Rodrigues afirmou ao jornal O Globo haver um "sentimento comum de sermos rigorosos com quem cometeu crimes".

Um dia antes de Múcio ir à PF, a corporação negou o acesso aos nomes dos militares com quem o hacker Walter Delgatti teria se encontrado no ano passado. Segundo relatos de militares, Múcio aproveitou o encontro para sondar o diretor da PF a respeito de eventuais operações em datas importantes às Forças.

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No mesmo esforço para reduzir a tensão, o comandante do Exército, Tomás Paiva, fez um convite para o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), voltar a fazer musculação na academia do Comando Militar do Planalto.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, Moraes usava o espaço no Setor Militar Urbano para realizar os exercícios diários ao lado de oficiais e praças, no início da manhã, antes de ir para o trabalho nos tribunais.

A rotina se manteve por cerca de três anos até ser interrompida em novembro de 2022. Contrariados com a forma como Moraes guiava o processo eleitoral, generais da cúpula do Exército informaram ao ministro que a academia passaria por reformas.

Moraes entendeu o aviso como um recado para não voltar ao local. Agora, com o novo convite, ele avalia puxar novamente os pesos em companhia dos militares.

Múcio também foi ao gabinete do ministro, no STF, fazer o convite ao Dia do Soldado pessoalmente. A empreitada deu certo, já que Rodrigues e Moraes compareceram ao evento.

Generais afirmam, sob reserva, que as ações para distensionar a relação com a PF não têm como objetivo blindar militares investigados pela corporação. A ideia, segundo os relatos, é garantir uma boa relação institucional.

Policiais federais ouvidos pela reportagem afirmam que a intenção das investigações não é mirar militares, mas apurar os ilícitos como um todo e individualizar condutas, independentemente de serem das Forças Armadas ou não. Ainda apontam que as desconfianças de militares com a PF refletem um espírito corporativista de proteção dos fardados.

O clima de tensão entre PF e militares começou ainda na transição, com uma queda de braço sobre quem iria coordenar a segurança do presidente Lula (PT).

O diretor-geral da PF, que comandou a proteção do presidente durante a campanha, e o ministro Flávio Dino (Justiça) defendiam que parte dessa atribuição saísse da alçada do GSI, o que aconteceu inicialmente.

Durante seis meses, os policiais ficaram responsáveis pela segurança imediata de Lula, da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).

Em junho, porém, o decreto que criou a secretaria que abrigava esse modelo expirou, a coordenação sobre a proteção presidencial voltou para o GSI e entrou em vigor um modelo híbrido. A PF continua fazendo integralmente a segurança de Janja, e alguns policiais atuam na de Lula.

Mas um decreto que visa regulamentar a atuação da Polícia Federal nesse caso está parado no Ministério da Gestão.

Também no início do ano, PF e Ministério da Defesa divergiram a respeito dos rumos do GSI. Desde os ataques do dia 8 de janeiro, as desconfianças da polícia com o Gabinete de Segurança Institucional aumentaram. Integrantes da cúpula da corporação desconfiam que integrantes do órgão tenham facilitado ou sido omissos com as invasões ao Palácio do Planalto.

Além disso, sempre atribuíram aos militares parte da culpa pela organização dos atos pela avaliação de que eles foram gestados nos acampamentos de apoiadores de Jair Bolsonaro em frente aos quartéis-generais.

Dino chegou a chamar os acampamentos de "incubadoras" de terroristas, antes do 8 de janeiro. Justiça e PF atuaram para desarmar esses locais, mas os militares não deixavam.

Nesse contexto, integrantes da polícia defendiam que o GSI fosse comandado por um civil, não por um militar. O ministro da Defesa, por outro lado, atuou junto a Lula para que ele mantivesse a tradição de deixar um militar à frente do órgão.

 

       GSI diz não ter imagens da reunião de hacker e Bolsonaro

 

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República informou, em ofício enviado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8/1, que não tem imagens do suposto encontro entre o hacker Walter Delgatti Neto e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Assinado pelo chefe do gabinete adjunto de gestão interna do GSI, Valdomiro Luís de Sousa, o ofício é uma resposta a um requerimento apresentado pela deputada Jandira Feeghali (PCdoB-RJ).

A parlamentar pediu acesso a “imagens, internas e externas, do Palácio do Alvorada e do Ministério da Defesa entre os dias 1º/7 e 31/12 de 2022”. Os locais foram citados por Delgatti no depoimento do hacker à CPMI. Na ocasião, ele narrou supostos encontros com o presidente Jair Bolsonaro e com técnicos do Ministério Defesa para debater manipulação de urnas eletrônicas.

“O GSI aponta inviabilidade técnica para o atendimento da demanda”, informou o GSI à comissão, alegando que há “limitação do armazenamento de imagens” dos órgãos.

Na última semana, o Ministério da Justiça informou à CPMI que parte das imagens de câmeras de segurança do prédio foram apagados.

A comissão havia solicitado todas as imagens, mas o ministério enviou apenas as foram apreendidas pela Polícia Federal e que constam em inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

Após nova solicitação da comissão, o secretário-executivo Ricardo Cappelli informou, por meio de ofício, que as imagens encaminhadas à comissão são as únicas existentes. Cappelli justificou que as imagens ficam armazenadas apenas por 30 dias, segundo contrato com a empresa responsável pelas câmeras, e que após o prazo “ocorre automaticamente o processo de regravação”.

“As imagens encaminhadas à CPMI até o dia 30 de agosto referem-se aos registros considerados, pelas autoridades competentes, importantes para instrução dos inquéritos, e que foram, portanto, preservados”, afirmou.

 

       Mensagem mostra Cid confessando contrabando de joias

 

O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), comentou em uma mensagem de aplicativo que o modo não-oficial de entrada de joias saudistas em território brasileiro se tornou um grande complicar no caso. Algumas delas, por exemplo, teriam sido trazidas dentro de uma mochila. “Esse foi o grande problema”, escreveu ele.

Ele utilizou a frase em uma mensagem enviada em 4 de março deste ano, durante conversa com o advogado e ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro, Fabio Wajngarten.

Cid se refere ao caso do possível esquema de venda e recompra dos presentes enviados por delegações estrangeiras, durante o governo Bolsonaro, em 2021. O colar de diamantes entregue pelo governo saudita ficou retido na Receita Federal, enquanto o kit rosê gold entrou no Brasil através da mochila de um dos assessores do ex-ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

As mensagens trocadas entre Cid e Wajngarten foram obtidas pela colunista Juliana Dal Piva, do portal Uol. Nelas, o tenente-coronel envia um tuíte de um perfil de humor que mencionava que as joias estariam escondidas em uma mala diplomática, e o fim da mensagem questionava o motivo de trazerem “escondido”.

A coluna ainda revelou que Cid admitiu, também em março, que os itens eram “de interesse público, mesmo que sejam privados”, fato que contradiz o argumento da defesa do ex-presidente, que chegou a pedir a devolução das joias ao Tribunal de Contas da União (TCU), por “pertencerem a Bolsonaro”.

A PF investiga se Jair Bolsonaro tinha conhecimento das negociações ilegais feitas por Cid, ou até mesmo se ele foi responsável por instruir os ajudantes de ordens a vender os presentes sauditas no exterior. Tanto o ex-presidente quanto Michelle Bolsonaro tiveram a quebra do sigilo fiscal e bancário autorizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

A Operação Lucas 12:2 investiga o destino de presentes entregues ao então presidente Jair Bolsonaro durante visitas oficiais. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), os itens devem ficar no acervo da União, e não no acervo pessoal do ex-mandatário.

Em 11 de agosto, aliados e auxiliares de Bolsonaro foram alvos de ação da PF no caso das joias. São eles: o general da reserva Mauro Cesar Lourena Cid, o ex-ajudante de ordens e tenente-coronel Mauro Cid, o advogado da família Bolsonaro Frederick Wassef e o segundo-tenente Osmar Crivelatti.

 

       Wassef nega osbtrução da Justiça

 

A defesa do advogado Frederick Wassef negou nesta segunda-feira, 4, que ele mantenha contato com outros investigados no caso das joias e rechaçou que versões tenham sido combinadas antes dos depoimentos prestados à Polícia Federal (PF).

O criminalista Eduardo Pizarro Carnelós, que representa Wassef, disse que o cliente ‘não tem interesse em proteger nem acusar quem quer que seja’.

 “Esclareço que ele (Wassef) não se manifestará sobre os fatos investigados, e qualquer informação que ele tiver será prestada às autoridades responsáveis pela apuração”, diz a nota.

Conhecido pelo estilo midiático, Wassef adotou um tom mais discreto desde que entrou na mira da investigação. Ele tem evitado falar publicamente sobre o caso, alegando que precisa respeitar o sigilo do inquérito. O advogado tem sido mais cuidadoso para não correr o risco de se indispor com os investigadores.

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A Polícia Federal afirma que Wassef viajou aos Estados Unidos para recomprar um relógio Rolex que teria sido desviado do acervo da União por auxiliares do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O item precisou ser devolvido ao patrimônio público por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU).

O advogado e auxiliares de Bolsonaro prestaram depoimento à PF na última quinta. O ex-presidente e a ex-presidente-dama, Michelle Bolsonaro, também seriam ouvidos, em depoimentos simultâneos, mas decidiram ficar em silêncio alegando que o caso deveria correr na primeira instância e não no Supremo Tribunal Federal (STF).

LEIA A ÍNTEGRA DA MANIFESTAÇÃO DE EDUARDO PIZARRO CARNELÓS

“Nos últimos dias, têm sido divulgadas notas em vários órgãos de imprensa, atribuindo informações a fontes diversas, todas elas com especulações a respeito do que teria dito o advogado Frederick Wassef em seu depoimento à Polícia Federal, bem como sobre alegadas condutas dele. Referidas notas trazem versões fantasiosas e inverossímeis, mentiras crassas e ofensas a Wassef, numa evidente tentativa de indispô-lo com autoridades constituídas e com outras pessoas chamadas a prestar depoimento nas investigações, sem que ele próprio tenha feito nenhuma declaração a quem quer que seja, e que pudesse sustentar essas fofocas, cujo propósito adicional é macular sua credibilidade.

Na condição de advogado de Wassef, esclareço que ele não se manifestará sobre os fatos investigados, e qualquer informação que ele tiver será prestada às autoridades responsáveis pela apuração, cujo sigilo será sempre respeitado. Frederick Wassef não mantém contato com outras pessoas chamadas a depor, nunca tendo procurado combinar com ninguém o que dizer. Na esfera adequada, relatará sempre o que sabe, já que não tem interesse em proteger nem acusar quem quer que seja. Quando deixou a sede da Polícia Federal em São Paulo no dia 31 de agosto, Wassef disse aos jornalistas que ele nada falaria, tendo até mesmo recusado revelar se respondera ou não às perguntas formuladas no depoimento, em respeito ao Supremo Tribunal Federal e à Polícia Federal, pois a investigação é sigilosa.”

 

Fonte: Agencia Brasil/FolhaPress/Metrópoles/Agencia Estado

 

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