terça-feira, 14 de outubro de 2025

Marina Silva: Brasil vive contradições

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, afirmou, nesta sexta-feira, que o Brasil vive "contradições" ao mesmo tempo em que se prepara para sediar a COP30, em Belém, e discute internamente a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Apesar disso, reforçou o compromisso do país com metas ambiciosas de descarbonização e transição energética.

"Obviamente que todos nós vivemos contradições, e essas contradições estão sendo manejadas", declarou Marina, em coletiva de imprensa sobre a Pré-COP30, que será realizada em Brasília na próxima semana. "Mas eu vou me ater aqui às palavras do presidente Lula na cúpula em Dubai. É preciso sair da dependência do uso de combustível fóssil. E isso é possível fazendo com que as empresas que hoje exploram petróleo (...) se transformem em empresas de produção de energia", completou.

A titular da pasta voltou a destacar que o Brasil é o único país com meta de zerar o desmatamento até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050, dentro das metas apresentadas na NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada). Segundo ela, o compromisso é "ambicioso", prevendo uma redução de 59% a 67% das emissões até 2035, mas possível diante do avanço de políticas de controle ambiental.

"Nós sabemos que a raiz do problema (...) que leva ao aumento da temperatura da Terra é o uso de carvão, de petróleo e de gás", lembrou Marina. "Setenta e cinco por cento das emissões vêm desses três fatores. É por isso que precisamos mudar a matriz de energia no mundo, e é fundamental que os países desenvolvidos liderem essa corrida — tanto produtores quanto consumidores de combustíveis fósseis."

Marina ressaltou que o Brasil já conta com 45% de sua matriz energética limpa e 90% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, o que coloca o país entre os líderes globais na transição energética. "Temos alternativas não só para resolver nossos problemas, mas para ajudar outros países nessa transição. Somos, com certeza, um dos melhores endereços do mundo para investimentos verdes", sustentou.

Sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial, a ministra destacou que a Foz do Amazonas é uma área complexa, ainda com poucos estudos, e reiterou que a decisão não cabe ao Ministério do Meio Ambiente. "O Ibama não decide sobre os aspectos de oportunidade e conveniência de explorar ou não petróleo", explicou, ressaltando que a definição será feita pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), do qual ela faz parte, ao lado de outros 16 ministros.

<><> Negacionistas

Marina também comentou sobre a adesão de lideranças internacionais à COP30. Mesmo com resistências de governos negacionistas — como os de Donald Trump, dos Estados Unidos, e de Javier Milei, da Argentina —, ela ressaltou que essas nações estarão representadas na cúpula por meio de entes de governos subnacionais e sociedade civil.

"Haverá presença de lideranças políticas de países negacionistas, como é o caso do governador da Califórnia e do prefeito de Buenos Aires, que trarão a agenda de clima para o debate, numa demonstração de que não existe um apagão da ação climática", frisou.

A ministra lembrou que o Brasil fechou recentemente um acordo com a Califórnia para transição energética, apesar de Trump impor políticas antiambientais em nível nacional.

O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, disse que 162 delegações confirmaram presença, número que, segundo ele, "supera o necessário para validar as negociações".

•        Lula mostra otimismo com COP 30, mas arrisca decepção após evento

Em meio às críticas de delegações internacionais sobre a falta de estrutura cidade, Lula argumenta que os estrangeiros devem ver a região amazônica como ela é, e que os investimentos realizados para a COP vão beneficiar Belém no longo prazo. Porém, o otimismo do presidente pode gerar descrédito caso as promessas não sejam cumpridas

A agenda e Belém, que também incluiu uma visita ao arquipélago do Marajó, marca uma etapa simbólica da estratégia do governo federal de transformar a COP em um marco de requalificação urbana e reposicionamento político do Brasil no debate climático internacional.

Durante a visita, Lula destacou que as obras fazem parte de um projeto de legado que vai além dos dias da conferência. O presidente afirmou que as intervenções — que incluem ações de saneamento, mobilidade e infraestrutura viária — pretendem melhorar a qualidade de vida da população e deixar um impacto duradouro na cidade.

"Belém será, durante a COP, o centro do mundo. Mas o mais importante é que continue sendo uma cidade melhor para o seu povo depois que as luzes do evento se apagarem", disse o presidente, em discurso durante uma das inaugurações.

Durante os dois dias em que esteve no Pará, quinta e sexta passadas, o petista inaugurou creches e anunciou novas obras da educação, visitou o recém-criado Museu das Amazônias e o Parque da Cidade, onde a maior parte dos eventos ligados à COP, incluindo a reunião de chefes de Estado, ocorrerá. Ao todo, o investimento em obras de infraestrutura chega a R$ 6 bilhões.

Apesar do tom otimista do governo, especialistas avaliam que a visita de Lula tem também um forte componente simbólico. Para o cientista político Márcio Coimbra, o ato presidencial em Belém "possui um caráter essencialmente político e midiático, funcionando mais como um paliativo de imagem do que como um indicativo de eficácia na gestão das obras".

Segundo ele, o governo federal e o governo do Pará buscam projetar uma narrativa de comprometimento com a infraestrutura e a agenda ambiental, mas enfrentam o desafio histórico da falta de investimentos consistentes na região Norte.

"A escolha de Belém como sede da COP30 é, em tese, uma oportunidade para o Brasil reafirmar seu protagonismo nas discussões climáticas. Porém, a visita presidencial evidencia a defasagem crônica de investimentos na cidade", analisa.

<><> Efeito limitado

Ele pondera, contudo, que esse tipo de ação pode ter efeito limitado: "A curto prazo, gera manchetes positivas e melhora a percepção pública. Mas, se as promessas não se concretizarem, o resultado pode ser o oposto, alimentando o descrédito da população e da comunidade internacional".

Em meio ao entusiasmo oficial e às críticas sobre o ritmo das intervenções, Belém se prepara para receber, em novembro, mais de 30 mil visitantes de cerca de 190 países.

A cidade será palco de debates sobre descarbonização, financiamento climático e proteção de florestas tropicais — temas centrais para o governo brasileiro, que busca reposicionar o país como liderança ambiental após anos de retrocessos.

No entanto, o desafio de compatibilizar o discurso ambientalista com a realidade urbana e social da Amazônia continua a ser o principal ponto de tensão.

Para Márcio Coimbra, as expectativas em torno da COP30 "são ambiciosas, mas permeadas de ceticismo". Segundo ele, o evento é uma oportunidade de o Brasil retomar protagonismo no cenário internacional e de a região amazônica atrair investimentos em desenvolvimento sustentável.

"A escolha de Belém simboliza a importância de discutir o clima a partir de um território-chave para o equilíbrio ambiental do planeta", destaca. Mas o cientista alerta para os riscos de o país não corresponder às próprias promessas, feitas, inclusive, em fóruns mundiais.

"Há um temor de que a COP30 seja marcada por contradições. Se o governo não conseguir conter o desmatamento e não entregar melhorias urbanas significativas, o evento pode se tornar um palco de constrangimento — um contraste entre o discurso global e a realidade local".

O Palácio do Planalto aposta em deixar um legado de credibilidade ambiental e transformação social, reforçando que o Brasil quer liderar, de forma concreta, a transição verde mundial. Para isso, a execução das obras em Belém e a articulação política nas semanas que antecedem a COP serão decisivas.

Entre a diplomacia e o canteiro de obras, o governo tenta equilibrar o simbolismo político com resultados tangíveis — numa equação em que o sucesso da COP30 poderá definir, em grande parte, a imagem do país e do próprio presidente Lula no cenário global.

•        Combate à fome e às mudanças climáticas entre prioridades na COP 30

O governo brasileiro coordena a entrega de uma carta durante a 30ª Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudanças Climáticas (COP 30) em defesa do combate à pobreza, à fome e à ação climática. O documento, que já está praticamente pronto, será apresentado durante a cúpula de chefes de Estado, no próximo mês, em Belém.

A iniciativa foi feita no âmbito da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, também capitaneada pelo Brasil e lançada em novembro do ano passado, na cúpula do G20 — grupo das 19 maiores economias desenvolvidas e emergentes do planeta mais a União Europeia. A expectativa é que a primeira entrega de resultados ocorra no início do mês que vem, durante reunião em Doha, no Catar. O tema ganhará destaque durante as próximas agendas internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que embarcou para a Itália no fim de semana.

O petista participa, amanhã, em Roma, da abertura do Fórum Internacional de Alimentação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da segunda reunião presencial do Conselho de Campeões da Aliança Global. Há expectativa ainda que Lula se reúna com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e com outros chefes de Estado. Até agora, o único encontro confirmado é com o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.

"Esperamos ter na COP30 a aprovação de uma declaração sobre combate à fome, à pobreza e a ação climática. Isso também foi uma decisão do conselho da Aliança, e uma indicação clara de todos os países de que a gente não pode fazer essa discussão de combate à fome e a pobreza sem fazer o vínculo com a crise climática", disse a jornalistas o assessor da Secretaria-Geral para Temas de Segurança Alimentar e Nutricional do Itamaraty, ministro Saulo Arantes Ceolin.

"O texto dessa declaração, segundo ele, tem sido negociado também com os parceiros da aliança há alguns meses. O texto está finalizado praticamente, e a gente espera que essa seja sua versão final, e ele já foi submetido para todos os países do mundo", acrescentou.

<><> Primeiros resultados

A Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza completa um ano de existência em breve, e anunciará seus primeiros resultados no próximo mês, às margens da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Social, realizada em 3 de novembro, no Catar. O encontro reunirá chefes de Estado dos principais parceiros da Aliança e deve contar com a presença do presidente Lula.

Até o momento, os trabalhos desse grupo estão sendo conduzidos apenas pelo governo brasileiro. Segundo Ceolin, dos 13 países em desenvolvimento que apresentaram projetos para o combate à fome e à pobreza, seis já possuem planos finalizados: Etiópia, Haiti, Quênia, Palestina, Ruanda e Zâmbia. Eles serão apresentados parcialmente durante o evento em Roma, mas entregues oficialmente no Catar.

O diplomata apontou o resultado como positivo, devido à dificuldade de avançar com os projetos sem o secretariado instalado. "Temos trabalhado realmente com uma certa dificuldade, com uma condição um pouco difícil", afirmou. A expectativa do governo era chegar ao fim do primeiro ano com três ou quatro planos aprovados e indicações claras de apoio.

Para aderir à Aliança, os países têm de se comprometer a implementar ações efetivas de combate à pobreza em seus territórios. Membros mais desenvolvidos, por sua vez, contribuem com o intercâmbio de conhecimento, aportes de recursos e outras iniciativas para avançar com os projetos. Ao todo, são mais de 200 parceiros, sendo 103 países. O restante é formado por organizações, universidades, agências internacionais, e outros tipos de instituições.

•        Lula promete levar a voz dos estudantes à COP30

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende levar a voz dos estudantes da rede pública para a Conferência das Nações Unidas para o Clima (COP30), mês que vem, em Belém. E o fará por meio de uma carta que entregará, pessoalmente, a cada chefe de Estado e de governo que participar do evento, na qual estará registrado o comprometimento dos alunos com o meio ambiente, incluindo o respeito aos povos originários, prevenção de riscos e combate à discriminação.

"Vamos ter a reunião de chefes de Estado, em Belém, e quero entregar uma carta dessas para cada presidente de país estrangeiro. Quero que saibam o grau de maturidade política, de maturidade climática, que tem o nosso jovem. Tem muito presidente que não tem noção de quanto gás de efeito estufa uma bomba solta no planeta", frisou Lula, ao discursar na VI Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, que se realiza até amanhã em Luziânia (GO). Segundo o presidente, nenhum outro país do mundo se esforça tanto pela conservação do meio ambiente quanto o Brasil.

"Ninguém pode dar lição de moral ao Brasil sobre a questão do clima. Não somos os donos da verdade, não sabemos de tudo e não podemos tudo. Mas não tem ninguém fazendo mais do que nós com a dedicação que estamos fazendo", enfatizou.

Realizada no Centro de Treinamento Educacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), a VI Conferência reuniu 800 pessoas de todo país, incluindo mais 400 alunos de 11 a 14 anos de idade, professores, acompanhantes e representantes das comissões organizadoras estaduais. Foi a última etapa de um processo que mobilizou 8.732 escolas, de 2.307 municípios. Os participantes vão formular a carta que Lula promete levar à COP30, com os compromissos dos jovens com o meio ambiente e as demandas ao poder público.

<><> Turismo

Lula sinalizou que pensa em lançar um programa de turismo para os estudantes, pois considera que os jovens devem, primeiramente, conhecer o Brasil para, depois, visitarem outros países. "Tenho brigado com o ministro do Turismo (Celso Sabino) que temos que fazer publicidade, incentivo para que a meninada das nossas escolas que têm vontade de ir para a Disney, de ver o Mickey, o Pateta… Acho que tem que ver mesmo as coisas que são ricas para a sobrevivência da humanidade. Por que a gente não pega nossas crianças e faz um turismo pelo Rio Amazonas? Pelo Rio Tapajós? Pelo Rio Solimões?", questionou, observando que o Brasil desconhece grande parte das reservas naturais que mantém.

"A gente não tem noção de quem somos ainda. Só temos conhecimento de 30% das nossas riquezas minerais. Tem 70% que a gente não conhece. A gente não tem um mapeamento, não tem conhecimento da terra rara ainda, e o mundo inteiro está brigando por isso. Terra rara, na verdade, é aquela em que a gente nasce, aquela onde pisa o pé", disse.

Lula também criticou o gasto de US$ 2,7 trilhões com armamentos no mundo e os conflitos, citando, especificamente, os ataques de Israel à Faixa de Gaza. "O que você vai fazer com as milhares de mulheres e crianças inocentes que morrem na Faixa de Gaza? O que você vai fazer para as pessoas que foram assassinadas pelo Hamas? Essas vidas você não recupera", afirmou.

Também participaram os ministros Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), Camilo Santana (Educação) e Márcio Macêdo (Secretaria-Geral da Presidência). Aos estudantes, Marina disse que a promoção de um ecossistema saudável só é possível com democracia, ouvindo a população, o que inclui as crianças e adolescentes. Destacou, também, a redução do desmatamento na Amazônia (46%), no Cerrado (25%) e no Pantanal (77%) desde o início da gestão, e alfinetou países que criticam as políticas ambientais brasileiras.

"É muito fácil defender o meio ambiente no país dos outros. Difícil é ter desmatamento zero em seu próprio país", criticou a ministra, referindo-se à meta de pôr fim ao desmatamento ilegal no Brasil até 2030.

Camilo, por sua vez, afirmou que a proteção ao meio ambiente deve estar presente no dia a dia das escolas. "Foi um ano inteiro de discussão nas escolas, mas esse tema tem que ser permanente, em todos os níveis", enfatizou.

Aos jovens, Macêdo lembrou que as conferências nacionais foram todas suspensas no governo de Jair Bolsonaro e retomadas por Lula. "Temos oito programadas para este ano, e estamos dialogando com mais cinco ministérios para fazer outras cinco, no ano que vem. Vamos chegar ao fim (do governo) com mais de 30 conferências realizadas", salientou.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

 

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