sábado, 12 de julho de 2025

Trump, tarifaço e submissão: o Brasil no tabuleiro do imperialismo

A presidência de Donald Trump nos Estados Unidos trouxe de volta a ameaça explícita ao Brasil. Trump anunciou que vai aplicar tarifas de 50% sobre importações brasileiras. Não é só bravata protecionista: é sinal de como os Estados Unidos tratam seus “aliados” — especialmente quando esses aliados tentam afirmar algum grau de soberania.

A ironia é que Trump, ao mesmo tempo em que eleva tarifas, reafirma seu apoio incondicional ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Essa combinação não é casual. O objetivo é evidente: manter o Brasil sob controle, seja pela chantagem econômica, seja pelo respaldo político a lideranças alinhadas ao imperialismo.

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O que está em jogo é a soberania brasileira.

As tarifas são apenas uma face da estratégia. Em paralelo, os Estados Unidos mantêm e aprofundam alianças de inteligência e cooperação militar com setores das Forças Armadas e da Polícia Federal — conexões que se consolidaram durante o bolsonarismo, inclusive com a presença de militares brasileiros em instituições como West Point, além da presença de um oficial de estado maior no Comando Sul dos EUA.

Essas conexões ajudam a compreender a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, que contou com conivência de setores militares e civis alinhados a uma agenda externa. E explicam também a sabotagem cotidiana contra o governo eleito, que busca uma inserção soberana no mundo, integrando o Brics e buscando cooperação com o Sul Global.

O tarifaço de Trump deve ser lido como represália preventiva contra um Brasil que ameaça escapar da órbita imperial. Hoje, o Brics é alternativa concreta à hegemonia do dólar e à ordem centrada no Ocidente. O Brasil, com seus recursos estratégicos — petróleo, alimentos, minérios — é peça-chave nessa disputa geopolítica.

A elite brasileira, cúmplice, prefere manter a dependência. Parte do agronegócio e do capital financeiro enxerga no imperialismo uma proteção para seus próprios privilégios, mesmo que isso signifique empobrecer o país. Silenciam diante das ameaças, ou mesmo as aplaudem, esperando ver o governo sufocado.

É urgente denunciar essa submissão. O Brasil não pode continuar refém de potências estrangeiras nem de lideranças entreguistas. A defesa da soberania passa por enfrentar com coragem o imperialismo — nomeando-o como tal — e reconstruir a capacidade do Estado brasileiro de definir seu próprio destino.

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Trump já mostrou o que pensa do Brasil: um quintal a ser explorado. Cabe ao povo brasileiro mostrar que não aceitará mais esse papel. O inimigo principal da nossa independência é o imperialismo estadunidense — e enfrentá-lo é uma tarefa histórica e urgente.

¨      Como o Brasil poderia retaliar os EUA após tarifas de Trump

O governo brasileiro está calculando os próximos passos de sua resposta ao anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que produtos do Brasil exportados para o mercado americano serão submetidos a taxação adicional de 50% a partir de 1º de agosto.

Em entrevista na noite de quinta-feira (10/07) ao Jornal Nacional, da TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que a primeira etapa da reação será a formação de um grupo de empresários brasileiros de setores com grandes volumes de exportação para os EUA, como produtores de suco de laranja e aço, além da Embraer.

A ideia é diagnosticar as consequências do aumento das tarifas e buscar soluções, como a procura por novos mercados estrangeiros.

Além disso, Lula afirmou que o Brasil vai buscar uma avaliação da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a situação.

"A partir daí, se não houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a partir do 1º de agosto, quando ele começa a taxar o Brasil", disse o presidente à TV Globo.

Afinal, o que é a lei da reciprocidade, citada por Lula como uma possível resposta a Trump?

Sancionada pelo presidente brasileiro em abril, a Lei brasileira de Reciprocidade Econômica autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos brasileiros.

Na época da entrada em vigor, a lei foi apresentada como uma "ação estratégica" frente às tarifas impostas a dezenas de nações pelo governo Trump, em abril.

Entre as medidas possíveis, o Brasil poderia impor restrições e sobretaxas na importação de bens e serviços, suspender acordos ou obrigações comerciais e, em casos excepcionais, suspender direitos de propriedade intelectual, como reconhecimento de patentes ou pagamento de royalties.

A lei determina ainda que "consultas diplomáticas serão realizadas com vistas a mitigar ou anular os efeitos das medidas e contramedidas".

Apesar de a lei oferecer instrumentos legais para que o Poder Executivo, em coordenação com o setor privado, adote "contramedidas" em resposta a "medidas unilaterais que impactem negativamente a competitividade internacional brasileira", uma retaliação do Brasil pode provocar uma escalada na guerra comercial.

"A resposta mais óbvia, a retaliação, viria com o Brasil impondo tarifas recíprocas ou semelhantes a produtos americanos", diz à BBC News Brasil o especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do Kentucky.

"Mas esta não seria a melhor resposta", avalia Poggio.

Ao comentar sobre as chances do Brasil de medir forças com os EUA, Poggio compara: "É Davi contra Golias".

"Os EUA são um parceiro muito mais importante para o Brasil do que o Brasil é para os EUA em termos do comércio como um todo. Então, a capacidade que o Brasil tem [de retaliar] é muito limitada", avalia.

Na carta endereçada a Lula, em que anunciou a intenção de taxar as exportações brasileiras, Trump avisou que "se por qualquer motivo você decidir aumentar suas tarifas, então qualquer que seja o número escolhido para aumentá-las, ele será adicionado aos 50% que cobramos".

Segundo Poggio, uma retaliação pura e simples por parte do governo brasileiro seria apenas uma questão simbólica que acabaria prejudicando o Brasil também.

"Porém, não dá para ficar totalmente sem resposta [ao anúncio de Trump]", pondera.

Uma outra maneira de responder, segundo o analista, seria tentar fazer pressão sobre os setores específicos mais ligados ao comércio brasileiro e buscar contato com a sociedade civil americana, como parlamentares e empresários — "e ver se isso consegue chegar a Trump".

"Trump só escuta empresários americanos que eventualmente liguem pra ele e falem 'isso está nos prejudicando'", observa.

Outra opção, sugere Poggio, seria tentar algum tipo de pressão regional, unindo-se a outros países, como o México.

¨      Lula chama postura de Trump de 'inaceitável', diz que Brasil vai buscar OMC 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou a decisão anunciada nesta quarta-feira (9) pelo presidente dos EUA Donald Trump de taxar produtos brasileiros em 50% de "inadmissível", disse que vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e que, caso a medida se confirme, está disposto a utilizar a reciprocidade.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Nacional nesta quinta (10), o presidente disse que a vinculação do aumento nos impostos a questões judiciais internas do Brasil – Trump relacionou a medida às ações em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro – é algo que "um ser humano e um governo não pode admitir."

"É inaceitável que o presidente Trump manda uma carta, sabe, pelo site dele, sabe, e começa dizendo que é preciso, sabe, acabar com a caça as bruxas. Isso é inadmissível. Primeiro, porque isso aqui tem Justiça e a gente está fazendo um processo com direito a presunção de inocência de quem é vítima. Se quem é vítima e cometeu um erro vai ser punido. Aqui no Brasil é punido", disse o presidente.

Lula disse que não vai perder a calma sobre o tema, mas que o país está disposto a aplicar contramedidas previstas na chamada Lei de Reciprocidade.

Sancionada em abril pelo próprio Lula, a lei permite que o governo brasileiro adote medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que apliquem barreiras comerciais, legais ou políticas contra o Brasil.

"O Brasil utilizará a Lei da Reciprocidade quando necessário e o Brasil vai tentar junto com a OMC, com outros países, tentar fazer com que a OMC tome uma posição para saber quem é que está certo ou que está errado. A partir daí, se não houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a partir de primeiro de agosto quando ele começa a taxar o Brasil", disse o presidente.

"Nós entendemos que o Brasil é um país que não tem contencioso com ninguém, nós não queremos brigar com ninguém, nós queremos negociar e o que nós queremos é que sejam respeitadas as decisões brasileiras", afirmou.

Sobre medidas institucionais, o presidente disse que cabe ao Itamaraty decidir se medidas como a convocação da embaixadora brasileira nos EUA para consultas em Brasília – um ato considerado duro na diplomacia – serão adotadas.

<><> Reunião com empresários

Lula disse que vai se reunir com empresários que atuam em exportações para os EUA para discutir a reação ao anúncio, e enfatizou esperar que "estejam aliados ao governo brasileiro." Ele também afirmou que vai procurar novos mercados para os produtos brasileiros.

"Essa é a hora da gente mostrar que o Brasil quer ser respeitado no mundo, que o Brasil é um país que não tem contencioso com nenhum país do mundo e que, portanto, a gente não aceita desaforamento contra o Brasil", disse o presidente.

Sobre a falta de proximidade com o governo americano após a posse de Trump, o presidente brasileiro disse que enviou carta parabenizando o americano pela vitória nas eleições, mas que não tem "o que conversadr com o Trump até agora" e que "ele não dá motivo para que a gente tenha nada para conversar com ele."

Lula lembrou que, em junho, o americano deixou a reunião do G7, no Canadá, antes mesmo da chegada de presidentes convidados – incluindo o próprio Lula–, e voltou a criticar a forma como o anúncio foi feito por Trump nesta quarta-feira.

"Ele poderia ter ligado para o Brasil para dizer da medida que ele vai tomar. Ele não mandou nenhuma carta, nós não recebemos carta. Ele publicou no site dele em uma total falta de respeito, que é um comportamento dele com todo mundo. E eu não sou obrigado a aceitar esse comportamento desrespeitoso entre relações de chefe de Estado", reforçou.

Ainda assim, Lula não descartou que, se necessário, tentar entrar em contato direto com Trump, mesmo que o americano se recuse a conversar com ele.

<><> 'O Brasil está sendo sancionado pelos EUA, assim como Irã, Venezuela ou Rússia'

Os EUA são o segundo principal destino das exportações totais brasileiras, atrás da China, e o principal destino das exportações brasileiras de produtos manufaturados.

A nova taxa representa um aumento significativo em relação aos 10% anunciados pelos EUA em 2 de abril.

Produtos como aço, petróleo, aeronaves, celulose, café, carne e suco de laranja estão entre as principais exportações brasileiras para os EUA, segundo dados do governo, e esses setores poderiam ser os mais afetados.

Entre os mais importados pelo Brasil dos EUA estão motores e máquinas não elétricos, óleos combustíveis e brutos de petróleo, aeronaves e gás natural.

O Brasil poderia redirecionar seus produtos para outros mercados, como a China.

Mas, enquanto as exportações para a China são focadas em commodities, a pauta para os EUA é mais diversificada e com valor agregado mais alto.

Entre as justificativas para as novas tarifas, Trump citou um suposto déficit comercial dos EUA com o Brasil. No entanto, dados oficiais do governo brasileiro mostram superávit para os EUA.

Em sua nota em resposta, Lula disse que "é falsa a informação, no caso da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, sobre o alegado déficit norte-americano".

"As estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos comprovam um superávit desse país no comércio de bens e serviços com o Brasil da ordem de US$ 410 bilhões ao longo dos últimos 15 anos", diz a nota.

As justificativas de Trump para o anúncio não são meramente comerciais. Sua carta cita uma suposta perseguição que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estaria sofrendo no Brasil, onde é alvo de processo criminal no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a acusação de liderar uma tentativa de golpe de Estado.

A carta de Trump também menciona decisões do STF com "centenas de ordens de censura secretas e ilegais para plataformas de mídias sociais dos EUA, ameaçando-as com milhões de dólares em multas e expulsão do mercado brasileiro de mídias sociais".

A decisão de Trump foi recebida com surpresa no Brasil e nos EUA. O economista americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia em 2008, disse que a carta "marca um novo rumo" das políticas tarifárias, descritas por ele como "megalomaníacas".

Os principais veículos da imprensa americana também repercutiram a carta. O jornal The Washington Post afirmou que o anúncio mostra como questões pessoais, e não simplesmente econômicas, norteiam o uso de tarifas comerciais por Trump.

Na quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores convocou duas vezes o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, para prestar esclarecimentos.

A convocação é uma medida séria em relações internacionais e uma demonstração de desagrado com a outra nação.

A embaixadora Maria Luisa Escorel, secretária da América do Norte e Europa do Itamaraty, informou que o Brasil devolveria a carta, considerada por ela como ofensiva e contendo afirmações inverídicas e erros factuais.

Poggio, do Berea College, considera este um dos pontos mais baixos nos 200 anos de relações bilaterais entre Brasil e EUA e classifica as ações anunciadas por Trump como uma sanção ao Brasil.

"O nome que se dá a medidas coercitivas econômicas para fins políticos é sanção", afirma.

"O Brasil está sendo sancionado pelos EUA, assim como Irã, Venezuela ou Rússia. Com a diferença que o Brasil é uma democracia e é um aliado histórico dos EUA, um país amigo dos EUA."

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/BBC News Brasil

 

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