segunda-feira, 21 de julho de 2025

Pastor Henrique: evangélicos não são apenas religiosos, é preciso humanizar

Deputado federal da base governista, Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) afirma estar completamente aberto para discutir com o governo formas de melhorar a popularidade entre os evangélicos, um dos desafios da terceira gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No entanto, em entrevista ao Conversa Bem Viver desta segunda-feira (17), ele diz ser “pouco ou quase nada procurado pelo nosso governo para abordar esse tema: fé, política, relação com o campo evangélico”.

O deputado diz ainda que não tem “mágoa ou ressentimento” e espera apenas um chamado.

Questionado sobre que debates ele levaria ao governo, o deputado aponta três questões. Primeiro, sobre combater a ideia de que o público evangélico é um grupo “uníssono”, que pensa da mesma forma.

Segundo, que “o evangélico é um ser humano, tem outras variáveis que compõem a sua vida como qualquer outra, então também tem um risco em essencializar demais o público evangélico e não olhar para as singularidades das pessoas”.

Por fim, o parlamentar afirma que não se pode ter medo de dialogar sobre temas tidos como polêmicos para públicos conservadores, como racismo, aborto etc.

“É melhor dialogar, porque apenas abaixar algumas bandeiras e fugir de determinados pontos…. em, as pesquisas demonstram que não está resolvendo o problema que nos é colocado.”

Segundo a pesquisa mais recente da Atlaintel, 80,1% dos evangélicos dizem estar insatisfeitos com o presidente.

>>>> Confira a entrevista na íntegra

·        Na semana que vem o julgamento sobre ADPF [Arguição do Descumprimento do Preceito Fundamental] das Favelas volta ao STF [Supremo Tribunal Federal]. Qual a importância desse tema?

A ADPF é um tema muito importante para o Rio de Janeiro, os dados comprovam isso. Ela estabelece critérios para operações policiais. Então é falácia, é tipo fake news mesmo, dizer que a ADPF impede operações policiais ou dificulta o trabalho policial.

Na verdade, ela cria critérios para que as operações possam ser mais planejadas, mais inteligentes, possam preservar mais a vida das pessoas, as pessoas inocentes.

A ADPF inclusive reduziu a morte de policiais em serviço, protegendo a vida dos próprios policiais, além de reduzir a letalidade policial. E os indicadores de segurança não pioraram, como alguns dizem, depois da ADPF, pelo contrário.

Então, por todas as razões, a minha expectativa, como homem negro de origem periférica, comprometido com a vida do nosso povo, trabalhadores do subúrbio, da periferia e das favelas do estado Rio, eu espero que esses critérios colocados pela ADPF sejam mantidos.

·        Durante a pandemia houve uma decisão do STF neste mesmo sentido, mas ela foi descumprida pelo Estado algumas vezes….

A ADPF é uma balizadora muito importante e ela provocou algumas mudanças. Eu concordo muito com você, em muitos momentos, ela foi desrespeitada pelo governador, pela Secretaria de Segurança Pública e, consequentemente, pela Polícia Militar, pela Polícia Civil, e por aí vai.

Agora, pensa comigo, se com estas regras estabelecidas pela ADPF ainda existe muita operação inconsequente que mata o nosso povo, imagina sem estas regras.

Ter critérios inteligentes para operações policiais é o ponto base para a gente pressionar, para a gente denunciar, para a gente monitorar, para que as operações policiais sejam inteligentes e não absolutamente irracionais, enxugando gelo, derramando o sangue e matando gente inocente.

·        Como o senhor tem acompanhado essa mobilização do MBL [Movimento Brasil Livre] para avançar com o projeto de lei conhecido como Anti-Oruam, em referência ao cantor carioca?

Ninguém defende a apologia ao crime, o que o MBL faz e o que esses projetos estão fazendo é uma grande distorção, uma afronta à cultura popular preta, periférica, da favela, das periferias, dos subúrbios.

Tem um caráter elitista, tem um caráter racista, tem um caráter de criminalização da cultura preta, popular, periférica e da favela e ainda apologia ao crime.

É possível, com indicadores objetivos e éticos legais, você entender quando de fato se faz apologia ao crime. Sei lá, quando o [ex-presidente e ex-deputado federal Jair] Bolsonaro vota pelo impeachment da presidenta Dilma – para mim, um golpe – elogiando aberta e publicamente um torturador…

·        O senhor está liderando esse processo para lançar a Frente Parlamentar em Defesa do Estado Laico. Do que se trata?

Nós conseguimos as assinaturas necessárias, já temos o estatuto da frente, já enviamos o ofício para o presidente da Casa, ela já tem todas as condições para ser instalada, falta apenas assinatura do Hugo Motta.

Essa frente tem objetivo de monitorar as ameaças de direitos humanos que têm como fundamento um fundamentalismo religioso que é antidemocrático e antilaico.

Então, uma Frente em Defesa do Estado Laico se relaciona aos muitos ataques a mulheres, LGBTs, religiões e religiosos das matrizes africanas, e aos indígenas.

Você pegar uma determinada moralidade religiosa e querer impor… É violar o direito do outro, a liberdade permanente.

Eu estou muito animado, salvo engano, é inédito. É a primeira vez na história do Parlamento brasileiro que nós vamos ter uma frente parlamentar em defesa do Estado laico, da liberdade religiosa.

·        A Banda Evangélica pode ser um dos alvos desta frente?

Olha, se a Bancada Evangélica se comportar como antilaica, antidemocrática, não respeitando a pluralidade de crenças religiosas e a não crença religiosa, certamente, na prática, a frente parlamentar vai se opor.

Vai depender de como a bancada evangélica colocar vida, família, igreja, comunidade, a partir daquilo que se crê.

O que não pode é pegar o conteúdo específico de uma religião e utilizar o Estado, a Constituição, as leis infraconstitucionais e as políticas públicas para organizar a vida do outro.

Isso é antidemocrático, isso é violento e vou além: é contra o próprio sentido da fé. Jesus nunca foi impositivo ou dominador.

Eu teria vergonha, inclusive, como evangélico, de impor a alguém o que eu creio, porque essa imposição sequer é ganhar o coração da pessoa, não é genuíno, não é verdadeiro, não é sincero, não é visceral.

Então, eu quero viver num país de liberdade religiosa e de crenças, e que o Estado seja o garantidor desse ambiente de pluralidade e não o Estado tomado por uma confessionalidade, mesmo que seja a minha, eu não quero.

Eu quero a fé como testemunho, não como força, como poder ou como instrumento de imposição de domínio sobre o outro.

·        Você tem sido chamado por parte do governo para dialogar com os evangélicos?

Olha, eu sou um parlamentar pastor evangélico lutando por democracia, justiça social, direitos humanos. Sou base de sustentação do governo Lula porque acredito que ele é fundamental para derrotar a extrema direita e para melhorar as condições de vida da nossa gente.

Agora, eu vou ser bastante sincero, não tenho nenhum problema em falar sobre isso. Eu tenho pouco diálogo com o governo sobre esse tema.

Sou pouco ou quase nada procurado pelo nosso governo para abordar esse tema: fé, política, relação com o campo evangélico.

Estou inteiramente à disposição, não guardo mágoa, ressentimento, mas canais de diálogo sobre este tema com o nosso governo não são canais que estão neste momento abertos para mim.

·        Mas o que o senhor falaria nesse momento, caso chamado para isso, sobre melhorar essa adesão do público evangélico ao atual governo, deputado?

Primeiro, entendendo que o público evangélico não é uníssono, uniforme, um bloco coeso, o público evangélico, apesar de majoritariamente conservador, ele é diverso e é importante sempre resgatar isso.

Segundo, dizer que o evangélico é um ser humano, tem outras variáveis que compõem a sua vida como qualquer outra, então também tem um risco em essencializar demais o público evangélico e não olhar para as singularidades das pessoas.

Em terceiro lugar, eu diria que nós não podemos abrir mão de debater sobre valores, sobre a vida das mulheres, sobre o pecado que é o racismo, o pecado que é a intolerância.

Óbvio que eu estou usando termo pecado aqui no sentido religioso mesmo, mas diria ao governo que não adianta fugir dos temas polêmicos, que é melhor abrir um diálogo de forma humilde, sincera, pedagógica e escutando.

É melhor dialogar, porque apenas abaixar algumas bandeiras e fugir de determinados pontos…. Bem, as pesquisas demonstram que não está resolvendo o problema que nos é colocado.

¨      ‘Não podemos normalizar a barbárie’, diz Pastor Henrique Vieira após ameaça de Sargento Fahur

O deputado federal Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) denuncia ter sido alvo de uma ameaça por parte do deputado Sargento Fahur (PSD-PR) durante uma sessão na Câmara dos Deputados, na última terça-feira (15). A fala de Fahur teve como alvo a participação de Vieira no filme Marighella, em que o parlamentar interpreta um padre dominicano.

“Ele disse que se eu estou num filme apanhando de um policial, ele gostaria de ser o policial que me bate”, relata o deputado em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Vieira considera o episódio como parte de uma escalada de violência política no Congresso. “Não podemos normalizar isso. Existe esse risco da violência política ser tão cotidiana naquele Congresso, que aos poucos vamos nos acostumando com a barbárie. Não pode”, afirma.

A pedido de Vieira, o Psol protocolou uma representação contra Fahur no Conselho de Ética da Câmara. O deputado reforça que, embora não tenha “ingenuidade” em relação ao funcionamento do colegiado, é necessário acionar os mecanismos institucionais disponíveis. “A extrema direita tira a corda. É racista, misógina, ameaçadora, depreciativa… é um rebaixamento ético e intelectual. E é perigosa também”, diz.

Henrique Vieira também fez críticas ao histórico recente do Conselho de Ética, citando a cassação do mandato do ex-deputado Glauber Braga (Psol-RJ) como exemplo de perseguição política. “Glauber, vítima de uma perseguição, reage pontualmente. E o parecer foi pela cassação, completamente fora de qualquer medida, de qualquer parâmetro, de dosimetria, de proporcionalidade daquilo que é previsto no regimento”, protesta.

O parlamentar ressalta a necessidade de manter uma postura firme frente à violência política. “Mesmo que as expectativas não sejam boas no Conselho de Ética, a nossa parte, com firmeza e consistência, nós precisamos fazer”, defende.

 

Fonte: Brasil de Fato

 

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