quinta-feira, 3 de julho de 2025

Parte da Bahia já pertenceu a Pernambuco; saiba o que fez o jogo virar

Maior estado do Nordeste e o quinto maior do país, a Bahia nem sempre foi tão grande e imponente como aparece no mapa. É que, dos mais de 560 mil km² de território existentes hoje, pelo menos 30% pertenciam a Pernambuco desde o século 18, quando houve um redesenho das terras que, à época, faziam parte das capitanias hereditárias. Somente dois séculos depois, após novos desdobramentos políticos, essas terras caíram de graça no colo dos baianos.

Como a Bahia já tem fama de ter roubado as terras dos sergipanos, convém adiantar que o antigo território pernambucano não foi sequestrado nem tomado porque estava dando sopa. O historiador Pablo Iglesias, doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), aponta, inclusive, que a região que compreende a margem esquerda do Rio São Francisco e vai até Goiás, inicialmente, pertencia ao estado dos baianos.

Ele conta que, com a criação da capitania da Bahia, o estado protagonizou uma incursão com objetivo de ocupar aquela área a partir de 1670. No século 18, os portugueses mudaram a ordem das coisas e transferiram essas terras, batizadas de Comarca de São Francisco, para Pernambuco.

“Dentro de uma razão de estado de Portugal, a administração da margem esquerda do São Francisco passa para a capitania de Pernambuco, mas a Justiça continua na capitania da Bahia. Tudo permanece assim até o final do período colonial”, afirma.

De acordo com Elisangela Ferreira, professora de história da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no campus de Jacobina, como a região era distante do poder instituído em Pernambuco, as relações fronteiriças entre Bahia e Pernambuco se tornaram confusas. “Era o bispo de Pernambuco que exercia autoridade sobre essa região inteira, mas, do ponto de vista da Justiça, era o ouvidor da Comarca de Jacobina que atuava lá e apurava os crimes”, detalha.

O ponto de virada ocorre no século 19, quando Pernambuco fica na mira de Dom Pedro I, após questionar a centralização política do império brasileiro. Ao criar a Confederação do Equador no dia 2 de julho de 1824, que tornaria os atuais estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e o pedaço oeste da Bahia – que à época era de Pernambuco – independentes para serem republicanos e darem fim à escravidão, os pernambucanos foram boicotados pelo imperador.

“O governo devia estar bem-informado do que acontecia em Pernambuco, porque eles se manifestaram primeiro e, no dia 7 de julho de 1824, arrancaram parte da província de Pernambuco. Inicialmente, ela foi para Minas Gerais e só depois, em 1827, é anexada a Bahia”, conta o historiador Pablo Iglesias.

Nas palavras de Dom Pedro I, a mudança era justificável para ‘salvar’ o povo do sonho republicano dos ‘rebeldes’, que 75 anos mais tarde se provou inevitável “Salvar meus fiéis súditos do contágio da sedução e impostura, com que o partido demagogo [referindo-se ao governo de Pernambuco] pretende ilaqueá-los”, disse ao tratar da medida.

O que era para ser provisório se tornou permanente. Segundo o historiador, Pernambuco ainda tentou insurgir contra a perda das terras e do ideal republicano, mas não conseguiu medir forças com o governo autoritário do imperador. A Bahia, que estava sentindo as consequências da guerra pela independência, não sentiu de imediato o efeito positivo das suas novas terras velhas. Hoje, a Comarca de São Francisco, que corresponde ao Oeste Baiano, é a maior força agrícola do estado.

•        Entenda como punição de Dom Pedro a Pernambuco ‘criou’ o Oeste baiano

As terras que hoje correspondem às cidades de Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, Barra, Cariranha e tantas outras do Oeste da Bahia, que são indispensáveis para a força econômica do estado, nem sempre foram território dos baianos. Registros oficiais e historiadores apontam que, antes de pertencer a Bahia, era Pernambuco que comandava essas bandas, mas deixou de ter poder sobre elas a partir de uma punição de Dom Pedro I.

Com o nome de Comarca do São Francisco, o atual Oeste Baiano passava pela atual cidade de Barreiras e ia até Cariranha. A Comarca ainda abrangia Casa Nova no norte do estado, logo após a cidade pernambucana de Petrolina. Segundo o historiador Pablo Iglesias, doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), essas terras pertenciam, ainda no Brasil Colônia, à capitania da Bahia.

A partir do século 18, por motivos pouco evidenciados, a Comarca de São Francisco passa a fazer parte de Pernambuco, por decisão de Portugal. É também por conta dos portugueses, desta vez por meio de Dom Pedro I e seus liderados que haviam recém-iniciado o Brasil Império, que essas terras são arrancadas de Pernambuco como forma de punição pelo ideal republicano alimentado por parte da população pernambucana.

Em 2 de julho de 1824, os pernambucanos criaram a Confederação do Equador, que tinha o objetivo de se tornar uma alternativa ao poder centralizador e autoritário do império brasileiro. Esse modelo de governo tornaria os atuais estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e o pedaço oeste da Bahia – que à época era de Pernambuco – independentes para serem republicanos e darem fim à escravidão.

Adiantado aos planos dos pernambucanos, Dom Pedro I, com uma só canetada, deu fim ao movimento cinco dias depois do seu início. “O governo devia estar bem-informado do que acontecia em Pernambuco, porque eles se manifestaram primeiro e, no dia 7 de julho de 1824, arrancaram parte da província de Pernambuco. Inicialmente, ela foi para Minas Gerais e só depois, em 1827, é anexada a Bahia”, conta o historiador Pablo Iglesias.

Como parte do território baiano, a antiga Comarca de São Francisco é, hoje, o principal polo agrícola do Nordeste. Com tamanho equivalente ao Uruguai, o Oeste baiano é destaque no cultivo de grãos e de algodão, além de detentor de uma renda per capita maior do que a média do próprio estado.

 

Fonte: Correio

 

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