Religião
e Bets: O vício entre fiéis e as propostas de enfrentamento. Parte 2
Pesquisas encomendadas pelo setor varejista somadas a
outras realizadas pelo Banco Central do Brasil e pelo
PoderData, em 2024, apontam que cerca de 1,8 milhão de pessoas ficaram
inadimplentes por comprometer a renda com apostas on-line e que cerca de 5
milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do programa Bolsa
Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de aposta.
O
estudo do PoderData, de outubro de 2024, apontou ainda que entre as 24% pessoas
no Brasil que já se endividaram por conta de apostas em bets, 21% se
identificam como evangélicos, frente a 12% que se declaram católicos.
Embora
a prática de jogos de azar seja condenada por grande parte das igrejas cristãs,
em especial evangélicas, uma reportagem publicada na Folha de
S. Paulo, em novembro de 2024, aponta que “o mote ‘profetizou, jogou,
sacou’”, popular em empresas de apostas, tem um apelo especial ao evangélico”.
No texto, a autora de “Feridos em Nome de Deus”, a jornalista Marília de
Camargo Cesar, explica que o público evangélico é o principal alvo da mensagem
de marketing que usa o termo “profetizar” na divulgação dos jogos e, por isso,
torna-se mais vulnerável às campanhas.
A
jornalista e escritora avalia que tal situação tem relação com o crescimento de
igrejas que pregam a teologia da prosperidade – doutrina que considera
realizações materiais como sinônimo de bênçãos e prosperidade cedidas por Deus
aos fiéis. Para ela, tal apelo coopta o público religioso, já cativado pelo
discurso das conquistas de bens, para entrarem nas plataformas, jogarem e
alcançarem resultados como algo concedido por Deus.
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Uma doença a ser tratada
Desde
1980, a ludopatia. que é o vício em jogos de azar, é considerada
doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e afeta entre 1 e 2% de toda a
população mundial. A avaliação é que é necessário que a pessoa afetada busque
tratamento e acompanhamento terapêutico adequados para lidar com os efeitos do
vício.
Bereia entrevistou
líderes religiosos e pesquisadores sobre comunidades terapêuticas direcionadas
a pessoas com uso problemático de substâncias. Para a professora do Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, da Universidade Candido Mendes
(IUPERJ-UCAM), e pesquisadora em antropologia da religião e antropologia das
drogas Janine Targino, no Brasil, a maioria desses centros são dirigidos por
instituições cristãs, especialmente evangélicas. A pesquisadora aponta que nos
últimos anos, lugares que recebiam exclusivamente indivíduos com uso
problemático de substâncias químicas têm se voltado também àqueles “viciados”
em jogos online, inclusive bets e similares, como o “jogo do
Tigrinho”.
Targino
ressalta que a procura pelos centros terapêuticos geralmente acontece devido às
consequências sociais do vício, como é o caso de usuários de psicotrópicos que
contraem dívidas com traficantes. “Muitas vezes, essas pessoas que procuram
atendimento nessas instituições também trazem questões paralelas, como dívidas
causadas pelo consumo de substâncias, porque pegaram dinheiro emprestado, estão
devendo ao tráfico, a um agiota (…) [essas instituições] são lugares de muita
segurança, que oferecem isolamento”. Ao tratar de indivíduos que jogam
excessivamente, ela aponta que os mesmos efeitos podem ser observados.
O
pastor e psicólogo da Igreja Presbiteriana do Brasil no Cruzeiro (DF) João
Geraldo de Mattos relatou sua vivência pastoral ao lidar com fiéis com vício em
jogos de azar. Ele explicou que é necessário acompanhar cada caso
individualmente, a fim de oferecer o auxílio adequado a cada indivíduo. “Já
orientei várias vezes em relação a jogos de azar a dinheiro. Os
comprometimentos são variados e as intervenções (terapêuticas e espirituais)
devem respeitar essa gradação diferente de envolvimento. O acompanhamento pode
ser semanal ou não, pode ser mais diretivo ou não. Em alguns casos, os
atendimentos podem ser feitos em grupo, e assim por diante”.
Do
ponto de vista psicológico, o pastor Mattos explica que há diferenças e
semelhanças entre os abusos de plataformas de apostas e os de substâncias
químicas. Do ponto de vista da psicologia, ele explica, existem algumas
semelhanças entre o vício em jogos de aposta e o vício em drogas. Uma delas é
que, segundo estudos, falar sobre certos assuntos durante a terapia pode ativar
áreas do cérebro parecidas com as que são ativadas por drogas que afetam o
sistema nervoso (como álcool e cocaína).
Para o
pastor e psicólogo, esta comparação mostra como o cérebro reage de forma
intensa quando a pessoa fala sobre temas importantes para ela (como vícios,
traumas ou desejos) no ambiente seguro da terapia. Quando alguém que é viciado
em apostas, por exemplo, relembra experiências relacionadas ao jogo, o cérebro
pode reagir de forma parecida como se estivesse usando uma substância viciante
— ativando circuitos ligados à recompensa, prazer ou desejo. Isso ajuda os
terapeutas a entenderem por que é tão difícil para essas pessoas se desligarem
do vício e mostra a importância de tratar o problema também pelo lado emocional
e neurológico, e não apenas com regras ou proibições, explica.
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Propostas para o enfrentamento das consequências negativas
A CPI
da Bets resultou em um relatório que propõe “a
exigência de licitação para empresas explorarem jogos de azar virtuais, a
vedação de propaganda entre 6h e 22h em rádio e televisão e o indiciamento de
influenciadores digitais por estimular apostas em jogos de azar online”.
O relatório – que foi rejeitado pela
maioria dos integrantes que compuseram a CPI – apresenta 20 Projetos de Lei visando conter
os malefícios causados pelas apostas no ambiente virtual. Os projetos tratam da
proibição de jogos semelhantes a caça-níqueis (como o chamado “Jogo do
Tigrinho”), e a proibição de pessoas inscritas no CadÚnico (dispositivo que
identifica famílias de baixa renda) de apostar na internet.
Bereia levantou
que existe um grupo de projetos de lei apresentados na Câmara dos Deputados em
torno do tema das bets, nesta legislatura de 2023-2026. A pesquisa
foi feita nos boletins do Monitoramento de Projetos de Lei na
Câmara dos Deputados, com temas relacionados a religião e política, realizado
pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER). Estes PLs são propostos por
deputados com identidade religiosa, o que é objeto de análise.
Segundo a pesquisadora do ISER
Carolina Rocha,
“encontramos projetos de lei, em diferentes categorias, que se dedicaram a
propor intervenções públicas para apostas e jogos online no Brasil, com
aplicações de medidas que concentram-se em temas relacionados a crimes e a
segurança pública, passando pelos direitos das crianças e dos adolescentes e
pela proteção da família, até alcançar à segurança e à regulação de mídias
digitais”
A
pesquisadora explica que “nos textos apresentados, comumente, a preocupação com
os efeitos nocivos causados pelo vício nos jogos eletrônicos se soma a
bandeiras como a defesa da família, dos bons costumes e da vida, contra a
excessiva liberdade dos jovens e os vícios gerados pelo ‘descontrole’ de suas
ações, em uma sociedade que vive uma crise de seus ‘valores tradicionais’.
Desta forma, chama-se a atenção para a necessidade de mais controle e cuidado
por parte do Estado, das políticas públicas e das leis na contenção de inúmeros
malefícios que afetam a população brasileira”.
Carolina
Rocha ainda destaca que “dentro das propostas que envolvem crimes e segurança
pública, destaca-se uma preocupação dos(as) deputados(as) com a ludopatia e
também com uma intervenção mais rigorosa do governo federal para atenuar o
endividamento dos(as) brasileiros(as)”.
De
acordo com a pesquisa desenvolvida pelo ISER, Rocha indica que “uma das
principais demandas tem sido a defesa, por parte de alguns parlamentares, da
proibição do uso do cartão do Bolsa Família em jogos de apostas, como as
plataformas de bets. Visando, assim, garantir, segundo eles, que o benefício
seja utilizado para atender somente às necessidades básicas das
famílias”.
Carolina
Rocha recorda que vários(as) pesquisadores(as) no âmbito de políticas públicas
têm discutido as implicações dessa medida e o impacto na fiscalização do uso
dos recursos públicos, como Rômulo Paes de Sousa e Wanessa Debôrtoli de
Miranda, da Fiocruz, no artigo “Bets e Bolsa Família: sem pânico,
por favor!”
PLs
referentes a exploração de apostas e “bets” levantados pelo ISER:
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Finalidade:
estabelecer e tipificar o crime de exploração ilegal de apostas |
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PL
3771/2024 Altera a Lei
nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023, para instituir o crime de exploração
ilegal de apostas.Autoria: deputado evangélico Aureo Ribeiro
(Solidariedade/RJ). |
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PL 3722/2024 Criminaliza
condutas relacionadas à exploração e divulgação de atividade de apostas de
quota-fixa não autorizada. Autoria: deputado cristão não determinado
Fred Linhares (Republicanos/DF). |
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PL
3754/2024 Altera o
Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940), para tipificar
o crime de permissão ou facilitação do acesso de menores de 18 anos a jogos
de azar, sejam físicos ou digitais. Autoria: do deputado evangélico
Helio Lopes (PL/RJ). |
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PL 3670/2024 Proíbe a
utilização de cartões de crédito e contas bancárias do Bolsa Família em
apostas online ou não, inclusive as apostas permitidas na Lei nº 14.790, de
29 de dezembro de 2023. Autoria: deputado católico Reginaldo Lopes
(PT/MG). |
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Finalidade: Defesa dos direitos das
crianças e dos adolescentes contra os “jogos de azar”. |
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PL 3752/2024 Altera o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990)
para incluir a proibição de publicidade de apostas e jogos de azar
voltada para menores de 18 anos, prevenir e combater a participação de
crianças e adolescentes nessas atividades, regulamentar o acesso de menores a
plataformas de apostas e estabelecer medidas de conscientização.PL 3748/2024, institui a
“Semana Nacional de Combate à Ludopatia e Proteção de Crianças e Adolescentes
contra os Perigos dos Jogos de Azar”. Essa política pública seria acionada
anualmente, na semana anterior ao Dia Nacional de Combate às Drogas e ao
Alcoolismo. Juntas, serviriam para conscientizar a sociedade; promover ações
educativas para os pais ou responsáveis, e o público infanto juvenil acerca
dos riscos relacionados aos jogos de azar no ambiente digital. Autoria: deputado
evangélico Helio Lopes (PL/RJ). |
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PL
3751/2024 institui a
Política Nacional de Proteção e Educação de Crianças e Jovens Expostos a
Jogos de Azar e estabelece o serviço “Disque 100 Ludopatia” para denúncias e
apoio aos afetados pelo vício em jogos de azar. Autoria: deputado
evangélico Helio Lopes (PL/RJ). |
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PL 3749/2024 propõe a
alteração do Código Civil (Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002) para
dispor sobre a nulidade de contratos de apostas e jogos de azar firmados por
menores de 18 anos, estabelecendo a responsabilidade civil das empresas
operadoras de jogos de azar, e tornando ilícita a promoção de publicidade de
apostas e jogos de azar destinada a menores de 18 anos.Autoria: deputado
evangélico Hélio Lopes (PL/RJ). |
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PL
3724/2024 altera o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990)
de forma a impossibilitar que crianças e adolescentes divulguem em plataforma
online de compartilhamento de vídeos, ou outro meio audiovisual, produtos que
lhe sejam proibidos o consumo, sob pena de multa.Autoria: deputado cristão
Túlio Gadêlha (REDE/PE). |
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PL 3428/2024 altera a Lei
Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018),
estabelecendo limites ao tratamento de dados pessoais de crianças e
adolescentes.Autoria: deputado cristão Fabio Costa (PP/AL). |
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Finalidade: Dispor sobre definições
para o uso dos recursos do Programa Bolsa Família (PBF) por parte dos
beneficiários. |
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PL 3765/2024, altera a Lei que
cria o Programa Bolsa Família (Lei nº 14.601, de 19 de junho de 2023),
visando definir despesas autorizadas com os recursos transferidos pelo
Programa e vedar a utilização dos recursos para a compra de itens não
essenciais e prejudiciais à saúde e ao bem-estar, tais como bebidas
alcoólicas e jogos de azar.Autoria: deputado evangélico Messias Donato
(Republicanos/ES). |
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PL
3711/2024, altera a Lei nº
14.601/23 que determina a exclusão do Programa Bolsa Família e o cancelamento
do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) dos beneficiários
identificados como participantes de jogos de apostas.Autoria: do deputado
católico Capitão Augusto (PL/SP). |
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PL 3669/2024, parte da Lei nº
14.790/2023 para dispor sobre a prevenção e o tratamento de transtornos
patológicos relacionados à ludopatia, relacionados às apostas de quota fixa,
e estabelece a responsabilidade solidária das operadoras de apostas no
financiamento de programas de tratamento e suporte às famílias
afetadas.Autoria: deputado católico Dr. Zacharias Calil (UNIÃO/GO). |
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Finalidade: Regulação das mídias para
jogos de apostas. |
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PL 3685/2024, acresce
dispositivo à Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023, dispondo sobre a
modalidade lotérica denominada apostas de quota fixa, para restringir a
pré-instalação de aplicativos de apostas em aparelhos novos, e dá outras
providências.Autoria: deputado cristão Fred Linhares (Republicanos/DF). |
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PL
3511/2024, visa proibir a
publicidade, a divulgação e a propaganda de empresas e casas de apostas
online ou não, e de produtos ligados a jogos de azar, inclusive os previstos
na Lei nº 14.790/2023. Autoria: deputado Reginaldo Lopes (PT/MG). |
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PL 3924/2024, propõe vedar
subvenções, benefícios ou incentivos de entes públicos ou governamentais a
agentes operadores de apostas; além de impedir novas apostas em caso de
indícios de manipulação de eventos ou resultados por parte de apostador,
limitar as formas de aporte e retirada de recursos financeiros pelos
apostadores, bem como de pagamento de prêmios pelos agentes operadores.
Também busca vedar que pessoas em situação de atestado comprometimento da
capacidade financeira e de pagamento participe na condição de apostador.Autoria:
deputados evangélicos David Soares e Marcos Soares (UNIÃO/SP). |
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PL
4163/2024, estabelece, no
contexto das apostas de quota fixa, medidas adicionais de prevenção e combate
à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e à proliferação de
armas de destruição em massa. Autoria: deputado católico Otto Alencar
Filho (PSD/BA). |
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Finalidade:
Alterações na Lei sobre Apostas de Quota Fixa (2023). |
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PL 4130/2024, propõe uma alteração a fim de estabelecer medidas
adicionais de combate ao endividamento por apostas. A proposta é impor
medidas de conscientização e impedir superendividados de apostar,
resguardando os consumidores de práticas abusivas e garantindo que suas
decisões financeiras sejam tomadas de forma mais consciente e
responsável.Autoria: deputado de identidade religiosa não identificada Daniel
Almeida (PCdoB/BA). |
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PL 3924/2024, busca vedar
subvenção, benefício ou incentivo de entes públicos ou governamentais a
agentes operadores de apostas; impedir novas apostas em caso de indícios de
manipulação de eventos ou resultados por parte de apostador; limitar as
formas de aporte e retirada de recursos financeiros pelos apostadores, bem
como de pagamento de prêmios pelos agentes operadores; e vedar que pessoas em
situação de atestado comprometimento da capacidade financeira e de pagamento
participe na condição de apostador.Autoria: deputados evangélicos David
Soares e Marcos Soares (UNIÃO/SP). |
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PL 3814/2024, propõe novas penas a infratores.Autoria:
deputado católico Delegado Caveira (PL/PA). |
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PL 4163/2024, estabelece, no
contexto das apostas de quota fixa, medidas adicionais de prevenção e combate
à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e à proliferação de
armas de destruição em massa. Autoria: deputado católico Otto Alencar
Filho (PSD/BA). |
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PL 3877/2024, altera a Lei nº
9.294, de 15 de julho de 1996,
para restringir a propaganda de jogos de azar, apostas de quota fixa e de
atividades de natureza sexual, e a Lei sobre Apostas de Quota Fixa, para
restringir a propaganda de apostas de quota fixa. Autoria: deputada
evangélica Daniela do Waguinho (UNIÃO/RJ). |
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PL 3810/2024, dispõe sobre a
realização de campanhas de conscientização sobre apostas esportivas; institui
o Fundo Nacional de Prevenção ao Vício em Apostas; altera a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, para incluir educação financeira e conteúdos
relacionados a apostas esportivas no currículo escolar; modifica as regras de
publicidade e propaganda na Lei de Apostas de Quota Fixa.Autoria: deputado
católico Pedro Aihara (PRD/MG). |
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PL 3790/2024, é instituída a Lei de Responsabilidade dos
Jogos.Autoria: deputado católico Pedro Paulo (PSD/RJ). |
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PL 3932/2024, institui a
Política Nacional de Conscientização e Combate ao Vício Tecnológico em
crianças e adolescentes e altera a Lei de Apostas de Quota Fixa, a fim de
prever medidas adicionais de combate à participação de menores de 18
(dezoito) anos na condição de apostador em apostas de quota
fixa. Autoria: deputado católico Romero Rodrigues (PODE/PB). |
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PL 4466/2024, estabelece regras de proteção e defesa das
pessoas idosas contra jogos de azar.Autoria: deputados católicos Luiz Couto,
Reimont e Alexandre Lindenmeyer (PT/PB). |
Fonte:
Bereia, com base no Monitoramento de PLs do ISER

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