quarta-feira, 2 de julho de 2025

O Brasil tem as terras raras que EUA e China querem. Mas quem leva primeiro?

Até pouco tempo atrás, terras raras soavam como um assunto técnico demais para o grande público. Mas basta olhar para os últimos movimentos dos Estados Unidos para perceber que esse conjunto de minerais estratégicos virou prioridade para a maior economia do mundo.

Prova disso é que, na semana passada, o governo americano assinou um acordo com a Ucrânia para explorar jazidas desses minerais — essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas e a indústria bélica. Soma-se a isso uma ordem recente do presidente Donald Trump para autorizar a mineração no fundo do oceano. Tudo isso em menos de um mês.

sprint dos EUA é uma corrida contra a China, que praticamente controla a produção global de terras raras. A disputa está em campo.

Mas enquanto os americanos firmam alianças em territórios instáveis, como o Leste Europeu ou o fundo do mar, o Brasil é terreno firme – e com uma reserva enorme de terras raras. “Ucrânia e oceano profundo ainda são promessas. O Brasil é o que já está de pé”, resume Rafael Marchi, diretor-executivo para infraestrutura da Alvarez & Marsal no país.

Nós, brasileiros, temos a segunda maior reserva do mundo, mas produzimos menos de 0,01% da oferta global no ano passado: 20 toneladas. Enquanto isso, a China entregou 270 mil toneladas de óxidos de terras raras  — forma refinada e padrão de comercialização desses minerais – das 390 mil toneladas produzidas em 2024.

A questão brasileira é que ainda faltam investidores que topem o risco de um projeto de mineração, em que apenas um terço sobrevive, e que demora cerca de dez anos para entrar em operação e começar a gerar caixa.

Existem australianos e canadenses que estão colocando dinheiro, como já mostrou o InvestNews, mas tem espaço para muito mais. E é aí que o Brasil pode surfar.

<><> Nem tão raras

Caso você não seja um conhecedor da mineração, cabe aqui uma explicação sobre as terras raras. São 17 elementos químicos. 

Os de número atômico menor formam o grupo das terras raras leves. Mais abundantes, elas vão em telas, vidros, e baterias. No jargão do setor, são agrupados como LaCePmSm – referência a lantânio (La), cério (Ce), promécio (Pm) e samário (Sm), os elementos mais utilizados entre as leves. 

O outro grupo, é o das terras raras pesadas: caso do disprósio (Dy) e do térbio (Tb), que reforçam a resistência térmica dos ímãs permanentes de motores e armamentos. Também se destacam o neodímio (Nd) e o praseodímio (Pr), base dos ímãs de alto desempenho usados em veículos elétricos. Nesse contexto, são dois grupos: DyTb e NdPr.

Apesar do nome, esses elementos não são exatamente raros na crosta terrestre — o desafio está em encontrá-los em concentrações economicamente viáveis e separá-los com eficiência. A China domina quase 70% da produção global e, no caso das terras raras pesadas, 100% da tecnologia de refino.

É como se, no caso do petróleo, um único país tivesse os equipamentos necessários para transformar o líquido preto em gasolina. Ou seja: se você produz terras raras pesadas, seu cliente será necessariamente da China.  

Como retaliação às tarifas impostas pelos EUA, o governo chinês anunciou em abril restrições à exportação de sete metais de terras raras pesadas refinadas. A medida compromete a fabricação de motores industriais, carros elétricos, aerogeradores, mísseis…

<><> Terras brasileiras

E é nesse contexto que o Brasil passou a chamar atenção. Com cerca de 25 milhões de toneladas em reservas, o país possui um ativo em operação, a Mineração Serra Verde, em Goiás, e dezenas de projetos em estágios avançados conduzidos por empresas como Aclara, Meteoric Resources e Brazilian Rare Earths (BRE) – todas elas controladas por investidores estrangeiros.

A Serra Verde, em operação desde o final de 2023, é hoje a única fora da Ásia com produção comercial relevante. Mesmo assim, sua produção ainda vai para a China. O problema não está só na origem dos minérios, mas no destino: sem infraestrutura de agregação de valor no Ocidente, a dependência segue viva. 

Outra coisa: já na concepção do projeto de Serra Verde, a produção futura havia sido comprada pelos chineses. Essa aquisição antecipada, chamada de offtake, é considerada hoje o passo mais crítico para viabilizar qualquer projeto de terras raras. 

Como esses minerais não possuem tanta liquidez (diferentemente de petróleo ou minério de ferro), o desenvolvimento de uma mina depende da formalização de demanda firme, com contratos de longo prazo. Sem isso, não há financiamento, nem escala.

“Sem comprador, não tem mina”, diz Murilo Nagato, diretor-geral da Aclara no Brasil. A mineradora, controlada pela britânica Hochschild Mining e a chilena CAP, ainda não fechou seu contrato de offtake e viu a procura crescer. A inauguração de seu projeto piloto em Goiás, no fim de abril, contou com representantes do governo dos Estados Unidos. “A corrida não é só geológica. É geopolítica”, prossegue o executivo.

Nagato conta que a Aclara está em busca de um sócio estratégico para garantir viabilidade financeira, escala de produção e, futuramente, a verticalização da cadeia – com a produção de óxidos de terras raras e ímãs de alto desempenho no Brasil. 

Ainda em fase pré-operacional e listada na Bolsa de Toronto, a empresa prevê início das operações em 2028, com capacidade de 191 toneladas por ano de DyTb e 1,4 mil toneladas anuais de NdPr. O investimento estimado é de US$ 599 milhões, com retorno potencial de US$ 2,2 bilhões. Além da mina em Goiás, a Aclara conta com um projeto menor no Chile, cuja previsão de início das atividades também está previsto para daqui três anos.

Embora a Aclara tenha reservas menores que as concorrentes — com 298 Mt inferidas — seu foco em terras raras pesadas e em uma planta piloto funcional lhe garante vantagem técnica. Já a Meteoric e a Brazilian Rare Earths têm reservas expressivas em Minas Gerais, mas ainda estão em fases iniciais de exploração ou licenciamento. 

O tempo para um projeto começando do zero hoje até chegar no mercado (o “time to market”, no jargão) hoje é de oito anos, nos cálculos de Rafael Marchi, da Alvarez & Marsal.

Em paralelo, o governo brasileiro vem tentando investir nos minerais estratégicos por meio do BNDES. O banco de fomento já criou dois fundos de investimento: um em parceria com a Vale (de R$ 1 bilhão) e outro de R$ 5 bilhões para fomentar a cadeia de minerais críticos.

Mas os desafios ainda são relevantes: licenciamento ambiental demorado, ausência de um mercado consumidor interno robusto e escassez de capital de risco (venture capital) em nosso ambiente de juros altos.

<><> No tabuleiro global

Sem alarde, investidores e diplomatas começam a tratar as jazidas brasileiras como ativos estratégicos. A disputa já ocorre de forma silenciosa há anos. Para atrair capital dos EUA ou de seus aliados, empresas brasileiras têm evitado fechar acordos com a China à espera de novos investidores. 

Um relatório do Parlamento Europeu apontou a América Latina como novo campo de batalha pelos minerais críticos. Segundo o estudo, 98% dos investimentos chineses em mineração na região entre 2015 e 2021 foram para metais estratégicos, entre eles as terras raras. 

A União Europeia vê o acordo comercial com o Mercosul como chave para garantir acesso a essas matérias-primas. “É um setor em que geologia, diplomacia e finanças estão se misturando. Cada contrato pode definir o alinhamento de um projeto por décadas”, completa Marchi.

¨      Serra Verde, de Goiás, acelera produção de terras raras em desafio à China

A brasileira Serra Verde está aumentando a produção de metais de terras raras em um momento de crescente atrito comercial entre os Estados Unidos e a China, o principal fornecedor mundial de minerais essenciais para a tecnologia.

A mineradora, que começou a produzir comercialmente em Goiás há cerca de um ano, planeja alcançar as 5 mil toneladas de óxido de terras raras por ano em 2026, de acordo com o diretor de operações Ricardo Grossi. A maior produção virá junto com o aumento da capacidade, disse ele, sem antecipar números.

A Serra Verde também analisa fazer parcerias estratégicas com empresas e países para expandir a produção e o processamento de metais de terras raras, disse Grossi, cuja empresa de capital fechado produz neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Ele acredita que a mineradora pode se tornar um fornecedor alternativo desses minerais críticos para o Ocidente, especialmente se a China expandir os controles de exportação contra os Estados Unidos para mais metais.

A China tem um papel dominante como produtora e processadora dos 17 elementos de terras raras usados em ímãs para veículos elétricos, turbinas eólicas e painéis solares, bem como em equipamentos militares essenciais. A nação asiática, que controla 70% da extração e 90% da capacidade de refino, produziu 240 mil toneladas de óxido de terras raras equivalente em 2023, de acordo com o US Geological Survey. Esse domínio fez com que os Estados Unidos e seus aliados procurassem outras fontes no mundo todo para reduzir a dependência da China.

A empresa tem como principal sócio a Denham Capital, além do Energy and Minerals Group, dos EUA, e da Vision Blue Resources Ltd. do Reino Unido, que em outubro fizeram um aporte de US$ 150 milhões no grupo. As negociações para outra rodada de financiamento estão em andamento.

“Poderá ser um aporte de um novo parceiro ou dos atuais investidores”, disse Grossi, um engenheiro de minas com passagem por mineradoras como Vale e Anglo American.

<><> Expansão

A Serra Verde também segue avaliando uma segunda fase de expansão de suas operações no Brasil, o que poderia dobrar a produção antes de 2030. Os esforços da Serra Verde foram reconhecidos pela Minerals Security Partnership — uma colaboração de 14 países, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, que visa acelerar o desenvolvimento de cadeias de suprimento sustentáveis, seguras e diversificadas para esses minerais essenciais.

Embora os preços dos metais de terras raras tenham sido prejudicados por um excesso de oferta, a Serra Verde aposta na continuidade do apetite por esses elementos para produzir mais ímãs. Grossi disse que a Ásia é atualmente o principal destino de sua produção. A empresa prevê que a demanda por seus produtos aumentará em 8,5% ao ano até 2035. E espera-se que isso impulsione seu balanço.

“Depois de 15 anos começamos a ter receita, o que já é uma vitória”, disse Grossi. “Nossa dinâmica financeira muda completamente a partir de 2026.”

¨      Brasil atrai nova geração de mineradoras estrangeiras

Uma transformação silenciosa está em curso no interior do país — financiada por investidores estrangeiros. Mineradoras menores, conhecidas como junior minings, estão desbravando a produção de minerais críticos como lítio e terras raras, todos essenciais para a transição energética global.

Com capital vindo de australianos, canadenses e americanos, essas empresas apostam no potencial brasileiro para atender à crescente demanda por tecnologias limpas.

Mas o que são junior minings? Essas empresas, geralmente avaliadas em cerca de US$ 500 milhões, têm como principal objetivo desbravar o setor mineral, focando na descoberta e exploração de novas reservas – justamente o oposto do que fazem as petroleira juniores (“junior oils“), que costumam comprar campos maduros da Petrobras para operar, a exemplo de Prio, Brava Energia e PetroReconcavo.

No caso das mineradoras juniores, é um modelo de alto risco, mas com potencial para grandes retornos — especialmente em um mercado que pode ultrapassar US$ 1 trilhão até 2030, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

A chegada dessas empresas foi impulsionada por mudanças regulatórias, como a criação da Agência Nacional de Mineração (ANM) em 2017. Antes, mineradoras podiam manter direitos sobre áreas sem desenvolvê-las. Agora, quem não cumpre os cronogramas de pesquisa perde o direito sobre a área, que é devolvida ao governo e pode ser leiloada. “Isso traz mais segurança jurídica”, explica Rafael Marchi, diretor-executivo para infraestrutura da Alvarez & Marsal Brasil. A celeridade dada pelos governos estaduais na emissão de licenças também foi vista como outro fator positivo.

Essas mudanças ajudaram a diversificar um mercado que, até pouco tempo atrás, era dominado por empresas familiares focadas na exploração de minério de ferro. Hoje, o objetivo é explorar minerais estratégicos para baterias de carros elétricos, turbinas eólicas e painéis solares. Somente em 2022, o Brasil produziu R$ 33,1 bilhões em minerais ligados à transição energética, representando 14,8% da produção mineral do país, segundo dados mais recentes da ANM.

“O Brasil é um hotspot na atração de recursos para mineração”, afirma Marcelo Carvalho, diretor-executivo da Meteoric Resources, uma junior mining australiana listada na Bolsa de Sydney. A empresa investirá US$ 400 milhões até 2027 para explorar terras raras, essenciais na fabricação de ímãs para baterias, em Caldas (MG). 

A área foi descoberta por um geólogo independente em 2012 e vendida para a Meteoric pouco após a pandemia. “Quando estudamos o projeto, vimos que poderíamos ter uma das principais reservas do mundo, com mine life [vida útil] estimada em 100 anos e custos competitivos em relação à China.”

Os estudos indicam que as terras raras brasileiras têm concentrações superiores às chinesas, o que significa menor esforço de exploração para resultados equivalentes. Esse diferencial reforça o protagonismo do Brasil em um mercado dominado pela China, que controla 99% da produção global.

<><> O protagonismo australiano

A Meteoric, hoje avaliada em US$ 125 milhões, está longe de ser a única empresa australiana a investir em minerais críticos no Brasil. Marchi, da Alvarez & Marsal, diz que houve um aumento considerável de empresas com sede na Austrália assumindo áreas no Brasil. “Nos últimos cinco anos, vimos um salto de uma ou duas empresas para cerca de 40 projetos ativos no país”, afirma. 

A familiaridade dos investidores australianos com o setor mineral explica esse movimento. “Ali existe uma cultura forte. As pessoas físicas investem em mineradoras e conhecem as empresas. Aqui no Brasil, a maioria só conhece a Vale”, diz Carvalho, da Meteoric.

“Infelizmente, eu tenho pouco a ganhar falando com a mídia do Brasil. Quem realmente importa já nos conhece”, relata o CEO de uma junior mining estrangeira que opera no país e prefere não se identificar, ouvido pelo InvestNews.

Entender a dinâmica de uma junior mining é importante para lidar com o alto risco do setor, lembram os entrevistados. Segundo Marchi, apenas um terço dos projetos globais de mineração atinge a operação comercial. “É uma questão de alocação de capital de risco. Fundos australianos e canadenses já incluem esses investimentos em seus portfólios, algo que ainda falta no Brasil”, explica o especialista.

“Talvez falte um pouco mais de hábito e conhecimento técnico dos fundos brasileiros para investir nesse tipo de projeto”, avalia Bernardo da Veiga, CEO da Brazilian Rare Earths (BRE), mineradora listada na bolsa australiana desde o fim de 2023. “Todo fundo de investimento australiano tem um geólogo, um engenheiro de minas, pessoas técnicas que entendem de mineração.”

A BRE levantou cerca de US$ 90 milhões no mercado de capitais da Austrália para financiar a exploração de uma área de 1.410 km² de terras raras em Jequié (BA), e os estudos também já identificaram concentrações significativamente superiores às chinesas. Apesar dos números iniciais animadores, a empresa ainda está em fase piloto e busca por licenças. Não há previsão para o começo das atividades.

Outro exemplo do apetite australiano foi na compra da brasileira Latin Resources pela Pilbara, num negócio avaliado em US$ 370 milhões, feito em agosto do ano passado. A Latin Resource possui um projeto de lítio em Salinas, município localizado no Vale do Jequitinhonha (MG), com início das operações previsto para 2026.

<><> Mas não é só Austrália

Os investidores canadenses também têm participação significativa no setor. Um exemplo é a Sigma Lithium, controlada pela brasileira Ana Cabral. A empresa fez seu IPO na Bolsa de Toronto em 2018 com valor de mercado de US$ 95,6 milhões e hoje está avaliada em US$ 1,45 bilhão.

Localizado também no Vale do Jequitinhonha, referência no Brasil quando o assunto é lítio, o projeto entrou em operação em 2023 e chegou a atrair interesse de gigantes como Tesla e BYD, mas a queda nos preços do mineral colocou as negociações para uma aquisição em compasso de espera.

Outro caso de destaque é o projeto Serra Verde, em Goiás, que já produz óxido de terras raras comercialmente. Com meta de alcançar 5 mil toneladas anuais até 2026, a empresa recebeu, em outubro, um aporte de US$ 150 milhões de investidores como Denham Capital, Energy and Minerals Group (EUA) e Vision Blue Resources (Reino Unido).

<><> Brasil avança no financiamento

Embora os estrangeiros estejam à frente, o Brasil também está se movimentando. Um exemplo é o fundo criado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com a Vale, que recebeu um aporte inicial de R$ 500 milhões (R$ 250 milhões de cada instituição) e deve atrair até R$ 1 bilhão no total.

Batizado de ORE JGP BB Minerais Estratégicos, o fundo visa financiar projetos em minerais essenciais para a transição energética, como lítio, níquel, cobre e terras raras, além de fósforo e potássio para fertilizantes. Em outra frente, o BNDES lançou um programa, de R$ 5 bilhões, para estimular negócios voltados a desenvolver a cadeia desses minerais.

Ainda há muito espaço para crescimento, lembram os entrevistados. O Brasil possui apenas 220 minas de operação comercial relevante, muitas delas focadas no minério de ferro. Apesar das milhares de licenças anuais emitidas pela ANM, o caminho até a operação comercial é caro e longo: pode levar mais de uma década, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

Entretanto, o cenário é promissor para o país, desde que a regulação e os investimentos caminhem na mesma direção. “Com os incentivos certos, o Brasil pode liderar a transição energética mundial”, avalia Carvalho, da Meteoric.

 

Fonte: InvestNews

 

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