Carlos
Carvalho: O homem amarelo
Na
solidão branca da casa, o homem amarelo deita por sobre sua mesa de trabalho,
toma em suas mãos uma bola representativa do globo terrestre e, tal qual
Adenoid Hynkel, a manuseia para lá e para cá, como se o mundo fosse seu. No
vazio do salão ovalado, o homem amarelo sabe o quanto é insignificante. Não
importa quantos mísseis seus fantoches possam disparar contra pessoas
indefesas, assassinando crianças famintas; assim como não vem ao caso o tamanho
do seu arsenal (Freud explica). Nada disso faz diferença, pois ninguém o leva a
sério. Como um menino mimado, dono da bola, o homem alaranjado acha que pode
acabar o jogo na hora em que bem desejar, nem que para isso tenha que perpetrar
mais um genocídio.
Entre
uma sessão e outra de bronzeamento artificial, ele sabe que o mundo apenas
suporta a figura grotesca que é, da mesma maneira que os demais meninos,
enojados, suportam os donos da bola. Possuir a bola não faz de ninguém um
craque, muito menos faz do mundo um campo de várzea. Muitas vezes, o dono da
bola é apenas um idiota que pode comprar uma bola. E o que lhe resta é jogar
com outros imbecis que sabem, como poucos, tirar proveito das estultices de
outro imbecil.
Incapaz
de encantar o mundo com discursos e ações transformadoras, o homem amarelo (por
favor, não confundir com “O Homem Amarelo”, da Anita Malfatti, e nem com o Dj
jamaicano Yellowman) se reduz àquilo que sempre foi, um déspota minimamente
esclarecido, um bufão que acredita piamente que sua palavra é lei e, ignorando
a ordem mundial, acha que pode casar e batizar quando e onde quiser, atacando a
soberania de países cujos líderes não lhe dizem amém. Em represália, o
homúnculo amarelo desanda a vomitar impropérios e, do alto da sua estupidez, dá
pitacos, inclusive, no sistema judiciário de outros países, como se o seu fosse
um grande exemplo de democracia e liberdade, coisa que nunca foi. Está aí o
professor Chomsky, que não me deixa mentir.
Em
tempos de pós-verdade, fake news e outras absurdetes, a canalhice, a estupidez
e antipolítica assumiram o protagonismo em muitos países e não raro assistimos,
por exemplo, parlamentares eleitos democraticamente tomando decisões que
atentam contra o Estado Democrático de Direito (é assim que as democracias
morrem?). Esse tipo de descompasso legal não é privilégio somente do
Legislativo, mas também do Judiciário e do Executivo. Dependendo do país, a
coisa só piora. Há países, inclusive, onde as prerrogativas do Presidente da
República, como a emissão de decretos, são atropeladas pelo Legislativo como se
isso fosse a coisa mais normal do mundo. Isso, só para dizer que não falei das
emendas parlamentares, aqueles caudalosos rios de dinheiro nos quais os políticos-tio
patinhas nadam de braçadas e, a seu bel prazer, legislam em nome dos ricaços,
enquanto os mais pobres ardem no último círculo da miséria. E é claro que
Huguinho, aquele neto do Donald, nem se importa!
Mas
saiamos do mundo das HQ e voltemos à realidade do reino sombrio do “todo
poderoso” homem amarelo, aquele lugar que abriga alguns criminosos bastante
conhecidos na “Terra Brasilis”, pois é de lá que ele planeja minunciosamente
quem será bombardeado, exterminado ou receberá apenas uma carta (sim, uma
carta!) na qual consta a porcentagem da extorsão que sofrerá. Como essa prática
medieval não funcionou com a China, então tem-se que tratar com mão de ferro
países como Laos, Sri Lanka, Líbia, Iraque, Argélia, Moldávia e Brunei. Tarifar
Laos e Myanmar em 40% e Sri Lanka em 30% é praticamente decretar-lhes uma
sentença de morte comercial. Por sua vez, tarifar o Brasil em 50% é uma forma
de punição política por este está levando parte da sua bandidagem golpista às
barras da lei. “Como assim, vocês ousam julgar nosso bandido de estimação”,
teria pensado o homem amarelo. Como tudo se encaminha para o facínora ser
condenado, então haja tarifa, sem a menor preocupação da quebradeira econômica
que isso resultará para ambos os países envolvidos, embora o Brasil mais compre
que venda.
Enquanto
vive seu sonho, um misto de paranoia e mistificação, o homem amarelo regurgita
coisas sem sentido como: “O Brasil não tem sido bom conosco, nada bom”, como se
eles tivessem sido bons quando, por exemplo, apoiaram a ditadura de 64, que
trucidou milhares de brasileiros e brasileiras ou quando também foram “bons”
com seus indígenas, imigrantes de países pobres, estudantes estrangeiros, os
negros, a comunidade LGBT, o Vietnã, Cuba, Iran, Palestina, Japão e 90% do
planeta.
• A tentativa de Trump eleger Bolsonaro à
força - um chamado à soberania. Por
Daniel Samam
Trump
anunciou a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir
de 1º de agosto. A justificativa? A defesa de Jair Bolsonaro, a crítica à
atuação do Supremo Tribunal Federal e à suposta censura contra redes sociais
americanas. A mensagem é clara: interferência externa direta no processo
político brasileiro, uma ação que não pode ser tratada como “diferença
diplomática”, mas sim como um ataque frontal à soberania nacional.
O
governo brasileiro precisa reagir com reciprocidade. Não há mais espaço para
notas diplomáticas mornas. O Brasil precisa impor tarifas espelhadas, convocar
os países do BRICS e do Sul Global a se solidarizarem com o país e apresentar,
internamente, um plano de emergência para substituição de importações e
reindustrialização nacional. É a hora de falar grosso, proteger o mercado
interno e manter o país em marcha de reconstrução nacional.
Esse
movimento de Trump não é isolado. É parte do xadrez eleitoral de 2026. A
estratégia parece ser de que Bolsonaro será mantido como pré-candidato sub
judice para se vitimizar e mobilizar suas bases. Quando for juridicamente
impedido, entrará o nome do filho, Eduardo Bolsonaro, como plano B, com apoio e
visibilidade internacional garantidos por Trump. Essa ofensiva demonstra a
crise de hegemonia do campo da direita, que hoje não consegue produzir nenhuma
alternativa viável ao bolsonarismo e ao lulismo. O bolsonarismo, em decadência,
recorre à interferência internacional para manter sua relevância.
Mas,
paradoxalmente, esse ataque pode se transformar numa oportunidade histórica
para o Brasil. A crise escancarou que o modelo de dependência econômica faliu.
Que o neoliberalismo entreguista já não nos serve. E que, se quisermos
sobreviver como nação, teremos que reerguer nosso parque industrial, retomar o
controle dos setores estratégicos, investir em ciência e tecnologia e fazer
política externa de igual para igual com os grandes blocos do mundo.
A
esquerda precisa assumir de vez um projeto nacional, popular e soberano, que
não se limite a administrar o possível, mas que tenha a ousadia de transformar
o Brasil num país livre, próspero e justo. Trump nos deu a senha. Que saibamos
responder à altura da história.
Fonte:
Brasil 247

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