Trump,
tarifaço e submissão: o Brasil no tabuleiro do imperialismo
A
presidência de Donald Trump nos Estados Unidos trouxe de volta a ameaça
explícita ao Brasil. Trump anunciou que vai aplicar tarifas de 50% sobre
importações brasileiras. Não é só bravata protecionista: é sinal de como os
Estados Unidos tratam seus “aliados” — especialmente quando esses aliados
tentam afirmar algum grau de soberania.
A
ironia é que Trump, ao mesmo tempo em que eleva tarifas, reafirma seu apoio
incondicional ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Essa combinação não é casual. O
objetivo é evidente: manter o Brasil sob controle, seja pela chantagem
econômica, seja pelo respaldo político a lideranças alinhadas ao imperialismo.
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O que
está em jogo é a soberania brasileira.
As
tarifas são apenas uma face da estratégia. Em paralelo, os Estados Unidos
mantêm e aprofundam alianças de inteligência e cooperação militar com setores
das Forças Armadas e da Polícia Federal — conexões que se consolidaram durante
o bolsonarismo, inclusive com a presença de militares brasileiros em
instituições como West Point, além da presença de
um oficial de estado maior no Comando Sul dos EUA.
Essas
conexões ajudam a compreender a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, que
contou com conivência de setores militares e civis alinhados a uma agenda
externa. E explicam também a sabotagem cotidiana contra o governo eleito, que
busca uma inserção soberana no mundo, integrando o Brics e buscando cooperação
com o Sul Global.
O
tarifaço de Trump deve ser lido como represália preventiva contra um Brasil que
ameaça escapar da órbita imperial. Hoje, o Brics é alternativa
concreta à hegemonia do dólar e à ordem centrada no Ocidente. O Brasil, com
seus recursos estratégicos — petróleo, alimentos, minérios — é peça-chave nessa
disputa geopolítica.
A elite
brasileira, cúmplice, prefere manter a dependência. Parte do agronegócio e do
capital financeiro enxerga no imperialismo uma proteção para seus próprios
privilégios, mesmo que isso signifique empobrecer o país. Silenciam diante das
ameaças, ou mesmo as aplaudem, esperando ver o governo sufocado.
É
urgente denunciar essa submissão. O Brasil não pode continuar refém de
potências estrangeiras nem de lideranças entreguistas. A defesa da soberania
passa por enfrentar com coragem o imperialismo — nomeando-o como tal — e
reconstruir a capacidade do Estado brasileiro de definir seu próprio destino.
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Trump
já mostrou o que pensa do Brasil: um quintal a ser explorado. Cabe ao povo
brasileiro mostrar que não aceitará mais esse papel. O inimigo principal da
nossa independência é o imperialismo estadunidense — e enfrentá-lo é uma tarefa
histórica e urgente.
¨
Como o Brasil poderia retaliar os EUA após tarifas de
Trump
O
governo brasileiro está calculando os próximos passos de sua resposta ao anúncio do presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump,
de que produtos do Brasil exportados para o mercado americano serão submetidos
a taxação adicional de 50% a partir de 1º de agosto.
Em
entrevista na noite de quinta-feira (10/07) ao Jornal Nacional, da
TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) disse
que a primeira etapa da reação será a formação de um grupo de empresários
brasileiros de setores com grandes volumes de exportação para os EUA, como
produtores de suco de laranja e aço, além da Embraer.
A ideia
é diagnosticar as consequências do aumento das tarifas e buscar soluções, como
a procura por novos mercados estrangeiros.
Além
disso, Lula afirmou que o Brasil vai buscar uma avaliação da Organização
Mundial do Comércio (OMC) sobre a situação.
"A
partir daí, se não houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a
partir do 1º de agosto, quando ele começa a taxar o Brasil", disse o
presidente à TV Globo.
Afinal,
o que é a lei da reciprocidade, citada por Lula como uma possível resposta a
Trump?
Sancionada
pelo presidente brasileiro em abril, a Lei brasileira de Reciprocidade
Econômica autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras
comerciais a produtos brasileiros.
Na
época da entrada em vigor, a lei foi apresentada como uma "ação
estratégica" frente às tarifas impostas a dezenas de nações
pelo governo Trump,
em abril.
Entre
as medidas possíveis, o Brasil poderia impor restrições e sobretaxas na
importação de bens e serviços, suspender acordos ou obrigações comerciais e, em
casos excepcionais, suspender direitos de propriedade intelectual, como
reconhecimento de patentes ou pagamento de royalties.
A lei
determina ainda que "consultas diplomáticas serão realizadas com vistas a
mitigar ou anular os efeitos das medidas e contramedidas".
Apesar
de a lei oferecer instrumentos legais para que o Poder Executivo, em
coordenação com o setor privado, adote "contramedidas" em resposta a
"medidas unilaterais que impactem negativamente a competitividade
internacional brasileira", uma retaliação do Brasil pode provocar uma
escalada na guerra comercial.
"A
resposta mais óbvia, a retaliação, viria com o Brasil impondo tarifas
recíprocas ou semelhantes a produtos americanos", diz à BBC News Brasil o
especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de
Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do
Kentucky.
"Mas
esta não seria a melhor resposta", avalia Poggio.
Ao
comentar sobre as chances do Brasil de medir forças com os EUA, Poggio compara:
"É Davi contra Golias".
"Os
EUA são um parceiro muito mais importante para o Brasil do que o Brasil é para
os EUA em termos do comércio como um todo. Então, a capacidade que o Brasil tem
[de retaliar] é muito limitada", avalia.
Na carta endereçada a Lula, em que anunciou a
intenção de taxar as exportações brasileiras, Trump avisou que "se por
qualquer motivo você decidir aumentar suas tarifas, então qualquer que seja o
número escolhido para aumentá-las, ele será adicionado aos 50% que cobramos".
Segundo
Poggio, uma retaliação pura e simples por parte do governo brasileiro seria
apenas uma questão simbólica que acabaria prejudicando o Brasil também.
"Porém,
não dá para ficar totalmente sem resposta [ao anúncio de Trump]", pondera.
Uma
outra maneira de responder, segundo o analista, seria tentar fazer pressão
sobre os setores específicos mais ligados ao comércio brasileiro e buscar
contato com a sociedade civil americana, como parlamentares e empresários —
"e ver se isso consegue chegar a Trump".
"Trump
só escuta empresários americanos que eventualmente liguem pra ele e falem 'isso
está nos prejudicando'", observa.
Outra
opção, sugere Poggio, seria tentar algum tipo de pressão regional, unindo-se a
outros países, como o México.
¨ Lula chama postura de
Trump de 'inaceitável', diz que Brasil vai buscar OMC
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou a decisão anunciada nesta
quarta-feira (9) pelo presidente dos EUA Donald Trump de taxar produtos
brasileiros em 50% de
"inadmissível", disse que vai recorrer à Organização Mundial do
Comércio (OMC) e que, caso a medida se confirme, está disposto a utilizar a
reciprocidade.
Em
entrevista exclusiva ao Jornal Nacional nesta quinta (10), o
presidente disse que a vinculação do aumento nos impostos a questões judiciais
internas do Brasil – Trump relacionou a medida às ações em
tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair
Bolsonaro –
é algo que "um ser humano e um governo não pode admitir."
"É
inaceitável que o presidente Trump manda uma carta, sabe, pelo site dele, sabe,
e começa dizendo que é preciso, sabe, acabar com a caça as bruxas. Isso é
inadmissível. Primeiro, porque isso aqui tem Justiça e a gente está fazendo um
processo com direito a presunção de inocência de quem é vítima. Se quem é
vítima e cometeu um erro vai ser punido. Aqui no Brasil é punido", disse o
presidente.
Lula
disse que não vai perder a calma sobre o tema, mas que o país está
disposto a aplicar contramedidas previstas na chamada Lei de Reciprocidade.
Sancionada
em abril pelo próprio Lula, a lei permite que o governo
brasileiro adote medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que
apliquem barreiras comerciais, legais ou políticas contra o Brasil.
"O
Brasil utilizará a Lei da Reciprocidade quando necessário e o Brasil vai tentar
junto com a OMC, com outros países, tentar fazer com que a OMC tome uma posição
para saber quem é que está certo ou que está errado. A partir daí, se não
houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a partir de primeiro de
agosto quando ele começa a taxar o Brasil", disse o presidente.
"Nós
entendemos que o Brasil é um país que não tem contencioso com ninguém, nós não
queremos brigar com ninguém, nós queremos negociar e o que nós queremos é que
sejam respeitadas as decisões brasileiras", afirmou.
Sobre
medidas institucionais, o presidente disse que cabe ao Itamaraty decidir se
medidas como a convocação da embaixadora brasileira nos EUA para consultas em
Brasília – um ato considerado duro na diplomacia – serão adotadas.
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Reunião com empresários
Lula
disse que vai se reunir com empresários que atuam em exportações para os EUA
para discutir a reação ao anúncio, e enfatizou esperar que "estejam
aliados ao governo brasileiro." Ele também afirmou que vai procurar
novos mercados para os produtos brasileiros.
"Essa
é a hora da gente mostrar que o Brasil quer ser respeitado no mundo, que o
Brasil é um país que não tem contencioso com nenhum país do mundo e que,
portanto, a gente não aceita desaforamento contra o Brasil", disse o
presidente.
Sobre a
falta de proximidade com o governo americano após a posse de Trump, o
presidente brasileiro disse que enviou carta parabenizando o americano pela
vitória nas eleições, mas que não tem "o que conversadr com o Trump
até agora" e que "ele não dá motivo para que a gente tenha nada para
conversar com ele."
Lula
lembrou que, em junho, o americano deixou a reunião do G7,
no Canadá,
antes mesmo da chegada de presidentes convidados – incluindo o próprio Lula–, e
voltou a criticar a forma como o anúncio foi feito por Trump nesta
quarta-feira.
"Ele
poderia ter ligado para o Brasil para dizer da medida que ele vai tomar. Ele
não mandou nenhuma carta, nós não recebemos carta. Ele publicou no site dele em
uma total falta de respeito, que é um comportamento dele com todo mundo. E eu
não sou obrigado a aceitar esse comportamento desrespeitoso entre relações de
chefe de Estado", reforçou.
Ainda
assim, Lula não descartou que, se necessário, tentar entrar em contato direto
com Trump, mesmo que o americano se recuse a conversar com ele.
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'O Brasil está sendo sancionado pelos EUA, assim como Irã, Venezuela ou Rússia'
Os EUA
são o segundo principal destino das exportações totais brasileiras, atrás da
China, e o principal destino das exportações brasileiras de produtos
manufaturados.
A nova
taxa representa um aumento significativo em relação aos 10% anunciados pelos
EUA em 2 de abril.
Produtos
como aço, petróleo, aeronaves, celulose, café, carne e suco de laranja estão
entre as principais exportações brasileiras para os EUA, segundo dados do
governo, e esses setores poderiam ser os mais afetados.
Entre
os mais importados pelo Brasil dos EUA estão motores e máquinas não elétricos,
óleos combustíveis e brutos de petróleo, aeronaves e gás natural.
O
Brasil poderia redirecionar seus produtos para outros mercados, como a China.
Mas,
enquanto as exportações para a China são focadas em commodities, a
pauta para os EUA é mais diversificada e com valor agregado mais alto.
Entre
as justificativas para as novas tarifas, Trump citou um suposto déficit
comercial dos EUA com o Brasil. No entanto, dados oficiais do governo
brasileiro mostram superávit para os EUA.
Em sua
nota em resposta, Lula disse que "é falsa a informação, no caso da relação
comercial entre Brasil e Estados Unidos, sobre o alegado déficit
norte-americano".
"As
estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos comprovam um superávit desse
país no comércio de bens e serviços com o Brasil da ordem de US$ 410 bilhões ao
longo dos últimos 15 anos", diz a nota.
As
justificativas de Trump para o anúncio não são meramente comerciais. Sua carta
cita uma suposta perseguição que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estaria
sofrendo no Brasil, onde é alvo de processo criminal no Supremo Tribunal
Federal (STF) sob a acusação de liderar uma tentativa de golpe de Estado.
A carta
de Trump também menciona decisões do STF com "centenas de ordens de
censura secretas e ilegais para plataformas de mídias sociais dos EUA,
ameaçando-as com milhões de dólares em multas e expulsão do mercado brasileiro
de mídias sociais".
A
decisão de Trump foi recebida com surpresa no Brasil e nos EUA. O economista
americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de
Economia em 2008, disse que a carta "marca um novo rumo" das
políticas tarifárias, descritas por ele como "megalomaníacas".
Os
principais veículos da imprensa americana
também repercutiram a carta. O jornal The Washington Post afirmou que o anúncio
mostra como questões pessoais, e não simplesmente econômicas, norteiam o uso de
tarifas comerciais por Trump.
Na
quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores convocou duas vezes o
encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, para
prestar esclarecimentos.
A
convocação é uma medida séria em relações internacionais e uma demonstração de
desagrado com a outra nação.
A
embaixadora Maria Luisa Escorel, secretária da América do Norte e Europa do
Itamaraty, informou que o Brasil devolveria a carta, considerada por ela como
ofensiva e contendo afirmações inverídicas e erros factuais.
Poggio,
do Berea College, considera este um dos pontos mais baixos nos 200 anos de
relações bilaterais entre Brasil e EUA e classifica as ações anunciadas por
Trump como uma sanção ao Brasil.
"O
nome que se dá a medidas coercitivas econômicas para fins políticos é
sanção", afirma.
"O
Brasil está sendo sancionado pelos EUA, assim como Irã, Venezuela ou Rússia.
Com a diferença que o Brasil é uma democracia e é um aliado histórico dos EUA,
um país amigo dos EUA."
Fonte: Diálogos
do Sul Global/BBC News Brasil

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