Pastor
Henrique: evangélicos não são apenas religiosos, é preciso humanizar
Deputado
federal da base governista, Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) afirma estar
completamente aberto para discutir com o governo formas de melhorar a
popularidade entre os evangélicos, um dos desafios da terceira gestão do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No
entanto, em entrevista ao Conversa Bem Viver desta
segunda-feira (17), ele diz ser “pouco ou quase nada procurado pelo nosso
governo para abordar esse tema: fé, política, relação com o campo evangélico”.
O
deputado diz ainda que não tem “mágoa ou ressentimento” e espera apenas um
chamado.
Questionado
sobre que debates ele levaria ao governo, o deputado aponta três questões.
Primeiro, sobre combater a ideia de que o público evangélico é um grupo
“uníssono”, que pensa da mesma forma.
Segundo,
que “o evangélico é um ser humano, tem outras variáveis que compõem a sua vida
como qualquer outra, então também tem um risco em essencializar demais o
público evangélico e não olhar para as singularidades das pessoas”.
Por
fim, o parlamentar afirma que não se pode ter medo de dialogar sobre temas
tidos como polêmicos para
públicos conservadores, como racismo, aborto etc.
“É
melhor dialogar, porque apenas abaixar algumas bandeiras e fugir de
determinados pontos…. em, as pesquisas demonstram que não está resolvendo o
problema que nos é colocado.”
Segundo
a pesquisa mais recente da Atlaintel, 80,1% dos
evangélicos dizem estar insatisfeitos com o presidente.
>>>>
Confira a entrevista na íntegra
·
Na semana que vem o julgamento sobre ADPF [Arguição do
Descumprimento do Preceito Fundamental] das Favelas volta ao STF [Supremo
Tribunal Federal]. Qual a importância desse tema?
A ADPF
é um tema muito importante para o Rio de Janeiro, os dados comprovam isso. Ela
estabelece critérios para operações policiais. Então é falácia, é tipo fake
news mesmo, dizer que a ADPF impede operações policiais ou dificulta o trabalho
policial.
Na
verdade, ela cria critérios para que as operações possam ser mais planejadas,
mais inteligentes, possam preservar mais a vida das pessoas, as pessoas
inocentes.
A ADPF
inclusive reduziu a morte de policiais em serviço, protegendo a vida dos
próprios policiais, além de reduzir a letalidade policial. E os indicadores de
segurança não pioraram, como alguns dizem, depois da ADPF, pelo contrário.
Então,
por todas as razões, a minha expectativa, como homem negro de origem
periférica, comprometido com a vida do nosso povo, trabalhadores do subúrbio,
da periferia e das favelas do estado Rio, eu espero que esses critérios
colocados pela ADPF sejam mantidos.
·
Durante a pandemia houve uma decisão do STF neste mesmo
sentido, mas ela foi descumprida pelo Estado algumas vezes….
A ADPF
é uma balizadora muito importante e ela provocou algumas mudanças. Eu concordo
muito com você, em muitos momentos, ela foi desrespeitada pelo governador, pela
Secretaria de Segurança Pública e, consequentemente, pela Polícia Militar, pela
Polícia Civil, e por aí vai.
Agora,
pensa comigo, se com estas regras estabelecidas pela ADPF ainda existe muita
operação inconsequente que mata o nosso povo, imagina sem estas regras.
Ter
critérios inteligentes para operações policiais é o ponto base para a gente
pressionar, para a gente denunciar, para a gente monitorar, para que as
operações policiais sejam inteligentes e não absolutamente irracionais,
enxugando gelo, derramando o sangue e matando gente inocente.
·
Como o senhor tem acompanhado essa mobilização do MBL
[Movimento Brasil Livre] para avançar com o projeto de lei conhecido
como Anti-Oruam, em referência ao cantor carioca?
Ninguém
defende a apologia ao crime, o que o MBL faz e o que esses projetos estão
fazendo é uma grande distorção, uma afronta à cultura popular preta,
periférica, da favela, das periferias, dos subúrbios.
Tem um
caráter elitista, tem um caráter racista, tem um caráter de criminalização da
cultura preta, popular, periférica e da favela e ainda apologia ao crime.
É
possível, com indicadores objetivos e éticos legais, você entender quando de
fato se faz apologia ao crime. Sei lá, quando o [ex-presidente e ex-deputado
federal Jair] Bolsonaro vota pelo impeachment da presidenta Dilma – para mim,
um golpe – elogiando aberta e publicamente um torturador…
·
O senhor está liderando esse processo para lançar a
Frente Parlamentar em Defesa do Estado Laico. Do que se trata?
Nós
conseguimos as assinaturas necessárias, já temos o estatuto da frente, já
enviamos o ofício para o presidente da Casa, ela já tem todas as condições para
ser instalada, falta apenas assinatura do Hugo Motta.
Essa
frente tem objetivo de monitorar as ameaças de direitos humanos que têm como
fundamento um fundamentalismo religioso que é antidemocrático e antilaico.
Então,
uma Frente em Defesa do Estado Laico se relaciona aos muitos ataques a
mulheres, LGBTs, religiões e religiosos das matrizes africanas, e aos
indígenas.
Você
pegar uma determinada moralidade religiosa e querer impor… É violar o direito
do outro, a liberdade permanente.
Eu
estou muito animado, salvo engano, é inédito. É a primeira vez na história do
Parlamento brasileiro que nós vamos ter uma frente parlamentar em defesa do
Estado laico, da liberdade religiosa.
·
A Banda Evangélica pode ser um dos alvos desta frente?
Olha,
se a Bancada Evangélica se comportar como antilaica, antidemocrática, não
respeitando a pluralidade de crenças religiosas e a não crença religiosa,
certamente, na prática, a frente parlamentar vai se opor.
Vai
depender de como a bancada evangélica colocar vida, família, igreja,
comunidade, a partir daquilo que se crê.
O que
não pode é pegar o conteúdo específico de uma religião e utilizar o Estado, a
Constituição, as leis infraconstitucionais e as políticas públicas para
organizar a vida do outro.
Isso é
antidemocrático, isso é violento e vou além: é contra o próprio sentido da fé.
Jesus nunca foi impositivo ou dominador.
Eu
teria vergonha, inclusive, como evangélico, de impor a alguém o que eu creio,
porque essa imposição sequer é ganhar o coração da pessoa, não é genuíno, não é
verdadeiro, não é sincero, não é visceral.
Então,
eu quero viver num país de liberdade religiosa e de crenças, e que o Estado
seja o garantidor desse ambiente de pluralidade e não o Estado tomado por uma
confessionalidade, mesmo que seja a minha, eu não quero.
Eu
quero a fé como testemunho, não como força, como poder ou como instrumento de
imposição de domínio sobre o outro.
·
Você tem sido chamado por parte do governo para dialogar
com os evangélicos?
Olha,
eu sou um parlamentar pastor evangélico lutando por democracia, justiça social,
direitos humanos. Sou base de sustentação do governo Lula porque acredito que
ele é fundamental para derrotar a extrema direita e para melhorar as condições
de vida da nossa gente.
Agora,
eu vou ser bastante sincero, não tenho nenhum problema em falar sobre isso. Eu
tenho pouco diálogo com o governo sobre esse tema.
Sou
pouco ou quase nada procurado pelo nosso governo para abordar esse tema: fé,
política, relação com o campo evangélico.
Estou
inteiramente à disposição, não guardo mágoa, ressentimento, mas canais de
diálogo sobre este tema com o nosso governo não são canais que estão neste
momento abertos para mim.
·
Mas o que o senhor falaria nesse momento, caso chamado
para isso, sobre melhorar essa adesão do público evangélico ao atual governo,
deputado?
Primeiro,
entendendo que o público evangélico não é uníssono, uniforme, um bloco coeso, o
público evangélico, apesar de majoritariamente conservador, ele é diverso e é
importante sempre resgatar isso.
Segundo,
dizer que o evangélico é um ser humano, tem outras variáveis que compõem a sua
vida como qualquer outra, então também tem um risco em essencializar demais o
público evangélico e não olhar para as singularidades das pessoas.
Em
terceiro lugar, eu diria que nós não podemos abrir mão de debater sobre
valores, sobre a vida das mulheres, sobre o pecado que é o racismo, o pecado
que é a intolerância.
Óbvio
que eu estou usando termo pecado aqui no sentido religioso mesmo, mas diria ao
governo que não adianta fugir dos temas polêmicos, que é melhor abrir um
diálogo de forma humilde, sincera, pedagógica e escutando.
É
melhor dialogar, porque apenas abaixar algumas bandeiras e fugir de
determinados pontos…. Bem, as pesquisas demonstram que não está resolvendo o
problema que nos é colocado.
¨
‘Não podemos normalizar a barbárie’, diz Pastor Henrique
Vieira após ameaça de Sargento Fahur
O
deputado federal Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) denuncia ter sido alvo de uma
ameaça por parte do deputado Sargento
Fahur (PSD-PR) durante
uma sessão na Câmara dos Deputados, na última terça-feira (15). A fala de Fahur
teve como alvo a participação de Vieira no filme Marighella, em que o
parlamentar interpreta um padre dominicano.
“Ele
disse que se eu estou num filme apanhando de um policial, ele gostaria de ser o
policial que me bate”, relata o deputado em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio
Brasil de Fato. Vieira considera o episódio como parte de uma escalada de
violência política no Congresso. “Não podemos normalizar isso. Existe esse
risco da violência política ser tão cotidiana naquele Congresso, que aos poucos
vamos nos acostumando com a barbárie. Não pode”, afirma.
A
pedido de Vieira, o Psol protocolou uma representação contra Fahur no Conselho
de Ética da Câmara. O deputado reforça que, embora não tenha “ingenuidade” em
relação ao funcionamento do colegiado, é necessário acionar os mecanismos
institucionais disponíveis. “A extrema direita tira a corda. É racista,
misógina, ameaçadora, depreciativa… é um rebaixamento ético e intelectual. E é
perigosa também”, diz.
Henrique
Vieira também fez críticas ao histórico recente do Conselho de Ética, citando
a cassação do mandato
do ex-deputado Glauber Braga (Psol-RJ) como exemplo de perseguição política.
“Glauber, vítima de uma perseguição, reage pontualmente. E o parecer foi pela
cassação, completamente fora de qualquer medida, de qualquer parâmetro, de
dosimetria, de proporcionalidade daquilo que é previsto no regimento”,
protesta.
O
parlamentar ressalta a necessidade de manter uma postura firme frente à
violência política. “Mesmo que as expectativas não sejam boas no Conselho de
Ética, a nossa parte, com firmeza e consistência, nós precisamos fazer”,
defende.
Fonte:
Brasil de Fato

Nenhum comentário:
Postar um comentário