Fumo
passivo mata 17 brasileiros por dia, diz estudo
O fumo
passivo matou 6,2 mil brasileiros em 2019, uma média de 17 ao dia, segundo uma
tese de doutorado defendida pela enfermeira Bibiana Wanderlei Flores e aprovada
no início de junho junto à Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha.
A
maioria das mortes foi causada por cardiopatia isquêmica, uma doença no coração
que pode levar a infartos e à insuficiência cardíaca. Essas vítimas incluem
pessoas com 35 anos ou mais que adoeceram por causa da exposição à fumaça do
tabaco, o “fumo de segunda mão” ou “passivo”, seja em casa, no trabalho ou em
outros espaços.
Esse
total soma tanto os próprios fumantes – que também podem adoecer pelo contato
com a fumaça do próprio consumo – como não fumantes ou ex-fumantes. “O cigarro
tem mais de sete mil substâncias químicas e mais de 70 são carcinógenas, então
a pessoa que está exposta à fumaça também pode estar ingerindo isso”, explicou
Bibiana ao Joio.
“Por
isso o tabagismo passivo é considerado mortal.” De acordo com o Instituto
Nacional do Câncer (Inca), a fumaça que sai da ponta do cigarro e se espalha
pelos ambientes contém até três vezes mais nicotina (a substância viciante no
fumo), três vezes mais monóxido de carbono (que atrapalha o transporte de
oxigênio pelo sangue) e até 50 vezes mais substâncias cancerígenas do que a
inalada diretamente pelo fumante.
“Não há
nível seguro de exposição ao tabagismo passivo e a única maneira de proteger
adequadamente fumantes e não fumantes é eliminar completamente o tabagismo em
ambientes fechados”, alerta o Inca.
A
análise de Bibiana partiu de dados da última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS),
publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019.
A enfermeira cruzou esses números com os cálculos atualizados de risco à saúde
associados ao tabagismo passivo de uma ampla revisão publicada na prestigiada
revista Nature Medicine em 2024.
Os
resultados indicam que, no total, foram 6.281 mortes no Brasil, sendo a maior
parcela (60%) entre homens. Esses números, no entanto, são incapazes de dizer
quantas dessas vítimas não fumava e adoeceu por causa do tabagismo de
terceiros. “Muitos estudos não diferenciam a relação do consumo da pessoa”,
explica a pesquisadora. “São calculadas pessoas que estão expostas ao tabagismo
passivo sem diferenciar se é fumante, ex-fumante, ou nunca fumante”, diz.
Além de
analisar os dados da PNS de 2019, a enfermeira também calculou as taxas de
mortalidade com foco nas capitais brasileiras a partir dos levantamentos sobre
tabagismo do Vigitel, levantamento anual do Ministério da Saúde. Os números
disponíveis cobrem de 2009 a 2021.
Com
isso, Bibiana estimou uma queda de 37,5% em mortes nas principais cidades do
país ao longo desses 12 anos. Em 2009, cerca de 6.290 brasileiros morreram
somente nas capitais em decorrência da exposição à fumaça do tabaco. Em 2021, o
número caiu para 3.931.
Parte
dessa queda pode ser atribuída à aprovação, em 2011, da lei federal de
ambientes livres de tabaco. A norma proibiu fumar em quaisquer locais fechados
de uso coletivo, sejam públicos ou privados, como bares, boates, casas de shows
e hotéis. A restrição inclui ambientes “parcialmente fechados”, que são
abertos, porém podem estar bloqueados em parte por paredes, tetos ou toldos
porque estes atrapalham a dispersão da fumaça.
Em
outros países, no entanto, as regulações já visam restrições ao fumo em espaços
abertos e mais amplos, como parques e praias.
No fim
de maio, a França decidiu banir o tabaco de todos os espaços públicos que
possam ser frequentados por crianças. A restrição não inclui cigarros
eletrônicos, que estão liberados no país.
No
Brasil, quaisquer restrições ao fumo convencional em locais fechados também se
aplicam aos eletrônicos, que foram proibidos pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa). “Já foi comprovado que mesmo que a fumaça se
dissipe mais fácil e rápido em um ambiente aberto, mesmo assim – principalmente
se a pessoa estiver a menos de cinco metros, ela segue exposta ao tabagismo
passivo”, diz Bibiana Flores.
“É mais
difícil medir essa exposição em um ambiente aberto, mas ela existe.”, Apesar da redução na mortalidade, só na
cidade de São Paulo, por exemplo, ainda há mais de duas mortes diárias causadas
pelo fumo passivo, de acordo com os cálculos da pesquisa.
Segundo
dados do último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), publicado
neste mês de junho, quase metade dos fumantes (48%) diz fumar em casa, o que
perpetua “a exposição de familiares e visitantes à fumaça de segunda mão”, de
acordo com o relatório.
Indústria
negou danos do fumo passivo Ainda que hoje haja consenso de que o fumo de
segunda mão mata, causa danos à saúde de todos e que políticas públicas devem
proteger cidadãos da fumaça do cigarro, nem sempre foi assim.
Desde
os anos 70, quando os primeiros estudos mostrando os danos do tabagismo passivo
foram publicados, a indústria do tabaco passou a lançar dúvidas sobre os
achados científicos. Um maior consenso em torno da escala desses danos surgiu
em 1986, quando autoridades de saúde dos Estados Unidos publicaram o relatório
As consequências à saúde da exposição involuntária à fumaça do tabaco, que
recomendou a criação de ambientes livres de fumo para se preservar a saúde de
não fumantes dos vários problemas ligados à exposição a cigarros.
A
reação do setor, no entanto, foi imediata. No ano seguinte, de olho nas
repercussões aqui no país, a Associação Brasileira da Indústria do Fumo
(Abifumo), que reúne empresas de cigarros como Philip Morris e British American
Tobacco (a BAT, antiga Souza Cruz), traduziu e publicou um relatório produzido
pelo setor nos EUA chamado Fumaça Ambiental Proveniente do Cigarro.
O
documento negava que o tabagismo passivo fosse perigoso e indicava que não
havia “base física” na “irritação e incômodo” causados pela fumaça do cigarro
em não fumantes. Segundo o relatório, “tudo leva a crer que o mero fato de ver
ou sentir o cheiro da fumaça é capaz de produzir forte reação nos indivíduos
que sentem profunda aversão ao fumo” e que “reações extremas à exposição à
fumaça do cigarro podem ter uma base emocional ou psicológica”.
Além
disso, em 1988, nos Estados Unidos, as empresas de cigarros secretamente
financiaram a criação do Center for Indoor Air Research (ou Centro de Pesquisas
do Ar em Interiores), que passou a patrocinar uma série de estudos enviesados
com o objetivo de lançar dúvidas sobre os impactos que o fumo passivo tem na
saúde.
A
organização contou com a contratação de pesquisadores brasileiros e, na América
Latina, recebeu o financiamento de BAT e Philip Morris. Até 2001, mais de 15 anos após ter sido
sedimentado o consenso científico de que o fumo passivo era mortal, a BAT ainda
mantinha em seu site uma guia com “informações” que negavam que a “fumaça
ambiental do cigarro” fosse “fator de risco ou causa de doenças em não
fumantes”.
As
multinacionais de cigarros deixaram de negar abertamente os danos do fumo
passivo a partir de 2006, quando a Justiça norte-americana condenou as
principais empresas de cigarros do país, como a Philip Morris e outras que hoje
são subsidiárias da BAT, por organização criminosa.
Na
época, o juiz federal Gladys Kessler condenou as empresas por terem mentido e
enganado o público por décadas a respeito dos danos que seus produtos causam à
saúde, inclusive em relação ao fumo de segunda mão.
Fonte:
O Joio e O Trigo

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