segunda-feira, 21 de julho de 2025

Rodrigo Leite: O tarifaço de Trump em três atos

Um recuo de Trump parece improvável, já que a tarifa contra o Brasil parece ter motivação política, e não econômica, como em disputas anteriores com China e México.

# Ato 1 — As motivações de Trump. A taxação das exportações brasileiras pelos Estados Unidos surpreendeu a muitos, mas, para quem acompanha de perto a política americana, a medida se encaixa claramente em uma estratégia do presidente norte-americano: desviar o foco das crises internas e alimentar uma narrativa de perseguição a si mesmo e a aliados políticos conservadores, como o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Trump vinha sendo pressionado pela própria base após prometer, de forma enfática, a divulgação completa dos documentos relacionados ao notório criminoso sexual Jeffrey Epstein. No entanto, nas últimas semanas, o governo recuou: passou a negar o acesso integral aos autos da investigação, enquanto a procuradora-geral dos Estados Unidos e o diretor do FBI afirmaram publicamente que Epstein teria agido sozinho e que sua morte foi, de fato, um suicídio. A declaração caiu como uma bomba entre os apoiadores mais fiéis de Trump, muitos dos quais acreditam em teorias que envolvem figuras da elite norte-americana nos crimes atribuídos a Epstein.

A mudança de postura pode ter sido motivada pela revelação, nesta semana, de uma carta comprometedora escrita por Trump a Jeffrey Epstein em 2003, cujo conteúdo veio à tona após o Wall Street Journal entrar em contato com o governo para comentário. A resposta do presidente norte-americano seguiu o roteiro usual: atacou a imprensa e culpou governos anteriores por uma suposta perseguição política. Nesse contexto, sua tentativa de vincular o ex-presidente Jair Bolsonaro a uma narrativa semelhante parece fazer parte de uma estratégia mais ampla — a de apresentar-se como mais um líder conservador perseguido pela mídia e pelo Judiciário. Portanto, a aplicação de uma tarifa de 50% ao Brasil parece ser mais motivada pela criação de uma narrativa interna, enquanto desvia o foco do caso Epstein, do que uma medida visando ao protecionismo econômico.

# Ato 2 — Os efeitos no Brasil. O principal efeito do "tarifaço" imposto por Donald Trump ao Brasil, neste primeiro momento, foi fortalecer politicamente o governo Lula, que vinha em queda de popularidade. A medida teve forte repercussão nacional e despertou um sentimento de solidariedade em parte do eleitorado, beneficiando a imagem do presidente. Ao se apresentar como alvo de uma injustiça promovida por uma potência estrangeira, Lula conseguiu, ainda que de forma pontual, reunir diferentes setores políticos em torno de uma pauta nacionalista, criando uma rara oportunidade de reposicionamento político.

Duas pesquisas de opinião recentes mostraram um leve aumento na aprovação do governo e melhora nas projeções para 2026. Embora o avanço não tenha sido expressivo, há sinais de recuperação entre eleitores que haviam se afastado após os dois primeiros anos de mandato. O desempenho de Lula melhorou no Sudeste, região crucial para sua viabilidade eleitoral, e houve uma retomada do apoio na classe média. Assim, a narrativa de confronto com os EUA pode reforçar sua imagem como defensor dos interesses nacionais.

Mesmo que os indicadores não avancem muito nas próximas semanas, "estancar a sangria" na popularidade já é considerado um ganho estratégico. Além disso, interromper o declínio melhora o ambiente para avançar em agendas no Congresso, onde a base governista enfrenta problemas  importantes para a sua reeleição em 2026.

# Ato 3 — O que vem pela frente? Um recuo de Trump parece improvável, já que a tarifa contra o Brasil parece ter motivação política, e não econômica, como em disputas anteriores com China e México. Uma retaliação direta do governo brasileiro, como taxar importações dos EUA, poderia piorar a inflação e o desemprego. Por isso, medidas alternativas, como suspensões de royalties ou patentes, são mais prováveis como resposta estratégica.

Economistas já projetam um impacto negativo de 0,2% no PIB brasileiro, além de uma possível reversão da tendência de queda da inflação, puxada pela desvalorização do real, que voltou a superar R$ 5,50. Esses efeitos podem anular o ganho de popularidade recente de Lula após o tarifaço, caso os prejuízos econômicos cheguem ao bolso da população.

Empresas como Embraer, Fras-le, Randon, Tupy e WEG, que exportam produtos de alto valor agregado para os EUA, já sentem os efeitos no mercado acionário e devem ser ainda mais impactadas, caso as tarifas entrem em vigor em agosto. Ao contrário das exportadoras de commodities, essas companhias têm mais dificuldade para encontrar mercados alternativos, e a adaptação pode levar anos. 

¨      Sanções de Trump ao Brasil miram a presença chinesa no continente. Por Luiz Carlos Azedo

Há mais coisas entre o céu e a terra do que os aviões da Embraer e o Pix, diria Aparício Torelli, o Barão de Itararé, sobre a crise comercial e diplomática do Brasil com os Estados Unidos, que pode se tornar uma das maiores de nossa história. Teve como gatilho o julgamento do Jair Bolsonaro, mas é multifacetada e, por isso mesmo, pode escalar ainda mais, em razão das medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes ao ex-presidente e referendadas pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Em resposta, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, revogou os vistos americanos de Alexandre de Moraes, "seus aliados e familiares imediatos".

"O presidente Trump deixou claro que seu governo responsabilizará estrangeiros responsáveis pela censura de expressão protegida nos Estados Unidos. A caça às bruxas política do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, contra Jair Bolsonaro criou um complexo de perseguição e censura tão abrangente que não apenas viola direitos básicos dos brasileiros, mas também se estende além das fronteiras do Brasil, atingindo os americanos", diz a postagem de Rubio na rede social X.

O envio de R$ 2 milhões por Jair Bolsonaro (PL) a Eduardo Bolsonaro é considerado um indício concreto da articulação entre pai e filho com o objetivo de interferir na atuação do Judiciário brasileiro, o que levou Moraes a adotar as medidas cautelares. Além do uso de tornozeleira eletrônica, Bolsonaro foi proibido de usar redes sociais e manter contatos com aliados políticos, diplomatas estrangeiros e o filho Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos para articular ações em defesa do pai, contra o Supremo e o governo Lula, como o tarifaço de 50% nas exportações.

A crise comercial e diplomática é uma das mais graves de nossa história. Ainda não se compara à Questão Christie (1863-1865), provocada pelo naufrágio do Prince of Wales no litoral do Rio Grande do Sul e pela prisão de oficiais britânicos no Rio de Janeiro, o que resultou na apreensão de cinco navios brasileiros pela Grã-Bretanha. D. Pedro II rompeu relações com Londres por dois anos, gesto que fortaleceu o sentimento nacional, mas expôs a dependência econômica do Brasil ao comércio britânico. A Guerra do Paraguai (1864-1870), com o apoio ao golpe no Uruguai e a formação da Tríplice Aliança com a Argentina, reaproximou os dois países, porém o Brasil saiu da guerra endividado com bancos britânicos.

<><> Efeito dominó

Todos os demais conflitos foram resolvidos pela diplomacia, sem guerras nem rompimento de relações. Desde as crises fronteiriças com a França (Guiana Francesa) e a Grã-Bretanha (Guiana Britânica), no começo da República, graças à habilidade do Barão do Rio Branco, o Brasil ocupa a posição de potência regional moderada na América do Sul. Entretanto, isso não impediu a ingerência britânica e norte-americana Revolta da Armada (1893-1894), com seus navios bloqueando a Baía de Guanabara. Na Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas, cujo Estado Novo fora inspirado no fascismo, usou da diplomacia para se equilibrar entre as partes e, depois, tirar vantagens dos Estados Unidos ao Brasil entrar na guerra contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Houve interferência dos EUA (Operação Brother Sam) no golpe militar que destituiu o presidente João Goulart em 1964; 11 anos depois, o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha (1975) provocou forte oposição dos EUA, que temiam a proliferação nuclear e suspenderam créditos e tecnologia sensível. Na crise atual, todos os países que exportam para os Estados Unidos estão sendo atingidos pelo tarifaço de Trump, mas o caso do Brasil se diferencia pela natureza ideológica: o alinhamento político com Bolsonaro. O contexto geopolítico favorece a ofensiva da Casa Branca na América do Sul. O Brics somente é uma ameaça à hegemonia econômica dos Estados Unidos por causa da China. Brasil, Índia e África do Sul mantêm posição de equilíbrio.

O Porto de Chancay, construído na costa do Peru pela China, é um empreendimento estratégico que se integra à iniciativa "Cinturão e Rota" (Nova Rota da Seda). A assinatura do acordo de construção de uma ferrovia bioceânica ligando aos portos do litoral brasileiro pode consolidar de vez a hegemonia comercial chinesa na América do Sul. Os Estados Unidos não têm condições de competir com os chineses em termos comerciais e de investimento, mas detêm o domínio geopolítico do continente por meios financeiros, tecnológicos e militares. É aí que entra em cena o secretário de Estado, Marco Rubio, senador pela Flórida e filho de imigrantes cubanos.

Para ele, o presidente da Argentina, Javier Milei, e o ex-presidente Bolsonaro são peças-chave para mudar o jogo na América do Sul. Seu objetivo é impedir a reeleição do presidente Lula e redefinir a posição do Brasil como satélite dos EUA, com valores conservadores e alinhamento automático nas grandes disputas globais. Para provocar um "efeito dominó", Rubio mira também a Colômbia, cujo presidente, Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, classifica como figura "perigosa", especialmente sobre temas, como drogas e relações regionais, e o Chile, onde o presidente Gabriel Boric apoia Jeannette Jara, ex-ministra do Trabalho e dirigente do PC chileno, candidata à Presidência escolhida nas prévias da coalizão governista.

¨      Crise com EUA exige mais responsabilidade

A escalada da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos exige mais responsabilidade das autoridades da nossa democracia, uma das mais importantes e reconhecidas do mundo, principalmente após os acontecimentos dos últimos dias. A revogação de vistos por parte do governo norte-americano é uma grave mácula na relação bicentenária entre países que, nas últimas décadas, têm compartilhado valores como respeito às liberdades civis, cooperação internacional e justiça social. 

É desalentador observar os Estados Unidos, a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil, lançarem uma ofensiva contra a soberania e as instituições nacionais. Causa estranheza ver aliados na Segunda Guerra Mundial, unidos contra o avanço do nazifascismo, tornarem-se adversários em razão de circunstâncias políticas baseadas em ilações infundadas, como desequilíbrio na balança comercial e suposta ditadura do Judiciário contra a direita brasileira.   

Por caminhos nefastos e tortuosos, muito em razão da atividade do clã Bolsonaro e de seus seguidores, o Brasil passou a ocupar uma posição única na visão de mundo trumpista. Nenhum outro país foi submetido a aumento de tarifas comerciais tão elevadas por razões essencialmente políticas. Mais grave, as acusações listadas pela Casa Branca não encontram respaldo na realidade. São absurdas as alegações de que há uma "caça às bruxas" em curso no Brasil, bem como descabida a exigência de que o julgamento referente à trama golpista urdida em 2022 deve ser interrompido "imediatamente". 

Em relação às leviandades disparadas pelo governo norte-americano, há apenas de se lamentar. Para o Brasil, o que interessa são as medidas a serem adotadas pelas instituições, em particular pelo Poder Executivo, que está à frente da interlocução com a administração de Donald Trump. O presidente Lula está correto ao afirmar, neste sábado, que a revogação do visto de ministros do Supremo Tribunal Federal, seus familiares e de outras autoridades constitui uma medida arbitrária e inaceitável. Mas é preciso ir além de vociferar contra os atos do governo norte-americano.

Além de estudar medidas de reciprocidade contra tais ações, cabe ao presidente Lula e seus auxiliares no Itamaraty e no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) implementarem a melhor estratégia para evitar uma deterioração ainda maior na relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. É preciso firmeza, sim. Mas também abertura para o diálogo. Nesse contexto, pouco contribuem manifestações que estimulem brios nacionalistas ou mensagens com tiradas irônicas para fazer frente a uma situação séria e delicada. É hora de pragmatismo, não de vingança.

No delicado momento com os Estados Unidos, o governo brasileiro deve utilizar os melhores meios para avançar no terreno inóspito, além de pensar em alternativas caso, a postura do governo Trump se mostre irredutível. E, mais importante: jamais recuar do compromisso com a Constituição e a democracia.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Nenhum comentário: