Parte
da Bahia já pertenceu a Pernambuco; saiba o que fez o jogo virar
Maior
estado do Nordeste e o quinto maior do país, a Bahia nem sempre foi tão grande
e imponente como aparece no mapa. É que, dos mais de 560 mil km² de território
existentes hoje, pelo menos 30% pertenciam a Pernambuco desde o século 18,
quando houve um redesenho das terras que, à época, faziam parte das capitanias
hereditárias. Somente dois séculos depois, após novos desdobramentos políticos,
essas terras caíram de graça no colo dos baianos.
Como a
Bahia já tem fama de ter roubado as terras dos sergipanos, convém adiantar que
o antigo território pernambucano não foi sequestrado nem tomado porque estava
dando sopa. O historiador Pablo Iglesias, doutor em História Social pela
Universidade Federal da Bahia (Ufba), aponta, inclusive, que a região que
compreende a margem esquerda do Rio São Francisco e vai até Goiás,
inicialmente, pertencia ao estado dos baianos.
Ele
conta que, com a criação da capitania da Bahia, o estado protagonizou uma
incursão com objetivo de ocupar aquela área a partir de 1670. No século 18, os
portugueses mudaram a ordem das coisas e transferiram essas terras, batizadas
de Comarca de São Francisco, para Pernambuco.
“Dentro
de uma razão de estado de Portugal, a administração da margem esquerda do São
Francisco passa para a capitania de Pernambuco, mas a Justiça continua na
capitania da Bahia. Tudo permanece assim até o final do período colonial”,
afirma.
De
acordo com Elisangela Ferreira, professora de história da Universidade do
Estado da Bahia (Uneb), no campus de Jacobina, como a região era distante do
poder instituído em Pernambuco, as relações fronteiriças entre Bahia e
Pernambuco se tornaram confusas. “Era o bispo de Pernambuco que exercia
autoridade sobre essa região inteira, mas, do ponto de vista da Justiça, era o
ouvidor da Comarca de Jacobina que atuava lá e apurava os crimes”, detalha.
O ponto
de virada ocorre no século 19, quando Pernambuco fica na mira de Dom Pedro I,
após questionar a centralização política do império brasileiro. Ao criar a
Confederação do Equador no dia 2 de julho de 1824, que tornaria os atuais
estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e o pedaço oeste da
Bahia – que à época era de Pernambuco – independentes para serem republicanos e
darem fim à escravidão, os pernambucanos foram boicotados pelo imperador.
“O
governo devia estar bem-informado do que acontecia em Pernambuco, porque eles
se manifestaram primeiro e, no dia 7 de julho de 1824, arrancaram parte da
província de Pernambuco. Inicialmente, ela foi para Minas Gerais e só depois,
em 1827, é anexada a Bahia”, conta o historiador Pablo Iglesias.
Nas
palavras de Dom Pedro I, a mudança era justificável para ‘salvar’ o povo do
sonho republicano dos ‘rebeldes’, que 75 anos mais tarde se provou inevitável
“Salvar meus fiéis súditos do contágio da sedução e impostura, com que o
partido demagogo [referindo-se ao governo de Pernambuco] pretende ilaqueá-los”,
disse ao tratar da medida.
O que
era para ser provisório se tornou permanente. Segundo o historiador, Pernambuco
ainda tentou insurgir contra a perda das terras e do ideal republicano, mas não
conseguiu medir forças com o governo autoritário do imperador. A Bahia, que
estava sentindo as consequências da guerra pela independência, não sentiu de
imediato o efeito positivo das suas novas terras velhas. Hoje, a Comarca de São
Francisco, que corresponde ao Oeste Baiano, é a maior força agrícola do estado.
• Entenda como punição de Dom Pedro a
Pernambuco ‘criou’ o Oeste baiano
As
terras que hoje correspondem às cidades de Barreiras, Luís Eduardo Magalhães,
Barra, Cariranha e tantas outras do Oeste da Bahia, que são indispensáveis para
a força econômica do estado, nem sempre foram território dos baianos. Registros
oficiais e historiadores apontam que, antes de pertencer a Bahia, era
Pernambuco que comandava essas bandas, mas deixou de ter poder sobre elas a
partir de uma punição de Dom Pedro I.
Com o
nome de Comarca do São Francisco, o atual Oeste Baiano passava pela atual
cidade de Barreiras e ia até Cariranha. A Comarca ainda abrangia Casa Nova no
norte do estado, logo após a cidade pernambucana de Petrolina. Segundo o
historiador Pablo Iglesias, doutor em História Social pela Universidade Federal
da Bahia (Ufba), essas terras pertenciam, ainda no Brasil Colônia, à capitania
da Bahia.
A
partir do século 18, por motivos pouco evidenciados, a Comarca de São Francisco
passa a fazer parte de Pernambuco, por decisão de Portugal. É também por conta
dos portugueses, desta vez por meio de Dom Pedro I e seus liderados que haviam
recém-iniciado o Brasil Império, que essas terras são arrancadas de Pernambuco
como forma de punição pelo ideal republicano alimentado por parte da população
pernambucana.
Em 2 de
julho de 1824, os pernambucanos criaram a Confederação do Equador, que tinha o
objetivo de se tornar uma alternativa ao poder centralizador e autoritário do
império brasileiro. Esse modelo de governo tornaria os atuais estados de
Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e o pedaço oeste da Bahia – que
à época era de Pernambuco – independentes para serem republicanos e darem fim à
escravidão.
Adiantado
aos planos dos pernambucanos, Dom Pedro I, com uma só canetada, deu fim ao
movimento cinco dias depois do seu início. “O governo devia estar bem-informado
do que acontecia em Pernambuco, porque eles se manifestaram primeiro e, no dia
7 de julho de 1824, arrancaram parte da província de Pernambuco. Inicialmente,
ela foi para Minas Gerais e só depois, em 1827, é anexada a Bahia”, conta o
historiador Pablo Iglesias.
Como
parte do território baiano, a antiga Comarca de São Francisco é, hoje, o
principal polo agrícola do Nordeste. Com tamanho equivalente ao Uruguai, o
Oeste baiano é destaque no cultivo de grãos e de algodão, além de detentor de
uma renda per capita maior do que a média do próprio estado.
Fonte:
Correio

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