Susan
Kang: Nova York pode ter prefeito muçulmano de esquerda. Se seu próprio partido
permitir
A
vitória de Zohran Mamdani nas eleições primárias do Partido Democrata para a
prefeitura de Nova York desencadeou uma onda de entusiasmo em toda a esquerda
progressista e uma onda de análises na imprensa política.
A
questão central é simples: um candidato jovem, muçulmano, filiado de
carteirinha dos Socialistas Democráticos da América, pode derrotar figuras
poderosas do establishment político em qualquer lugar do país? É um fenômeno
típico de Nova York, ou um sinal de mudança no eleitorado democrata de forma
geral?
A
resposta é sim.
Sim, a
derrota da candidatura “grande demais para dar errado” do ex-governador de Nova
York, Andrew Cuomo, armado com milhões de dólares recebidos do próprio sistema,
diante de uma oposição coordenada por voluntários de esquerda, poderia
acontecer em qualquer lugar. Cuomo serve de representante da liderança nacional
do Partido Democrata, cada vez mais insensível, que insiste, desde a derrota de
2024, que o partido precisa moderar suas opiniões, e rejeitou o jovem líder
eleito David Hogg, que ameaçou derrotar parlamentares democratas mais velhos
nas primárias, mesmo depois do desastre da campanha de Biden.
E sim,
a combinação excepcional de um candidato habilidoso, autêntico e com
princípios, com profundos vínculos aos movimentos sociais, cuja campanha
mobilizou dezenas de milhares de voluntários para enfrentar Cuomo,
especificamente, desempenhou um papel importante no sucesso de Mamdani.
As
lições da campanha de Mamdani podem impulsionar outros progressistas a
desafiarem candidatos democratas pró-sistema em outras disputas, mesmo fora dos
centros urbanos dominados pelo partido (e vale lembrar que Nova York tem um
longo histórico de prefeitos republicanos).
Primeiro,
Mamdani insistiu na acessibilidade, promovendo uma plataforma política
economicamente progressista: passe livre nos ônibus, congelamento dos aluguéis,
e creches públicas e gratuitas, dando aos eleitores um recado claro sobre suas
prioridades. Ele também promoveu algumas ideias inovadoras, como supermercados
públicos e tributação mais alta sobre os ricos, que atraíram as pessoas com o
brilho da novidade.
E ele
foi às ruas. Ele participou de compromissos públicos e visitou comunidades em
toda a cidade de Nova York, apresentando a imagem de um homem do povo,
agradável e de mente aberta, incluindo nos discursos seu compromisso com a
solidariedade e a dignidade humanas –– inclusive para o povo palestino. Sua
campanha logo foi associada à questão do custo de vida, e embora suas propostas
tenham sido atacadas por não serem “realistas“, ele permaneceu fiel à sua
mensagem, o que motivou mais de 29 mil voluntários a baterem em mais de um
milhão de portas.
Seu uso
bem-sucedido das redes sociais, incluindo colaborações estratégicas com
conhecidos influenciadores progressistas, também ajudou a divulgar sua
mensagem. A mensagem econômica, o compromisso com a solidariedade, e a incrível
atuação de base podem definitivamente ser reproduzidos com o candidato certo,
que tenha princípios e uma rede forte de organizações comunitárias e
voluntários mobilizados.
Mamdani
também enfatizou questões de justiça social, como proteger as comunidades
LGBTQ+ e de imigrantes contra Trump. E embora ele nunca tenha tido medo de
expressar suas opiniões sobre a Palestina, a campanha se concentrou
principalmente em questões universais de justiça econômica e acessibilidade,
que ajudariam de forma desproporcional as comunidades marginalizadas e de
minorias étnico-raciais.
As
famílias negras, por exemplo, com crianças em idade escolar, deixaram Nova York
nos últimos 20 anos em proporção bem mais alta na comparação com outros grupos,
segundo os dados do censo, simplesmente porque o custo de ter filhos era alto
demais. O plano de Mamdani de oferecer creches públicas e gratuitas desde o
nascimento (e os altíssimos custos com o cuidado das crianças são uma
importante fonte documentada de pressão econômica sobre os nova-iorquinos),
kits de bebê para os recém-nascidos, e programas universais de contraturno
escolar no Departamento de Educação de NY seriam um alívio para as comunidades
minoritárias que mais se beneficiam desses serviços, e também ajudariam os
nova-iorquinos em todas as faixas de renda. Quase três quartos dos alunos das
escolas públicas da cidade de Nova York se enquadram nos critérios de
“economicamente desfavorecidos” –– e o programa de pré-escola universal criado
pelo ex-prefeito Bill de Blasio continua sendo uma de suas realizações mais
populares, usado por famílias em várias faixas de renda.
Fazer
uma campanha pautada em questões econômicas populares, defender a justiça
social, e organizar um bom movimento de base e uma campanha de redes sociais
são uma possível receita de sucesso em qualquer lugar.
Mas a
disputa, como todas, também dependeu de detalhes.
Mamdani
concorreu com algumas desvantagens que outros candidatos que quiserem se
inspirar em seu sucesso talvez não enfrentem. Vários oponentes criticaram o
deputado estadual, de 33 anos, por sua juventude e relativa inexperiência.
Mamdani também enfrentou ataques racistas, como santinhos criados pelo comitê
de Cuomo, que o retrataram com a barba escurecida, tentando reforçar
preconceitos islamofóbicos. Mamdani conseguiu transformar sua juventude e sua
identidade em vantagens, mobilizando eleitores jovens e eleitores muçulmanos e
asiáticos em toda a cidade. Qualquer candidato que pretenda reproduzir seu
sucesso também podem transformar suas desvantagens em vantagens, e usar seu
posicionamento para mobilizar e energizar “eleitores menos prováveis”, que ficam
sub-representados na amostragem das pesquisas, mas não é um feito tão fácil de
realizar.
E é
preciso falar também de seu adversário. Andrew Cuomo entrou na disputa com
reconhecimento imediato de seu nome, apoio do establishment do Partido
Democrata de Nova York, e um financiamento de campanha de US$25 milhões (R$136
milhões), muito maior que o de Mamdani. Mas ele conduziu uma campanha sem
brilho, e foi ainda mais ofuscado por seu longo legado de toxicidade em muitos
espaços de Nova York, uma cidade politicamente engajada.
Mamdani
se tornou, de muitas formas, um representante de todos os progressistas
marginalizados da cidade de Nova York que combateram as terríveis políticas de
Cuomo e seu péssimo estilo de governo, por mais de uma década.
Cuomo,
um dinossauro do Partido Democrata de “terceira via” da era Clinton –– ele foi
secretário de habitação e desenvolvimento urbano do ex-presidente Bill Clinton
–– chegou ao governo estadual em 2011, quando o estado se recuperava da crise
financeira de 2008. Cuomo adentrou o cargo com um orçamento extremamente
austero, 2,7% menor que o do ano anterior, que incluiu cortes de bilhões de
dólares em serviços essenciais, como educação e saúde. Ele passou o primeiro
ano de seu mandado empunhando a foice da austeridade, e parecia gostar de criar
inimigos nos sindicatos de servidores públicos e dos profissionais de saúde e
educação.
Cuomo
também se envolveu em escândalos éticos, quando extinguiu rapidamente a
Comissão Moreland, que ele mesmo havia criado em janeiro de 2013 para erradicar
a corrupção no governo estadual. Isso o tornou alvo de uma disputa ideológica
nas primárias, onde concorreu com o bom especialista em governança e professor
de direito Zephyr Teachout, em 2014. Teachout consegui um terço dos votos na
eleição primária, sinalizando a desaprovação de Cuomo entre o eleitorado, mas o
então governador não levou a sério o desafio. Cuomo continuou a governar com
desproporcional controle, usando a divisão interna do governo em benefício
próprio e se envolvendo em políticas que prejudicaram a cidade de Nova York.
As
críticas a ele se intensificaram após a vitória de Donald Trump nas eleições
presidenciais de 2016. Apesar de sua associação com os republicanos durante o
governo Trump, Cuomo conseguiu vencer novamente em 2018 contra sua adversária
progressista, Cynthia Nixon.
Muitos
ativistas ficaram frustrados com a capacidade de Cuomo de se manter impermeável
às críticas. Sua invencibilidade se tornou mais aparente durante sua ascensão
meteórica ao estrelato nacional, com os boletins diários sobre a Covid-19, no
período da pandemia. Mas seu rápido apogeu foi logo seguido de uma queda
vertiginosa, quando 13 mulheres, a maioria ex-funcionárias, decidiram
compartilhar suas histórias de assédio sexual e retaliação. Como as principais
lideranças democratas, na sequência do movimento #MeToo, pediram sua renúncia,
ele renunciou, em desgraça. Os contribuintes desembolsaram US$60 milhões (R$327
milhões) para cobrir as despesas judiciais desses escândalos, e alguns dos
processos contra Cuomo por assédio sexual ainda estão sendo discutidos na
justiça.
É um
mistério o que levou Cuomo a decidir que seus escândalos não importavam, e se
lançar na disputa pela prefeitura, depois que os problemas do atual prefeito
Eric Adams na justiça se tornaram uma grande desvantagem política.
Talvez,
na era do segundo mandato de Trump, Cuomo tenha decidido que o #MeToo estava
encerrado. Como outras lideranças democratas, ele viu o futuro do Partido
Democrata nos moderados que possam atrair republicanos insatisfeitos. Talvez,
como Hillary Clinto em 2016, ele tenha acreditado que seus argumentos sobre
“qualificação” se sobreporiam aos receios dos eleitores sobre seus desvios. O
governador Cuomo pediu desculpas por seu comportamento em 2021, mas o candidato
à prefeitura Cuomo afirmou em 2025 que não fez nada de errado, e que seu único
arrependimento era ter decidido renunciar. Talvez a migração de eleitores de
Biden em 2020 para Trump em 2024, em muitas comunidades de imigrantes e
minorias étnico-raciais em NY, tenha convencido Cuomo de que os eleitores
gostariam de um homem do Queens, tradicional e arrogante como Trump, para
governar a cidade.
Cuomo
se provou errado. Ele cometeu equívocos em quase todas as etapas, recusando-se
a falar com a imprensa, realizar eventos públicos, participar de fóruns de
candidatos, e levar seus oponentes a sério. Enquanto seu comitê inundava a
televisão com anúncios e ataques exagerados, Mamdani estava nas ruas,
encontrando os eleitores e interagindo com eles, construindo uma mensagem de
esperança em uma Nova York acessível com suas propostas políticas claras e de
fácil compreensão. Cuomo se apoiou em uma narrativa desgastada e conservadora,
promovendo o medo dos metrôs e da população de rua, e pintando a cidade de Nova
York como uma assustadora terra sem lei.
Talvez
ele tivesse a esperança de que a maioria das pessoas esqueceria os detalhes de
seus escândalos. Mas as redes mobilizadas e bem relacionadas de ativistas
anti-Cuomo buscaram impedir que o maior número possível de nova-iorquinos não
esquecesse. Em conjunto com a estratégia de Mamdani, de apoio mútuo a outros
candidatos, como Brad Lander e Michael Blake, isso amplificou a mensagem contra
Cuomo, e fez seus adversários parecerem colaborativos e eficientes.
Enquanto
Mamdani conduziu uma campanha histórica, e é sem dúvida um candidato
excepcionalmente carismático e talentoso, os 14 anos de atuação de base dos
ativistas progressistas e socialistas contra Cuomo culminaram para corroer a
vantagem do ex-governador. Tudo isso
levou ao sucesso de Mamdani em 24 de junho.
• Governo Trump levanta possibilidade de
retirar cidadania americana de Mamdani
O
governo Trump levantou a possibilidade de retirar a cidadania americana de
Zohran Mamdani, o candidato democrata à prefeitura de Nova York, como parte de
uma repressão contra cidadãos estrangeiros condenados por certos crimes.
Karoline
Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, pareceu abrir caminho para uma
investigação sobre o status de Mamdani depois que Andy Ogles, um representante
republicano de direita do Tennessee, pediu que sua cidadania fosse revogada,
alegando que ele pode ter ocultado seu apoio ao "terrorismo" durante
o processo de naturalização.
Mamdani,
33, que nasceu em Uganda, filho de pais indianos étnicos, tornou-se cidadão
americano em 2018 e atraiu ampla atenção da mídia — e controvérsia — por seu
apoio vocal aos direitos palestinos.
Donald
Trump foi questionado na terça-feira sobre a promessa de Mamdani de
"impedir que agentes mascarados" do Serviço de Imigração e Alfândega
(ICE) "deportem nossos vizinhos". O presidente dos EUA respondeu:
"Bem, então teremos que prendê-lo", informou o Axios .
Mamdani
publicou uma declaração no X em resposta. "O Presidente dos Estados Unidos
acaba de ameaçar me prender, retirar minha cidadania, me colocar em um campo de
detenção e me deportar. Não porque eu tenha infringido alguma lei, mas porque
me recuso a deixar o Ice aterrorizar nossa cidade", escreveu ele.
Ele
continuou: “Suas declarações não representam apenas um ataque à nossa
democracia, mas uma tentativa de enviar uma mensagem a todos os nova-iorquinos
que se recusam a se esconder nas sombras: se vocês se manifestarem, eles virão
atrás de vocês. Não aceitaremos essa intimidação.”
A
controvérsia sobre seu status de imigração ocorre após uma onda de ataques
islamofóbicos à sua fé muçulmana após sua vitória nas primárias para prefeito
de Nova York na semana passada, quando ele ficou em primeiro lugar em um campo
que incluía Andrew Cuomo, ex-governador do estado de Nova York e candidato
favorito do establishment democrata.
A
medida também ocorre após o governo Trump ter instruído advogados a priorizar a
desnaturalização de cidadãos americanos nascidos no exterior que tenham
cometido crimes específicos. Um memorando do Departamento de Justiça instrui
advogados a instaurar processos contra cidadãos naturalizados suspeitos de
terem "obtido a naturalização ilegalmente" ou de tê-la feito por
"ocultação de fato relevante ou por deturpação intencional".
Ogles
escreveu para Pam Bondi, a procuradora-geral, pedindo uma investigação sobre
Mamdani após sua vitória nas primárias democratas para prefeito, alegando que
"ele pode ter obtido a cidadania americana por meio de deturpação
intencional ou ocultação de apoio material ao terrorismo".
Como
prova, ele citou um rap de Mamdani, intitulado "Meu Amor à Terra Santa
Cinco", no qual ele chamava membros de uma fundação condenados por apoiar
o Hamas de "meus rapazes". Ele também se referiu à recusa de Mamdani
em condenar a frase "globalize a intifada".
Em uma
publicação complementar no X, Ogles escreveu: “Zohran 'pequeno muhammad'
Mamdani é um antissemita, socialista e comunista que destruirá a grande cidade
de Nova York. Ele precisa ser deportado.”
Questionado
sobre a ligação de Ogles, Leavitt disse : “Não vi essas alegações, mas
certamente se forem verdadeiras, é algo que deve ser investigado”.
O
Departamento de Justiça confirmou o recebimento da carta de Ogles, mas não fez
mais comentários.
Chris
Murphy, senador democrata por Connecticut que se tornou um dos críticos mais
eficazes do governo Trump, chamou a exigência de desnaturalização de Mamdani de
"besteira racista".
“Trump
não medirá esforços para proteger bilionários e corporações que praticam preços
abusivos, mesmo em besteiras racistas como essa”, escreveu ele .
Zohran
venceu porque fez uma campanha focada em devolver o poder aos trabalhadores. E
isso é uma ameaça à turma de Mar-a-Lago.
Mamdani,
um autoproclamado socialista democrata, tem tido suas postagens nas redes
sociais e seu ativismo político anterior ferozmente analisados desde a vitória
eleitoral da semana passada, que foi acompanhada por promessas de políticas
populistas de esquerda para Nova York se ele for eleito prefeito.
Em meio
a um coro de críticas da direita, Donald Trump o chamou de "comunista
puro" e ameaçou cortar fundos para Nova York se Mamdani se tornar prefeito
e "não se comportar".
Em uma
entrevista coletiva na inauguração oficial de um novo centro de detenção para
imigrantes em Everglades, na Flórida, Trump reiterou seu comentário comunista e
se referiu às alegações de que Mamdani havia obtido sua cidadania
"ilegalmente".
"Não
precisamos de um comunista neste país, mas se tivermos um, vou zelar por ele
com muito cuidado em nome da nação. Nós lhe enviamos dinheiro, enviamos tudo o
que ele precisa para governar", disse Trump.
“Vamos
observar isso com muita atenção. Muita gente está dizendo que ele está aqui
ilegalmente. Vamos analisar tudo, mas, idealmente, ele vai acabar se revelando
muito menos que um comunista. No momento, ele é comunista, não é um
socialista.”
Mamdani
também comentou sobre o fato de Trump ter elogiado Eric Adams , o atual
prefeito de Nova York, que está com dificuldades na campanha de reeleição e
deixou de representar o Partido Democrata para concorrer novamente como
independente. Trump disse que Adams era uma "boa pessoa" a quem ele
"ajudou um pouco", referindo-se ao fato de o Departamento de Justiça
dos EUA ter arquivado, em abril , um caso federal de corrupção contra Adams.
Mamdani
disse em sua postagem: “Não é surpresa que Trump tenha incluído elogios a Adams
em suas ameaças autoritárias”.
Fonte:
The Intercept/The Guardian

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