sábado, 12 de julho de 2025

O que Trump realmente quer ao mirar o Brasil com tarifas

As novas tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a produtos brasileiros envolvem mais do razões econômicas. Para além do debate ideológico, usado como justificativa para a ampliação das tarifas comerciais, a atuação de Trump revela a transformação do comércio internacional em ferramenta de punição ou recompensa para governos alinhados à doutrina norte-americana, segundo especialistas ouvidos pela DW.

"O que a gente observa, principalmente desde o primeiro mandato do Trump, é um uso mais temático dessa ferramenta, tanto da pressão comercial, quanto da restrição às relações de investimento dos Estados Unidos", diz Pedro Brites, professor da Escola de Relações Internacionais da FGV.

O anúncio das tarifas de Trump ocorreu em carta pública ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No texto, o líder dos EUA criticou as ações judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e o processo eleitoral no Brasil.

Brites compara as altas tarifas impostas aos produtos brasileiros a sanções econômicas, já conhecidas por outros países da América Latina, como Cuba e Venezuela.

"Claro que, formalmente, não se trata de uma sanção, mas a gente poderia colocar essas tarifas no mesmo patamar de efeitos das sanções, que tentam gerar pressão política. Então, elas são ferramentas, de fato, políticas, mais do que ferramentas econômicas. E essa transformação vem ocorrendo paulatinamente à medida que os Estados Unidos vão tendo mais espaços de resistência à sua hegemonia na política internacional", afirma.

<><> A era da diplomacia comercial acabou?

Se o aumento das tarifas passa a ser utilizado como arma geopolítica, há dúvidas se o mundo continuará a valorizar a diplomacia comercial - um conjunto de ações coordenadas por um Estado, por meio de seus órgãos diplomáticos e comerciais, para promover seus interesses econômicos no exterior.

Essas ações envolviam negociações de acordos bilaterais e multilaterais, abertura de mercados, proteção de empresas nacionais, atração de investimentos estrangeiros e defesa de exportadores diante de barreiras tarifárias e regulatórias, além de órgão

reguladores, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo.

De acordo com Carolina Silva Pedroso, professora de relações internacionais da Unifesp, esses instrumentos surgiram no passado por iniciativa dos Estados Unidos, em um contexto de crescente bipolaridade na União Soviética, como forma de fazer prevalecer a sua visão mais liberal sobre a economia mundial, com a expectativa de quanto mais livre o comércio, os países estariam menos propensos a sucumbir ao bloco socialista.

"O regime de comércio internacional construído no pós-2ª Guerra Mundial e que teve o seu ápice na criação da OMC, cujo objetivo era derrubar as barreiras ao livre-comércio, está fortemente prejudicado", diz.

Para a especialista, as ações dos Estados Unidos, que deixaram de cumprir acordos, principalmente sob Trump, ampliaram conflitos e reduziram o poder das instituições multilaterais. "Todo esse contexto só dificulta a resolução dos conflitos pela via da diplomacia comercial, forçando os países a negociarem bilateralmente, ou arcarem com os custos impostos de maneira unilateral, enfraquecendo os mecanismos multilaterais de resolução de controvérsias”, diz.

<><> Redes sociais, economia e influência

Trump justificou a sobretaxa de 50% citando o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) – o ex-presidente é acusado de tentar dar um golpe para reverter a derrota eleitoral de 2022 – e o que chamou de "ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos". A medida deve valer a partir de 1º de agosto.

Trump também utilizou as redes sociais, palco onde a extrema-direita é forte nos dois países, para reclamar de um suposto cerceamento da liberdade das big techs. Esse estímulo ao engajamento virtual representa o vínculo do governo Trump com as redes sociais, como um dos pilares de sustentação do governo, e o debate que o Brasil vem tentando sobre a atuação dessas empresas.

"O movimento brasileiro de começar a discutir esses limites atinge diretamente o núcleo do governo Trump. E, tendo conhecimento do ativismo brasileiro em tais plataformas, sem dúvidas a articulação da extrema direita nas redes era um efeito colateral desejado, sobretudo em um contexto maior de desempenho sofrível do governo brasileiro e das esquerdas, no geral, nesse mesmo ambiente", diz Carolina Silva Pedroso.

Além disso, para além do alinhamento ideológico com o bolsonarismo e do movimento das big techs, o anúncio tarifário também ecoa uma disputa dos Estados Unidos com a China pela hegemonia da influência na América Latina, região onde o Brasil exerce uma presença importante, e da criação de alternativas ao dólar, ventilada por países do Brics, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

"A zona de influência ‘natural' dos Estados Unidos tem se tornado cada vez mais porosa a potências externas à região, o que, na lógica geopolítica, também indica esse declínio da hegemonia estadunidense", afirma Pedroso. "Nesse sentido, o respaldo ao bolsonarismo se dá não só pela proximidade ideológica entre os líderes, mas sobretudo pela posição brasileira quando Bolsonaro esteve no poder de maior alinhamento e até submissão aos Estados Unidos", completa.

O governo Trump, porém, deverá encontrar dificuldades para retomar o espaço que a China ocupa atualmente na região. "É muito difícil pensar que, mesmo com toda essa pressão que os Estados Unidos possam exercer, você consiga substituir de fato a China. Então, por isso que eu sou um pouco cético da capacidade dos Estados Unidos de retomarem plenamente essa liderança que um dia já tiveram aqui na região", afirma Pedro Brites, da FGV.

Especialistas não creem, contudo, que possa haver uma união diplomática para amenizar a pressão sobre os países da região. "Acho que cada país tem adotado um caminho muito individual. Não consigo ver hoje um cenário de união da América Latina em prol disso. O que a gente observa muito é que os países têm tido inflexões nas suas políticas externas muito significativas a depender de quem está no governo", diz Brites.

<><> Impactos limitados?

Mesmo com a perda de espaço para a China na balança comercial brasileira, os Estados Unidos se mantêm como um importante parceiro comercial, responsável por cerca de 12% das exportações do Brasil, principalmente no setor de aviação, um dos poucos produtos de alto valor agregado exportados, segundo Odilon Guedes, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon).

"É importante lembrar que o presidente Trump costuma adotar medidas e, muitas vezes, volta atrás rapidamente. Mas, se essas tarifas realmente forem mantidas, o setor de aviação será um dos mais afetados", diz.

Para o economista André Perfeito, a alta de taxas poderia custar até 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Mas, a resposta do governo brasileiro em aplicar tarifas recíprocas aos produtos norte-americanos poderia escalar a crise, levando a implicações inflacionárias nos Estados Unidos e no Brasil.

"Como Trump coloca uma questão de aspectos não verdadeiros, comerciais, e políticos, a única reação do governo brasileiro é bater duro de volta. Mas isso poderia trazer uma pressão inflacionária, com juros mais altos", diz.

Segundo Perfeito, Trump tem uma estratégia volátil e poderá recuar a qualquer momento. "Trump não preza pelo argumento propriamente lógico. É uma estratégia de negociação, dizendo que o Brasil é mal parceiro, o que é mentira, dado que o Brasil roda déficit comercial desde 2009. Ele está querendo uma vantagem para querer algum ativo, alguma vantagem, mas não é propriamente comercial. É um jogo dinâmico, que não dá para cravar onde a bola vai cair, mas que Trump precisará recuar", completa.

¨      Como o tarifaço de Trump pode afetar o Brasil

O anúncio de Donald Trump de que aplicará uma sobretaxa de 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos pegou o governo Lula de surpresa. A ação, que tomou ares de ameaça, traz uma justificativa política: a investigação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, chamada pelo mandatário dos EUA de "caça às bruxas".

Em resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que utilizará a Lei de Reciprocidade. Essa legislação, aprovada no Congresso e sancionada ainda neste ano no contexto do primeiro tarifaço de Trump, ainda precisa de regulamentação. Logo, não se sabe quais efeitos teria, como, por exemplo, se aplicariam tarifas de 50% em produtos americanos que cheguem a solo brasileiro.

Segundo especialistas, no entanto, os efeitos econômicos ao Brasil devem ser limitados, ao menos a curto-prazo. Já os efeitos políticos ainda são improváveis, mas apontam para uma "tempestade no horizonte" que se avizinha em relação às eleições presidenciais do ano que vem.

<><> Parceria comercial

As tarifas de 50% sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos devem começar a valer a partir de 1º de agosto. Em 2024, a parceria entre ambos os países foi bastante equilibrada e gerou um superávit para a nação de Trump de cerca de 253 milhões de dólares.

Neste ano, no entanto, os números já chegam a 1,6 bilhão de dólares, o que contraria o trecho da carta do presidente republicano que afirma que as trocas com o Brasil são deficitárias para os EUA. Na verdade, a balança dessa parceria pende para o lado americano desde 2009.

Um relatório do BTG Pactual, divulgado nesta quinta-feira (10/07), avalia que a sobretaxa de 50% deve gerar perdas de cerca de 7 bilhões de dólares em exportações ainda em 2025. Para o ano que vem, se a medida for mantida, a quantia pode atingir os 13 bilhões de dólares. O banco de investimentos, porém, afirma que a capacidade dos exportadores brasileiros de redirecionar vendas para outros mercados amorteceria essas perdas, que representariam 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano e de 0,6%, em 2026.

Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que cerca de 60% das exportações brasileiras para os EUA são de insumos utilizados pela cadeia de produção, o que impactaria ambos os países. Segundo a entidade, ano passado, foram gerados 24,3 mil empregos e R$ 3,2 bilhões em produção para cada R$ 1 bilhão exportado para o parceiro americano.

De acordo com a economista Lia Valls Pereira, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e sênior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), setores como o de frigoríficos e de celulose podem sair perdendo por aqui. Ela acrescenta que, por ter motivação eminentemente política, as negociações são muito mais difíceis do que com os outros países, cujas justificativas de Trump foram basicamente comerciais.

"Se essas tarifas se confirmarem, poderão ter impacto negativo para alguns setores no Brasil. Não é muito fácil diversificar a exportação para outros mercados rapidamente, ainda mais no momento em que a renda mundial está em desaceleração, pelas próprias incertezas que o governo Trump traz", afirma Valls Pereira.

Segundo ela, setores mais voltados para a exportações podem perder faturamento, o que poderia impactar na geração de empregos. Já a tão temida inflação, diz ela, deve chegar, com o tarifaço de Trump, só aos consumidores dos Estados Unidos, já que as sobretaxas incidem sobre os produtos que são vendidos para lá – desde que o governo brasileiro não use a lei de reciprocidade.

<><> Reflexos políticos

Por outro lado, a pressão política foi o principal componente da correspondência enviada por Trump. O recado cita nominalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado pela Justiça Eleitoral e está inelegível, mas enfrenta um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado durante as eleições de 2022, vencidas por Lula.

Além disso, o tarifaço sugeriu uma articulação internacional da extrema direita brasileira, já que Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente e deputado federal, está licenciado nos EUA alegando "perseguição política" no Brasil e agradeceu ao presidente americano nas redes sociais pelas medidas.

Para Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (Unb) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), é preciso cautela para se avaliar a influência de Eduardo no tarifaço trumpista.

"Ele não foi recebido no Salão Oval da Casa Branca, não vimos uma foto do Eduardo Bolsonaro com o Trump. Temos que ver até que ponto ele não está inflando a sua participação. Se for isso, os Estados Unidos estão agindo como papagaio de pirata, o que eles naturalmente não são", argumenta Menezes.

Segundo ele, a pressão de Trump estão muito mais em consonância com os interesses das big techs, que enfrentam a possibilidade de regulamentação no Brasil. Um dos principais atores é o bilionário Elon Musk, dono da rede social X, que recentemente deixou um cargo de alto escalão no governo dos Estados Unidos.

O professor da UnB diz que Trump parece estar antecipando o ativismo político que terá em relação às eleições de 2026 e que, com a carta, mostra o caráter autoritário de quem não leva em consideração nem a soberania de outro país e nem a divisão de Poderes do sistema político brasileiro, já que os processos a Bolsonaro estão no Judiciário e a carta é endereçada a Lula, chefe do Executivo.

"A melhor resposta do governo brasileiro nesse momento é uma posição coordenada com todos os atores afetados no Brasil, com as entidades representantes dos setores, empresários, entre outros", avalia. Ainda nesta quinta-feira, Lula anunciou a criação de um comitê com empresários para "repensar a política comercial com os Estados Unidos".

"O problema é se o Brasil vai conseguir circunscrever ao campo comercial essa crise. Porque os Estados Unidos estão antecipando 2026. Então, ele poderá começar a sancionar autoridades brasileiras, pois tem instrumentos para isso", diz Menezes, que classifica a situação como um indício de uma "tempestade no horizonte".

Sobre um possível ganho eleitoral dos atores brasileiros envolvidos, o professor de relações internacionais acredita que não é momento para se tirar um dividendo político da situação.

Já o banco BTG Pactual apontou um possível favorecimento político de Lula com a crise do tarifaço. "A base de apoio do governo no Congresso sugere que a medida pode fortalecer politicamente o presidente Lula, ao intensificar o embate com seu principal antagonista", diz o relatório enviado aos investidores. "Analistas políticos acreditam que essa narrativa pode aumentar a popularidade de Lula e reposicionar seu discurso com vistas às eleições de 2026", completa o banco de investimentos.

<><> Brics

A sobretaxação dos produtos brasileiros ocorre poucos dias depois da Cúpula do Brics, que foi realizada no Rio de Janeiro na semana passada. O bloco econômico formado pelos países do Sul Global – que conta com a China, alvo constante de Trump, com seu membro mais poderoso – tem feito discussões sobre a adoção de uma moeda em comum e maneiras de realizarem trocas sem utilizar o dólar como moeda intermediária.

movimento levou Trump a afirmar, nas redes sociais, que o qualquer país que se alinhar com "as políticas antiamericanas do Brics" receberá uma penalidade de 10% de tarifas adicionais.

Para Goulart Menezes, a fala é um reflexo da reação do presidente americano a qualquer tentativa de multilateralidade no contexto global. "Sabemos que ele faz tudo ao contrário: tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, da Organização Mundial da Saúde (OMS), ameaçou a Organização Mundial do Comércio. O objetivo dele é refazer a hegemonia dos EUA sem considerar as condições que já estão dadas", diz.

Sobre a possibilidade de uma moeda comum dos Brics, o professor afirma que é algo difícil de se implementar e que as bravatas de Trump sobre essa possibilidade são exageradas. Segundo ele, o que vem sendo buscado na prática é reduzir as perdas nas trocas comerciais entre os países, que têm de converter suas moedas para dólar e, nesse processo, pagam tarifas cambiais. "É basicamente o que você consegue fazer hoje com uma fintech se for viajar para outro país", finaliza.

 

Fonte: DW Brasil

 

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