Raúl
Zibechi: O horizonte estratégico não está mais presente na esquerda
De
tempos em tempos, a esquerda se entusiasma com a última novidade
midiática que promete tempos felizes, ainda que depois esse fervor desaparece
sem qualquer consequência, pois raramente se olha para trás para avaliar os
resultados. Nesses dias, os nomes do socialista Zohran Mamdani, como possível
prefeito de Nova York, e de Jeanette Jara, como candidata
presidencial do progressismo chileno, são motivo de alegria e esperança.
Para
alguns analistas e para o meio de comunicação de esquerda Sin Permiso, a
vitória de Mamdani nas primárias democratas provocou um “terremoto
político” tão profundo que, segundo a análise, “as ramificações dessa
reviravolta serão sentidas por anos, em todo os Estados Unidos e no mundo
desenvolvido”. Por ser socialista, muçulmano e pró-palestino,
a esquerda se ilude de que sua chegada à prefeitura da emblemática
cidade poderá mudar as coisas, apesar de toda a evidência contrária.
Para o
semanário esquerdista El Siglo, a comunista chilena traz “a possibilidade
real de que o povo governe com sua voz, suas demandas e sua dignidade à
frente”. Para os meios de comunicação progressistas, como o
argentino Página/12, o simples fato de Jara não ser procedente
das elites representa “a esperança de uma vida melhor”.
A esquerda se
assemelha cada vez mais aos grandes meios de comunicação que tanto critica.
Grandes entusiasmos em manchetes gigantescas que alcançam efeitos tão imediatos
quanto pouco duradouros. Passado o efeito, não se perguntam o que aconteceu com
aquelas ilusões que conseguiram mexer com seus seguidores. Parece-me necessário
relembrar as explosões de paixão quando surgiu o Podemos, na Espanha,
e quando o Syriza chegou ao poder na Grécia.
São
apenas fogos de artifício que buscam manter à tona uma esquerda desconjuntada,
que perdeu toda a profundidade estratégica, incapaz de ir além de manobras
táticas efêmeras que nada mudam e que muito rapidamente são esquecidas.
Chama-me
a atenção que muitos chilenos caiam mais uma vez na armadilha. Iludiram-se com
personagens como a líder estudantil Camila Vallejo, que em 2011 prometia
mudar o país e a quem o jornal britânico oportunista The
Guardian comparou ao subcomandante Marcos. Surpreende-me mais
ainda que a memória coletiva não consiga sequer voltar a 2019, quando uma Assembleia
Constituinte (convocada
pela direita e apenas por um personagem da esquerda, o atual
presidente Gabriel Boric) levou boa parte do movimento social a dissolver
assembleias regionais para se dedicar às urnas.
Quero
estabelecer um contraponto. No último final de semana, três companheiros
brasileiros próximos à Teia dos Povos (Rede de Povos) percorreram
meia dúzia de retomadas (recuperações de terras) do povo Guarani Kaiowá, no estado
do Mato Grosso do Sul, próximas da fronteira com o Paraguai. Nas
conversas que tivemos, relataram a força desses espaços, com um deles ocupando
600 hectares, a diversidade de cultivos e o vigor das comunidades
reterritorializadas.
Um dos
assentamentos está disputando 11.000 hectares com o agronegócio, embora “estejam em
uma situação bastante vulnerável, com ataques noturnos de pistoleiros dos
latifundiários, com quem disputam o seu território ancestral, que passam em
caminhonetes 4x4 e disparam contra a comunidade. Conseguiram permanecer
intermitentemente no local durante 47 anos de recuperação”, relata a
companheira Silvia Adoue.
Sobre
esse espaço, Pakurity, a
companheira Esteban del Cerro escreve em Quilombo
Invisível que, desde a retomada de 1986, “foram décadas de permanência e
circulação em Pakurity por outros meios: trabalhos temporários na
fazenda; utilização de feixe de mata nas proximidades para extração de plantas,
ervas e raízes medicinais, frutos, caça e pesca; circulação das parentelas na
região; a memória dos mortos e antepassados”.
O texto
conclui: “De norte a sul do continente, os indígenas fazem ecoar o grito
zapatista da defesa do comum e não-propriedade, e as retomadas seguem
explicitando que o caminho insurgente é a senda da vitória. A insurgência
também mostra que a recuperação da terra nos faz esperançar, ainda que em meio
às trincheiras, um novo modo de se relacionar com as coisas vivas”. A terra
transformada em território abre horizontes de vida.
As recuperações
de terras em todo o continente, pelas mãos dos atores coletivos no campo e
nas cidades, possuem a profundidade estratégica que a esquerda perdeu
ao se acomodar na zona de conforto do estado e das instituições. Já não chama
mais a atenção que aqueles que celebram “vitórias” eleitorais mínimas estejam
virando as costas às lutas que estão recompondo o campo popular, que trabalha
pela sobrevivência coletiva durante a tormenta sistêmica que nos assola.
¨ Os negacionistas e o
conflito homem-natureza. Por Luigi Manconi
"A
direita, especialmente a italiana, apressa-se a se proteger, passa por cima das
causas dos eventos extremos e se esconde por trás do senso comum dos
insensatos: no verão sempre foi quente, no inverno sempre foi frio. Assim, tal
direita afirma um negacionismo aparentemente mais respeitável: a mudança
climática existe, mas o ser humano não é responsável", escreve Luigi
Manconi, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Itália.
<><>
Eis o artigo.
Talvez,
diante do negacionismo
ambiental das
direitas de todo o mundo, os progressistas e os ecologistas devem se tornar
como leopardianos. Quando éramos pequenos e ignorantes, e líamos com
grande dificuldade Sebastiano Timpanaro, acabamos aprendendo isso em seus
escritos sobre Giacomo Leopardi: que a natureza engana seus filhos. Tal
consciência da realidade parece escapar à direita
político-cultural,
ativamente engajada em afirmar a inocência do homem em relação ao colapso do
planeta. Não é uma novidade.
A pandemia
de Covid foi o neurótico ensaio geral e o sangrento campo de batalha da
última guerra global. Que ainda está em andamento, e não é aquela entre
os EUA e a China, nem mesmo a entre o Ocidente e
o Islã: é, em vez disso, o conflito sem fim
entre homem e natureza, entre a aspiração do primeiro de dominar a segunda e o
poder do mundo físico contra a civilização humana, suas conquistas maravilhosas
e seus horrores hediondos.
A Covid foi um formidável
observatório das ações e reações dos indivíduos em circunstâncias extremas,
quando a vida e a morte estão em jogo e se manifestam as pulsões mais
profundas: pânico e psicose, fobia e angústia. A pandemia antecipou o que agora
está acontecendo em relação às mudanças climáticas, intervindo não apenas
no inconsciente coletivo, mas também na mentalidade social, produzindo
interpretações do mundo e das coisas, ativando fantasias, pesadelos e
constructos culturais.
As teorias da
conspiração tão
presentes na narrativa da pandemia e da crise ambiental são um mecanismo de
interpretação do que não se conhece e que se teme, confiado a uma lógica
aparentemente férrea, unida por estreitas conexões e fortes vínculos, tudo
submetido a um regime de causa-efeito que não admite exceções. É isso que
permitiu uma leitura compacta e completa de toda a história, onde tudo está
conectado. É evidente que tal trama - onde atuam o Papa Francisco e
as Big Pharma, Hillary Clinton e seus planos de substituição
étnica, a internacional homossexual e o Príncipe Charles -, satisfaz
plenamente a desorientação e a frustração de muitos, responde a todas as
perguntas e desvenda todos os mistérios. Em suma, explica tudo.
A
linguagem das conspirações é construída inteiramente por expressões
como "não é por acaso que...", "pode até ser coincidência,
mas...", e responde prontamente ao ceticismo coletivo de uma opinião
pública cismada e desconfiada até à paranoia. Daí a mitologia sombria em torno
das origens da Covid, da letalidade das vacinas e das
estratégias de manipulação de massa. Tudo isso se fundiu com uma
orientação político-cultural abertamente de direita e se transferiu
para a dimensão das mudanças
climáticas e
das políticas a elas relacionadas. Num instante, essa subcultura se tornou
negacionista em relação à crise ambiental, usando argumentos copiados
literalmente da polêmica sobre a Covid. A mudança climática supostamente
seria uma invenção dos poderes fortes, destinada a disciplinar os hábitos e os
consumos das pessoas, a condicionar suas escolhas e estilos de vida, a
fortalecer um setor produtivo em detrimento de outro, a inspirar relações
comunitárias pré-industriais. O resultado dessa campanha de propaganda é, mais
uma vez, "de direita": isto é, em benefício de uma ideia organicista
e iliberal de sociedade.
Mas
eventualmente a direita acaba se apavorando
com suas próprias palavras. Quando a enchente do
Rio Guadalupe a
confronta com alguns dados brutais, como responder a quem afirma que a tragédia
se deve a demissões e cortes no sistema de previsão do tempo? Bem como –
evidentemente – à gravíssima negligência em relação ao colapso
hidrogeológico? A direita, especialmente a italiana, apressa-se a se
proteger, passa por cima das causas dos eventos extremos e se esconde por trás
do senso comum dos insensatos: no verão sempre foi quente, no inverno sempre
foi frio. Assim, tal direita afirma um negacionismo aparentemente mais
respeitável: a mudança climática existe, mas o ser humano não é
responsável.
Isso
leva a uma estranha inversão: o ser humano não seria culpado, filho dócil da
natureza e parte integrante dela, amigável e não hostil a ela. A antiga crença
reacionária, que agora se tornou uma concepção ideológica propriamente dita, de
que a humanidade estaria condenada a um irreparável destino trágico, é apagada.
Ao ser humano é atribuída uma inocência absoluta em nome de um otimismo
imaginário. Isso resulta em alguns efeitos: o homem não tem um papel dominante
e, portanto, também destrutivo, no governo do planeta. É, dessa forma, inocente
e, portanto, sem culpa. Consequentemente, a dimensão trágica da existência
humana, considerada pedra angular dos pensadores mais sólidos da cultura
de direita, seria abandonada.
Na
realidade, tudo isso é coerente com a profunda inspiração antiecológica da
direita. Esta é, em sua essência, inteiramente focada no aqui e agora, no
presente e no imediato; é soberanista e imediatista, totalmente alheia às
categorias do distante e do futuro, e irresistivelmente tendente a ignorar as
causas do que acontece hoje e as responsabilidades pelo que acontecerá amanhã.
Uma ecologia,
mas também uma esquerda que a quisesse assumir como sua característica
qualificante, devem ser ou deveriam ser exatamente o oposto. Tornando-se, dessa
forma, leopardianas.
¨ O que devemos
proteger na tempestade. Por Raúl Zibechi
A onda
de tarifas impostas pelo
governo de Donald Trump nos mergulha em
um mundo que se desconhecia há pelo menos um século, mas, acima de tudo,
acelera a tempestade sistêmica contra os povos do mundo, apagando as fronteiras
nacionais e mantendo as de classe, cor da pele, gênero e geração. Em suma, a guerra
dos de cima contra os de baixo.
O EZLN vem falando da
tempestade há mais de uma década, explicando o que ela é e quem afetará, mas
também destacando a necessidade de organizar e construir espaços e territórios
“arcas” para sobreviver
coletivamente. Portanto, não devemos nos surpreender que a tempestade já esteja
sobre nós, e menos ainda pensar que ela afetará os outros, mas não os nossos.
É
evidente que para aqueles que estão em baixo não há salvação individual, como
há para aqueles que estão no topo, que têm recursos suficientes e construíram
seus outros mundos em ilhas remotas ou montanhas inacessíveis, refúgios
dourados com água abundante, comida de qualidade e pessoal armado para cuidar
deles. Falamos sobre tudo isso na década que nos separa do seminário “Pensamento
Crítico diante da Hidra Capitalista”, realizado em maio de 2015, há dez anos.
Em
momentos críticos como o atual, podemos nos perguntar o que devemos proteger em
meio ao caos sistêmico, à violência e aos desastres naturais. A questão não é
puramente especulativa, pois vimos que em naufrágios ou quedas de avião, as
pessoas muitas vezes tentam salvar objetos de prestígio ou valores, como
dinheiro ou coisas semelhantes que consideram essenciais. É o modo capitalista
de pensar e agir, de estabelecer prioridades e hierarquias.
Como
comunidades e coletivos, corremos o risco de perder a terra e os espaços que
recuperamos, tudo o que construímos com tanto esforço – nossas casas, escolas e
clínicas –, seja porque os governos, seus paramilitares e traficantes de drogas
os destroem e ocupam, ou porque a Mãe Terra, em sua furiosa reação à agressão,
desencadeia furacões e inundações devastadores. É por isso que a história dos
vários submundos é repleta de êxodos, marchas coletivas em busca de novas
terras para evitar monstros e tempestades.
Não
podemos perder os seres humanos, as comunidades e os grupos que formamos, o
vínculo coletivo, porque as coisas materiais podem ser reparadas ou
reconstruídas se continuarmos a viver juntos. Não é a propriedade da terra que
a torna comum, mas os trabalhos coletivos (mingas, tequios) realizados por
pessoas organizadas em um determinado espaço/território. Acredito que essa seja
a chave para o bem comum e que sua essência seja o trabalho comunitário
compartilhado, que pode salvar vidas mesmo durante uma tempestade.
Porque
o que está se desintegrando, mesmo em nossos corpos, é muito mais do que um
governo, um líder ou uma nação. Se o sistema-mundo está colapsando, toda uma
civilização capitalista, patriarcal e colonial está se desintegrando, incapaz
de suportar a combinação de pressões vindas de baixo e a ganância impaciente e
sem fim dos de cima. A tempestade, como o EZLN sugere repetidamente,
não é o desaparecimento do planeta Terra ou dos seres humanos que o habitam,
mas uma mutação profunda que provocará o fim do mundo como o conhecemos.
Os
poderosos estão destruindo tudo para preservar seu poder e suas riquezas,
abrindo caminho para um sistema que pode ser diferente do capitalismo, mas
certamente mais hierárquico e despótico, onde os povos serão escravizados pelos
poderosos. Este futuro em desenvolvimento é muito mais do que a guerra comercial ou material
entre os EUA e a China; é outra coisa que às vezes temos
dificuldade de entender, porque estamos no fim de um longo período da história
em que havia um certo equilíbrio entre os seres humanos e a natureza, certos
direitos que o Estado-nação respeitava, mesmo que apenas para domesticar as
rebeliões.
Eles
vêm por causa das nossas terras, querem nos eliminar como povos e como setores
sociais, transformar-nos em meros consumidores para continuar acumulando. Nossa
resistência é evitar isso de maneira coletiva. Para isso, precisamos salvar o
coletivo, muito antes das coisas materiais que nos cercam.
E mais
uma coisa: salvar-nos, para os de baixo, só é possível juntos, com os outros,
para que, quando nada mais estiver de pé, possamos seguir em frente, seguindo
os passos dos nossos antepassados para reconstruir um planeta para todos e
todas.
Fonte:
LaJornada/la Repubblica/Desinformémonos/IHU

Nenhum comentário:
Postar um comentário