Você
sabe o que são ortobiológicos? Entenda seu papel tratando lesões
Imagine
tratar dores articulares e lesões musculoesqueléticas com substâncias extraídas
do próprio corpo para estimular a regeneração dos tecidos. Essa é a proposta
dos tratamentos ortobiológicos, uma abordagem cada vez mais utilizada na
medicina esportiva, ortopedia e outras especialidades clínicas.
Ao
contrário das terapias tradicionais, que muitas vezes apenas aliviam sintomas
ou recorrem à substituição mecânica de estruturas danificadas, os
ortobiológicos têm como foco a regeneração tecidual e a modulação da
inflamação.
A
seguir, entenda como funcionam os principais usos dos ortobiológicos, para
quais casos são indicados e como eles vêm sendo usados não apenas na ortopedia,
mas em outras áreas da medicina regenerativa.
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Diferenciais do tratamento com ortobiológicos
As
terapias que utilizam substâncias derivadas do próprio organismo do paciente ou
biomateriais tem como objetivo reparar, regenerar ou modular tecidos
danificados, especialmente em articulações, músculos, tendões e ossos. Enquanto
analgésicos ou anti-inflamatórios atuam nas consequências de uma lesão (dores,
por exemplo), os ortobiológicos buscam agem diretamente na causa — promovendo a
cicatrização natural do corpo.
“Eles
se baseiam em princípios biológicos, como o estímulo à regeneração tecidual,
modulação inflamatória e melhora da homeostase articular”, explica o
especialista o ortopedista Fernando Jorge, especialista em cirurgias do Joelho
e cirurgias do Quadril e Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e
Traumatologia.
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Eles substituem a cirurgia?
Eles
também se diferenciam na invasividade: são realizados por meio de aplicações de
injeção guiada por imagem, o que exige um protocolo nada semelhante aos
exigidos nas mesas operatórias. “Eles não substituem cirurgias em todos os
casos, mas podem ser alternativas ou complementos dependendo da condição e do
estágio”, diz Jorge.
Nesse
sentido, os ortobiológicos funcionam como alternativas à cirurgia,
principalmente em fases iniciais de doenças articulares. Para pacientes com
osteoartrite leve a moderada, é possível adiar uma artroplastia. “Estudos
mostram alívio da dor e adiamento cirúrgico em até cinco anos”, comenta o
médico”.
Lesões
parciais de tendões ou ligamentos também podem cicatrizar sem intervenção
cirúrgica.
Já em
quadros mais graves, como rupturas completas ou osteoartrite grau IV, os
ortobiológicos têm papel limitado, podendo atuar como complemento à cirurgia.
Em artroscopias, por exemplo, PRP pode acelerar a recuperação. No caso de
próteses, o ácido hialurônico pode aliviar sintomas residuais.
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Principais tipos de ortobiológicos
Atualmente,
o especialista destaca algumas alternativas para a realização do tratamento com
ortobiológicos. Dependendo da técnica, seus usos não se restringem apenas à
ortopedia:
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1. Plasma Rico em Plaquetas (PRP)
O
material é obtido a partir da centrifugação do sangue do próprio paciente,
concentrando plaquetas e proteínas importantes para a regeneração de tecidos
(fatores de crescimento). Ao serem injetados na lesão, estimulam a proliferação
celular, a formação de novos vasos sanguíneos e a produção de colágeno.
De
acordo com o ortopedista, a indicação da técnica é feita para casos de:
• osteoartrite leve a moderada em joelhos,
quadris e ombros;
• lesões tendinosas crônicas, como
tendinopatia patelar ou epicondilite;
• entorses de ligamentos.
Os
resultados variam conforme a concentração de plaquetas, a técnica de aplicação
e a gravidade da lesão. As evidências mais sólidas estão na osteoartrite de
joelho.
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2. Células-Tronco Mesenquimais (MSCs)
O
procedimento é feito com material derivado da medula óssea, gordura ou cordão
umbilical — células com propriedades imunomoduladoras, anti-inflamatórias e
regenerativas, secretando fatores parácrinos que estimulam a reparação tecidual
e inibem a degradação da cartilagem.
Sua
eficácia depende da origem das células, da dose utilizada e da forma de
aplicação. Normalmente, as MSCs são indicadas em pessoas com:
• osteoartrite avançada ou lesões de
cartilagem;
• rupturas parciais de tendões e lesões
meniscais;
• necrose avascular em estágios iniciais.
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3. Concentrado de Medula Óssea (BMAC)
Coletado
por aspiração da medula óssea e centrifugação, concentrando MSCs, fatores de
crescimento, células-tronco hematopoéticas e outras células progenitoras.
Atua de
forma semelhante às MSCs, mas com maior diversidade celular, promovendo
regeneração e modulação inflamatória. Por conter células vivas, pode ter efeito
regenerativo mais potente que o PRP. No entanto, sua coleta é mais invasiva.
Seus
principais usos são em casos de:
• lesões de cartilagem no joelho, no
tornozelo e outros problemas cartilaginosos;
• osteoartrite moderada a grave;
• fraturas que não cicatrizam
adequadamente.
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4. Proloterapia
Consiste
na injeção de substâncias irritantes, como dextrose hipertônica, em ligamentos,
tendões ou articulações para gerar uma inflamação controlada e estimular a
produção de colágeno e a reparação local.
Embora
os mecanismos exatos ainda não sejam totalmente compreendidos, estudos sugerem
benefícios em certos casos. É uma abordagem mais comum em medicina integrativa
e com evidências clínicas ainda limitadas.
Costuma
ser indicada em quadros de:
• instabilidade articular crônica;
• lombalgia com disfunção ligamentar;
• tendinopatias resistentes a outros
tratamentos.
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5. Ácido Hialurônico (Viscosuplementação)
Conhecido
por seu uso em estética, o ácido hialurônico tem também funções terapêuticas
intra-articulares e no contexto ortopédico contribui para restaurar a função
articular.
Ele
melhora a lubrificação, reduz o atrito e possui propriedades
anti-inflamatórias. Produtos com maior peso molecular tendem a ter melhores
resultados.
Aplicações
da substância podem ser feitas em casos de:
• osteoartrite do joelho (graus I a III)
• outras articulações, como quadril e
tornozelo
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Outras abordagens em ascensão
Além
das técnicas mais conhecidas, outras tecnologias ortobiológicas vêm ganhando
destaque. É o caso dos:
• exossomas, que consiste em pequenas
vesículas derivadas de células-tronco, com potencial regenerativo sem o uso
direto de células vivas;
• concentrado de tecido adiposo (SVF),
sendo um material coletado por lipoaspiração e uma fonte de células
regenerativas menos invasiva que a medula óssea;
• peptídeos bioativos, técnica ainda
experimental, mas com estudos sugerindo efeitos promissores na cicatrização;
• Scaffolds biológicos, no qual estruturas
tridimensionais são usadas como matriz para regeneração de cartilagem e osso,
muitas vezes usadas junto a PRP ou MSCs.
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Quem pode se beneficiar dos ortobiológicos
A
indicação correta depende de critérios clínicos bem estabelecidos. São
considerados bons candidatos:
• pacientes com lesões articulares ou
musculoesqueléticas em estágios iniciais a moderados;
• pessoas com boa saúde geral,
especialmente mais jovens;
• casos que não responderam bem a
tratamentos conservadores, como fisioterapia ou anti-inflamatórios.
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Contraindicações e cuidados antes de optar pelo tratamento
As
absolutas incluem casos de pessoas com:
• infecções locais ou sistêmicas;
• neoplasias no local da aplicação;
• doenças hematológicas graves.
As
relativas se referem ao:
• uso de anticoagulantes;
• doenças autoimunes descontroladas;
• gravidez (por falta de estudos
conclusivos).
Como
qualquer procedimento médico, o tratamento com ortobiológicos carrega riscos.
Embora raros, Jorge sinaliza a possibilidade de:
• infecção no local da injeção;
• dor transitória;
• falha terapêutica;
• em casos de BMAC, complicações
relacionadas à aspiração (ex.: hematoma).
Assim,
a recomendação é que alguns cuidados sejam tomados antes do início do
procedimento. Entre eles:
• realizar avaliação médica criteriosa com
exames de imagem;
• escolher um especialista qualificado;
• buscar entender os riscos e as
limitações do tratamento, que pode ainda ser considerado experimental em
algumas diretrizes;
• verificar se a utilização de materiais
certificados e protocolos padronizados;
• manter acompanhamento com fisioterapia,
essencial para o sucesso da recuperação.
“Os
ortobiológicos representam uma evolução promissora na medicina
musculoesquelética, oferecendo opções minimamente invasivas para dores
articulares e lesões (...) Embora possam evitar ou complementar cirurgias em
casos selecionados, sua eficácia depende de uma indicação precisa, técnica
adequada e acompanhamento multidisciplinar. Cuidados como escolha de
profissionais qualificados e avaliação detalhada são cruciais para minimizar
riscos e maximizar benefícios”, conclui o ortopedista.
Fonte:
CNN Brasil

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