Educação em SP: se mexer, Feder!
Professora
(Benedito Lacerda/Jorge Faraj)
Eu a vejo todo dia
Quando o sol mal principia
A cidade a iluminar
Eu venho da boemia
E ela vai, quanta ironia
Para a escola trabalhar
Louco de amor no seu rastro
Vaga-lume atrás de um astro
Atrás dela eu tomo o trem
E no trem das professoras
Em que outras vão, sedutoras,
Eu não vejo mais ninguém
Essa operária divina
Que lá no subúrbio ensina
As criancinhas a ler
Naturalmente condena
Na sua vida serena
O meu modo de viver
Condena porque não sabe
Que toda culpa lhe cabe
De eu viver ao Deus dará
Menino querendo ser
Para com ela aprender
Novamente o be-a-bá
Em 1939, Benedito Lacerda e Jorge Faraj, compuseram
essa música, cujo tema é a educação, centrada na figura da professora. Na
canção, o personagem masculino, um boêmio, “vigia”, observa e “persegue
platonicamente” a personagem feminina, uma professora, encantado com ela, com
sua profissão e dedicação. Revela um olhar respeitoso e carinhoso sobre a
educação e seus profissionais. Bem diferente do olhar da dupla Tarcísio e
Feder.
As atitudes e falcatruas levadas a cabo contra a
educação em São Paulo por Feder com o apoio do governador são inúmeras. Houve o
aplicativo instalado sem autorização nos aparelhos de professores, alunos e até
pais. A desculpa, depois que o caso veio à tona e repercutiu mal na opinião
pública, é que foi sem querer. A mesma desculpa dada no Paraná quando o mesmo
distinto era secretário da educação por lá. Haja sem querer, haja desculpas
esfarrapadas. Anteriormente a Secretaria da Educação, dirigida pelo empresário
fantasiado de secretário, editou uma Portaria obrigando diretores a fazer o
monitoramento de professores em sala de aula e produzir relatórios sobre isso.
Fato que desrespeita totalmente a liberdade de cátedra, além de ser uma manobra
para retomar o projeto Escola sem Partido já julgado inconstitucional pelo
Supremo Tribunal Federal. Desse último ataque, a dupla do mal não recuou.
Esse dueto tenebroso aprontou outra. Pela primeira
vez retiraram o estado de São do Programa Nacional do Livro Didático. Foram
obrigados a retroceder depois de muita pressão da opinião pública, da Apeoesp e
de uma liminar que os obrigava a voltar atrás. Entretanto impuseram um material
didático digital com erros absurdos. Afirmam que doenças como Parkinson,
Alzheimer e depressão são transmitidas pela água, que a cidade de São Paulo tem
praias e que D. Pedro II assinou a lei Áurea, dentre outras pérolas. Apesar
disso, o antigo Ceo da Multilaser e ainda sócio da empresa, perfumado de
secretário da educação, não pára com o saco de maldades e tabajarices: cria uma
regra que permite excluir da escola aluno que tenha 15 faltas consecutivas.
Medida inconstitucional que desconsidera o grau de vulnerabilidade
socioeconômico dos nossos estudantes. Cerca de 3 milhões de alunos podem ser
prejudicados. Seu chefe, Tarciso, ex-ministro de Bolsonaro, não quer ficar
atrás nas maldades. Anuncia que irá repassar verbas da educação para as Santas
Casas. Sem entrar no mérito se as Santas Casas necessitam ou não de repasses,
retirar o já parco dinheiro da educação é “bondade das boas” como disseram
ironicamente Vinicius de Morais e Carlos Lyra na música “Comedor de gilete”
(Pau-de arara).
A coisa já começou cheirando mal. No apagar das
luzes do governo Rodrigo Garcia, que apoiou Tarcísio e Bolsonaro no 2º. Turno,
foi assinado um contrato de R$ 200 milhões entre a Secretaria da Educação e a
Multilaser. Detalhe: Renato Feder já havia sido escolhido secretário por
Tarcísio de Freitas. Questionados pela imprensa, ambos disseram, sem ficar
ruborizados, que não havia nada ilícito, pois o sócio da Multilaser ainda não
havia assumido o cargo, o que ocorreria dez dias depois. Só que não parou por
aí. Já durante a gestão do governador, apoiador do Bolsonaro, com Feder na
secretaria, mais três contratos milionários foram assinados com a Multilaser.
Agora com outras secretarias, particularmente a da saúde. Questionados,
disseram que não havia problemas, pois não foram contratos com a secretaria da
educação. Isso que é “bondade das boas” e essa turma ainda tem a cara de pau de
se pintar como guardiões da moralidade. Pois bem, é essa parceria mal cheirosa
que quer fiscalizar e perseguir professoras e professores. Quanta saudade do
olhar romântico e carinhoso sobre a educação do boêmio da música Professora. É
bom nos revigorar com essa saudade, porque é preciso eliminar o que fede, o que
cheira mal, na educação em São Paulo.
Justiça
manda governo Tarcísio tirar do ar apostila digital com erros
A juíza Simone Gomes Rodrigues Casoretti, da 9ª
Vara da Fazenda Pública de São Paulo, determinou que o governo do estado retire
do ar, em até 48 horas, o material digital didático utilizado por estudantes da
rede pública de educação. A decisão foi tomada após a divulgação de que slides
das apostilas contêm erros graves de informação.
Em um dos erros detectados, conteúdo de história
voltado aos alunos do 9º ano do ensino fundamental aponta que a cidade de São
Paulo tem praias. Na mesma disciplina, slide destinado ao 8º ano do ensino
fundamental indica que dom Pedro 2º assinou a Lei Áurea em 1888 – o que, na
verdade, foi feito por sua filha, a princesa Isabel.
A Secretaria de Estado da Educação, comandada por
Renato Feder, admitiu os erros e informou que os responsáveis foram afastados.
A ação popular contra o material didático foi
movida pela deputada estadual Professora Bebel (PT), segunda presidente do
Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp).
Na sentença, a juíza determina a suspensão do
material digital “até que seja revisado e siga os padrões estabelecidos pelo
Ministério da Educação e diretrizes curriculares”. A multa é de R$ 10 mil por
dia caso não seja cumprido o prazo de 48 horas.
• Material
didático diz que água transmitia Alzheimer
A Justiça de São Paulo ordenou que o material
didático do governo do estado seja derrubado até que seja plenamente corrigido.
Os materiais produzidas pela Secretaria de Educação de Renato Feder e Tarcísio
de Freitas (Republicanos) viralizaram na última semana por conta de erros
crassos.
No material, além de erros de concordância e
ortográficos, estavam outras informações erradas: segundo os slides do governo,
a cidade de São Paulo tinha praia, Jânio Quadros era prefeito paulista em 1961
e Dom Pedro II - não Princesa Isabel - assinou a Lei Áurea.
Além disso, os documentos também afirmavam que
beber água contaminada poderia transmitir (sic) Alzheimer, Parkinson e
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Agora, o material está suspenso até que seja
revisado, seguindo padrões estabelecidos pelo Ministério da Educação e
diretrizes curriculares do PNE.
Polícia
paulista se defende sobre violência
A controversa operação policial que o governo de
São Paulo mantém há pouco mais de um mês na Baixada Santista tenta minar,
segundo autoridades de segurança, a estrutura criada pelo crime organizado na
região.
A chamada Operação Escudo é uma das mais letais já
ocorridas em São Paulo, com 24 civis mortos desde 28 de julho. Mais de 700
pessoas já foram presas.
No entanto, a estratégia de embate armado em áreas
pobres de Santos e Guarujá tem levantado questionamentos não apenas sobre as
mortes, mas sobre a real efetividade da operação.
Uma avaliação que vem sendo repetida é que esse
tipo de investida pode produzir efeitos momentâneos e baixas em escalões
inferiores de quadrilhas, mas que não tem poder para abalar, de fato, a rede de
criminosos instalada na região.
Santos e Guarujá e, em menor escala, outros
municípios da Baixada, têm uma característica muito particular na economia do
crime no país.
São cidades que funcionam como uma espécie de
último entreposto no Brasil do fluxo de cocaína que é transportada em caminhões
e carretas desde os países produtores na região dos Andes e que tem como
destino a Europa e o norte da África.
O Porto de Santos -o maior do Brasil e cujos
terminais ficam em Santos e Guarujá – é, segundo autoridades brasileiras e
estrangeiras, a via preferida de traficantes que usam o território brasileiro
para abastecer o bilionário mercado europeu da droga.
Com base em estimativas feitas a partir do volume
de apreensões, Santos aparece como o segundo maior porto do mundo de onde saem
navios com cocaína que chega a Europa, de acordo com o Centro de Monitoramento
Europeu de Drogas e da Dependência das Drogas (EMCDDA na sigla em inglês),
órgão da União Europeia sediado em Lisboa que acompanha o mercado de
entorpecentes no bloco. O primeiro, nesse quesito, é o de Guaiaquil, no
Equador.
Boa parte da criminalidade local – que o governo do
Estado diz que busca sufocar com a operação especial – se organiza em torno
dessas transações de remessa da cocaína dentro de navios cargueiros.
“Estamos falando de um sistema econômico. Não se
trata de uma facção apenas, ou de uma quadrilha. É um sistema macro, do qual
fazem parte pessoas que estão aqui, que tomam comunidades como reféns, pessoas
que são capitalizadas por todo esse sistema”, disse na semana passada ao Valor
o comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, o coronel Cássio de Araújo
Freitas, durante uma rápida visita a Santos.
O problema é como fazer frente a esse sistema.
Desde 28 de julho, policiais militares e civis
levam adiante uma operação ordenada pelo governador Tarcísio de Freitas
(Republicanos) que começou como uma perseguição ao autor do disparo que, no dia
anterior, havia matado um policial militar que patrulhava uma área violenta do
Guarujá.
Uma semana depois, policiais já haviam matado 16
pessoas no Guarujá e em Santos. Passado pouco mais de um mês do início da
operação, o total de pessoas mortas pela polícia havia chegado a 24.
O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP)
concluiu a análise das imagens das câmeras corporais usadas pelos policiais
militares durante a operação no litoral paulista. Segundo os promotores, todas
as mortes foram de suspeitos que entraram em confronto com os policiais.
Eles tiveram acesso a mais de 50 horas de gravação.
Em três ocorrências, houve confrontos com criminosos. Em duas ocorrências, as
gravações não captaram os momentos das supostas trocas de tiros, mas, segundo o
MP, são importantes porque revelam falhas operacionais.
Desde o início, moradores de favelas e de bairros
pobres da região falam em abuso no uso da força pela polícia, invasão de casas,
perseguição e mortes que poderiam ter sido evitadas.
A Ouvidoria do Estado de São Paulo, uma instituição
que faz parte da Secretaria de Segurança Pública, diz que já encaminhou às
polícias 18 procedimentos baseados em relatos de excessos e de mortes
injustificadas que teriam sido cometidas por policiais na Operação Escudo. A PM
e a secretaria negam irregularidades.
José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da
PM paulista, ex-secretário nacional de Segurança e atualmente membro do
Conselho da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo,
é um dos que argumentam que ações de troca de tiros que levam a mortes em
favelas provocadas por policiais têm pouca ou nenhuma relevância para o combate
à estrutura ilícita associada ao narcotráfico internacional na Baixada
Santista.
“Quanto menos trabalho de inteligência, mais operações
de confronto armado são feitas”, diz.
Ele nota que, pela lógica do crime, aqueles que
optam pelo confronto com policiais na região tendem a ser membros de escalões
inferiores e são facilmente substituíveis. “Lideranças pequenas e
intermediárias são todas descartáveis para as organizações criminosas”, diz
ele.
Além de trabalho de inteligência, o especialista
argumenta que robustecer a cooperação entre órgãos e a troca de informações é
outra necessidade premente.
César Barreira, fundador do Laboratório de Estudos
da Violência da Universidade Federal do Ceará e professor titular aposentado da
instituição, lembra que a operação da Baixada Santista lembra outras, ocorridas
no Rio de Janeiro, Bahia e Ceará. Em comum, diz ele, começam imediatamente após
a morte de um policial em serviço e acabam com uma longa lista de mortos na
região onde o agente foi atingido.
“São ações que às vezes parecem vingança”, diz ele.
“O dado preocupante é que fica claro que confrontos desse tipo aumentam após um
policial ser morto, mas eles não têm efetividade contra a estrutura criminosa
em nenhuma região.”
Não se trata de defender que a polícia deva abdicar
do uso da força e de operações especiais em alguns momentos, afirma ele. Mas
que a polícia haja sempre nas duas frentes. “As polícias militares e civis têm
um trabalho de inteligência que é muito mais efetivo do que o confronto. No
entanto, em muitas situações parece que o confronto é mais usado e os ganhos
têm sido pequenos.”
No que pareceu um contraste em termos de
efetividade, agentes da Polícia Federal deflagraram na quarta-feira uma
operação de busca e apreensão em Santos e na vizinha Praia Grande, em endereços
ligados a integrantes de organização criminosa que usava o Porto de Santos para
despachar cocaína para o exterior.
Além das buscas, a PF foi atrás do dinheiro
auferido pelo grupo. Arrestou 12 imóveis de luxo e bloqueou contas bancárias
associadas aos criminosos, num montante aproximado de R$ 2,8 bilhões. Essa
organização, de acordo com a PF, é acusada de já ter enviado clandestinamente
em navios cargueiros saídos do porto nada menos que 17 toneladas de cocaína.
Operações desse tipo, dizem especialistas, tendem a ter mais efeito na cadeia
do tráfico do que os confrontos armados com criminosos de baixa patente.
O fluxo de cocaína pelo porto de Santos acabou
criando um diversificada oferta de prestação de serviços de criminosos locais.
“Aqui na Baixada a gente costuma dizer que o
negócio da droga usa um modelo parecido com o das revendedoras que vão de porta
em porta oferecer seus produtos. Alguém que trabalha em um dos terminais
portuários vislumbra alguma possibilidade de colocar droga nos carregamentos e
vende essa ideia para o crime”, disse à reportagem um servidor que atua há anos
no combate ao tráfico no porto.
Dois servidores públicos que estão no dia a dia do
combate aos crimes no porto dizem que a facção paulista coopta trabalhadores
que atuam nos terminais e com os quais levantam detalhes sobre horários,
cargas, navios.
O porto conta com 16 scanners sob os quais passam
todos os contêineres com cargas com destino à Europa e ao norte da África.
Milhares de câmeras pelos terminais ajudam na vigilância. Isso dificultou a
atuação criminosa, mas não conseguiu impedi-la totalmente.
Além de continuar usando contêineres, recentemente
o tráfico passou a recrutar um serviço mais sofisticado: mergulhadores
profissionais que se encarregam de esconder em compartimentos nos cascos dos
cargueiros pacotes à prova d’água contendo cocaína. Na semana passada, 247 kg
da droga foram encontrados por funcionários da Receita Federal e mergulhadores
da Marinha em um navio que iria para o Marrocos.
O controle de territórios também é crucial para a
logística ilegal da cocaína por meio do maior porto: como os carregamentos de
cocaína que chegam à Baixada Santista não são embarcados imediatamente,
precisam ficar estocados por um ou mais dias. Casas vazias, galpões, terrenos
em comunidades controlados pelo crime fazem as vezes de entrepostos apelidados
de “chão” ou de “mocó”.
A facção criminosa que é vista pelas autoridades
como a mais influente no narcotráfico internacional que passa pelo país tem no
Porto de Santos uma de suas principais estruturas de envio de cocaína para o
exterior, segundo o Ministério Público do Estado.
Mas a demanda firme dos europeus pela droga abriu
também portas para que criminosos locais também passassem a explorar o mercado
externo.
O peso da cadeia internacional da cocaína em
Santos, Guarujá e região coloca nas mãos de criminosos locais armas mais
pesadas, como fuzis e submetralhadoras. Coloca também mais dinheiro e mais
poder. E alimenta uma demanda sempre renovada por lavagem de dinheiro.
“Traficantes lavam dinheiro aqui comprando imóveis,
lojas, revenda de automóveis, restaurantes, farmácias. Até em shopping já
entraram”, disse uma servidora que também trabalha no encalço dos narcos da
Baixada.
É esse ecossistema ilícito armado em torno do
comércio internacional e também local da cocaína que a operação mantida pelo
governador Tarcísio tenta atacar e cuja efetividade é questionada.
A segurança na região e no porto em si é feita, em
alçadas distintas, pela Polícia Federal, pela Receita Federal, pela Polícia
Civil e pela Polícia Militar.
O coronel Freitas afirma que os 30 dias de
investida policial tem “tirado energia” das ramificações do sistema criminoso
na região. E que está produzindo também uma redução de roubos e homicídios.
Até o dia 30, segundo a Secretaria de Segurança do
Estado, 728 pessoas, das quais 280 eram procuradas pela Justiça, foram presas
na operação; e 93 armas 929,3 kg de drogas apreendidas.
“Quando a operação acabar, nós não vamos embora
deixando exatamente do mesmo jeito que era”, afirma o coronel Freitas. Ele fala
em investimento no 21º Batalhão da PM que cobre o Guarujá, em uma nova sede da
polícia também na cidade, em transformar a base comunitária na conturbada Vila
Zilda na melhor base da PM e em criar um sistema de monitoramento por câmeras.
Além de incrementos desse tipo, João Henrique Martins, coordenador do Centro
Integrado de Comando e Controle da Secretaria de Segurança Pública fala da
necessidade de mudanças na legislação de modo a impedir que criminosos perigoso
com alto poder financeiro gozem de progressão de pena.
Veterana na política em Santos, a ex-prefeita Telma
de Souza, uma das fundadoras do PT, tem sido uma crítica ao que entende ser
abusos da PM na Operação Escudo. Ela não descarta a ideia da necessidade de
reforço na segurança, mas relembra o argumento que pauta uma abordagem de viés
mais social. “A falta de políticas públicas acaba fazendo com que haja uma
franja enorme da população que fica à deriva e, muitas vezes, vai para aonde
pode sobrevive”, diz ela. “Onde a pobreza é mais acintosa é onde mais existe
apelo do tráfico.”
Fonte: Esquerda Net/Fórum/Metrópoles/Valor
Econômico

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