segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Luiz Carlos Azedo: "Depoimento de Mauro Cid desorientou defesa de Bolsonaro"

Ao optar pela Lei de Murici, a defesa do tenente-coronel Mauro Cid deixou o ex-presidente Jair Bolsonaro e os demais envolvidos no caso da venda das joias recebidas de presente da Arábia Saudita, inclusive a primeira-dama Michele Bolsonaro, diante de um desastre anunciado, que pode até terminar na cadeia. O depoimento de Mauro Cid à Polícia Federal durou 10 horas e quebrou o pacto de silêncio em torno do ex-presidente da República, que está cada vez mais vendido na história.

O ex-ajudante de ordens teve tempo de sobra para explicar o "rolo" do Rolex cravejado com brilhantes que Bolsonaro recebeu de presente da Arábia Saudita, além de outras joias. Foi vendido nos Estados Unidos pelo general Lorena Cid, seu pai, e recomprado pelo advogado Frederick Wassef, para ser devolvido ao Patrimônio da União. Nos bastidores da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Atos Golpistas, negocia-se uma delação premiada com a defesa de Mauro Cid. Seu novo advogado, Cezar Bitencourt, adotou uma linha independente da defesa.

Em conversa com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito, o presidente da CPMI, deputado Arthur Maia (PP-BA), e a relatora, senadora Eliziane Gama (PSD-MA), receberam sinal verde para fazer o acordo. Há dúvidas sobre as consequências jurídicas que um acordo dessa natureza teria: seria um fato jurídico inédito, sujeito a eventual nulidade.

O depoimento de Mauro Cid desorientou a defesa de Bolsonaro (PL) e da ex-primeira-dama Michelle, que estavam sendo blindados por uma única versão dos fatos. Por essa razão, permaneceram em silêncio ao serem interrogados pela PF. A PF colheu oito depoimentos de forma simultânea, para impedir que uma só versão fosse combinada pelos advogados.

Também foram ouvidos: o general Lorena Cid, que foi colega ex-presidente na Aman; o advogado Frederick Wassef; o ex-chefe de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten; e os ex-assessores especiais Marcelo Câmara e Osmar Crivellati. O advogado de Bolsonaro adotou a linha de que o ministro Alexandre de Moraes não é o juiz natural do caso, que deveria tramitar em Guarulhos, em cujo aeroporto as joias foram apreendidas pela Receita Federal.

A grande preocupação de Mauro Cid seria com a própria família, principalmente seu pai, que participou da operação de venda do Rolex nos Estados Unidos. A PF já tem muitas provas, inclusive trocas de mensagens incriminatórias entre o ex-ajudante de ordens e o ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, uma delas dizia: "o pior é que está tudo documentado", ao se referir ao empenho de Bolsonaro para recuperar as joias apreendidas no aeroporto de Guarulhos, em 2021, com um assessor do ex-ministro de Minas Bento Albuquerque. Wajngarten respondeu a Mauro Cid: "Eu nunca vi tanta gente ignorante na minha vida". Bolsonaro tentou reaver as joias antes de viajar para os EUA, em dezembro de 2022.

Cada um por si

A linha adotada pelo advogado Cezar Bitencourt na defesa de Mauro Cid é a Lei de Murici, em meio a declarações contraditórias, inclusive sobre a delação premiada. Argumenta que Mauro Cid cumpria ordens diretas do presidente da República. "Em tempo de Murici, cada um cuida de si", disse o coronel Pedro Tamarindo, ao ordenar a retirada das tropas do Exército na terceira campanha de Canudos, um dos maiores desastres militares de nossa história, depois de assumir o seu comando.

Consagrado na Guerra do Paraguai, o sanguinário coronel Moreira César fora nomeado para comandar a terceira expedição militar contra Canudos, após o fracasso das anteriores, diante dos jagunços de Antônio Conselheiro. Partiu do Rio para a Bahia com 1.281 soldados, seis canhões Krupp, cinco médicos, dois engenheiros militares, ambulâncias e um comboio de munições e mantimentos. Foi mortalmente ferido no ventre, quando se preparava para invadir o arraial de Antônio Conselheiro. Foi substituído pelo coronel Pedro Tamarindo, que decidiu recuar, após sete horas de combate. Foi trágico aquele 3 de fevereiro de 1897.

"Recolhidas as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas(…) empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do tenente-coronel Tamarindo", revelou-nos Euclides da Cunha (Os Sertões, Ateliê).

 

       Noblat: Por que Mauro Cid decidiu cantar, cantar até perder a voz se for o caso

 

De trás para frente: não foi porque, de repente, tenha se convencido de que só a verdade liberta. Para ele, para tantos, a verdade é uma coisa relativa, algo que obedece às circunstâncias. Se for conveniente, ela deve ser dita, do contrário, escondida.

Mauro Cid, ex-ajudante de ordem de Bolsonaro nos últimos quatro anos, não decidiu contar parte do que sabe à Polícia Federal porque só agora, e com atraso, reconhece que o ex-presidente a quem serviu com tamanho zelo pôs a democracia em perigo.

Por mais que, com aquela carinha e penteado, pareça um idiota, com ar de adolescente desligado do mundo ao seu redor, ele teve que estudar muito para chegar a tenente-coronel. Em algum momento, aprendeu a distinguir democracia de ditadura.

Não aprendeu que o golpe de 64 que suprimiu a democracia foi um golpe porque isso não se ensina nas academias militares; muito menos que fez um tremendo mal ao país, porque isso também não se ensina. Mas ali também não se ensina que golpe é coisa boa.

Ensina-se, de maneira errada, que o artigo 142 da Constituição confere às Forças Armadas o papel de intervir sempre que a ordem pública estiver ameaçada. Noutras palavras: a missão de tutelar o Poder Civil, e não de serem tuteladas por ele.

Também não foi porque se arrependeu de ter feito do seu pai, o general Mauro Cesar Lourena Cid, um muambeiro de joias roubadas por Bolsonaro do Estado brasileiro, e de ter se transformado, ele mesmo, em muambeiro. Não foi por isso.

Mauro Cid decidiu cantar, cantar porque concluiu que Bolsonaro estava prestes a repetir com ele o que fez com tantos outros: cortar-lhe a cabeça para salvar a sua. Talvez Mauro Cid tenha imaginado que com ele não seria assim. Enganou-se. Seria.

Por meio de terceiros, Bolsonaro tentou acalmar Mauro Cid, garantindo-lhe que estavam juntos, que sempre estariam juntos, e que por isso fechasse o bico. Até que avistou uma casca de banana do outro lado da rua e resolveu ir pisá-la, como de costume.

Foi quando Bolsonaro disse que Mauro Cid tinha autonomia para tomar decisões sem consultá-lo. Decisões sobre pagamento de despesas com o cartão corporativo da Presidência, manejo de presentes e trocas de mensagens sobre o que bem entendesse.

Bolsonaro tirou o seu da reta, pôs na reta o de Mauro Cid, o do pai de Mauro Cid, e o de quem mais necessário fosse. Nada de excepcional na trajetória de um covarde. Só que Mauro Cid pensou que com ele seria diferente. Não foi. O amor engana. Taí.

<><> Clã Bolsonaro estaria revoltado com Wassef, que ganhou novo apelido

Frederick Wassef, que já admitiu ter ido aos Estados Unidos para recomprar um relógio Rolex que havia sido vendido dentro de um esquema ilegal de apropriação de bens que deveriam ser incorporados ao patrimônio do Estado brasileiro e que Jair Bolsonaro tentou surrupiar, teria ganhado um novo apelido entre pessoas próximas do ex-presidente.

Segundo o jornalista Ricardo Noblat, o círculo mais íntimo de Bolsonaro estaria se referindo ao advogado como "Wassefalo", sinalizando uma provável ira do ex-mandatário contra o homem que escondeu Fabrício Queiroz em um imóvel na cidade de Atibaia (SP).

A irritação do clã Bolsonaro com Wassef teria como motivação o fato do advogado ter falado muito mais do que "devia" em depoimento à Polícia Federal (PF) na última quinta-feira (31). Diferentemente de Jair, Michelle e do ex-assessor de Comunicação do antigo governo, Fabio Wajngarte, Wassef não manteve o silêncio - pelo contrário, falou por mais de 4 horas.

Um dos principais temores de Jair Bolsonaro, para além do depoimento de Wassef, é o conteúdo que a PF pode encontrar nos celulares do advogado, que já estão sob perícia.

•        Racha na defesa

Enquanto a Polícia Federal (PF) aprofunda as investigações sobre o tráfico de joias recebidas pelo governo brasileiro para venda nos EUA, uma guerra interna entre os advogados Frederick Wassef e Fabio Wajngarten, ex-assessor de comunicação da Presidência (Secom), implodiu a estratégia de defesa da Organização Criminosa e complicou ainda mais a situação de Jair e Michelle Bolsonaro (PL).

O racha ficou explícito na quinta-feira (31) durante o depoimento simultâneo marcado pela PF. Bolsonaro e Michelle seguiram a estratégia do silêncio, proposta por Wajngarten e os advogados Paulo Bueno e Daniel Tesser. Além deles, o coronel Marcelo Câmara também se calou na oitiva.

Já Mauro Cid e o pai, o general Mauro Lourena Cid, decidiram falar e deram de ombro para a estratégia armada por Wajngarten.

Wassef, que já ameaçou dar o nome do "mandante" da recompra do Rolex, falou por quatro horas no depoimento à PF. Mais ligado a Mauro Cid, o tenente Osmar Crivelatti também ignorou à orientação dos advogados de Bolsonaro.

O racha na estratégia de defesa é uma extensão da guerra entre Wassef e Wajngarten.

Pivô do caso das "rachadinhas", que deu guarida a Fabrício Queiroz em seu sítio em Atibaia, Wassef quer se vingar de Wajngarten, que o classificou como "burro demais" em troca de mensagens com Mauro Cid durante a operação de recompra do Rolex nos EUA.

"Por isso era muito melhor a gente se antecipar", diz Wajngarten sobre a devolução das joias ao Tribunal de Contas da União (TCU). "Mas o gênio do [Marcelo] Câmara e Fred contaminam tudo”, emenda, antes de atacar diretamente a capacidade cognitiva do advogado.

A exposição da conversa provocou a ira em Wassef, que a amigos próximos tem dito que vai "acabar com Wajngarten".

O advogado do clã Bolsonaro tem dito ainda que o "corno judeu", como se refere a Wajngarten, tem vazado informações e "plantado" notícias contra ele.

O racha caiu como uma bomba na defesa de Bolsonaro, que adotou o silêncio para evitar contradições no depoimento à PF que poderiam complicar ainda mais a situação dele diante do avanço das investigações.

Embora tenha adotado a estratégia definida por Wajngarten, Bolsonaro teme a chegada de informações sobre uma investigação conduzida pela PF em parceria com o FBI, que mira um suposto esquema de lavagem de dinheiro com imóveis nos EUA.

De acordo com as investigações, Bolsonaro e Wassef seriam cúmplices na empreitada, que teria resultado na compra de cerca de 20 imóveis em nome de laranjas - entre eles a ex-esposa do advogado, Maria Cristina Boner.

A PF apura se o suposto esquema estaria relacionado às joias, mas mira ainda os contratos da Globalweb Outsourcing, empresa fundada por Maria Cristina, que recebeu mais de R$ 41,6 milhões em contratos com o governo Bolsonaro.

A briga entre Wassef e Wajngarten divide Bolsonaro, que não pode soltar a mão de nenhum dos dois comparsas investigados na Organização Criminosa das joias.

Para isso, a defesa pretende ganhar tempo questionando a legitimidade do processo tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF), sob o manto de Alexandre de Moraes.

A estratégia busca ainda desviar o foco das denúncias incitando apoiadores radicais contra o ministro da corte, um dos alvos preferenciais do ex-presidente durante seu mandato.

 

       Hélio Negão cobra Campos Neto após vazamento sobre Bolsonaro

 

O deputado Hélio Negão (PL) cobrou do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, respostas sobre o vazamento de informações sigilosas de Bolsonaro.

Amigo pessoal do ex-presidente da República, Hélio Negão quer que o chefe do BC dê “informações detalhadas acerca do vazamento de doações recebidas via Pix por Bolsonaro nos seis primeiros meses de 2023“. O parlamentar enviou um requerimento ao gabinete de Campos Neto.

“É possível determinar o período em que o referido vazamento ocorreu? É possível determinar se houve alguma relação do referido vazamento com a retirada do Conselho de Controle de Atividades Financeiras [Coaf] do âmbito do Banco Central do Brasil e a sua vinculação temporária ao Ministério da Fazenda?”, questiona o deputado.

 “Quais medidas estão sendo tomadas pelo Banco Central do Brasil para evitar novos vazamentos e a utilização do aparato estatal para exposição de informações sigilosas?”, prosseguiu Hélio Negão.

Em julho, a imprensa revelou que o ex-presidente recebeu R$ 17 milhões em doações. O movimento teve início após aliados patrocinarem uma campanha de vaquinha para ajudar Bolsonaro a quitar multas aplicadas pela Prefeitura de São Paulo por descumprimento de regras sanitárias durante a pandemia.

A divulgação da notícia desagradou ao entorno de Bolsonaro, uma vez que expôs o enriquecimento do ex-presidente, que devia cerca de R$ 1 milhão, uma fração perto do total arrecadado com a vaquinha.

 

       As mentiras, trapalhadas e ataques à imprensa de Jair e Michelle Bolsonaro em evento do PL Mulher

 

As participações do ex-presidente Jair Bolsonaro e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro no encontro distrital do PL Mulher, neste sábado (2) em Brasília, foram marcadas por mentiras, trapalhadas e ataques à imprensa.

A presença do ex-presidente não tinha sido confirmada oficialmente, mas o roteiro seria ele aparecer em um telão, de surpresa, diante dos presentes para dizer algumas palavras.

Em dado momento, Michelle avisou sobre a aparição, informou que “aquele presidente que não perdeu as eleições” iria falar. No entanto, como o Brasil já sabe, Bolsonaro foi derrotado nas urnas e agora está inelegível.

Jair não esperou a hora certa para entrar e tampouco fez sua participação através do telão. Resolveu aparecer de surpresa, fisicamente, por um dos cantos do palco, atropelando a fala de uma das participantes com os urros de “mito” dos presentes que logo começaram.

Nesse momento, todos passaram a aplaudir Bolsonaro, incluindo o mestre de cerimônia. Quem se incomodou e chamou a atenção do ex-presidente e dos demais presentes foi a própria Michelle.

“Vamos deixar ela terminar a fala dela e daqui a pouquinho ele vai falar. Acalmem-se. Sentem-se. Amor, só um minutinho. Vamos sentar todo mundo em respeito, ele entrou antes da hora. Mito depois, agora não,” pediu.

•        Animosidades com a imprensa

Mesmo estando credenciados para acompanhar o evento, os jornalistas que compareceram para fazer a cobertura foram impedidos de entrar no encontro. A alegação da organização foi curta e grossa: “jornalista não pode”.

As informações a respeito do evento foram obtidas pelo portal Uol que conseguiu acessar o evento, uma vez que seus profissionais não se identificaram e não portavaram crachás.

A respeito da imprensa, a ex-primeira-dama fez uma fala classificada como “discurso em tom pastoral” pelo repórter presente em que qualificou os meios de comunicação como “veículos de desinformação”. O reclame de Michelle remonta de 2019, quando se falava sobre os cheques depositados a ela por Fabrício Queiróz.

“Pensei em morrer por tantos ataques que sofri da mídia, e eu cheguei só querendo fazer o bem, como muitos aqui fazem o bem e sofrem,” afirmou.

 

       "Bolsonaro vai ser preso. Ele abusou do direito de abusar", diz Joaquim de Carvalho

 

Ao comentar o escândalo das joias sauditas e da venda dos presentes oficiais do governo pelo clã Bolsonaro, o jornalista Joaquim de Carvalho afirmou que é apenas questão de tempo até Jair Bolsonaro (PL) ser preso. Segundo Joaquim, já estão provados os crimes de peculato e obstrução de justiça - e vale lembrar que, neste segundo caso, a prisão preventiva pode ser autorizada.

"O Bolsonaro vai ter que ser preso, vai chegar a hora que ele vai ser preso. Ele abusou do crime de abusar. Não é como se alguém tivesse direito de abusar, [acontece que] às vezes se tolera, mas ele transformou isso em rotina, em regra. A questão do peculato já está provada", disse o jornalista durante sua participação no Bom Dia 247 deste sábado (2).

Joaquim mencionou o papel do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, que ficou encarregado de recomprar um relógio Rolex de ouro branco e diamantes, recebido como presente oficial do governo brasileiro por autoridades da Arábia Saudita, que havia sido vendido nos EUA: "a obstrução de justiça também está provada, tentaram apagar o rastro do crime, porque se não era crime não precisavam fazer o que fizeram: uma operação clandestina para o Wassef recomprar um bem público para poder devolver. Isso é obstrução de justiça. Fizeram, depois sabiam que erraram e depois tentaram enganar a Justiça".

"Então vão ter consequências, a prisão de Bolsonaro vai ocorrer. Mas como eu disse, isso depende de movimentos também da sociedade", concluiu.

 

Fonte: Correio Braziliense/Metrópoles/Fórum/Brasil 247

 

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