Luís
Nassif: A hora de enfrentar o eixo Motta-Globo-Lyra-emendas
Duas
manifestações graúdas das Organizações Globo não abrem margem a dúvida: ela
colocou seus veículos a serviço de Eduardo Cunha, Arthur Lyra e de seu pupilo
Hugo Motta.
É o que
se depreende da decisão de colocar o Jornal Nacional a serviço de Motta, em uma
reportagem ultrajante; e um editorial no jornal, criticando as críticas contra
o Congresso.
Há
questões que comportam dissidências, visões divergentes de opiniões. Jamais a
defesa do Congresso Nacional, depois que se apossou do orçamento público
montando uma verdadeira máquina de corrupção.
Não se
tenha dúvida: se defende a apropriação do orçamento pelo Congresso, defende
igualmente sua aplicação, através das emendas parlamentares. Ou seja, endossa e
defende o mais pernicioso modelo de corrupção política já desenvolvido em
muitas e muitas décadas.
Por
outro lado, poucas vezes vi um Fernando Haddad tão disposto para a luta quanto
agora. Ontem, na saída da sessão do NDB, ele me explicou o estado de espírito:
• Meu pai me dizia que, quando alguém te
ataca sem motivo, o primeiro passo para a reação é dar-lhe motivo.
E não
poderia haver motivo civilizatório mais nobre. Pela primeira vez, na história,
o PT assume a bandeira da justiça tributária como bandeira de luta.
De
fato, nos governos Lula, jamais se arranhou a questão tributária. O aumento das
cotações de commodities, especialmente no segundo governo, forneceu recursos à
vontade, tanto para atender às políticas sociais, quanto para garantir os
privilégios do andar de cima.
Agora,
chegou a hora da verdade.
A busca
da modernidade não será tarefa fácil. Bastou levantar a bandeira para trazer de
volta os piores vícios do sistema Globo, para ressuscitar João Dória e para
apresentar o moleque Hugo Motta como herói da raça.
Mas,
pelo menos, começa a ser dado um mínimo de identidade econômica ao governo
Lula.
O
próximo passo será a disputa de narrativas sobre as medidas. O bordão, em favor
dos super-ricos, e a acumulação de riqueza é o passo prévio para o aumento do
investimento.
Não é o
caso dos modelos de financeirização. Trata-se de um acúmulo estéril, que serve
apenas para o chamado consumo conspícuo, para a internacionalização do capital
e para manobras de arbitragem.
Há
muito tempo, o país não exibia indicadores macroeconômicos tão favoráveis. E
aí? Qual o espírito do pequeno, médio e grande empresários, com as limitações
impostas pelos juros? Qual o estado de espírito da população sem um projeto de
futuro, e sendo bombardeada diuturnamente pelo pessimismo militante da mídia? E
com a estabilidade atual podendo ser atropelada por qualquer novo solavanco do
dólar?
O
início da reconstrução passa por um norte, um plano de metas ou o nome que se
dê, que aponte o futuro. Será a única maneira de enfrentar essa inacreditável
arco do atraso que volta a ser montado com o eixo Cunha-Motta-Globo-Centrão.
• O governo Lula encontra sua primeira
bandeira
O
governo Lula encontrou metade de sua bandeira política, um modo profundamente
capitalista de instituir justiça fiscal: a progressividade. É um princípio tão
antigo quanto a instituição dos métodos tributários. Diz que, quem ganha mais
precisa pagar proporcionalmente mais.
A
progressividade parte do princípio de que os primeiros reais servem para a
subsistência. Portanto, precisa haver isenção para todas as faixas. Depois, à
medida que a renda vai aumentando, vai aumentando progressivamente a alíquota
sobre as partes seguintes.
No
Brasil, a regressividade atingiu níveis inacreditáveis. As pessoas do topo da
pirâmide pagam proporcionalmente menos impostos do que a base. A taxa efetiva
de um super-rico não passa de 10%, contra alíquotas muito maiores na base.
O
aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) visava conseguir saídas
para fechar o orçamento. A molecagem de Hugo Motta, o desastrado presidente da
Câmara Federal, forneceu o mote para a reação do governo. Ao vetar o IOF, fez o
Ministro Fernando Haddad sair da discrição habitual e lançar o mote do “pobre
contra o rico”.
No
Brasil, a alíquota máxima da tabela de IR é de 27,5%. Com as diversas formas de
ganhos financeiros, rendas de mais de R$ 1 milhão mês não paga mais que 10%.
Compare
com outras economias.
País Alíquota Máxima Federal (%) Alíquota Total Máxima (%) Notas
EUA 37 ~50,3
(com estaduais) Varia muito por
estado
França 45 49
(com sobretaxas) Sistema familiar pode
reduzir efetivo
Reino
Unido 45 Até
60% (marginal efetiva) Acima de £ 125 mil
não há dedução pessoal
Itália 43 ~46
(com regionais) Impostos locais variam
Canadá 33 ~53,5
(com província) Depende fortemente
da província
Japão 45 ~55 Impostos locais somam cerca de 10%
O que
Haddad propôs não foi nenhuma luta de classe, mas a elevação do Brasil ao mesmo
patamar de justiça tributária de países desenvolvidos, uma proposta
civilizatória.
Imediatamente,
houve o reboliço da mídia, incapaz de disfarçar os interesses pessoais de seus
controladores. Editoriais contra o aumento do IOF, editoriais denunciando o MEI
(Microempreendedor Individual), com uma falta de sutileza comprometedora. É
evidente que a linha editorial de empresas jornalísticas reflete os interesses
econômico-financeiros de grupos. Mas nunca de forma tão ostensiva quanto agora,
denotando um profundo amadorismo.
De
qualquer modo, Lula encontrou seu primeiro mote eleitoral: o da justiça
tributária, que os jornais preferem falar em colocar os pobres contra os ricos,
nós contra eles.
Falta o
segundo pedaço da bandeira: o plano de metas. O governo já cumpriu
brilhantemente seu desafio de tirar, mais uma vez, o Brasil do mapa da fome.
Falta agora dizer claramente o que o país quer ser, quando crescer.
Há uma
série de planos sendo tocados individualmente por Ministérios: o da Indústria e
do Comércio, o da Fazenda, do Planejamento, de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Falta a síntese principal: o plano de metas de Lula.
Há uma
guerra mundial pela frente, com o Congresso dominado pelo que de pior a
política brasileira produziu na história, pretendendo açambarcar as funções do
Executivo.
É um
momento tenso, cujas práticas mais abjetas estão sendo testadas no grande
laboratório do Paraná. Foi lá que a Polícia Militar invadiu uma sessão que
pretendia discutir seus crimes. E é lá que deputados estaduais pretendem cassar
o mandato de um combativo deputado da oposição.
Ontem,
no coquetel de abertura do encontro do Novo Banco dos BRICS, a ex-presidente
Dilma Rousseff analisou os arroubos do Congresso, sob Eduardo Cunha, e agora,
sob o jovem Hugo Motta. O que se queria, nos dois momentos, era tirar o poder
do Executivo sobre o orçamento.
Criou-se
um moto perpétuo, no qual o Centrão, aliado à ultradireita, controla as emendas
e, através delas, garante a reeleição dos seus. O país prepara-se para
enfrentar uma organização perigosíssima, porque está controlando os
instrumentos para conseguir a maioria eleitoral.
E, sem
um plano de metas claramente definido, perpetua-se o quadro atual, com cada
grupo – Faria Lima, jornais, Joãos Dorias da vida – tenta tirar sua lasquinha,
sem que haja uma massa crítica dos chamados pais refundadores da República.
Essa
refundação só será possível com Lula acenando claramente para o tipo de país
que se pretende.
• Lula defende nova arquitetura financeira
global
Na
abertura da 10ª reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), nesta
quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu uma reforma
profunda na arquitetura financeira internacional e criticou a lentidão no
repasse de recursos prometidos pelos países ricos para enfrentar a crise climática.
Ao lado da presidente do NDB, Dilma Rousseff, Lula destacou o papel estratégico
da instituição criada pelos BRICS e reforçou a necessidade de novos mecanismos
de financiamento sem condicionalidades.
“Nosso
banco é mais do que um grande banco para países emergentes. Ele é a comprovação
de que uma arquitetura financeira reformada é viável e que um novo modelo de
desenvolvimento mais justo é possível”, afirmou o presidente.
Lula
celebrou o crescimento do NDB desde sua criação em 2014, na cúpula dos BRICS
realizada em Fortaleza, além de saudar o interesse de outros países em aderir à
instituição – o que reforça a credibilidade do banco como alternativa inclusiva
e eficaz ao sistema financeiro tradicional.
“O NDB
financia projetos alinhados às prioridades nacionais, sem impor
condicionalidades. E mais: 31% desses projetos já são executados em moedas
locais, fortalecendo a soberania dos países membros”, apontou Lula.
Desde
sua fundação, o banco já aprovou mais de 120 projetos, somando US$ 40 bilhões
em áreas como energia limpa, transporte, abastecimento de água e proteção
ambiental. No Brasil, mais de 20 projetos já foram beneficiados, totalizando
mais de US$ 3,5 bilhões.
O
presidente também destacou a resposta rápida do NDB às enchentes no Rio Grande
do Sul como exemplo da agilidade da instituição em momentos de crise. Além
disso, afirmou que o banco tem papel relevante na transição digital, investindo
em tecnologia nos setores de saúde, educação, transporte e infraestrutura. Lula
mencionou a expectativa de o NDB financiar um estudo de viabilidade para um
cabo submarino de dados entre os países dos BRICS, reforçando a soberania
digital dos membros.
Durante
seu discurso, Lula criticou duramente o sistema financeiro global, que, segundo
ele, impõe austeridade aos países pobres enquanto o mundo gasta trilhões com
armamentos. Ele lembrou o compromisso assumido pelos países ricos na COP15, em
2009, de destinar US$ 100 bilhões anuais para o combate às mudanças climáticas
— valor que até hoje não foi efetivamente repassado.
“O que
era US$ 100 bilhões por ano, hoje já deveria ser US$ 1,6 trilhão. Sem esse
aporte, não será possível cumprir as metas de limitar o aquecimento global a
1,5°C”, alertou. “Não existe outro planeta habitável até agora. Temos que
cuidar deste.”
Lula
também criticou o peso da dívida externa sobre países africanos e sugeriu que
instituições como o FMI e o Banco Mundial sejam reformadas para considerar as
novas realidades geopolíticas e climáticas do século XXI. “Não é possível que o
continente africano deva US$ 900 bilhões, e o pagamento de juros supere a
capacidade de investimento desses países”, disse.
Em uma
fala emocionada, o presidente mencionou a situação do Haiti, que classificou
como “semidestruído”. Ele revelou ter discutido com o presidente francês
Emmanuel Macron a dívida paga pelo país à França em troca de sua independência.
“O Haiti deveria receber de volta US$ 28 bilhões”, afirmou.
Lula
defendeu que o financiamento internacional seja visto não como caridade, mas
como uma ferramenta de desenvolvimento. “Não é doação. É empréstimo para dar
uma chance a quem está na miséria”, enfatizou.
Por
fim, Lula convocou o NDB a assumir protagonismo na criação de novas formas de
financiamento, afirmando que a lógica da austeridade só aumenta as
desigualdades. “Toda vez que se fala em austeridade, o pobre fica mais pobre e
o rico mais rico. É isso que nós temos que mudar.”
A fala
do presidente ocorre em um momento em que o NDB busca ampliar sua base de
membros e consolidar sua relevância no cenário financeiro internacional. A
próxima grande etapa para as discussões sobre financiamento climático será a
COP30, em 2025, em Belém do Pará — evento que Lula afirmou ser uma oportunidade
histórica para o Brasil e para o mundo.
• Haddad defende taxação dos super-ricos
como novo pilar do desenvolvimento
Em
evento do Banco dos Brics, Haddad defende inclusão da taxação dos super-ricos
como novo pilar do desenvolvimento sustentável
Durante
o seminário “Desafios para o Financiamento do Desenvolvimento Sustentável no
Sul Global”, parte da 10ª Reunião Anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB),
o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu a inclusão da taxação dos
super-ricos como mais um pilar das políticas voltadas ao desenvolvimento
sustentável. A proposta complementa os investimentos já realizados por bancos
multilaterais em infraestrutura e na transição energética de países em
desenvolvimento.
Haddad
afirmou que há uma agenda internacional bem estabelecida, com temas como
inovação tecnológica e mudança climática ganhando centralidade nos debates
globais. No entanto, alertou que, se a questão da concentração de renda não for
enfrentada, esses esforços correm o risco de se tornarem ineficazes. Ele
lembrou que três mil famílias, em um planeta com 8 bilhões de pessoas, acumulam
uma riqueza estimada em 15 trilhões de dólares.
O
ministro associou o avanço da desigualdade à redução das alíquotas cobradas dos
mais ricos desde os anos 1970 e 1980. Disse que os Estados nacionais vêm
enfrentando restrições fiscais graves, agravadas por crises como a de 2008 e a
pandemia, que desorganizaram profundamente as finanças globais.
Segundo
Haddad, é necessário ir além dos mecanismos tradicionais de financiamento. Ele
defendeu que o NDB e outras instituições multilaterais incluam, em sua agenda,
a reorganização das estruturas tributárias globais como um novo eixo de
atuação. Para o ministro, esse pilar pode fortalecer as estratégias de combate
à emergência climática, enfrentando ao mesmo tempo os efeitos da desigualdade
extrema.
Durante
sua fala, Haddad também destacou os desafios colocados pela inteligência
artificial, que deve provocar transformações profundas no mercado de trabalho e
na educação formal. A seu ver, o impacto dessa nova tecnologia exigirá uma
reeducação em escala global, que exigirá novos financiamentos.
Ao
final, o ministro defendeu que a questão da desigualdade global seja tratada
como um terceiro pilar nas discussões sobre o redesenho das instituições
internacionais. Para ele, além da infraestrutura e da transição energética, o
financiamento ao desenvolvimento sustentável precisa passar necessariamente por
uma nova lógica tributária internacional, que enfrente de forma concreta o
acúmulo extremo de riqueza nas mãos de poucos e ajude a financiar o
desenvolvimento global com os pilares já definidos da transição energética.
Fonte:
Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário