Emanuelli
Carvalho dos Santos: O desastre do Rio Doce como espelho da impunidade
corporativa
Com a
chegada da COP30, que será sediada em Belém do Pará, o Brasil entra no centro
das atenções internacionais sobre justiça climática. Mas não há como falar em
futuro sustentável sem encarar os passivos ambientais e sociais que ainda ferem
nosso território. O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015,
é um desses marcos, um crime corporativo que continua sem resposta penal
efetiva.
Como
assessora técnica atuando diretamente na foz do Rio Doce, no Espírito Santo,
venho acompanhando de perto os impactos desse desastre. A partir da
Criminologia Verde, compreendo que os crimes ambientais não podem ser tratados
como meras infrações administrativas. Essa vertente crítica da criminologia
propõe que o sistema penal reconheça os danos ecológicos como formas de
violência estrutural, muitas vezes invisibilizadas pelo poder econômico. Ela
amplia o conceito de crime para incluir condutas que, embora legalizadas ou
toleradas, causam destruição ambiental e sofrimento social profundo.
No caso
do Rio Doce, milhões de metros cúbicos de rejeitos foram despejados,
contaminando rios e destruindo territórios. As empresas responsáveis Samarco,
Vale e BHP Billiton seguem operando, enquanto os atingidos enfrentam a
precarização da reparação, a perda de seus modos de vida e a ausência de
justiça.
A
legislação brasileira, especialmente a Lei de Crimes Ambientais, já permite a
responsabilização penal de pessoas jurídicas por crimes ambientais. E a
jurisprudência tem avançado nesse sentido. Mas na prática, o que vemos são
acordos extrajudiciais que priorizam interesses econômicos e deixam a justiça
ambiental em segundo plano. A responsabilização penal ainda é exceção, e isso
revela um sistema jurídico que precisa ser urgentemente transformado.
A COP30
não pode ser apenas um evento diplomático. Ela precisa ser um espaço de escuta
dos territórios atingidos, de enfrentamento da impunidade corporativa e de
afirmação de um modelo de justiça ambiental que una responsabilização penal,
reparação integral e protagonismo popular.
Que o
mundo olhe para a COP30. Que o mundo olhe para o Brasil. E que o mundo olhe,
com seriedade e compromisso, para o maior crime ambiental da nossa história não
como uma tragédia encerrada em 2015, mas como uma ferida aberta que exige
justiça. Porque justiça ambiental não se constrói com protocolos diplomáticos,
mas com coragem jurídica, com reparação concreta e com a memória viva dos
territórios atingidos.
• Alta recorde do ouro põe Brasil sob
pressão ambiental
A alta
recorde do ouro, que ultrapassou pela primeira vez os 4 mil dólares por onça
nesta semana (R$ 21,8 mil), expõe a fragilidade da atual ordem financeira
global e reacende dilemas antigos. Em meio à desconfiança crescente no dólar e
à busca por refúgios de valor, o metal volta a ser aposta de investidores, mas
também pressiona florestas e comunidades afetadas pela corrida por extração em
países emergentes, como o Brasil.
De
acordo com especialistas ouvidos pela DW, a disparada do preço do ouro não é
apenas reflexo de especulação: ela revela um mundo mais instável, em que os
instrumentos clássicos de confiança internacional, como dólar, títulos
americanos e instituições multilaterais, perdem força. Por isso, bancos
centrais e grandes investidores institucionais passam a comprar mais ouro para
se proteger de possíveis choques externos.
"Quando
o mercado volta a buscar o ouro como segurança em detrimento de dólar ou mesmo
de cripto, que também são ativos considerados como abrigo de segurança, mostra
que a percepção de risco geral acabou aumentando", afirma a economista
Bruna Centeno.
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Ativos dos EUA eram segurança
Desde a
Segunda Guerra Mundial, o dólar e os títulos do Tesouro dos Estados Unidos se
consolidaram como reservas de valor globais porque refletem confiança e
estabilidade em um país que ocupa o centro do sistema financeiro internacional.
A
economia americana é a maior do mundo, o governo dos Estados Unidos nunca deu
calote em sua dívida e seu mercado de títulos é o mais líquido e seguro do
planeta, ou seja, é fácil comprar e vender esses papéis sem risco de perdas
bruscas. Além disso, como o comércio internacional e as commodities são
majoritariamente cotados em dólar, manter reservas nessa moeda garante proteção
em períodos de crise e poder de compra em escala global.
Agora,
contudo, há um profundo menosprezo por instituições multilaterais, que ajudaram
a moldar o comércio e as relações internacionais, como a OMC (Organização
Mundial do Comércio) e a ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo,
deixando dúvidas nos agentes do mercado sobre como será o futuro.
"A
palavra central para entender a influência do governo Donald Trump é a
incerteza. Uma vez que movimentos da economia norte-americana tomam curso –
alguns contrários à fundamentação econômica esperada –, os agentes de mercado
não sabem exatamente o que esperar", afirma Marcio Sette, professor de
relações internacionais do Ibmec-RJ e ex-diretor do Brasil no Banco
Interamericano de Desenvolvimento.
A
economia norte-americana também dá sinais confusos e perdeu parte da confiança
global por causa do endividamento público recorde, da instabilidade política e
da perda de controle fiscal.
"Se
o dólar está diretamente ligado à economia norte-americana e essa economia está
em risco, naturalmente esse fluxo do capital vai buscar outros lugares e aí a
moeda tem essa perda de valor em detrimento de outras buscas que o mercado vem
fazendo para se sentir seguro, para buscar esse abrigo que nesse momento a
gente não consegue no dólar, via percepção geral do mercado", explica
Centeno.
"Diante,
portanto, de repercussões incertas na economia emissora da moeda de referência
que é o dólar, além do shutdown [paralisação do governo dos Estados Unidos] e
das expectativas de política monetária com redução dos juros pelo FED [o Banco
Central americano], despontam o ouro e outro metais, como a prata, como
preferência, como ativos invioláveis. A aversão ao risco domina o
mercado", completa.
Para
além dos Estados Unidos, o mundo também passa por transformações. Para Sette,
essa crescente desconfiança em relação ao dólar ampliou o debate sobre
alternativas ao sistema financeiro dominado pelos Estados Unidos. Moedas
locais, sistemas de pagamento regionais e stablecoins ganharam destaque,
enquanto alguns países reduziram a participação de títulos do Tesouro americano
em suas reservas e aumentaram a compra de ouro como forma de diversificar e
proteger seus ativos.
"Não
se trata exclusivamente da incerteza oriunda de dentro dos EUA, mas também da
instabilidade de um mundo fragmentado, sem apoio multilateral, que se
desglobaliza e, pior, vive sob a ameaça de uma guerra europeia generalizada
diante do conflito entre Rússia e Ucrânia", diz.
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Pressão ao meio ambiente
Com a
valorização do ouro, há mais atrativos para a exploração. O Brasil produz cerca
de 70 toneladas do metal por ano, segundo a consultoria Mining Technology,
sendo o décimo maior produtor mundial. Mas, em um mercado que carrega as marcas
históricas da exploração socioambiental a qualquer custo, a nova corrida também
desperta preocupações.
Segundo
Larissa Rodrigues, doutora em energia pela USP e responsável pelos projetos de
mineração, energia e uso de terras do Instituto Escolhas, sempre que o preço do
ouro sobe, há um estímulo maior à extração, seja legal ou ilegal, e essa
"corrida" pelo metal tende a acelerar o desmatamento, agravar
conflitos fundiários e aumentar violações aos direitos de comunidades locais.
"Os
riscos ambientais e sociais estão presentes, porque junto da proliferação de
áreas ilegais temos o desmatamento, a contaminação dos rios e das pessoas por
mercúrio – que é altamente tóxico, mas ainda amplamente usado na extração de
ouro –, além de conflitos com comunidades locais e a atuação do crime
organizado", diz.
Rodrigues
defende que o Brasil precisa assumir um compromisso real com uma mineração
responsável e legal, evitando o uso de mercúrio, e que comprova a origem do
ouro por meio de mecanismos de rastreabilidade, gerando riqueza ao país. O
Brasil, porém, ainda está longe de cumprir plenamente esses padrões.
"Apesar
de termos conquistado avanços recentes nos controles – como a adoção de notas
fiscais eletrônicas para o ouro e o fim da presunção de boa-fé no comércio – e
termos feito um grande esforço de repressão ao crime, precisamos ainda de
rastreabilidade de origem obrigatória, proibir o uso de mercúrio e fiscalização
ambiental. Precisamos seguir nessa direção para continuar estrangulando o crime
e manter as atividades minerais dentro de contornos ambientais e sociais
responsáveis", completa
• Empresas apostam em plantas que coletam
metais estratégicos
Em um
campo no norte da Albânia, agricultores trabalham entre fileiras amarelas de
mostarda em flor. O que eles colhem? Níquel.
A
planta é uma das cerca de 700 espécies hiperacumuladoras, ou seja, que têm a
propriedade de acumular grandes quantidades de metais do solo, como níquel,
zinco, cobre, até mesmo ouro e elementos de terras raras.
Elas
evoluíram para armazenar esses metais em seus brotos, folhas ou seiva, e usam
esse pequeno truque tóxico para se defender contra predadores e patógenos. Para
as próprias plantas, os metais são inofensivos.
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De limpeza de solos contaminados a mineração de metais
O uso
dessas plantas para limpar solos que haviam sido contaminados por minas ou
fundições começou na década de 1980. Uma planta foi capaz de remover pequenas
quantidades de césio radioativo do solo do local do desastre nuclear de
Chernobyl.
Mas foi
somente na década de 1990 que os cientistas se perguntaram: e se utilizássemos
todos esses metais preciosos coletados pelas plantas? Eles chamaram a ideia de
fitomineração.
Trinta
anos depois, plantar flores para fins de mineração está prestes a se tornar um
negócio. Mas será que ele pode realmente competir com as grandes minas
industriais?
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Modelo de negócio
Nos
campos da Albânia, há níquel demais no solo, o que impede boas colheitas. Mas
também não há níquel suficiente para montar uma mina convencional. Isso torna o
local ideal para a fitomineração, de acordo com Eric Matzner, cofundador da
startup Metalplant, responsável pelo campo de dez hectares perto da cidade de
Tropoje.
"A
meta mínima que buscamos é cerca de um terço de tonelada de níquel por
hectare", disse ele.
As
plantas do gênero Odontarrhena absorvem o metal e o armazenam. Depois de
colhidas e secas, cerca de 2% do seu peso seco é níquel. A Metalplant tritura e
queima as plantas, deixando um concentrado cinzento, ou
"bio-minério". As cinzas são lavadas e, com o uso de ácido sulfúrico,
transformadas em líquido. Em seguida, são filtradas e cristalizadas em sulfato
de níquel, um recurso muito procurado para uso em baterias de grande porte,
como as de carros elétricos.
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Rejeitos e resíduos tóxicos na mineração convencional
"O
impacto ambiental da fitomineração é baixo", defende Antony van der Ent.
Pesquisador da Universidade de Wageningen, na Holanda, ele é um dos
pesquisadores mais ativos do mundo na área de fitomineração e consultor da
Botanickel, outra empresa do ramo.
O setor
espera ganhar relevância diante dos danos ao meio ambiente causados pela
mineração convencional, como o desmatamento de grandes áreas de terra e a
produção de muito mais resíduos e detritos tóxicos, que podem vazar para o meio
ambiente e envenenar pessoas e ecossistemas. Devido ao processamento intensivo
em energia, a atividade é responsável ainda por altas emissões de gases de
efeito estufa. Com 10 a 59 toneladas de emissões por tonelada de metal, o
níquel é especialmente poluente.
A
fitomineração propõe mitigar esses impactos. "Uma quantidade enorme de
carbono é capturada pela cultura metálica. Ela é liberada de volta na atmosfera
durante a incineração das plantas, mas isso significa que você obtém níquel
altamente puro com emissões de carbono próximas de zero", afirma van der
Ent.
A
fitomineração também tem como alvo terras áridas e consideradas inadequadas
para a agricultura devido aos metais presentes no solo.
"Essas
terras estão sendo limpas dos metais presentes no solo. Depois disso,
provavelmente poderão ser usadas para silvicultura ou fins recreativos",
pontua Rupali Datta, bioquímica da Michigan Tech University que realizou uma
extensa pesquisa sobre fitomineração.
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Demanda de baterias para veículos elétricos
Embora
as plantas sejam capazes de absorver diferentes tipos de metais, cientistas e
empresas têm aplicado a fitomineração quase exclusivamente à colheita de
níquel: o metal é conhecido por ser abundante na camada superficial do solo em
muitas partes do mundo, em países como Brasil, Indonésia, Filipinas, África do
Sul ou Estados Unidos.
Enquanto
isso, a demanda por níquel deve crescer rapidamente, de acordo com a Agência
Internacional de Energia, com expectativa de dobrar até 2050, impulsionada pela
demanda global por baterias para veículos elétricos. No entanto, a maior parte
do fornecimento vem de minas de propriedade da China na Indonésia, onde as
concentrações no solo são altas. A fitomineração poderia servir como uma
alternativa em países com menor teor de níquel, ajudando-os a garantir seu
próprio abastecimento.
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Vale a pena?
A
empresa de pesquisa estratégica BloombergNEF estimou que a fitomineração seria
muito cara para os compradores de níquel. A Metalplant não divulgou quanto
custou para eles extrair o metal, mas afirma que seu objetivo é igualar o preço
de qualquer outro níquel no mercado.
"O
objetivo é obter demonstrações da paridade de preços. Chamamos isso de vantagem
verde ou dividendo verde, em que você obtém um produto melhor pelo mesmo
custo", disse Matzner, da Metalplant. A startup também combina a
agricultura com a captura de carbono, pela qual eles podem vender créditos de
carbono, para que valha a pena.
Em sua
terceira temporada, a Metalplant disse ter colhido mais de três toneladas de
níquel em seu campo de 10 hectares na Albânia. Isso é o que cientistas de
outros lugares também esperam alcançar. Mas é insignificante em comparação com
as minas convencionais, onde a mesma quantidade é extraída em apenas meia hora.
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Fitomineração pode substituir minas convencionais?
Para
igualar a produção anual de uma mina de níquel convencional, um campo
precisaria ter cerca de 200 mil hectares, o que representa 2,5 vezes o tamanho
da cidade de Nova York. Para substituir totalmente a produção global
convencional atual de níquel, seriam necessários 15 milhões de hectares de
campos — uma área do tamanho da Tunísia.
"As
economias de escala realmente desempenham um papel fundamental", disse
Kwasi Ampofo, analista de mercado de metais da BloombergNEF. "Quanto
maior, mais barato fica. Mas, para a fitomineração, o desafio não tem sido o
custo. Tem sido a terra."
"A
fitomineração definitivamente não pode substituir a mineração convencional. Ela
pode ser um processo adicional", aponta a bioquímica Rupali Datta. E
campos de monocultura na escala de milhares de hectares não seriam tão
ecológicos, no fim das contas. "Onde quer que você esteja fazendo
agricultura intensiva, você está usando fertilizantes, pesticidas, água — tudo
isso também se aplica à fitomineração", observa.
Para o
pesquisador van der Ent, as comunidades menores que não têm sucesso em cultivar
alimentos em suas terras são as que mais têm a ganhar com esse tipo de
mineração. Enquanto limpam o solo, moradores podem obter um pequeno lucro com a
venda do níquel. "É aí que vejo o potencial", acredita.
Fonte:
Le Monde/DW Brasil

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