segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Governo precisará de R$ 168 bilhões a mais em 2024 para fechar as contas

A equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conta com um aumento significativo da arrecadação de impostos em 2024 para atingir a meta de "déficit zero" nas contas do governo, incluída na proposta do Orçamento do próximo ano.

Especialistas ouvidos pelo g1, no entanto, apontam que as medidas são "incertas" e que existe "viés de otimismo" na proposta de Orçamento.

O projeto de lei com a previsão de despesas e receitas para o próximo ano foi enviado pelo governo federal ao Congresso Nacional na última quinta-feira (31).

O texto prevê um equilíbrio nas contas públicas em 2024 – ou seja, sem resultado negativo nem positivo no próximo ano.

Para gastar exatamente o quanto pretende arrecadar, no entanto, o governo precisará aumentar as receitas em R$ 168 bilhões.

A proposta de orçamento já trouxe as medidas apontadas pelo governo para impulsionar a arrecadação, mas parte ainda precisa ser votada por deputados e senadores.

É o caso, por exemplo, da tributação de "offshores" no exterior e de fundos exclusivos, e do fim da dedução dos juros sobre capital próprio. As três ações juntas podem render até R$ 31 bilhões, segundo estimativas da equipe econômica.

Para a diretora da Instituição Fiscal Independente, Vilma Pinto, se por um lado a meta de zerar o déficit em 2024 sinaliza o compromisso do governo com a disciplina fiscal, por outro, há incerteza quanto à viabilidade da própria meta.

Isso porque, segundo a especialista, a dependência de medidas que ainda estão tramitando no Congresso pode frustrar a expectativa de arrecadação para 2024.

“O que me preocupa nesse projeto de Orçamento que foi apresentado para o ano que vem é que boa parte das receitas que estão ali colocadas na peça orçamentária são receitas ainda incertas”, afirmou Vilma.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddadjá reconheceu que será difícil aumentar a arrecadação no valor necessário para zerar o déficit nas contas do governo no próximo ano.

"Não estamos negando o desafio, não estamos negando a dificuldade. Estamos reafirmando o compromisso da área econômica em obter o melhor resultado possível, levando em consideração a opinião do Congresso Nacional”, disse Haddad na última quinta.

·         Despesas 'subestimadas'

Na avaliação de Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, há um “viés de otimismo” nas estimativas de receitas, mas também nas projeções de despesas que estão na proposta de Orçamento para 2024.

Para o pesquisador, existem despesas subestimadas – por exemplo os gastos com benefícios previdenciários.

Ou seja: Mendes calcula que o valor reservado pelo governo federal para esses pagamentos no ano que vem será insuficiente.

A proposta de Orçamento prevê cerca de R$ 914 bilhões para despesas previdenciárias. Na estimativa do especialista, seriam necessários ao menos mais R$ 16 bilhões para essa categoria, considerando o impacto do reajuste do salário mínimo no valor dos benefícios e a fila de pedidos que estão represados.

Como parte dos benefícios previdenciários equivalem ao salário mínimo, eventuais reajustes no salário mínimo impactam no valor dos benefícios previdenciários.

O projeto de lei enviado ao Congresso prevê que o salário mínimo suba para R$ 1.421 em 2024, aumento de R$ 101 em relação ao patamar atual, que é de R$ 1.320.

·         Medidas para aumentar a arrecadação

>>> Veja medidas propostas pelo governo na proposta de Orçamento para aumentar a arrecadação em até R$ 168 bilhões em 2024:

Volta do voto de qualidade no Carf, órgão colegiado responsável pelo julgamento de recursos de empresas multadas pela Receita Federal. Expectativa de arrecadação: R$ 54,7 bilhões

Realização de transações da Receita Federal e da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) com os contribuintes que possuem débitos. Expectativa de arrecadação: R$ 43,3 bilhões

 Incentivos fiscais de ICMS na base de cálculo de impostos federais (IRPJ e CSLL). Expectativa de arrecadação: R$ 35,3 bilhões

Fim da dedutibilidade dos juros sobre capital próprio, que consiste em uma forma de distribuição dos lucros de uma empresa de capital aberto (que tem ações na bolsa) aos seus acionistas. Expectativa de arrecadação: R$ 10,5 bilhões

Tributação de "offshores", ativos financeiros no exterior. Expectativa de arrecadação: R$ 7 bilhões

Taxação dos chamados fundos exclusivos, fundos de investimento fechados, compostos geralmente por um único cotista de alta renda. Expectativa de arrecadação: R$ 13,3 bilhões

Taxação do mercado de apostas eletrônicas em jogos esportivos. Expectativa de arrecadação: R$ 700 milhões

 

Ø  PIB forte no 2º tri gera onda de revisões e economistas já veem alta de 3% em 2023

 

Com um resultado forte e bastante acima do esperado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no segundo trimestre, economistas começam a refazer as contas e a elevar suas projeções de crescimento para 2023.

Na banda mais otimista das novas estimativas, já há até os que falam em crescimento na casa dos 3% neste ano.

Até a semana passada, a projeção média do mercado era de 2,3%, de acordo com o Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central (BC) que capta as expectativas de bancos e consultorias para os principais indicadores da economia.

Entre abril e junho, a economia brasileira cresceu 0,9% na comparação com o trimestre anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As estimativas esperavam um número bem mais tímido, entre 0% e 0,3%.

O desempenho se soma a um primeiro trimestre que também já tinha sido forte e surpreendente, com uma alta de 1,8% — segundo dados revisados pelo IBGE.

O resultado, explicam os economistas, é que só o crescimento realizado no primeiro semestre já garante a alta na casa dos 3% para o resto do ano.

“O forte crescimento no começo deste ano mostra que, mesmo se não houver elevação da atividade para os outros trimestres do segundo semestre de 2023, o PIB brasileiro irá crescer 3%, superando a atual projeção de mercado, que está em 2,3%”, escreveu o Ministério do Planejamento e Orçamento em nota divulgada pela manhã, após o PIB.

É o que os economistas chamam de “carregamento estatístico”, uma espécie de herança matemática deixada de um trimestre para o outro: como a primeira metade de 2023 já elevou a riqueza do país a um nível razoavelmente mais alto do que o de 2022, o país nem precisaria crescer mais para fechar o ano com esta alta de 3%.

E é mais ou menos o que deve acontecer: com pequenas diferenças decimais, as projeções para o segundo semestre são de uma economia parada, crescendo perto de zero.

Mas, com base apenas nos números mais fortes entregues no segundo trimestre, os bancos e corretoras já refizeram as contas para o resultado do ano.

>>>> Veja algumas casas que revisaram a projeção para o PIB de 2023:

  • Goldman Sachs: de 2,65% para 3,25%
  • Banco Master: de 2,5% para 3%
  • J.P.Morgan: de 2,4% para 3%
  • PicPay: de 1,9% para 3%
  • Banco Inter: de 2,2% para 2,8%
  • BTG Pactual: de 2,2% para 2,8%
  • ASA Investments: de 1,7% para 2,5%

>>>> Surpresas positivas

“O que está por trás de nossa revisão é que o PIB continua surpreendendo positivamente”, diz o diretor de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos.

O banco tem, agora, uma das projeções mais otimistas para 2023, de crescimento de 3,25%, revisado nesta sexta-feira, após a divulgação do PIB, de uma projeção anterior de 2,65%.

“A fortaleza da economia no primeiro semestre, embora a gente ache que ela vá entrar em uma parada agora, já deixa o ano bem encaminhado para esse crescimento acima de 3%.”

“De um lado, temos as commodities ainda ajudando essa fase boa que o PIB está vivendo, e que têm a ver com as surpresas na agropecuária“, disse o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo.

“Do outro, há o consumo das famílias, que foi relativamente bom, e que tem a ver com a melhora da inflação, o que inspira as pessoas a tomarem um pouco mais de risco e consumir.”

A Órama revisou sua projeção para o crescimento da economia brasileira e espera agora alta de 3,1%. O resultado anual embute um segundo semestre quase parado: o crescimento no terceiro trimestre deve ser zero e, no quarto, 0,2%, na comparação com os três meses anteriores.

“Houve uma surpresa bastante positiva no segundo trimestre por conta dos serviços, que tem mostrado uma desaceleração muito gradual”, diz economista da ASA Investments, Leonardo Costa. A casa revisou sua projeção de 1,7% para 2,5%.

“Provavelmente a ampliação do gasto fiscal no começo deste influenciou para um crescimento maior que as expectativas, além de um elemento que tem sido um dos mais resistentes, que é o mercado do trabalho, com a taxa de desemprego próxima das mínimas históricas.”

 

Ø  Especialistas mantêm posição otimista para investimento chinês neste ano após tombo de 78% em 2022

 

O volume de investimentos chineses no Brasil caiu 78% em 2022, na comparação com o ano anterior, alcançando o valor total de US$ 1,3 bilhão, o menor desde 2009, conforme apontou o relatório mais recente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Com isso, o Brasil ficou em nono lugar entre os destinos que mais receberam investimentos chineses no mundo em 2022 — uma queda de oito posições em relação a 2021, quando ficou no topo da lista, com US$ 5,9 bilhões. 

O recuo pode ser explicado pelo fato de alguns investimentos necessitarem de uma série de licenças para o início de suas operações, conforme aponta o estudo, o que eventualmente pode adiar sua execução. 

Em 2021, a taxa de efetivação em relação ao número de anúncios chegou a 97%, com apenas um empreendimento não confirmado, em 2022 esse percentual caiu para 78%. 

Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC, também pontua que a pesquisa pode ser melhor avaliada quando analisada a partir do número de projetos realizados no país. 

“O melhor termômetro de interesse é o número de projetos, porque vemos quais setores estão sendo investidos. Podemos ter menos projetos com um valor muito alto, mas isso não necessariamente quer dizer que há um grande interesse em investimentos, porque não tem diversificação de setores”, explica. 

Considerando o número de empreendimentos, as companhias chinesas investiram em 32 projetos no Brasil, 14% a mais do que em 2021, superando o pico registrado em 2018 e estabelecendo um novo recorde.

Para Cariello, o valor investido é uma consequência da soma do número de projetos. “Nos anos anteriores, tivemos menos projetos, mas um ou outro eram muito grandes. Percebemos uma falta de grandes projetos em 2022, investimentos muito altos que não foram colocados em prática, mas podem ser colocados em prática ao longo dos próximos meses”, pontua.

O diretor do CEBC também ressalta que existe a questão da burocracia envolvida nos processos de aprovação e execução desses projetos. 

·         Mais fatores de peso

Daniel Lau, sócio da KPMG e líder do China Desk, explica que outros dois fatores pesam contra a realização de investimentos chineses no país.

O primeiro se deve a um processo cultural, já que até o final de 2022 a China ainda impunha muitas restrições para viagens devido à Covid-19.

“O executivo chinês gosta de ir até o local e conhecer o espaço físico antes de realizar alguma transação comercial”, explica o especialista. Por isso, sem poder realizar esses deslocamentos, os empresários diminuíram o número de negócios realizados no último ano.

“A quantidade de investimentos chineses diminuiu no mundo todo, não apenas no Brasil, principalmente pela dificuldade de viajar para o exterior”, avalia.

Além disso, a maior competitividade em países vizinhos do Brasil para fomentar e construir oportunidades de investimentos também contribuiu para diminuir o volume de investimentos.

“Argentina, Chile, Peru, México e Colômbia têm atraído bastante investimento chinês, uma década atrás, eles não eram tão bem estruturados em termos de captação para atrair capital chinês”, explica.

Ao mesmo tempo, Lau explica que as empresas chinesas possuem hoje uma visão de negócios muito mais refinada para as oportunidades globais. Com um olhar mais ampliado e técnico, a disputa pelo capital chinês no continente acirrou.

·         Perspectivas para 2023

Apesar da queda no volume investido em 2022, os especialistas concordam que a China não perdeu interesse no Brasil como um mercado de alto potencial para realizar grandes aportes, e avaliam que o volume de investimentos deve ser maior este ano.

“Apostaria em um crescimento [no volume de investimento] em 2023, por conta da base de comparação baixa”, explica Tulio Cariello.  

Os setores de energia e infraestrutura são os que mais atraem capital, na avaliação do diretor do CEBC. “Se tivermos leilões, é quase certo que essas empresas [chinesas] vão participar, porque o interesse delas no nosso mercado é claro”, pontua.   

Lau avalia que, olhando o ano passado de maneira isolada, a análise fica fora do contexto.

O especialista explica que a China possui um novo eixo de crescimento robusto das exportações de produtos manufaturados, o que implica em um aumento de investimentos fora do país.

Os segmentos de veículos movidos a energia renovável, a promoção de painéis solares e energia eólica e a construção de baterias de lítio são os segmentos de maior interesse chinês no mundo.

“A China está cada vez mais competitiva, e a gente vê apenas uma parte desses investimentos aqui no Brasil, temos muitos projetos até o fim do ano entrando nesses principais segmentos”.

 

Fonte: g1/CNN Brasil 

 

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