O
cooperativismo e a cooperação diante da agenda do ensino superior público
brasileiro
Que o
cooperativismo e a cooperação são importantes ferramentas para os processos de
desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental das cidades, regiões,
estados e do país, não restam dúvidas. Desde os primórdios, tanto a cooperação
quanto as organizações cooperativas impulsionam importantes movimentos sociais
e comunitários no mundo todo, alavancando ações e políticas públicas e
privadas. Dos Tecelões de Rochdale aos dias atuais, essas ferramentas são
alternativas viáveis para que pessoas em dificuldades possam ser incluídas ou
reintegradas aos processos de trabalho, produção e consumo, em condições mais
favoráveis diante das adversidades impostas pelos sistemas.
No
Brasil, ao longo dos últimos anos, os movimentos cooperativos se intensificaram
em todas as regiões do país. Com estímulos, apoios e incentivos do Estado e do
mercado, as organizações cooperativas avançaram significativamente suas ações
em praticamente todas as regiões do país e em todos os ramos do cooperativismo.
Dados presentes no Anuário de 2024 da Organização das
Cooperativas Brasileiras (OCB, 2024), apontam para existência de 4.509
cooperativas, que abrangem mais de 23 milhões de cooperados e geram mais de R$
690 bilhões em receitas anualmente. No escopo dessas cooperativas filiadas à
OCB, 26% referem-se ao ramo agropecuário, 17% ao ramo de transporte e 15% ao
ramo de crédito (OCB, 2024).
Por
meio do movimento cooperativo, políticas públicas foram impulsionadas e
chegaram a regiões periféricas e praticamente desassistidas até então. Por meio
das cooperativas, os governos conseguiram promover ações públicas urbanas e
rurais em um processo de co-formulação, co-gestão e co-execução. Alguns desses
foram estudados e intitulados como processos de interface e cogestão de
políticas públicas entre o Estado e as organizações cooperativas, criadas para
alavancar a presença das ações do Estado junto às comunidades.
Políticas
públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de
Aquisição de Alimentos (PAA) avançam de forma qualitativa e quantitativa em um
processo de coparticipação e cogestão entre o Estado e as organizações
cooperativas, muitas das quais foram criadas com esse foco de atuação e
acabaram se tornando o elo entre o Estado e os cidadãos, beneficiários dessas
políticas públicas. Tais políticas beneficiaram, por um lado, os produtores
rurais e suas organizações cooperativas, que conseguiram acessar um nicho de
mercado muito significativo para seus produtos; por outro lado, garantem aos
consumidores, em especial às crianças em idade escolar, alimentos mais
saudáveis, com maior valor nutricional, assegurando a segurança alimentar e
nutricional dessas.
No meio
urbano, o movimento cooperativo foi a solução encontrada por gestores públicos
municipais e por organizações regionais para solucionar problemas drásticos
como a coleta seletiva de material reciclado. As organizações cooperativas
criadas e impulsionadas pelos poderes públicos locais resolveram um problema
latente para tais gestores e conseguiram incluir socialmente e economicamente
trabalhadores que atuavam em condições precárias de trabalho por conta
própria.
Esse
processo de ampliação do movimento cooperativo não se restringe às ações
públicas. Ações privadas do próprio movimento cooperativo têm impulsionado essa
expansão, que chega cada vez com mais força a regiões até então desassistidas.
Cooperativas de crédito que há pouco tempo se concentravam na região Sul do
país estão ajustando seus estatutos e expandindo suas áreas de atuação para
diversas regiões do Brasil. Atualmente, cooperativas de crédito do Sul do país,
mais especificamente do Rio Grande do Sul, estão ampliando suas áreas de
atuação para o Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Norte do país. Esse processo é
incentivado pelos órgãos públicos competentes, como o Banco Central (BC), que
reconhece a importância do setor para a inclusão financeira, o desenvolvimento
regional e o crescimento econômico do país, especialmente pelo efeito
multiplicador que o sistema cooperativo de crédito gera nas regiões onde está
presente. Segundo um estudo da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB)
realizado em 2024, o efeito multiplicador do sistema
cooperativo de crédito é de R$ 2,56 na economia para cada R$ 1,00 concedido em
crédito cooperativo.
O BC
tem monitorado o desempenho do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC)
por meio de relatórios e dados que permitem identificar tendências e
oportunidades de melhoria do sistema, que pode alavancar suas ações através
desse processo. É correta a afirmação de que o cooperativismo de crédito é um
modelo econômico que contribui para o desenvolvimento do país, pois fomenta as
economias locais, gera emprego e renda para as famílias, promove a inclusão
financeira de cidadãos que têm dificuldade em acessar o sistema financeiro além
de promover a educação financeira e a participação dos cidadãos nos processos
de gestão e controle das cooperativas.
Outro
exemplo do avanço do cooperativismo vem do próprio movimento cooperativo que,
por meio de redes de cooperação, tem se fortalecido frente a grandes empresas
nacionais e multinacionais. As centrais de cooperativas criadas pelo sistema
cooperativo têm alavancado o movimento dos trabalhadores que, por meio de suas
organizações cooperativas, não ficam à mercê nem nas mãos do sistema
empresarial tradicional. As cíclicas crises do setor leiteiro vivenciadas pelos
produtores rurais no Estado do Rio Grande do Sul foram minimizadas pela criação
da Cooperativa Central Gaúcha Ltda (CCGL), que conseguiu garantir a sustentação
de centenas de famílias na atividade leiteira através da agroindustrialização
da matéria-prima em grande escala; especialmente por ter estabelecido um
processo de estabilização dos valores pagos pela matéria-prima aos
produtores.
Enfim,
o movimento cooperativo tem conseguido proporcionar condições e oportunidades
para milhares de trabalhadores que conseguem sair da informalidade em suas
atividades para a formalidade sem mudar de ramo. Esses movimentos ocorrem em
praticamente todos os setores, mas se acentuam nos setores transporte,
educação, artesanato, serviços e saúde. São inúmeros os bons exemplos do
movimento cooperativo impulsionando novas oportunidades de trabalho e emprego
para as pessoas além de incluí-las nos processos conscientes de consumo e
comércio.
O
cooperativismo está tão presente entre nós que, em alguns casos, estamos
fortemente aliados sem saber. Na área da saúde, grandes movimentos cooperativos
como a Unimed e a Uniodonto permitem que milhares de pessoas tenham acesso a
planos de saúde, com os quais conseguem melhorar muito a qualidade do
atendimento recebido, a um preço mais justo do que o praticado no mercado
tradicional.
A Unimed atende cerca de
15,5 milhões de clientes, vinculados a 339 cooperativas espalhadas por cerca de
75% do território nacional, ou seja, em mais de 4.100 municípios. Com um
faturamento de mais de 115 bilhões em 2024, o sistema Unimed emprega cerca de
136 mil funcionários que trabalham em uma rede de 118 mil médicos
cooperados.
Já a
Uniodonto, que atende cerca de 3 milhões de usuários, conta com uma rede de
aproximadamente 22 mil dentistas espalhados pelo Brasil. A entidade possui 117
singulares vinculados a 9 federações.
O
cooperativismo brasileiro, que impulsiona boas experiências de sul a norte e de
leste a oeste, está estruturado em distintas frentes. Cada uma dessas frentes
representa algum tipo de setor e, juntas, impulsionam os processos cooperativos
nas diversas instâncias da sociedade. Da economia capitalista e mercantil à
economia solidária, social e justa, os processos do cooperativismo se
multiplicam. Além do sistema tradicional representado pela Organização das
Cooperativas Brasileiras (OCB), existem os sistemas UNICOPAA, UNISOL e
UNICAFES.
O
Sistema OCB, Organização das Cooperativas Brasileiras, representa o
cooperativismo “oficial” no Brasil. Fundada em 1969, a OCB tem como missão
promover o desenvolvimento das cooperativas, defendendo seus interesses e
direitos em âmbito nacional e internacional. A organização oferece suporte
técnico e capacitação para as cooperativas, além de trabalhar na disseminação
dos princípios do cooperativismo, como solidariedade, responsabilidade e
autogestão. Por meio de suas ações, o Sistema OCB busca fortalecer a economia
solidária e contribuir para o desenvolvimento social e econômico das
comunidades brasileiras.
A
UNICOPAA, União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e
Agroecologia, é uma organização que visa fortalecer o cooperativismo entre os
agricultores familiares no Brasil. Ela atua na promoção de práticas
agroecológicas, buscando não apenas o aumento da produção, mas também a
preservação do meio ambiente e a valorização dos saberes locais. A Unicopaa
oferece suporte técnico e educativo aos seus cooperados, ajudando-os a acessar
mercados justos e a melhorar suas condições de vida, contribuindo para a
segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável nas comunidades
rurais.
A
UNISOL, União Nacional das Cooperativas de Trabalho, por sua vez, reúne
cooperativas de trabalho em diversas áreas, promovendo a inclusão social e
econômica dos trabalhadores. Seu principal objetivo é fomentar o cooperativismo
como uma alternativa viável para a geração de emprego e renda. A Unisol oferece
capacitação e apoio para que os cooperados possam desenvolver suas atividades
de forma autônoma e sustentável, fortalecendo a economia solidária e promovendo
a justiça social nas comunidades em que atuam.
Já a
UNICAFES, União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia
Solidária, representa as cooperativas de agricultura familiar no Brasil. Seu
foco é empoderar os pequenos agricultores, promovendo a inclusão social e a
econômica desses produtores no mercado. A Unicafes trabalha em diversas
frentes, como capacitação técnica, acesso a crédito e comercialização de
produtos. Além disso, busca fortalecer as redes de cooperação entre os
agricultores familiares, contribuindo para o desenvolvimento sustentável das
comunidades rurais e para a segurança alimentar no país.
Diante
da relevância e da importância do sistema cooperativo para o país e para as
comunidades, cabe refletirmos sobre como nós das instituições de ensino estamos
vendo e acompanhando essas questões. Ao analisar as ações das instituições de
ensino superior no país percebe-se que estas estão muito distantes dessas
discussões. Mesmo após um processo de ampliação do ensino superior público as
instituições não se aproximaram da temática como deveriam; não só pela
importância desta para o desenvolvimento nacional, mas também pela relevância
da temática na vida das comunidades onde as instituições estão inseridas.
Em uma
breve pesquisa junto aos currículos das Universidades Federais presentes no
Estado do Rio Grande do Sul, poucas ações de ensino foram encontradas. Em
cursos e departamentos tradicionais das instituições, não foram localizadas
disciplinas sobre cooperativismo e cooperação. Quando alguns temas são
destacados, como economia solidária, aparecem como disciplinas optativas e não
obrigatórias. Ou seja, é possível se formar em cursos tradicionais dessas
instituições sem nenhum conhecimento acerca das temáticas mencionadas. Esse
processo fragiliza muito a discussão e os encaminhamentos práticos, uma vez que
as instituições oferecem profissionais qualificados para a sociedade, porém
desconectados de certas realidades, como é o caso do movimento cooperativo.
Administradores,
economistas, jornalistas, contadores, advogados e outros profissionais formados
nas universidades públicas do Estado acabam atuando profissionalmente dentro
das organizações cooperativas sem conhecimento prévio sobre o cooperativismo e
a cooperação. Muitos desses profissionais desconhecem inclusive a diferença
entre uma organização cooperativa e uma empresa tradicional. Com isso, não
levam em conta temas básicos como os princípios do cooperativismo que deveriam
orientar a atuação das organizações cooperativas. Essa problemática coloca
muitas vezes em cheque a própria organização cooperativa, que acaba se
afastando de seus princípios em virtude de necessidades técnicas e
profissionais mais enfáticas e condizentes com o setor empresarial tradicional.
Visualizando
esse processo e somando as parcas ações desenvolvidas por universidades
públicas brasileiras como a Universidade Federal de Viçosa, a Universidade
Federal de Santa Maria e a Universidade Federal do Rio Grande, a Universidade
Federal do Rio Grande do Sul iniciou um movimento pequeno e localizado para
tentar avançar nessa temática com a atenção e o cuidado que ela merece. Em
2019, incentivada pelas movimentações realizadas junto a algumas cooperativas,
a universidade criou a primeira Especialização em Cooperativismo de sua
história, e na sequência, em 2025, iniciou a primeira Graduação em
Cooperativismo, oferecida pela universidade após 90 anos de
história.
Em um
primeiro momento, é possível concluir que esse processo de ampliação das ações
de ensino nas universidades públicas é muito importante e precisa avançar. As
universidades públicas precisam se aproximar mais de temáticas como cooperação
e cooperativismo para além das ações de pesquisa e extensão que estão sendo
cotidianamente realizadas. Alinhar as ações das universidades as problemáticas
contemporâneas vivenciadas pela sociedade é fundamental, sendo que os processos
cooperativos e as organizações cooperativas podem ser uma alternativa
viável.
Fonte:
Por Jairo Bolter, Sergio Schneider e Jaqueline Mallmann Haas, no Le Monde

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