Vítimas
relatam abusos por lideranças de terreiro de candomblé em Belo Horizonte (MG)
Ao
menos cinco pessoas acusam os líderes do Nzo Jindanji Kuna Nkosi, terreiro de
candomblé, em Belo Horizonte (MG), de assédio moral, violências e até estupro.
Os casos teriam acontecido a partir de 2020. Os relatos ouvidos pela Agência
Pública incluem episódios de violência religiosa e psicológica, moral, sexual e
exploração financeira. Algumas das vítimas formalizaram denúncias contra a
instituição no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que instaurou um
procedimento ainda em andamento.
As
acusações recaem sobre Márcio Eustáquio Antunes de Souza, conhecido no terreiro
como Tata Kamus’ende e seu filho Gabriel Lemos Antunes de Souza, o Tata
Kilunji. Ambos são líderes no terreiro e no bloco Afoxé Bandarerê, tradicional
no carnaval de Belo Horizonte.
Anna
Sant’Ana, analista de comunicação de 25 anos, diz ter sido estuprada por
Gabriel, seu então namorado, em 2019. Um boletim de ocorrência foi registrado
por ela em abril de 2025 e medida protetiva foi concedida.
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Por que isso importa?
• Relatos ouvidos pela reportagem apontam
violências que teriam sido cometidas por lideranças do terreiro de candomblé
Nzo Jindanji Kuna Nkosi, na capital mineira.
• O Ministério Público de Minas Gerais
investiga as denúncias.
Anna
disse à Pública que comunicou à mãe de santo do terreiro o que tinha
acontecido. A matriarca e diretora litúrgica, Angela Maria Miguel,
religiosamente conhecida como Nengua Monasanje, teria respondido: “Você precisa
pensar bem se quer mesmo ficar aqui, porque o candomblé é o mundo e não se tira
ninguém do mundo. Eu não tenho poder de tirar o Gabriel.”
Mesmo
assim ela decidiu continuar frequentando o terreiro, por motivações religiosas.
Durante os 21 dias de recolhimento da sua iniciação, em julho de 2021, conta
que foi “obrigada a conviver diariamente com o meu agressor. “Fui forçada a
permanecer ao lado dele num momento que deveria ser o mais sagrado da minha
vida foi outra violência”, diz.
A
convivência com Gabriel trouxe danos emocionais e psicológicos, segundo ela.
Durante uma reza de aniversário dele, Anna teve uma crise de ansiedade. “Entrei
em desespero e comecei a chorar muito”. O pai de Gabriel, Márcio Eustáquio,
teria dito a ela: “eu te prometo que você não vai sofrer mais nenhuma violência
aqui, a partir de hoje você não precisa nem tomar benção dele”. Anna entendeu
que ele reconhecia a gravidade da sua acusação, já que Gabriel era Xikaringoma,
um sacerdote músico.
Ela
esperava que as coisas melhorassem após sua “obrigação de um ano”, um rito
anual de renovação, mas conviver com Gabriel a fazia sofrer. “Eu entendi que o
que me adoecia era a convivência com ele e ver que eu continuaria sofrendo
calada e ele sendo respeitado por todos, acobertado pelo pai”, disse.
Em
dezembro de 2022, ela conta que se afastou do terreiro por adoecimento físico e
psicológico. Disse que a mãe de santo Monasanje a cobrou para “cumprir sua
obrigação de estar dentro do terreiro, senão seria punida pelo Santo”, mesmo
que isso causasse desconforto ou crises.
Para
Anna, a liderança do local foi “falha em diversos sentidos”. “Lá só tinha
espaço para o meu estuprador, para mim e para o meu santo não. Não é que não se
tira ninguém do mundo [religioso], a vítima pode ser tirada sim, o estuprador
não.”
O caso
dela está sendo investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais, segundo nota do
órgão, na Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher, com medida protetiva
de urgência para a vítima requerida e outras diligências em andamento.
Gabriel
não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para sua
manifestação. Márcio e a mãe de santo Nengua Monasanje negaram as acusações
(leia as respostas deles abaixo).
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A iniciação e o desencanto
Juçara*,
publicitária de 30 anos, que prefere não ser identificada, ingressou no
terreiro em 2018. Ela afirma que, durante o recolhimento da iniciação,
vivenciou situações de controle e humilhação. “Teve um momento em que mandaram
eu beber um líquido de um copo, de olhos fechados. Dois dias depois, ainda no
roncó [espaço sagrado e reservado onde os iniciados permanecem isolados durante
o ritual], o Márcio gritou: “Se fosse um pinto, você teria aberto a boca sem
pestanejar!”, relata.
Márcio
se define como Tata Kamus’ende, título litúrgico que indica uma função de apoio
direto à liderança espiritual, sendo auxiliar da Nengua Monasanje e
participando da fundação do terreiro. Sua função, portanto, é tanto espiritual
quanto administrativa, sempre submetida à autoridade religiosa que preside a
casa.
Juçara
descreve um sistema de “meritocracia”, onde para participar era preciso “provar
o nosso valor”. No cotidiano, diz que era repreendida com gritos e xingamentos,
principalmente por parte de Márcio. “Quando eu errava ou tinha dúvida, o Márcio
berrava: ‘você quer foder meu candomblé’. Depois ficava dias me tratando com
hostilidade, me excluía de obrigações importantes e me expunha ao vexame.”
Ela
também conta que foi publicamente humilhada por sua contribuição financeira.
“Márcio começou a dizer que era um absurdo eu pagar o valor mínimo da
mensalidade, na frente de todo mundo, com o intuito de me constranger”.
A
tensão emocional teria levado a crises de ansiedade. “Tive que começar a tomar
medicação para poder estar ali minimamente sã”. Juçara conta que também
testemunhou um episódio de violência física em que Márcio agrediu um jovem
bissexual em transe: “No recolhimento, o Márcio batia no erê [entidade
espiritual infantil] dele com uma vareta, dizendo que ele tinha que ‘dançar que
nem homem’. Ele saiu cheio de marcas, e a mãe de santo viu tudo e não disse
nada”, disse.
Ela
conta ainda que, em dezembro de 2022, Márcio a teria ameaçado. “Desse jeito o
candomblé vai ficar pequeno pra gente, e você sabe que se alguém tiver que
sair, esse alguém é você”, teria dito a ela. “Eu fiquei muito fragilizada
emocionalmente. Me sentia perdida, sem ter um lugar para cuidar do meu
espiritual. Com medo, paranoica, achando que iam fazer algo contra mim no
sentido espiritual”, contou.
Ela
também acusa a mãe de santo Nengua Monasanje de omissão e conivência. “Mesmo
presenciando diversas situações de agressão verbal e humilhações, nunca tomou
uma posição firme”, diz.
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Exploração financeira
Dalila
da Silva Rodrigues, produtora cultural de 36 anos, ex-companheira de Márcio e
integrante do terreiro entre 2018 e 2022, afirma ter sofrido agressões físicas
e psicológicas do líder religioso. Em abril de 2025, ela protocolou uma
denúncia formal contra o ex-companheiro no MPMG, junto à 18ª Promotoria de
Direitos Humanos. O procedimento segue em apuração.
À
Pública, Dalila contou que trabalhou por anos sem remuneração em projetos de
Márcio, como o Afoxé Bandarerê e a Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais.
“Nesta instituição [Liga das Escolas de Samba], recebi por um projeto que foi
aprovado, mas os demais não”, afirmou. Ela atuava como redatora, produtora e
gestora.
“Abandonei
meu emprego CLT após insistência de Márcio, que me convenceu a abrir uma
produtora com ele e que, desta forma, teria mais tempo livre para me dedicar ao
candomblé, prometendo que meu destino era ser sucessora da matriarca do
terreiro; por isso eu deveria me dedicar integralmente para aprender”,
declarou. Além da produção cultural, ela acumulava tarefas domésticas e apoio a
atendimentos espirituais.
Soraia*,
servidora pública de 35 anos, que também não quis se identificar, frequentou o
terreiro entre 2020 e 2023. Em denúncia ao MPMG, ela relatou abusos
psicológicos, morais e omissão de socorro. Em entrevista à Pública, contou que
suas roupas de santo, pagas com recursos próprios, foram retidas, sob a
alegação de que “pertenciam à casa”. Ela tentou registrar um boletim de
ocorrência, mas diz que foi “ridicularizada por uma delegada”, então levou a
denúncia para o Ministério Público.
Ela diz
que teria sofrido um acidente e machucado o pé enquanto fazia atividades no
terreiro, mas foi ignorada pelos líderes: “Recebi o tratamento de silêncio e
deboche do Márcio e de outros integrantes, não me deram nenhum suporte”. Ela
relatou à reportagem que Márcio ainda a desestimulou a buscar atendimento
médico, dizendo que sair por conta de um ferimento era “um descuido com a
espiritualidade, só porque eu tinha machucado o dedinho’”.
Ainda
no terreiro, durante seu recolhimento, em dezembro de 2022, ela conta que teria
sido impedida de tomar sua medicação psiquiátrica pelas lideranças, que
ofereceram “chás naturais e até balinhas tic-tac”. Ela sofreu uma convulsão no
terreiro, que teria sido testemunhada por mais de 15 pessoas, incluindo Márcio
e a mãe de santo, sem qualquer providência.
“Comecei
a tomar remédio antidepressivo e até hoje não consegui parar. Minha fé não
acabou, mas nunca mais consegui ir a nenhum outro terreiro — e não pretendo
fazer parte de nenhuma outra casa”, diz Soraia. Para ela, os líderes “sabem de
tudo e não fazem nada para esclarecer; pelo contrário, querem acobertar todo o
mal feito e desacreditar as vítimas”.
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Controle psicológico e violência
Pedro*,
ex-integrante que preferiu não se identificar, descreve o ambiente do terreiro
como opressor, apesar do discurso inicial “acolhedor, com forte valorização da
tradição e da herança ancestral”. “No início não era possível perceber com
clareza a intensidade das práticas abusivas e das diversas formas de violência
presentes no local, mas foram se tornando mais visíveis e recorrentes ao longo
do tempo”.
Pedro
diz que Márcio, Gabriel e a mãe de santo exerciam “constantes práticas de
pressão psicológica, com o objetivo de impedir que os membros desenvolvessem
qualquer atividade externa que não estivesse relacionada diretamente ao
terreiro”. Essa pressão se manifestava, segundo Pedro, por “reiterados
episódios de violência verbal e moral, especialmente direcionados às mulheres”.
Ele relata que as lideranças masculinas frequentemente utilizavam termos
depreciativos, referindo-se às mulheres como “porcas”, “desleixadas” e
“indecentes”.
Ele
relembra um episódio com uma integrante do terreiro que o marcou. “Ao ser
xingada e humilhada de forma agressiva por Márcio, ela urinou nas próprias
roupas devido à pressão”. Ele [Márcio] a chamava de burra, de porca, fazia
questão de demonstrar publicamente a falta de conhecimento ‘técnico’ do
candomblé”.
Após
testemunhar esse e outros episódios de violência, ele decidiu deixar o
terreiro.
Em
resposta enviada à Agência Pública, a mãe de santo Nengua Monasanje negou
qualquer irregularidade. Em nota, ela disse: “nossa casa é um ponto de
acolhimento, formação espiritual e partilha. Foi fundada com dedicação,
resistência e fé. Temos um compromisso inegociável com a ancestralidade e com a
preservação de uma tradição milenar, forjada por um povo negro, periférico e
historicamente marginalizado. Conflitos, incômodos ou afastamentos fazem parte
da vida de qualquer comunidade. Mas, na Nzo Jindanji Kuna Nkos’i, todos os
processos são conduzidos com base na escuta ativa, no diálogo constante e no
respeito à liberdade de cada um. O processo iniciático em nossa casa é
voluntário. Existem registros formais, inclusive assinados em cartório, nos
quais cada pessoa declara, livremente, seu desejo de participar da tradição. O
segredo não é ocultamento. É fundamento sagrado de transmissão e preservação. A
casa permanece aberta ao diálogo, à escuta e à reparação quando necessária. Mas
também permanece firme na defesa de sua história, de sua liturgia e da sua
dignidade.”
Márcio
também negou as acusações. Ele argumentou que “o candomblé é uma religião
ancestral, com ritos milenares que não operam no improviso”, e que “durante os
períodos de iniciação e recolhimento – que são profundamente importantes para o
aprofundamento espiritual – existem sim preceitos que precisam ser seguidos”.
No entanto, ele afirmou que esses preceitos são “amplamente conhecidos e de
livre aceitação”, e que “jamais impôs qualquer regra que não estivesse
fundamentada em nossa tradição ou que ferisse a integridade individual de quem
quer que seja”.
Por
e-mail, Márcio negou ter se beneficiado indevidamente de recursos de membros ou
manipulado pessoas para obter vantagens. “Minha vida financeira é independente
e pautada na lisura”, negando “qualquer dependência financeira minha em relação
a quem quer que seja da comunidade religiosa”. Ele afirmou ainda que “o
ambiente no terreiro é de respeito mútuo, acolhimento e aprendizado”.
Em
relação ao afastamento das vítimas do terreiro, Márcio afirmou: “Não houve, à
época, qualquer solicitação de escuta, mediação ou responsabilização por parte
dos que hoje denunciam. Reafirmo meu compromisso com a verdade, a justiça e a
integridade do candomblé. Sou um homem negro que usou sua posição para erguer,
acolher e proteger.”
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Das teias da fé à esfera pública
Em 23
de maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais instaurou um inquérito
que investiga possíveis atos de improbidade administrativa e crimes correlatos
na execução do projeto cultural “Esquenta Avenida”, evento promovido pela Liga
das Escolas de Samba de Minas Gerais, em parceria com o Governo de Minas e a
Cemig. A apuração aponta indícios de desvio de recursos públicos, fraudes
documentais, corrupção, lavagem de dinheiro e envolvimento de agentes públicos
e privados. O caso permanece aberto.
Em
fevereiro de 2025, um projeto de lei na Assembleia Legislativa de Minas Gerais
(ALMG), apresentado pela deputada Beatriz Cerqueira (PT), propunha o
“reconhecimento da Associação Sociocultural Nzo Jindanji Kuna Nkos’i como de
relevante interesse cultural e patrimônio imaterial do Estado de Minas Gerais”.
Vítimas e ex-membros reagiram, considerando a honraria inaceitável diante das
denúncias.
A
mobilização surtiu efeito: em 26 de fevereiro de 2025, após pressão popular e
votação em plenário, a deputada retirou o projeto de lei.
Em 27
de fevereiro de 2025, o bloco Afoxé Bandarerê comunicou publicamente o
desligamento de Gabriel de todas as suas atividades. Márcio, além de sua
ligação com a Liga das Escolas de Samba e a Belotur, respondeu a processo
judicial por suposta falsidade ideológica. A ação tramitou na 21ª Vara Cível de
Belo Horizonte (2002-2013), sendo arquivada por “prescrição da pretensão
punitiva retroativa”.
Isso
significa que, mesmo com denúncia, o direito do Estado de punir o acusado por
falsidade ideológica encerrou-se devido ao tempo decorrido entre o recebimento
da denúncia e a sentença condenatória.
Fonte:
Por Gabi Coelho, da Agência Pública

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