quinta-feira, 3 de julho de 2025

Esquerda negacionista não quer ver: presidencialismo de coalizão acabou

“Elaboração secundária”. É assim que psicanalistas chamam o mecanismo pelo qual a mente reorganiza memórias e traumas para torná-los aceitáveis à consciência – suavizando contradições e criando narrativas coerentes sobre nossa existência.

Por exemplo, quando nos recordamos de um relacionamento antigo e a nossa memória foca apenas nos aspectos que justificam os nossos sentimentos atuais. Se sentimos saudade, nos focamos nos aspectos positivos. Se sentimos rancor, nos negativos. 

A antropologia, por sua vez, adota uma visão um pouco distinta do conceito, utilizando-o para explicar a manutenção de certas crenças a despeito da existência de evidências contrárias: para explicar como tendemos a ignorar aquilo que as contradiz e a enfatizar aquilo que as confirma. De uma forma ou de outra, trata-se de um dispositivo que mascara a realidade, lançando-nos em uma espécie de negacionismo. 

E esse, justamente, será um ponto central da história que vou contar aqui, os efeitos de um certo negacionismo. 

O ano é 2015. Dilma é reconduzida ao cargo de presidenta após uma eleição acirrada contra Aécio Neves. Havia certo alívio na cúpula governista, é verdade, mas também havia uma melancolia palpável, típica de quem contempla um ente moribundo.

Dilma reassumia a presidência, mas a ameaça do impeachment era real, o Centrão, controlado por Eduardo Cunha, avançara ainda mais sobre as cadeiras no Congresso. Uma ameaça consolidada pela derrota acachapante – e previsível – do petista Arlindo Chinaglia para a presidência da Casa em fevereiro daquele mesmo ano. 

Mas isso não é tudo. Essa é apenas a parte da história que todos gostam de lembrar. A parte conveniente. Pois existe uma outra, existe a parte em que uma parcela desse pessimismo era derivada do isolamento de Dilma no seio da própria esquerda, inclusive enfrentando resistências dentro de seu próprio partido.

Colhia as consequências de certos movimentos de seu primeiro mandato, especialmente por ter priorizado a conciliação com o empresariado (via Joaquim Levy) e o agronegócio (via Katia Abreu) em nome da manutenção de um projeto desenvolvimentista que, já naquela época, “fazia água”. 

Não apenas o projeto desenvolvimentista, como o próprio modelo de governabilidade, uma herança dos governos Lula. 

Talvez alguns se lembrem, inclusive, de como se aventava uma “guinada à esquerda” do governo em resposta ao cerco do Centrão, de como muitos defendiam um retorno à base para constranger os deputados que, votação após votação, cortavam os recursos do governo. Talvez essas pessoas também se lembrem que essa guinada nunca veio, que a cada nova votação, o governo ensaiava novos e maiores movimentos conciliatórios. 

Movimentos que, no fim, não apenas se mostraram insuficientes para impedir que o congresso e senado impichassem Dilma – com direito a ministros pedindo licença para votar contra a própria -, como foram abertamente financiados pelos grupos para os quais ela, como presidenta, continuamente acenava. 

Como disse, essa é a parte da história que poucos gostam de lembrar. Talvez porque ela contrarie o imaginário atual da militância – que parece ter saído diretamente dos grupos da direita, onde Dilma caiu por ter ousado demais, por supostamente estar muito à esquerda ou por não ter o traquejo político de Lula, o grande líder das negociações palacianas, o maior de todos os conciliadores. No imaginário atual, negacionista, Dilma caiu por não ter conciliado o suficiente ou por ter conciliado mal. 

Narrativa conveniente, elaboração secundária capaz de, não apenas pintar o governo Dilma com tintas que jamais foram suas, mas também de justificar certos movimentos do atual governo petista (e do próprio PT) enquanto reforça a imagem messiânica do presidente Lula. 

Uma narrativa que se sustenta a despeito das evidências contrárias, a despeito do noticiário que nos informa diariamente que Lula tem se mostrado incapaz de consolidar uma base governista fiel e, por isso mesmo, tem sofrido sucessivas derrotas nos palácios de Brasília. Para que o leitor ou leitora tenha uma ideia, no último capítulo dessa sequência perdedora, 63% dos votos que derrubaram o IOF na Câmara, um dos projetos centrais para a manutenção das contas do governo, vieram da própria base governista, em especial, de integrantes de partidos de centro que comandam ministérios. 

Uma narrativa que se sustenta a despeito do óbvio, que sobrevive na negação da morte do presidencialismo de coalizão ainda na década passada. Movimento cujo maior sintoma foi, justamente, o golpe sofrido pela presidenta Dilma. Uma realidade que nem mesmo Lula, com toda a sua capacidade de articulação política, será capaz de transformar. 

Isso, é claro, se for a sua intenção, pois não parece ser o caso.

Que leitor, leitora, tenha em mente que se trata de uma negação ativa, pois o governo segue agindo como se o presidencialismo de coalizão do século passado ainda fosse possível. Com efeito, pois escrevo estas linhas enquanto recebo a notícia de que Lula pretende ligar para Hugo Motta para “retomar o diálogo” e de que não há qualquer perspectiva de retaliação aos partidos infiéis, mesmo para aqueles que nesse momento acenam abertamente para a oposição nas eleições do próximo ano. 

E esse é um aspecto assustador, pois costuma-se dizer – com boa razão – que o governo, em especial Lula, se comunica com a população como se estivesse na década passada,mas pouco se fala, ainda, sobre como também se articula como se estivéssemos em 2010, ainda se articula negando ativamente a realidade atual da política nacional. O presidencialismo de coalizão morreu.  

É assustador que nem todos estejam enxergando, pois, de negação em negação, o governo Lula corre o risco de chegar tão politicamente desgastado no próximo ano, desidratado mesmo, que corre sérios riscos de sofrer uma derrota histórica, mesmo com a máquina pública em suas mãos. Uma derrota da qual a esquerda levará anos para se reerguer. Uma derrota cujo preço será pago por todos nós. 

¨      Oposição e mídia temem governo com “uniforme do embate”. Por Jeferson Miola

Depois que os presidentes da Câmara e do Senado Hugo Motta e Davi Alcolumbre traíram compromissos assumidos com o governo e surpreenderam com a aprovação sumária do Decreto Legislativo para anular o ajuste das alíquotas do IOF, o ministro Fernando Haddad conclamou: “Agora é hora de vestir o uniforme do embate, do bom debate público, do debate político”.

Aquilo que parecia ser uma derrota avassaladora do governo no IOF serviu como uma potente janela de oportunidade política.

A oposição tenta asfixiar o governo, inviabilizá-lo politicamente e programaticamente para, com isso, derrotar Lula ou a eventual candidatura do campo democrático apoiada por ele na próxima eleição.

O governo reagiu com contundência, vestiu o “uniforme do embate” e não se curvou à ofensiva da oposição direitista e extremista do Congresso que tem os olhos inteiramente voltados para a eleição de 2026.

O recurso ao Supremo para anular a decisão inconstitucional do Congresso se combina com fortes iniciativas políticas do próprio governo e da esquerda nas redes sociais e no debate público.

Essa postura de enfrentamento político assumida pelo governo desagradou os líderes do Congresso, a oposição parlamentar, entidades do grande capital, do rentismo, e a mídia hegemônica.

O processo deixou bem evidenciada a perspectiva comum da aliança partidária-midiática anti- Lula que se materializa na candidatura direitista-bolsonarista de Tarcísio de Freitas, cujo compromisso número 1 na Presidência é indultar Bolsonaro, os militares e demais criminosos.

As ameaças de mais represálias ao governo no Congresso e as críticas vulgares à “sanha arrecadatória” escondem, na realidade, o temor dessas oligarquias dominantes e sua mídia à inflexão política do governo.

O governo e o campo de esquerda levam enorme vantagem com o debate honesto e às claras sobre as alternativas para superar as obscenas desigualdades sociais e injustiças tributárias do país por meio da tributação mínima de setores privilegiados que não pagam impostos ou pagam muito pouco, proporcionalmente muito menos que os pobres e a classe média.

O governo não estava conseguindo esboçar uma reação eficaz às perdas de credibilidade e de popularidade.

Enfrentar política e ideologicamente a oposição, a mídia e os setores dominantes a partir do debate nítido e da agitação das propostas escolhidas pelo povo brasileiro na eleição de 2022 cria a possibilidade de reversão desse cenário persistentemente desfavorável.

Tramitam no Congresso projetos que melhoram a vida da imensa maioria da população e têm enorme impacto político e eleitoral para o governo, como o fim da jornada 6×1, a isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, a PEC da Segurança e a isenção da conta de luz.

Não foi mera casualidade Hugo Motta, o correligionário de Tarcísio de Freitas, entregar a relatoria do Projeto de Lei de isenção do imposto de renda a Arthur Lira, um bolsonarista mestre em manobras de sabotagem do governo Lula. Eles sabem a importância capital desta promessa de campanha para Lula.

Esse Congresso de maioria ultraconservadora e reacionária só aprovará –isso se aprovar, o que é difícil acontecer– as matérias fundamentais para a plataforma do governo na eleição de 2026 se tiver uma brutal pressão popular nas ruas, nas redes e sobre os parlamentares.

No contexto de embate político e programático com a maioria oposicionista no Congresso, ganha relevância a exigência de convocação de referendo popular sobre o aumento do número de deputados – medida rechaçada por mais de 70% da população e que coloca na defensiva os deputados e senadores que defendem cortes das verbas para os pobres enquanto aumentam o assalto ao orçamento da União e aos fundos públicos.

¨      Com a ausência do bolsonarismo das ruas, quem pode almejar 50% do Parlamento é Lula

Há quem considere desprezível o fato de que a manifestação bolsonarista tenha reunido menos de 15 mil pessoas. Os meios de comunicação destacaram o fato pelo baixo comparecimento, como se fosse um elemento da paisagem, sem extrair dele, porém, maiores consequências. Na verdade, a falência do ato é a emergência visível de um processo em curso nas profundezas da extrema-direita, resultado de múltiplas e variadas determinações concorrentes.

O dia em que Bolsonaro foi abandonado na Paulista expressa uma progressiva decadência do bolsonarismo em sua capacidade de fazer mover suas massas. Desde as manifestações de junho de 2013, há longos oito anos, a extrema-direita vinha se alimentando da capacidade de levar dezenas e centenas de milhares de pessoas às ruas, repetidas vezes e quando lhe aprouvesse. Esse manancial das ruas parece, pela primeira vez, estar se exaurindo, talvez para sempre.

Não se trata de uma perda qualquer. A mobilização popular, a presença física, no espaço público era o ativo político de maior impacto do bolsonarismo sobre o ambiente político. Ela impactava o ânimo do conjunto das correntes conservadoras. O mar de gente criava uma espécie de campo gravitacional que submetia indecisos, calava os vacilantes e assim impunha alianças.

Sem ela, mesmo que temporariamente, o movimento expõe fragilidade, o que pode prenunciar uma decadência mais séria. Não quer dizer que Bolsonaro tenha perdido apoio nas redes e da opinião pública, por ora. Apenas perdeu apelo para levar seu público às ruas.

É sintomático que esse enfraquecimento se dê justo quando era mais necessário o surgimento no campo bolsonarista de um herdeiro político à altura.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a quem caberia trazer a massa à capital de seu Estado, não consegue empolgar.

Em seu discurso repetitivo, nostálgico e perplexo, Bolsonaro recordou o tempo bom das motociatas, que desapareceram. O ex-presidente citou pesquisas atestando que o bolsonarismo cresce neste ou naquele Estado, sendo que antes a evidência oferecida pelas multidões dispensava o recurso a qualquer ibope.

Diante do quadro agora melancólico restou ao depressivo presidente apresentar sua rendição total: não falou de anistia, chegou a dar impressão de que abria mão da candidatura a presidente, não indicou um herdeiro. Afirmou que ganhar a Presidência não é importante. Pediu 50% da Câmara e 50% do Senado e disse que com isso ele muda o país. Como se fosse possível ganhar tal bancada sem uma cabeça de chapa como referência.

A mensagem é esta: Lula pode ganhar desde que ele (o inelegível) ganhe metade do Parlamento. Em retirada, ele abre mão da disputa.

Bolsonaro parece querer perder, desde que isso evite alguém que ocupe seu território na extrema direita do eleitorado.

Seja como for, há ali uma crise imensa fermentando. Uma massa cada vez mais desanimada com a sucessão de fracassos: a derrota em 22, seguida pelo desastre na tentativa de golpe e o desfile de práticas criminais sendo exibidas ao país em capítulos pela Polícia Federal, pela Procuradoria Geral da República, pelo Supremo Tribunal Federal, pela mídia, pelas redes sociais.

São muitos problemas somados no histórico de incompetências.

A capacidade de mobilização da extrema-direita está perdendo ímpeto pelo medo do encontro com a lei. Está esmorecendo pelo efeito da atuação do governo federal, cujos programas começam a fazer entregas mais perceptíveis para diversos estratos.

Fica ademais difícil seguir atraindo a massa conservadora, quando seus líderes poderosos, suas referências infalíveis, estão a caminho da cadeia. Quem quer entrar num ônibus de caravana sob risco de envolvimento em novas aventuras? Quem confia que não corre nenhum risco, à vista do que passou com celerados de 8 de janeiro de 23, levados em comboio ao quebra-quebra dos palácios? Eles correram riscos, foram presos, processados e condenados. Ao final foram abandonados e tachados de malucos pelo chefe acovardado diante de Alexandre de Moraes.

Se desistir de valorizar o papel de um herdeiro político na disputa presidencial, como sinaliza confusamente, Bolsonaro estará se juntando de antemão pela segunda vez aos cadáveres políticos abatidos tantas ocasiões neste século ao pé da cidadela eleitoral lulista.

Se as manifestações bolsonaristas definham, isso não implica necessariamente que o movimento não possa prosseguir galvanizando metade do país nas eleições. O problema maior é a desorientação política de um Bolsonaro tão autocentrado e inseguro que acha que pode abrir mão da disputa presidencial e ao mesmo tempo pedir ao eleitor, cada vez mais acomodado e alheio que se empolgue na batalha eleitoral, que lhe dê 50% da Câmara e 50% do Senado. Parece mais lógica a estratégia que apresenta Lula. Para fazer uma bancada poderosa em 2026, um candidato a presidente forte é fundamental. Nesse sentido, Lula parece em condições de sonhar, a depender da campanha, com a composição de uma ampla e mais fiel bancada pluripartidária nas Casas, que chegue, ela sim, aos 50%. Considerando a situação desesperadora de 2018 e a vitória em 2022, Lula e seus aliados já mostraram que nada é impossível.

Algo acontece no seio do bolsonarismo e essa oportunidade exige toda atenção.

Do lado de cá, com a proposta certa, a bandeira da defesa dos pobres derrota a extrema-direita na batalha das redes. É mais um tabu que se desfaz. A mensagem é o meio.

 

Fonte: Por Orlando Calheiros, em The Intercept/Brasil 247

 

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