terça-feira, 15 de julho de 2025

Raúl Zibechi: O horizonte estratégico não está mais presente na esquerda

De tempos em tempos, a esquerda se entusiasma com a última novidade midiática que promete tempos felizes, ainda que depois esse fervor desaparece sem qualquer consequência, pois raramente se olha para trás para avaliar os resultados. Nesses dias, os nomes do socialista Zohran Mamdani, como possível prefeito de Nova York, e de Jeanette Jara, como candidata presidencial do progressismo chileno, são motivo de alegria e esperança.

Para alguns analistas e para o meio de comunicação de esquerda Sin Permiso, a vitória de Mamdani nas primárias democratas provocou um “terremoto político” tão profundo que, segundo a análise, “as ramificações dessa reviravolta serão sentidas por anos, em todo os Estados Unidos e no mundo desenvolvido”. Por ser socialista, muçulmano e pró-palestino, a esquerda se ilude de que sua chegada à prefeitura da emblemática cidade poderá mudar as coisas, apesar de toda a evidência contrária.

Para o semanário esquerdista El Siglo, a comunista chilena traz “a possibilidade real de que o povo governe com sua voz, suas demandas e sua dignidade à frente”. Para os meios de comunicação progressistas, como o argentino Página/12, o simples fato de Jara não ser procedente das elites representa “a esperança de uma vida melhor”.

A esquerda se assemelha cada vez mais aos grandes meios de comunicação que tanto critica. Grandes entusiasmos em manchetes gigantescas que alcançam efeitos tão imediatos quanto pouco duradouros. Passado o efeito, não se perguntam o que aconteceu com aquelas ilusões que conseguiram mexer com seus seguidores. Parece-me necessário relembrar as explosões de paixão quando surgiu o Podemos, na Espanha, e quando o Syriza chegou ao poder na Grécia.

São apenas fogos de artifício que buscam manter à tona uma esquerda desconjuntada, que perdeu toda a profundidade estratégica, incapaz de ir além de manobras táticas efêmeras que nada mudam e que muito rapidamente são esquecidas.

Chama-me a atenção que muitos chilenos caiam mais uma vez na armadilha. Iludiram-se com personagens como a líder estudantil Camila Vallejo, que em 2011 prometia mudar o país e a quem o jornal britânico oportunista The Guardian comparou ao subcomandante Marcos. Surpreende-me mais ainda que a memória coletiva não consiga sequer voltar a 2019, quando uma Assembleia Constituinte (convocada pela direita e apenas por um personagem da esquerda, o atual presidente Gabriel Boric) levou boa parte do movimento social a dissolver assembleias regionais para se dedicar às urnas.

Quero estabelecer um contraponto. No último final de semana, três companheiros brasileiros próximos à Teia dos Povos (Rede de Povos) percorreram meia dúzia de retomadas (recuperações de terras) do povo Guarani Kaiowá, no estado do Mato Grosso do Sul, próximas da fronteira com o Paraguai. Nas conversas que tivemos, relataram a força desses espaços, com um deles ocupando 600 hectares, a diversidade de cultivos e o vigor das comunidades reterritorializadas.

Um dos assentamentos está disputando 11.000 hectares com o agronegócio, embora “estejam em uma situação bastante vulnerável, com ataques noturnos de pistoleiros dos latifundiários, com quem disputam o seu território ancestral, que passam em caminhonetes 4x4 e disparam contra a comunidade. Conseguiram permanecer intermitentemente no local durante 47 anos de recuperação”, relata a companheira Silvia Adoue.

Sobre esse espaço, Pakurity, a companheira Esteban del Cerro escreve em Quilombo Invisível que, desde a retomada de 1986, “foram décadas de permanência e circulação em Pakurity por outros meios: trabalhos temporários na fazenda; utilização de feixe de mata nas proximidades para extração de plantas, ervas e raízes medicinais, frutos, caça e pesca; circulação das parentelas na região; a memória dos mortos e antepassados”.

O texto conclui: “De norte a sul do continente, os indígenas fazem ecoar o grito zapatista da defesa do comum e não-propriedade, e as retomadas seguem explicitando que o caminho insurgente é a senda da vitória. A insurgência também mostra que a recuperação da terra nos faz esperançar, ainda que em meio às trincheiras, um novo modo de se relacionar com as coisas vivas”. A terra transformada em território abre horizontes de vida.

As recuperações de terras em todo o continente, pelas mãos dos atores coletivos no campo e nas cidades, possuem a profundidade estratégica que a esquerda perdeu ao se acomodar na zona de conforto do estado e das instituições. Já não chama mais a atenção que aqueles que celebram “vitórias” eleitorais mínimas estejam virando as costas às lutas que estão recompondo o campo popular, que trabalha pela sobrevivência coletiva durante a tormenta sistêmica que nos assola.

¨      Os negacionistas e o conflito homem-natureza. Por Luigi Manconi

"A direita, especialmente a italiana, apressa-se a se proteger, passa por cima das causas dos eventos extremos e se esconde por trás do senso comum dos insensatos: no verão sempre foi quente, no inverno sempre foi frio. Assim, tal direita afirma um negacionismo aparentemente mais respeitável: a mudança climática existe, mas o ser humano não é responsável", escreve Luigi Manconi, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Itália.

<><> Eis o artigo.

Talvez, diante do negacionismo ambiental das direitas de todo o mundo, os progressistas e os ecologistas devem se tornar como leopardianos. Quando éramos pequenos e ignorantes, e líamos com grande dificuldade Sebastiano Timpanaro, acabamos aprendendo isso em seus escritos sobre Giacomo Leopardi: que a natureza engana seus filhos. Tal consciência da realidade parece escapar à direita político-cultural, ativamente engajada em afirmar a inocência do homem em relação ao colapso do planeta. Não é uma novidade.

A pandemia de Covid foi o neurótico ensaio geral e o sangrento campo de batalha da última guerra global. Que ainda está em andamento, e não é aquela entre os EUA e a China, nem mesmo a entre o Ocidente e o Islã: é, em vez disso, o conflito sem fim entre homem e natureza, entre a aspiração do primeiro de dominar a segunda e o poder do mundo físico contra a civilização humana, suas conquistas maravilhosas e seus horrores hediondos.

Covid foi um formidável observatório das ações e reações dos indivíduos em circunstâncias extremas, quando a vida e a morte estão em jogo e se manifestam as pulsões mais profundas: pânico e psicose, fobia e angústia. A pandemia antecipou o que agora está acontecendo em relação às mudanças climáticas, intervindo não apenas no inconsciente coletivo, mas também na mentalidade social, produzindo interpretações do mundo e das coisas, ativando fantasias, pesadelos e constructos culturais.

As teorias da conspiração tão presentes na narrativa da pandemia e da crise ambiental são um mecanismo de interpretação do que não se conhece e que se teme, confiado a uma lógica aparentemente férrea, unida por estreitas conexões e fortes vínculos, tudo submetido a um regime de causa-efeito que não admite exceções. É isso que permitiu uma leitura compacta e completa de toda a história, onde tudo está conectado. É evidente que tal trama - onde atuam o Papa Francisco e as Big Pharma, Hillary Clinton e seus planos de substituição étnica, a internacional homossexual e o Príncipe Charles -, satisfaz plenamente a desorientação e a frustração de muitos, responde a todas as perguntas e desvenda todos os mistérios. Em suma, explica tudo.

A linguagem das conspirações é construída inteiramente por expressões como "não é por acaso que...", "pode até ser coincidência, mas...", e responde prontamente ao ceticismo coletivo de uma opinião pública cismada e desconfiada até à paranoia. Daí a mitologia sombria em torno das origens da Covid, da letalidade das vacinas e das estratégias de manipulação de massa. Tudo isso se fundiu com uma orientação político-cultural abertamente de direita e se transferiu para a dimensão das mudanças climáticas e das políticas a elas relacionadas. Num instante, essa subcultura se tornou negacionista em relação à crise ambiental, usando argumentos copiados literalmente da polêmica sobre a Covid. A mudança climática supostamente seria uma invenção dos poderes fortes, destinada a disciplinar os hábitos e os consumos das pessoas, a condicionar suas escolhas e estilos de vida, a fortalecer um setor produtivo em detrimento de outro, a inspirar relações comunitárias pré-industriais. O resultado dessa campanha de propaganda é, mais uma vez, "de direita": isto é, em benefício de uma ideia organicista e iliberal de sociedade.

Mas eventualmente a direita acaba se apavorando com suas próprias palavras. Quando a enchente do Rio Guadalupe a confronta com alguns dados brutais, como responder a quem afirma que a tragédia se deve a demissões e cortes no sistema de previsão do tempo? Bem como – evidentemente – à gravíssima negligência em relação ao colapso hidrogeológico? A direita, especialmente a italiana, apressa-se a se proteger, passa por cima das causas dos eventos extremos e se esconde por trás do senso comum dos insensatos: no verão sempre foi quente, no inverno sempre foi frio. Assim, tal direita afirma um negacionismo aparentemente mais respeitável: a mudança climática existe, mas o ser humano não é responsável.

Isso leva a uma estranha inversão: o ser humano não seria culpado, filho dócil da natureza e parte integrante dela, amigável e não hostil a ela. A antiga crença reacionária, que agora se tornou uma concepção ideológica propriamente dita, de que a humanidade estaria condenada a um irreparável destino trágico, é apagada. Ao ser humano é atribuída uma inocência absoluta em nome de um otimismo imaginário. Isso resulta em alguns efeitos: o homem não tem um papel dominante e, portanto, também destrutivo, no governo do planeta. É, dessa forma, inocente e, portanto, sem culpa. Consequentemente, a dimensão trágica da existência humana, considerada pedra angular dos pensadores mais sólidos da cultura de direita, seria abandonada.

Na realidade, tudo isso é coerente com a profunda inspiração antiecológica da direita. Esta é, em sua essência, inteiramente focada no aqui e agora, no presente e no imediato; é soberanista e imediatista, totalmente alheia às categorias do distante e do futuro, e irresistivelmente tendente a ignorar as causas do que acontece hoje e as responsabilidades pelo que acontecerá amanhã.

Uma ecologia, mas também uma esquerda que a quisesse assumir como sua característica qualificante, devem ser ou deveriam ser exatamente o oposto. Tornando-se, dessa forma, leopardianas.

¨      O que devemos proteger na tempestade. Por Raúl Zibechi

A onda de tarifas impostas pelo governo de Donald Trump nos mergulha em um mundo que se desconhecia há pelo menos um século, mas, acima de tudo, acelera a tempestade sistêmica contra os povos do mundo, apagando as fronteiras nacionais e mantendo as de classe, cor da pele, gênero e geração. Em suma, a guerra dos de cima contra os de baixo.

EZLN vem falando da tempestade há mais de uma década, explicando o que ela é e quem afetará, mas também destacando a necessidade de organizar e construir espaços e territórios “arcas” para sobreviver coletivamente. Portanto, não devemos nos surpreender que a tempestade já esteja sobre nós, e menos ainda pensar que ela afetará os outros, mas não os nossos.

É evidente que para aqueles que estão em baixo não há salvação individual, como há para aqueles que estão no topo, que têm recursos suficientes e construíram seus outros mundos em ilhas remotas ou montanhas inacessíveis, refúgios dourados com água abundante, comida de qualidade e pessoal armado para cuidar deles. Falamos sobre tudo isso na década que nos separa do seminário “Pensamento Crítico diante da Hidra Capitalista”, realizado em maio de 2015, há dez anos.

Em momentos críticos como o atual, podemos nos perguntar o que devemos proteger em meio ao caos sistêmico, à violência e aos desastres naturais. A questão não é puramente especulativa, pois vimos que em naufrágios ou quedas de avião, as pessoas muitas vezes tentam salvar objetos de prestígio ou valores, como dinheiro ou coisas semelhantes que consideram essenciais. É o modo capitalista de pensar e agir, de estabelecer prioridades e hierarquias.

Como comunidades e coletivos, corremos o risco de perder a terra e os espaços que recuperamos, tudo o que construímos com tanto esforço – nossas casas, escolas e clínicas –, seja porque os governos, seus paramilitares e traficantes de drogas os destroem e ocupam, ou porque a Mãe Terra, em sua furiosa reação à agressão, desencadeia furacões e inundações devastadores. É por isso que a história dos vários submundos é repleta de êxodos, marchas coletivas em busca de novas terras para evitar monstros e tempestades.

Não podemos perder os seres humanos, as comunidades e os grupos que formamos, o vínculo coletivo, porque as coisas materiais podem ser reparadas ou reconstruídas se continuarmos a viver juntos. Não é a propriedade da terra que a torna comum, mas os trabalhos coletivos (mingas, tequios) realizados por pessoas organizadas em um determinado espaço/território. Acredito que essa seja a chave para o bem comum e que sua essência seja o trabalho comunitário compartilhado, que pode salvar vidas mesmo durante uma tempestade.

Porque o que está se desintegrando, mesmo em nossos corpos, é muito mais do que um governo, um líder ou uma nação. Se o sistema-mundo está colapsando, toda uma civilização capitalista, patriarcal e colonial está se desintegrando, incapaz de suportar a combinação de pressões vindas de baixo e a ganância impaciente e sem fim dos de cima. A tempestade, como o EZLN sugere repetidamente, não é o desaparecimento do planeta Terra ou dos seres humanos que o habitam, mas uma mutação profunda que provocará o fim do mundo como o conhecemos.

Os poderosos estão destruindo tudo para preservar seu poder e suas riquezas, abrindo caminho para um sistema que pode ser diferente do capitalismo, mas certamente mais hierárquico e despótico, onde os povos serão escravizados pelos poderosos. Este futuro em desenvolvimento é muito mais do que a guerra comercial ou material entre os EUA e a China; é outra coisa que às vezes temos dificuldade de entender, porque estamos no fim de um longo período da história em que havia um certo equilíbrio entre os seres humanos e a natureza, certos direitos que o Estado-nação respeitava, mesmo que apenas para domesticar as rebeliões.

Eles vêm por causa das nossas terras, querem nos eliminar como povos e como setores sociais, transformar-nos em meros consumidores para continuar acumulando. Nossa resistência é evitar isso de maneira coletiva. Para isso, precisamos salvar o coletivo, muito antes das coisas materiais que nos cercam.

E mais uma coisa: salvar-nos, para os de baixo, só é possível juntos, com os outros, para que, quando nada mais estiver de pé, possamos seguir em frente, seguindo os passos dos nossos antepassados para reconstruir um planeta para todos e todas.

 

Fonte: LaJornada/la Repubblica/Desinformémonos/IHU

 

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