Patentes:
uma proposta para a Ciência Aberta
A
relação entre propriedade intelectual (PI) e o acesso às inovações científicas
sempre foi tumultuada. A distribuição desigual das vacinas de mRNA durante a
pandemia de covid-19 colocou detentores de patentes contra defensores do acesso
a medicamentos, confirmando esta realidade.
Na
saúde global, o racionamento custa vidas. Um modelo estima que o acesso mais
equitativo às vacinas contra a covid-19 poderia ter evitado cerca de 1,3 milhão
de mortes no mundo.
Mas a
pandemia também despertou um espírito de colaboração, distante do protecionismo
que dominou as manchetes. Éramos um grupo de centenas de cientistas,
repentinamente confinados que recorremos espontaneamente às redes sociais para
desenvolver novos antivirais de forma colaborativa. Os resultados desses
esforços não apenas exemplificam o potencial da ciência aberta, como também
abrem caminhos para novas formas de gerenciar direitos de patentes que promovam
o acesso a medicamentos, em vez de restringir.
Denominávamo-nos
iniciativa Moonshot, compartilhávamos a visão de desenvolver um tratamento oral
seguro, globalmente acessível e sem fins lucrativos para a infecção por
SARS-CoV-2. Nosso objetivo era identificar novas moléculas capazes de bloquear
a doença e desenvolver medicamentos que pudessem ser produzidos como genéricos
imediatamente. Em vez de gerar receitas protegidas por patentes e outras formas
de PI, qualquer novo medicamento estaria disponível para todos e acessível pelo
menor preço sustentável.
Quando
convocamos químicos medicinais de todo o mundo para enviar designs de moléculas
com potencial para inibir o vírus, esperávamos algumas centenas de propostas.
Recebemos mais de 18.000. As redes sociais nos permitiram compartilhar o
progresso em tempo real com a mais ampla comunidade científica possível. A
inteligência artificial nos ajudou a trabalhar mais rápido no design molecular
e um financiamento da Wellcome nos ajudou a testar nossos melhores candidatos
em laboratório.
Esforços
abertos de descoberta de medicamentos costumam ser lentos, mas um de nossos
pesquisadores descreveu nossa experiência como trabalhar em um trem expresso ao
mesmo tempo em que íamos construindo os trilhos por onde ele passava.
E
funcionou. Vários antivirais de amplo espectro — medicamentos potenciais que
poderiam funcionar contra SARS-CoV-2 e vírus relacionados — foram
identificados. A segurança e eficácia dos candidatos mais promissores foram
testadas em estudos pré-clínicos e um deles, o DNDI-6510, avançou para estudos
de toxicologia avançada e farmacocinética.
Mas, ao
procurarmos fabricantes e doadores interessados em nosso composto de ciência
aberta, ninguém quis investir em seu desenvolvimento. Uma preocupação
prevaleceu: com tudo publicado abertamente em tempo real e sem patente, não
tínhamos controle. Qualquer um poderia registrar uma patente própria cobrindo
aspectos adicionais da formulação e comercializá-la exclusivamente. Os
resultados de nossos esforços colaborativos abertos poderiam facilmente ser
privatizados, tornando nossa visão de um medicamento acessível e barato
inatingível.
O
DNDI-6510 acabou falhando em estudos pré-clínicos mais avançados — um revés
comum nessa fase de alto risco do desenvolvimento de medicamentos. Mas o
composto Moonshot foi o ponto de partida para o trabalho de uma nova coalizão
chamada consórcio ASAP — liderado por muitos dos pesquisadores da Moonshot e
financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA. A estrutura de um
segundo composto desenvolvido por pesquisadores da ASAP, o ASAP-0017445, com
atividade potente contra MERS-CoV, SARS-CoV-2 e outros vírus da mesma família,
foi recentemente divulgada no encontro da American Chemical Society Spring
2025, em San Diego.
Junto
com nossos parceiros no consórcio ASAP, divulgamos a estrutura de nossa
molécula antiviral de amplo espectro no domínio público, para que qualquer
químico medicinal no planeta possa usá-la, melhorá-la e aproveitar ao máximo
nossos dados de pesquisa. Com isso, mantemos o espírito de ciência aberta da
Moonshot, reunindo as melhores mentes e quebrando barreiras que dificultam a
inovação científica.
Mas
como equilibrar essa abordagem de inovação aberta com a necessidade de impedir
qualquer apropriação por interesses privados?
Escolhemos
um caminho intermediário. Apresentamos uma patente “minimamente defensiva e
maximamente permissiva”. Salvaguardas e compromissos vinculantes evitam abusos
de nossa propriedade intelectual compartilhada e regulam o desenvolvimento e a
comercialização de qualquer medicamento futuro resultante deste trabalho. Todos
os parceiros da ASAP estão contratualmente obrigados a conceder licenças
futuras para fabricar e comercializar esse possível medicamento de forma não
exclusiva, permitindo a produção simultânea por múltiplos fabricantes. Isso nos
dá alavancagem com potenciais parceiros industriais e doadores, garantindo que
nosso futuro antiviral esteja disponível pelo menor preço sustentável, em
quantidades suficientes, em todos os lugares e rapidamente.
Essa
abordagem de licenças não exclusivas com foco no acesso já demonstrou sucesso
em diversos medicamentos e doenças. O Medicines Patent Pool, por exemplo,
aplicou estratégias semelhantes para fornecer medicamentos que salvaram milhões
de vidas.
A
novidade aqui é que antecipamos essas necessidades desde o início do processo
de P&D. Incorporamos disposições para garantir a acessibilidade e a
disponibilidade para todos os países, independentemente de seu nível de
desenvolvimento. Estamos pilotando um modelo para garantir o acesso global com
base em uma abordagem de licenciamento aberto de patentes. Usamos patentes para
criar as melhores condições possíveis para o acesso equitativo.
A
realização do pleno potencial do ASAP-0017445 depende de obter o financiamento
necessário para avançar seu desenvolvimento em estudos clínicos. Mais do que
uma oportunidade, é um imperativo — precisamos de antivirais de amplo espectro
em nosso arsenal antes que a próxima pandemia apareça. Mais do que isso, é uma
oportunidade de demonstrar que patentes, quando bem aproveitadas, não só
estimulam a inovação como também servem ao bem comum.
Fonte:
Por Ed Griffen e Pascale Boulet, em Outra Saúde

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