quinta-feira, 3 de julho de 2025

Susan Kang: Nova York pode ter prefeito muçulmano de esquerda. Se seu próprio partido permitir

A vitória de Zohran Mamdani nas eleições primárias do Partido Democrata para a prefeitura de Nova York desencadeou uma onda de entusiasmo em toda a esquerda progressista e uma onda de análises na imprensa política.

A questão central é simples: um candidato jovem, muçulmano, filiado de carteirinha dos Socialistas Democráticos da América, pode derrotar figuras poderosas do establishment político em qualquer lugar do país? É um fenômeno típico de Nova York, ou um sinal de mudança no eleitorado democrata de forma geral?

A resposta é sim.

Sim, a derrota da candidatura “grande demais para dar errado” do ex-governador de Nova York, Andrew Cuomo, armado com milhões de dólares recebidos do próprio sistema, diante de uma oposição coordenada por voluntários de esquerda, poderia acontecer em qualquer lugar. Cuomo serve de representante da liderança nacional do Partido Democrata, cada vez mais insensível, que insiste, desde a derrota de 2024, que o partido precisa moderar suas opiniões, e rejeitou o jovem líder eleito David Hogg, que ameaçou derrotar parlamentares democratas mais velhos nas primárias, mesmo depois do desastre da campanha de Biden.

E sim, a combinação excepcional de um candidato habilidoso, autêntico e com princípios, com profundos vínculos aos movimentos sociais, cuja campanha mobilizou dezenas de milhares de voluntários para enfrentar Cuomo, especificamente, desempenhou um papel importante no sucesso de Mamdani.

As lições da campanha de Mamdani podem impulsionar outros progressistas a desafiarem candidatos democratas pró-sistema em outras disputas, mesmo fora dos centros urbanos dominados pelo partido (e vale lembrar que Nova York tem um longo histórico de prefeitos republicanos).

Primeiro, Mamdani insistiu na acessibilidade, promovendo uma plataforma política economicamente progressista: passe livre nos ônibus, congelamento dos aluguéis, e creches públicas e gratuitas, dando aos eleitores um recado claro sobre suas prioridades. Ele também promoveu algumas ideias inovadoras, como supermercados públicos e tributação mais alta sobre os ricos, que atraíram as pessoas com o brilho da novidade.

E ele foi às ruas. Ele participou de compromissos públicos e visitou comunidades em toda a cidade de Nova York, apresentando a imagem de um homem do povo, agradável e de mente aberta, incluindo nos discursos seu compromisso com a solidariedade e a dignidade humanas –– inclusive para o povo palestino. Sua campanha logo foi associada à questão do custo de vida, e embora suas propostas tenham sido atacadas por não serem “realistas“, ele permaneceu fiel à sua mensagem, o que motivou mais de 29 mil voluntários a baterem em mais de um milhão de portas.

Seu uso bem-sucedido das redes sociais, incluindo colaborações estratégicas com conhecidos influenciadores progressistas, também ajudou a divulgar sua mensagem. A mensagem econômica, o compromisso com a solidariedade, e a incrível atuação de base podem definitivamente ser reproduzidos com o candidato certo, que tenha princípios e uma rede forte de organizações comunitárias e voluntários mobilizados.

Mamdani também enfatizou questões de justiça social, como proteger as comunidades LGBTQ+ e de imigrantes contra Trump. E embora ele nunca tenha tido medo de expressar suas opiniões sobre a Palestina, a campanha se concentrou principalmente em questões universais de justiça econômica e acessibilidade, que ajudariam de forma desproporcional as comunidades marginalizadas e de minorias étnico-raciais.

As famílias negras, por exemplo, com crianças em idade escolar, deixaram Nova York nos últimos 20 anos em proporção bem mais alta na comparação com outros grupos, segundo os dados do censo, simplesmente porque o custo de ter filhos era alto demais. O plano de Mamdani de oferecer creches públicas e gratuitas desde o nascimento (e os altíssimos custos com o cuidado das crianças são uma importante fonte documentada de pressão econômica sobre os nova-iorquinos), kits de bebê para os recém-nascidos, e programas universais de contraturno escolar no Departamento de Educação de NY seriam um alívio para as comunidades minoritárias que mais se beneficiam desses serviços, e também ajudariam os nova-iorquinos em todas as faixas de renda. Quase três quartos dos alunos das escolas públicas da cidade de Nova York se enquadram nos critérios de “economicamente desfavorecidos” –– e o programa de pré-escola universal criado pelo ex-prefeito Bill de Blasio continua sendo uma de suas realizações mais populares, usado por famílias em várias faixas de renda.

Fazer uma campanha pautada em questões econômicas populares, defender a justiça social, e organizar um bom movimento de base e uma campanha de redes sociais são uma possível receita de sucesso em qualquer lugar.

Mas a disputa, como todas, também dependeu de detalhes.

Mamdani concorreu com algumas desvantagens que outros candidatos que quiserem se inspirar em seu sucesso talvez não enfrentem. Vários oponentes criticaram o deputado estadual, de 33 anos, por sua juventude e relativa inexperiência. Mamdani também enfrentou ataques racistas, como santinhos criados pelo comitê de Cuomo, que o retrataram com a barba escurecida, tentando reforçar preconceitos islamofóbicos. Mamdani conseguiu transformar sua juventude e sua identidade em vantagens, mobilizando eleitores jovens e eleitores muçulmanos e asiáticos em toda a cidade. Qualquer candidato que pretenda reproduzir seu sucesso também podem transformar suas desvantagens em vantagens, e usar seu posicionamento para mobilizar e energizar “eleitores menos prováveis”, que ficam sub-representados na amostragem das pesquisas, mas não é um feito tão fácil de realizar.

E é preciso falar também de seu adversário. Andrew Cuomo entrou na disputa com reconhecimento imediato de seu nome, apoio do establishment do Partido Democrata de Nova York, e um financiamento de campanha de US$25 milhões (R$136 milhões), muito maior que o de Mamdani. Mas ele conduziu uma campanha sem brilho, e foi ainda mais ofuscado por seu longo legado de toxicidade em muitos espaços de Nova York, uma cidade politicamente engajada.

Mamdani se tornou, de muitas formas, um representante de todos os progressistas marginalizados da cidade de Nova York que combateram as terríveis políticas de Cuomo e seu péssimo estilo de governo, por mais de uma década.

Cuomo, um dinossauro do Partido Democrata de “terceira via” da era Clinton –– ele foi secretário de habitação e desenvolvimento urbano do ex-presidente Bill Clinton –– chegou ao governo estadual em 2011, quando o estado se recuperava da crise financeira de 2008. Cuomo adentrou o cargo com um orçamento extremamente austero, 2,7% menor que o do ano anterior, que incluiu cortes de bilhões de dólares em serviços essenciais, como educação e saúde. Ele passou o primeiro ano de seu mandado empunhando a foice da austeridade, e parecia gostar de criar inimigos nos sindicatos de servidores públicos e dos profissionais de saúde e educação.

Cuomo também se envolveu em escândalos éticos, quando extinguiu rapidamente a Comissão Moreland, que ele mesmo havia criado em janeiro de 2013 para erradicar a corrupção no governo estadual. Isso o tornou alvo de uma disputa ideológica nas primárias, onde concorreu com o bom especialista em governança e professor de direito Zephyr Teachout, em 2014. Teachout consegui um terço dos votos na eleição primária, sinalizando a desaprovação de Cuomo entre o eleitorado, mas o então governador não levou a sério o desafio. Cuomo continuou a governar com desproporcional controle, usando a divisão interna do governo em benefício próprio e se envolvendo em políticas que prejudicaram a cidade de Nova York.

As críticas a ele se intensificaram após a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016. Apesar de sua associação com os republicanos durante o governo Trump, Cuomo conseguiu vencer novamente em 2018 contra sua adversária progressista, Cynthia Nixon.

Muitos ativistas ficaram frustrados com a capacidade de Cuomo de se manter impermeável às críticas. Sua invencibilidade se tornou mais aparente durante sua ascensão meteórica ao estrelato nacional, com os boletins diários sobre a Covid-19, no período da pandemia. Mas seu rápido apogeu foi logo seguido de uma queda vertiginosa, quando 13 mulheres, a maioria ex-funcionárias, decidiram compartilhar suas histórias de assédio sexual e retaliação. Como as principais lideranças democratas, na sequência do movimento #MeToo, pediram sua renúncia, ele renunciou, em desgraça. Os contribuintes desembolsaram US$60 milhões (R$327 milhões) para cobrir as despesas judiciais desses escândalos, e alguns dos processos contra Cuomo por assédio sexual ainda estão sendo discutidos na justiça.

É um mistério o que levou Cuomo a decidir que seus escândalos não importavam, e se lançar na disputa pela prefeitura, depois que os problemas do atual prefeito Eric Adams na justiça se tornaram uma grande desvantagem política.

Talvez, na era do segundo mandato de Trump, Cuomo tenha decidido que o #MeToo estava encerrado. Como outras lideranças democratas, ele viu o futuro do Partido Democrata nos moderados que possam atrair republicanos insatisfeitos. Talvez, como Hillary Clinto em 2016, ele tenha acreditado que seus argumentos sobre “qualificação” se sobreporiam aos receios dos eleitores sobre seus desvios. O governador Cuomo pediu desculpas por seu comportamento em 2021, mas o candidato à prefeitura Cuomo afirmou em 2025 que não fez nada de errado, e que seu único arrependimento era ter decidido renunciar. Talvez a migração de eleitores de Biden em 2020 para Trump em 2024, em muitas comunidades de imigrantes e minorias étnico-raciais em NY, tenha convencido Cuomo de que os eleitores gostariam de um homem do Queens, tradicional e arrogante como Trump, para governar a cidade.

Cuomo se provou errado. Ele cometeu equívocos em quase todas as etapas, recusando-se a falar com a imprensa, realizar eventos públicos, participar de fóruns de candidatos, e levar seus oponentes a sério. Enquanto seu comitê inundava a televisão com anúncios e ataques exagerados, Mamdani estava nas ruas, encontrando os eleitores e interagindo com eles, construindo uma mensagem de esperança em uma Nova York acessível com suas propostas políticas claras e de fácil compreensão. Cuomo se apoiou em uma narrativa desgastada e conservadora, promovendo o medo dos metrôs e da população de rua, e pintando a cidade de Nova York como uma assustadora terra sem lei.

Talvez ele tivesse a esperança de que a maioria das pessoas esqueceria os detalhes de seus escândalos. Mas as redes mobilizadas e bem relacionadas de ativistas anti-Cuomo buscaram impedir que o maior número possível de nova-iorquinos não esquecesse. Em conjunto com a estratégia de Mamdani, de apoio mútuo a outros candidatos, como Brad Lander e Michael Blake, isso amplificou a mensagem contra Cuomo, e fez seus adversários parecerem colaborativos e eficientes.

Enquanto Mamdani conduziu uma campanha histórica, e é sem dúvida um candidato excepcionalmente carismático e talentoso, os 14 anos de atuação de base dos ativistas progressistas e socialistas contra Cuomo culminaram para corroer a vantagem do ex-governador.  Tudo isso levou ao sucesso de Mamdani em 24 de junho.

•        Governo Trump levanta possibilidade de retirar cidadania americana de Mamdani

O governo Trump levantou a possibilidade de retirar a cidadania americana de Zohran Mamdani, o candidato democrata à prefeitura de Nova York, como parte de uma repressão contra cidadãos estrangeiros condenados por certos crimes.

Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, pareceu abrir caminho para uma investigação sobre o status de Mamdani depois que Andy Ogles, um representante republicano de direita do Tennessee, pediu que sua cidadania fosse revogada, alegando que ele pode ter ocultado seu apoio ao "terrorismo" durante o processo de naturalização.

Mamdani, 33, que nasceu em Uganda, filho de pais indianos étnicos, tornou-se cidadão americano em 2018 e atraiu ampla atenção da mídia — e controvérsia — por seu apoio vocal aos direitos palestinos.

Donald Trump foi questionado na terça-feira sobre a promessa de Mamdani de "impedir que agentes mascarados" do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) "deportem nossos vizinhos". O presidente dos EUA respondeu: "Bem, então teremos que prendê-lo", informou o Axios .

Mamdani publicou uma declaração no X em resposta. "O Presidente dos Estados Unidos acaba de ameaçar me prender, retirar minha cidadania, me colocar em um campo de detenção e me deportar. Não porque eu tenha infringido alguma lei, mas porque me recuso a deixar o Ice aterrorizar nossa cidade", escreveu ele.

Ele continuou: “Suas declarações não representam apenas um ataque à nossa democracia, mas uma tentativa de enviar uma mensagem a todos os nova-iorquinos que se recusam a se esconder nas sombras: se vocês se manifestarem, eles virão atrás de vocês. Não aceitaremos essa intimidação.”

A controvérsia sobre seu status de imigração ocorre após uma onda de ataques islamofóbicos à sua fé muçulmana após sua vitória nas primárias para prefeito de Nova York na semana passada, quando ele ficou em primeiro lugar em um campo que incluía Andrew Cuomo, ex-governador do estado de Nova York e candidato favorito do establishment democrata.

A medida também ocorre após o governo Trump ter instruído advogados a priorizar a desnaturalização de cidadãos americanos nascidos no exterior que tenham cometido crimes específicos. Um memorando do Departamento de Justiça instrui advogados a instaurar processos contra cidadãos naturalizados suspeitos de terem "obtido a naturalização ilegalmente" ou de tê-la feito por "ocultação de fato relevante ou por deturpação intencional".

Ogles escreveu para Pam Bondi, a procuradora-geral, pedindo uma investigação sobre Mamdani após sua vitória nas primárias democratas para prefeito, alegando que "ele pode ter obtido a cidadania americana por meio de deturpação intencional ou ocultação de apoio material ao terrorismo".

Como prova, ele citou um rap de Mamdani, intitulado "Meu Amor à Terra Santa Cinco", no qual ele chamava membros de uma fundação condenados por apoiar o Hamas de "meus rapazes". Ele também se referiu à recusa de Mamdani em condenar a frase "globalize a intifada".

Em uma publicação complementar no X, Ogles escreveu: “Zohran 'pequeno muhammad' Mamdani é um antissemita, socialista e comunista que destruirá a grande cidade de Nova York. Ele precisa ser deportado.”

Questionado sobre a ligação de Ogles, Leavitt disse : “Não vi essas alegações, mas certamente se forem verdadeiras, é algo que deve ser investigado”.

O Departamento de Justiça confirmou o recebimento da carta de Ogles, mas não fez mais comentários.

Chris Murphy, senador democrata por Connecticut que se tornou um dos críticos mais eficazes do governo Trump, chamou a exigência de desnaturalização de Mamdani de "besteira racista".

“Trump não medirá esforços para proteger bilionários e corporações que praticam preços abusivos, mesmo em besteiras racistas como essa”, escreveu ele .

Zohran venceu porque fez uma campanha focada em devolver o poder aos trabalhadores. E isso é uma ameaça à turma de Mar-a-Lago.

Mamdani, um autoproclamado socialista democrata, tem tido suas postagens nas redes sociais e seu ativismo político anterior ferozmente analisados desde a vitória eleitoral da semana passada, que foi acompanhada por promessas de políticas populistas de esquerda para Nova York se ele for eleito prefeito.

Em meio a um coro de críticas da direita, Donald Trump o chamou de "comunista puro" e ameaçou cortar fundos para Nova York se Mamdani se tornar prefeito e "não se comportar".

Em uma entrevista coletiva na inauguração oficial de um novo centro de detenção para imigrantes em Everglades, na Flórida, Trump reiterou seu comentário comunista e se referiu às alegações de que Mamdani havia obtido sua cidadania "ilegalmente".

"Não precisamos de um comunista neste país, mas se tivermos um, vou zelar por ele com muito cuidado em nome da nação. Nós lhe enviamos dinheiro, enviamos tudo o que ele precisa para governar", disse Trump.

“Vamos observar isso com muita atenção. Muita gente está dizendo que ele está aqui ilegalmente. Vamos analisar tudo, mas, idealmente, ele vai acabar se revelando muito menos que um comunista. No momento, ele é comunista, não é um socialista.”

Mamdani também comentou sobre o fato de Trump ter elogiado Eric Adams , o atual prefeito de Nova York, que está com dificuldades na campanha de reeleição e deixou de representar o Partido Democrata para concorrer novamente como independente. Trump disse que Adams era uma "boa pessoa" a quem ele "ajudou um pouco", referindo-se ao fato de o Departamento de Justiça dos EUA ter arquivado, em abril , um caso federal de corrupção contra Adams.

Mamdani disse em sua postagem: “Não é surpresa que Trump tenha incluído elogios a Adams em suas ameaças autoritárias”.

 

Fonte: The Intercept/The Guardian

 

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