Usurpação
de poder? Os argumentos do governo Lula para ir ao STF contra
derrubada do IOF pelo Congresso
A Advocacia-Geral
da União (AGU) protocolou nesta terça-feira (1/7) ação junto ao Supremo
Tribunal Federal (STF) com o objetivo de reverter a derrubada de decreto
que aumentava alíquotas do Imposto sobre
Operações Financeiras (IOF).
O
decreto fazia parte de um conjunto de medidas elaboradas pelo Ministério da
Fazenda para reforçar as receitas do governo e cumprir as metas do arcabouço fiscal. Ao fim de maio, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) editou decreto que aumentava o IOF
para operações de crédito, de seguros e de câmbio.
Na ação
protocolada junto ao STF, a AGU alega que a
decisão do Congresso de barrar o aumento do IOF "violou os princípios da
separação dos poderes e da legalidade tributária".
O órgão
destaca ainda que a manutenção da decisão resultaria em uma perda de
arrecadação de cerca de R$ 12 bilhões somente em 2025, provocando "riscos
fiscais graves ao Estado brasileiro".
"A
avaliação técnica dos nossos advogados, e que foi evidentemente submetida ao
presidente da República, foi que a medida adotada pelo Congresso Nacional
acabou por violar o princípio da separação de Poderes", disse o
advogado-geral da União, Jorge Messias, em coletiva de imprensa nesta terça.
Messias
lembrou que cabe somente à União instituir imposto sobre "operações de
crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários".
Ele
afirmou ainda que o decreto alterou as alíquotas dentro dos limites e condições
estabelecidos pela própria Constituição e que o Congresso só pode sustar atos
do Executivo em caráter excepcional e em casos de "patente
inconstitucionalidade".
"É
muito importante que nós tenhamos as condições de preservar integralmente as
competências do chefe do Poder Executivo. A democracia brasileira necessita que
os Poderes possam ser independentes", disse o titular da AGU.
A AGU
pediu ao STF a distribuição da ação ao ministro Alexandre de Moraes, que também é
relator de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) proposta pelo PL que
questiona a constitucionalidade dos decretos do aumento do IOF, e de ADI
apresentada pelo PSOL, que propõe a derrubada da decisão do Congresso.
Messias
disse ainda nesta terça que os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União
Brasil-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), teriam sido avisados
antes de o governo recorrer ao STF.
A
decisão do governo de recorrer contra a derrubada do aumento do IOF repercutiu
entre parlamentares governistas e de oposição nesta terça-feira.
O
deputado Carlos Jordy (PL-RJ) disse que o governo "declara guerra" ao
Congresso Nacional com o recurso junto à Suprema Corte.
"O
que nós estamos vendo é que o governo agora está fazendo essa interferência,
via STF, desrespeitando o Congresso Nacional. Se há alguém que está violando a
separação entre os Poderes, é o governo Lula, que mais uma vez demonstra o seu
desrespeito institucional", disse Jordy, segundo a Agência Câmara de
Notícias.
O líder
do PT, deputado Lindbergh Farias (RJ), afirmou que a posição do governo era a
única possível a se tomar para defender as prerrogativas do Executivo.
"Vejo
muita gente falando que [o IOF] é um imposto regulatório. É sim, regulatório.
Mas na lei que o criou [Lei 8.894/94], diz que ele pode ser utilizado para
política monetária e fiscal", disse Lindbergh, também de acordo com a
agência.
Na
segunda-feira (30/6), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta,
publicou vídeo nas redes sociais defendendo a derrubada do aumento do IOF pelo
Congresso e rebatendo críticas do governo à decisão.
"Quem
alimenta o 'nós contra eles' acaba governando contra todos. A Câmara dos
Deputados, com 383 votos de deputados de esquerda e de direita, decidiu
derrubar um aumento de imposto que afeta toda cadeia econômica. A polarização
política tem cansado muita gente, e agora querem criar a polarização
social", disse Motta.
Na
postagem, o parlamentar negou que tenha traído o governo por ter pautado o
projeto que derrubava a alta do IOF sem avisar.
"Capitão
que vê o barco indo em direção ao iceberg e não avisa não é leal, é cúmplice, e
nós avisamos ao governo que essa matéria do IOF teria muita dificuldade de ser
aprovada no Parlamento. Presidente de qualquer Poder não pode servir ao seu
partido, tem que servir ao seu país", afirmou.
·
Entenda o que está em jogo
O
Congresso aprovou em 25 de junho a anulação do decreto presidencial que
aumentava alíquotas do IOF, em mais uma derrota para o governo Lula.
A
decisão foi aprovada na Câmara dos Deputados e depois no Senado.
Na
Câmara, foram 383 votos a favor e 98 contra a derrubada da medida, um placar
que mostrou que mesmo parlamentares de partidos da base aliada do governo
ficaram contra os interesses do Palácio do Planalto.
No
Senado, a votação foi simbólica — sem contagem de votos.
A
elevação do IOF foi proposta pelo Ministério da Fazenda com objetivo de
equilibrar as contas públicas e cumprir as regras do arcabouço fiscal.
Sem a
medida, a pasta terá que buscar outras fontes de receita extra ou cortar
gastos.
O
governo argumenta que a alta do IOF impactaria sobretudo os mais ricos. Já o
corte de despesas, diz a gestão Lula, afetaria programas que atendem os mais
pobres.
"O
decreto do IOF corrige uma injustiça: combate a evasão de impostos dos mais
ricos para equilibrar as contas públicas e garantir os direitos sociais dos
trabalhadores", argumentou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A
oposição, por sua vez, diz que a população já paga muitos impostos e que o
ajuste das contas públicas tem de vir de cortes de despesas. Para os
oposicionistas, o imposto maior aumentaria o custo de produção no país.
"É
um confisco unicamente visando arrecadar recursos. Ataque ao setor produtivo:
agro, serviços, comércio, indústria, tudo afetado", argumentou em suas
redes sociais o líder da oposição na Câmara dos Deputados, Luciano Zucco
(PL-RS).
O
governo enviou uma primeira proposta de aumento de IOF em maio, que reforçaria
o caixa em R$ 20,5 bilhões em 2025 e em R$ 41 bilhões em 2026.
Com a
resistência do Congresso, a equipe econômica alterou a proposta, sugerindo uma
alta menor do imposto. Com isso, a arrecadação prevista caiu para R$ 10 bilhões
neste ano e R$ 30 bilhões no seguinte.
Por
outro lado, o Executivo propôs outras medidas para compensar a arrecadação
menor do IOF, como taxar em 5% dois títulos financeiros que hoje são isentos de
Imposto de Renda (IR), as Letras de Crédito Imobiliário
(LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).
Essa
proposta também sofre resistência no Congresso.
Junto
ao aumento do IOF, o governo anunciou em maio um congelamento
de R$ 31,3 bilhões no orçamento deste ano, com objetivo de cumprir a meta
fiscal de 2025.
Se a
alta do imposto fosse derrubada no Congresso, o corte de despesas teria que ser
ampliado, disse a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, antes
da votação no Congresso.
"Para
compensar essa perda de receita, o bloqueio e contingenciamento, que já são de
R$ 31 bilhões, tudo o mais constante, terá que ser elevado para R$ 41 bilhões,
resultando em risco de paralisação de programas como Auxílio Gás, Assistência
Social, Minha Casa Minha Vida, Pé de Meia, entre outros", afirmou em sua
conta na rede social X.
Ela
também tentou convencer os parlamentares a não derrubarem a medida, afirmando
que os cortes também vão atingir emendas parlamentares — verba que deputados e
senadores podem destinar para investimentos em suas bases eleitorais.
"As emendas parlamentares também serão
afetadas pela derrubada do Decreto. Em 2025, o contingenciamento adicional de
emendas será de R$ 2,7 bilhões, somando-se aos R$ 7,1 bilhões já contidos,
resultando no total de R$ 9,8 bilhões. Em 2026, considerado apenas o efeito
dessa medida, a derrubada do decreto resulta em perda de R$ 7,1 bilhões para as
emendas parlamentares", escreveu no X.
·
Congresso protege o 'andar de cima', diz economista
Em entrevista recente à BBC News Brasil, o economista-sênior
da consultoria LCA e pesquisador-associado da FGV, Bráulio Borges, defendeu que
o governo Lula adote medidas para conter a alta de despesas, como interromper
os reajustes do salário-mínimo acima da inflação.
A
medida tem impacto importante nas contas públicas, porque as aposentadorias e
pensões pagas pelo INSS são atreladas ao piso salarial.
Por
outro lado, ele afirmou que o ajuste fiscal também demanda aumento de receitas
e concordou com o governo sobre o impacto do IOF atingir os mais ricos.
Borges
ressaltou ainda que o Congresso tem dificultado o trabalho do governo de
ajustar as contas públicas, ao aprovar benefícios tributários para empresas que
desfalcaram a arrecadação nos últimos anos, como as prorrogações de um programa
emergencial criado para o setor de eventos na pandemia (Perse) e da desoneração
da folha de pagamentos — uma política de emprego ineficiente, segundo estudos
econômicos.
O
Congresso não só manteve a desoneração de empresas, como estendeu o benefício a
pequenos municípios no final de 2023, uma medida "eleitoreira", na
visão de Borges.
As duas
medidas (Perse e desoneração) representaram uma renúncia de receita de quase R$
50 bilhões no ano passado.
"Irrita
ver o Congresso querendo posar como se fosse o adulto na sala, sendo que o
Congresso, do ponto de vista do equilíbrio fiscal, atrapalhou muito",
criticou.
Borges
também aponta limitações em uma das propostas que a oposição e o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mais têm defendido para equilibrar as
contas públicas: uma reforma administrativa para reduzir o custo com
servidores.
Na sua
visão, a medida é importante para melhorar o serviço público, mas faria apenas
"cócegas" na questão fiscal, ao gerar uma economia de até R$ 3
bilhões.
Muito
mais eficiente, argumenta, seria reduzir as emendas parlamentares, que mais que
quadruplicaram a partir de 2020.
"É
uma excrescência. As emendas parlamentares não eram para estar nos R$ 50
bilhões por ano. Eram para estar em R$ 10 bilhões, que é mais ou menos a média
que a gente teve de 2015 a 2019", crítica.
Fonte:
BBC News Brasil

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