María
Corina Machado: 'A invasão à Venezuela já existe; o que precisamos é de uma
libertação'
Quando
a oposição ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela
parecia novamente abatida e sem possibilidades de provocar uma mudança, o prêmio Nobel da Paz concedido à sua
líder, María Corina Machado, renova as esperanças. O Comitê Norueguês do Nobel escolheu na sexta-feira
(10/10) Machado "por seu incansável trabalho na promoção dos direitos
democráticos do povo venezuelano e por sua luta para alcançar uma transição
justa e pacífica da ditadura para a democracia". Machado tentou de tudo em
sua luta contra o governo, primeiro de Hugo Chávez e agora de
Maduro. Participou de eleições e fez chamados à abstenção, sentou-se em mesas
de negociações que fracassaram e fez convocações para que as pessoas saíssem às
ruas. Como líder da oposição nas eleições de 28 de julho de 2024, ela organizou
uma estrutura que permitiu a publicação das atas eleitorais que mostravam a
vitória da oposição sobre Maduro, declarado vencedor pelo órgão
eleitoral sem
que os resultados fossem divulgados. Passado mais de um ano desde as eleições e
com Machado na clandestinidade, a pressão sobre Maduro agora vem dos Estados
Unidos, onde o presidente Donald Trump, próximo a Machado, endureceu a mensagem
contra o governante venezuelano, a quem considera chefe de um cartel de drogas.
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LEIA A ENTREVISTA:
·
María Corina Machado, prêmio Nobel da Paz de 2025. Você é
a segunda mulher latino-americana e a primeira venezuelana a alcançar este
reconhecimento. O que sentiu quando anunciaram a notícia?
Maria
Corina Machado -
Bom, eu acho que sinto o mesmo que estou sentindo agora. Ainda não consigo
acreditar. Não tive oportunidade de processar tudo. Mas, ao mesmo tempo, sinto
que o povo da Venezuela mereceu este reconhecimento. Milhões e milhões de
venezuelanos que deram tudo. Arriscaram suas vidas, suas famílias, seus bens,
tudo. Esta é uma injeção de energia, de ânimo, de força para concretizar a
última etapa desta luta, que é a libertação da Venezuela e a construção de uma
nação com pilares democráticos e éticos muito sólidos.
·
Apesar desta grande notícia que está rodando o mundo, na
Venezuela o ambiente não é de festa. O que você sente por não poder celebrar
este prêmio nas ruas com seus apoiadores e por a própria oposição não poder
comemorá-lo por medo?
Corina
Machado -
Mas é muito festivo dentro dos lares, e isso é algo muito poderoso que está
acontecendo na Venezuela. Entendemos que, diante deste regime de terror, é
preciso buscar mecanismos de ação, mas protegidos. Isso nos levou a inovar de
várias formas: nos organizando, nos comunicando e nos protegendo uns aos
outros. O que aconteceu nestas últimas horas na Venezuela é extraordinário. As
pessoas sabem, e me dizem, que este é um prêmio para todos os venezuelanos. Eu
vou além: diria que é para todos aqueles cidadãos do mundo que contribuíram
para que a voz da Venezuela e a força deste enorme movimento que construímos
continuassem crescendo, e para que realmente estejamos à beira da liberdade.
·
O governo tem permanecido em silêncio desde sexta-feira.
Você recebeu algum tipo de mensagem ou comunicação do governo?
Corina
Machado - Obviamente,
eles não se comunicam comigo. Obviamente, eles entendem que o que aconteceu é a
legitimação de todo este movimento que conseguiu uma vitória esmagadora em 28
de julho de 2024. Isso confirma que Nicolás Maduro está absolutamente isolado. Até
mesmo seus antigos aliados e os governos que o apoiavam o deixaram sozinho.
·
A Venezuela mudou muito desde que você fundou o movimento
Vente Venezuela em 2012, quando Hugo Chávez ainda estava no poder. Como evoluiu
sua luta?
Corina
Machado - A
Venezuela mudou muito em diversos aspectos. Sem dúvida, a parte mais evidente e
pública para a comunidade internacional é a destruição não apenas da nossa
economia, mas também dos nossos recursos naturais. O Produto Interno Bruto
(PIB) da Venezuela caiu 80% em uma década. Isso não aconteceu em nenhuma outra
parte do mundo. Outro dano terrível foi às instituições. Hoje, na Venezuela,
ninguém se atreve a falar — nem ativistas de direitos humanos, nem juízes, nem
jornalistas, nem sacerdotes. As pessoas são presas apenas por denunciarem a
inflação, o aumento dos preços ou a falta de alimentos. E, se não conseguem
prender a pessoa, prendem sua família. Esse é o nível de depravação que vimos
se instalar progressivamente no país, mas, ao mesmo tempo, essa força tem
crescido e nos unido. Em 2023, iniciamos, de olho nas primárias, um processo de
reencontro dos venezuelanos. O movimento foi capaz de realizar primárias contra
a vontade do regime, sem seus recursos nem o órgão eleitoral. Depois, conseguimos
construir uma plataforma cidadã inédita no mundo, com mais de um milhão de
cidadãos, que se transformou nessa força que, apesar de toda a repressão, hoje
coloca o regime contra a parede. Além disso, mudou enormemente a posição da
comunidade internacional, que compreendeu que não estamos enfrentando uma
ditadura convencional, mas sim uma estrutura criminosa que transformou a
Venezuela em um santuário para operações de todos os inimigos do Ocidente. Irã,
Rússia, Hezbollah, Hamas, os cartéis, as guerrilhas. Eles operam livremente na
Venezuela e, a partir daqui, desestabilizam a região. Agora o mundo entende
que, por se tratar de uma estrutura criminosa, é preciso tratá-la como tal,
aplicando a lei e a ordem internacional. Portanto, estamos em um momento único
e sem precedentes.O regime está mais fraco do que nunca, e a sociedade
venezuelana mais unida, esperançosa e organizada do que nunca.
·
Que autocrítica você faz neste momento?
Corina
Machado-
Claro que cometemos muitos erros. É preciso aprender com eles e assumi-los com
humildade. Sinto que o maior erro foi subestimar a crueldade e a falta de
escrúpulos do regime de Chávez e, depois, do de Maduro. Regimes que
sistematicamente provocam o confronto entre cidadãos, que buscam expulsar um
terço da população e fazer com que a sociedade passe fome, incluindo as
crianças. Nossas crianças não frequentam a escola pública. Na Venezuela, a
escola pública funciona apenas dois dias por semana, porque os professores
praticamente não recebem salário. Subestimamos um regime que buscou destruir a
sociedade para se apoderar da riqueza do território venezuelano com fins
criminosos.
·
Você protestou, participou de eleições e chamou à
abstenção. Pode-se dizer que experimentou todos os caminhos. Qual é o próximo
passo? Qual será a próxima etapa para a oposição venezuelana?
Corina
Machado - De
fato, percorremos todos esses caminhos. Estivemos nas ruas, protestamos,
dispararam contra nós, nos perseguiram, torturaram, assassinaram. Fomos a
eleições e roubaram-nas, mas, além disso, demonstramos nossa vitória e, sem
dúvida, participamos de dezenas de supostos diálogos, nos quais o regime
descumpriu os compromissos que havia assumido uma vez após outra. O próximo
passo é o que estamos dando agora. Finalmente entendemos que isso precisa ser
uma coordenação de forças internas e externas. Quando se enfrenta uma estrutura
criminosa, que no fim se sustenta pelos fluxos de dinheiro provenientes de suas
atividades criminosas, é preciso cortar esses fluxos. É preciso ter uma
sociedade organizada. Hoje somos dezenas e dezenas de milhares de cidadãos
comunicados subterraneamente, na clandestinidade, e precisamos que a comunidade
internacional dê passos firmes para que os fluxos de dinheiro que o regime usa
para corrupção e repressão deixem de chegar. Isso, finalmente, é o que está
acontecendo agora.
·
O chavismo acusou os EUA de planejar uma invasão.
Recentemente, foi publicada uma pesquisa que afirma que, diante de uma eventual
ação militar para "tirar Maduro", 44% dos entrevistados disseram que
sairiam às ruas para apoiar a ação, enquanto 7% sairiam para rejeitá-la. O que
você pensa desses resultados e qual é a sua posição a respeito?
Corina
Machado - A
Venezuela já vive uma invasão, absolutamente. De agentes cubanos, iranianos,
chineses, russos, de terroristas islâmicos e cartéis de drogas que assumiram o
controle de boa parte do nosso território, deixando rastros de sangue,
destruição, dor e fome. Por isso existe essa reação: aqui trata-se de uma
libertação. Em primeiro lugar, os venezuelanos já deram um mandato para mudança
de regime. Isso é muito importante, e o mundo sabe disso e reconheceu. Maduro é
claramente um criminoso. Ele é o chefe de uma estrutura criminosa, é um
ilegítimo que se apega ao poder pela força, aplicando terrorismo de Estado —
como já afirmou a própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos — e
cometendo crimes contra a humanidade, como apontou a missão de apuração de
fatos das Nações Unidas. Portanto, o país e a sociedade anseiam por liberdade
para poder avançar em uma transição ordenada. É claro que sabemos que
precisamos de apoio externo. Com o terror existente na Venezuela, o fato de
quase 50% da população dizer que deseja apoio significa que, na realidade, é
quase 90%, porque as pessoas têm medo de falar, mesmo em uma pesquisa.
·
Então a senhora apoiaria uma invasão como última
instância?
Corina
Machado - Quem
está falando aqui sobre invasão? Repito: a invasão já existe. A invasão já
existe. O que precisamos é de uma libertação. E, para isso, precisamos de
posições firmes, como a que houve ontem no Conselho de Segurança das Nações
Unidas, onde o Reino Unido manteve uma posição firme de liderança, como já fez
em outros conflitos no mundo, como no Oriente Médio e na Ucrânia, e que agora
assume em relação à Venezuela. Disseram que a única maneira de resolver o
conflito na Venezuela é uma transição ordenada que respeite a soberania popular
expressa em 28 de julho. Isso é exatamente o que vamos fazer e o que vai
acontecer. Agora depende de Maduro. Maduro precisa entender que lhe foi
oferecido um processo de negociação e que, se aceitá-lo, as coisas lhe sairão
muito melhor. Mas ele sairá do poder, seja qual for sua decisão.
·
Você é aliada de Trump, mas Trump está ordenando ataques
a barcos nos quais venezuelanos morreram e está acabando com o programa TPS,
que protege milhares de venezuelanos nos Estados Unidos do governo de Maduro.
Não há aí uma contradição? Alguns criticam que você mantém uma postura que não
busca contrariar Trump; você acha que não é compatível ter uma boa relação com
Trump e criticar os ataques nos quais venezuelanos morrem?
Corina
Machado -
Há apenas uma explicação: nós vamos libertar a Venezuela e oferecer proteção a
todos os venezuelanos dentro do país. Nove milhões de venezuelanos tiveram que
fugir por culpa direta de Nicolás Maduro, que assassina, empobrece e persegue. Aqui,
o responsável pelo que está acontecendo se chama Nicolás Maduro e seu entorno,
que nos declararam uma guerra aos venezuelanos, guerra esta que nós não
queríamos. Como você bem disse, tentei todos os mecanismos pacíficos, cívicos e
constitucionais. O responsável pelo que ocorre é Maduro, que dirige
pessoalmente um cartel de drogas. Uma coisa importante que quero dizer é que o
caso da Venezuela é diferente do de outros países. Há muitos países no mundo
onde cartéis de drogas e grupos criminosos infiltraram órgãos do poder público.
No caso da Venezuela, um cartel de drogas tomou posse de todos os órgãos do
Estado e usa isso para subjugar, perseguir, torturar e assassinar a população
indefesa, além de desestabilizar a região. Transformaram a Venezuela no hub do
crime organizado mundial, um país que está no coração das Américas. Então, quem
é o responsável para que outros países ajam em defesa de sua segurança
nacional? O responsável é Nicolás Maduro.
·
O que você diria aos opositores que não querem que os
Estados Unidos invadam ou ataquem a Venezuela?
Corina
Machado -
Só existem duas posições. Ou você está com o povo da Venezuela, que ordenou uma
transição para a democracia, ou está com um cartel e com o crime que Maduro
representa. Aí estão as duas posições: com o povo da Venezuela, acompanhado
pelos Estados Unidos e pela maioria das nações da América Latina, Caribe e
Europa. São pouquíssimos os casos que permaneceram em silêncio diante da
escalada criminosa de Nicolás Maduro. Portanto, não vou especular sobre as
motivações de algumas pessoas na Venezuela que se alinham à narrativa do
regime. Cada uma terá suas razões. Mas isso eu digo: a história vai julgar,
assim como hoje está julgando o povo venezuelano.
·
Em 2017, Trump já havia dito que todas as opções estavam
sobre a mesa e nada aconteceu. Por que desta vez é diferente?
Corina
Machado - Eu
acredito que estamos vivendo, como disse antes, um momento sem precedentes na
história da Venezuela. Nunca a sociedade esteve tão unida, tão organizada.
Temos uma liderança legítima. Temos a oposição absolutamente articulada e
unida, e uma sociedade coesa. Eu te pergunto: em que outro país do mundo você
encontra 90% da sociedade sem diferenças religiosas, raciais, regionais,
econômicas ou ideológicas? Todos queremos a mesma coisa. Isso é algo que nunca
havíamos alcançado em nosso país e me custa ver outro caso semelhante no mundo
hoje. Em segundo lugar, o regime está mais fraco do que nunca. Não apenas há
evidentes fissuras internas: eles se traem, se delatam, se temem uns aos outros
porque sabem que o tempo acabou. E, evidentemente, todos os crimes que Nicolás
Maduro cometeu ao longo desses anos, e seu entorno, criaram um dossiê
monumental, que não apenas os Estados Unidos, mas também países europeus e
latino-americanos possuem. E é o momento de tornar tudo isso público. Se há
algo que eu pedi aos governos democráticos, é que apliquem a lei. Precisamos
que as informações que têm sobre os crimes, sobre os laranjas que viabilizaram
o saque à Venezuela, sejam tornadas públicas, e que o sistema financeiro
daqueles países que acolheram esses capitais de sangue, os torne públicos e os
retire do regime, para que evidentemente não possam continuar sendo usados para
repressão, perseguição e terror. E acredito que estamos nos movendo nessa
direção, e é por isso que sou tão otimista e estou tão convencida de que a
liberdade para a Venezuela está muito próxima.
·
Você conversou com o presidente Trump na sexta-feira. O
que pode nos contar sobre essa conversa?
Corina
Machado - Sim,
ontem tivemos uma conversa. Foi uma boa conversa. Pude expressar a ele nossa
gratidão e o quanto o povo venezuelano está agradecido pelo que ele está
fazendo, não apenas nas Américas, mas em todo o mundo, pela paz, liberdade e
democracia. Fiquei muito feliz por termos tido a oportunidade de falar.
·
Você acredita que a solução da Venezuela já está nas mãos
de outros?
Corina
Machado - Jamais
pensamos isso, porque seria evadir nossa responsabilidade. Se algo aprendemos,
nós venezuelanos, é a corresponsabilidade.
Isso
não depende de alguns líderes internacionais ou nacionais. Depende de todos.
A chave
aqui está no povo, que, paradoxalmente, é a variável que sempre fica fora de
todos as análises feitas sobre a Venezuela nos últimos anos. Aqueles que diziam
que era impossível realizar primárias cidadãs sem o envolvimento do regime, os
que diziam que era impossível organizar e mobilizar a população para derrotar
Maduro em condições absolutamente fraudulentas nas eleições, os que agora nos dizem
que é impossível uma transição ordenada porque viria o caos — essa é a última
narrativa do regime. O caos são eles. Que outro caos poderia haver na
Venezuela, em um país onde a população não tem o que comer, não pode ir à
escola, não tem remédios nos hospitais? Portanto, essa tese de que a Venezuela
mergulharia no caos é absolutamente falsa, porque a chave está no povo, que vai
acompanhar o processo de transição. É claro que será muito difícil, duro,
delicado e complexo. Eles destruíram tudo. Nós não sabemos quais são as
reservas da Venezuela. Não sabemos qual é o orçamento do país. Não sabemos
quanto a PDVSA (a estatal petrolífera) produz, nem quanto é o gasto público.
Não sabemos nada. Não sabemos o que ocorre dentro da PDVSA, nem na Corte
Suprema. Nada. Tudo é obscuro. Uma verdadeira caixa preta, cheia de corrupção,
crime e máfia. Então, claro que será um grande desafio, mas asseguro a vocês
que haverá uma transição ordenada e pacífica, que é o que o povo determinou e
que o povo vai garantir.
·
Que mensagem você envia a Maduro hoje?
Corina
Machado -
Pela paz na Venezuela, vá embora agora mesmo. E pelo seu próprio bem, porque
com ou sem negociação, Maduro vai sair do poder muito em breve.
·
E qual é a mensagem que você envia aos venezuelanos que
ainda o seguem?
Corina
Machado - Eu
sei que mesmo entre aqueles venezuelanos que estão sendo ameaçados — porque são
funcionários públicos, porque lhes disseram que perderiam uma cesta básica se
não comparecessem às convocatórias absurdas do regime, ou entre aqueles que
estão sendo espionados e perseguidos pelas forças armadas, militares, policiais
e tribunais — também existe esse desejo de viver com dignidade e liberdade. São
venezuelanos que chegam em casa e encontram suas geladeiras vazias, cujos
filhos os questionam, que não podem olhar suas mães nos olhos, e que sabem que
aqui não há futuro. Enquanto isso, nós estamos de braços abertos dizendo:
"vamos reencontrar este país, como já reencontramos 90% dele". Restam
poucos. Esta vitória da Venezuela será histórica, não apenas para nós. Eu
acredito que será histórica para a humanidade, porque é um povo que enfrentou
as armas mais violentas e cruéis e decidiu se organizar, resistir e avançar
civicamente, acreditando em nossa força e em nossas ideias. E sinto que, hoje
mais do que nunca, este movimento e esta força que emerge vão transcender
nossas fronteiras. Isso não vai ficar apenas na Venezuela. Quando Maduro cair,
veremos como o regime cubano vai cair, como o regime da Nicarágua vai cair, e
teremos toda a América livre da tirania, das ditaduras e do narcoterrorismo.
Fonte:
BBC News Mundo

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