sábado, 5 de julho de 2025

Kaiyi Dai: China e Brasil constroem um novo modelo de cooperação Sul-Sul

Quando o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pisou na pista de pouso em Pequim, neste mês de maio, sua visita de Estado estava destinada a aproximar ainda mais as duas potências emergentes — geograficamente distantes, mas alinhadas em muitos aspectos — enquanto buscam navegar por um cenário global em rápida transformação.

Durante a reunião no Grande Salão do Povo, o principal local oficial da China para diplomacia de Estado e grandes eventos políticos, foram assinados vinte novos acordos entre os dois países, abrangendo estratégia de desenvolvimento, ciência e tecnologia, agricultura, economia digital e muito mais. O presidente Xi enquadrou a relação como o início dos próximos “50 anos dourados”, enquanto Lula enfatizou uma nova governança global baseada em laços mais fortes entre os países do Sul Global.

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Num momento em que instituições multilaterais parecem lentas e antigas alianças se desgastam, China e Brasil — as principais economias em desenvolvimento em seus respectivos hemisférios — estão se alinhando em diversos setores. Juntas, estão testando a viabilidade de um modelo de globalização ao mesmo tempo pragmático e voltado para o futuro.

As trocas econômicas entre os dois países vêm crescendo de forma constante: o Brasil exporta soja, milho, minério de ferro e petróleo bruto; a China envia de volta máquinas, eletrônicos e, mais recentemente, veículos elétricos. Em 2024, o comércio bilateral atingiu o recorde de US$ 188 bilhões — alta de 3,5% em relação ao ano anterior — consolidando o papel da China como maior parceiro comercial do Brasil por mais de uma década.

Os laços bilaterais têm como base fundamentos essenciais — principalmente a segurança alimentar e energética. A soja, a carne bovina, o petróleo e o minério de ferro que a China importa do Brasil são cruciais para sua estabilidade de longo prazo. Sendo o maior importador mundial tanto de petróleo quanto de minério de ferro, a China conta com o Brasil para se diversificar e reduzir a dependência de fornecedores com maior risco geopolítico.

O minério de ferro, por exemplo, é a espinha dorsal do aço — e, portanto, elemento central na estratégia de infraestrutura da China. Da mesma forma, o petróleo bruto brasileiro — desvinculado das volatilidades do Oriente Médio — oferece à China alternativas num mundo cada vez mais marcado por pontos de estrangulamento e sanções.

As empresas chinesas também estão explorando o potencial mais amplo do Brasil.

Um indicador que se destacou foi o mercado de veículos elétricos. No primeiro semestre de 2024, marcas chinesas responderam por 89% de todos os veículos elétricos vendidos no Brasil, ante 74% no ano anterior, segundo a Bloomberg. Esses veículos estão se tornando rapidamente a opção dominante no maior mercado da América Latina — apoiados por preços competitivos e desempenho confiável.

Isso mostra como o “Made in China” está evoluindo de uma manufatura de baixo custo para a mobilidade de alta tecnologia. É também um caso de teste sobre como a estratégia industrial chinesa pode ganhar escala em mercados emergentes.

Além disso, empresas como a Meituan, principal plataforma chinesa de delivery de alimentos e serviços locais, e a Didi, grande companhia de transporte por aplicativo, estão expandindo operações no Brasil. Enquanto isso, a J&T Express, empresa de logística conhecida por sua rede de entregas rápidas, a SHEIN, gigante do e-commerce de moda ultrarrápida, a Temu, marketplace de descontos apoiado pela Pinduoduo, e a AliExpress, plataforma global de varejo do Alibaba, consolidaram-se no tecido do comércio digital brasileiro. Isso só foi possível graças ao rápido avanço da infraestrutura de pagamentos no Brasil — mas também reflete uma crescente confiança entre marcas chinesas e consumidores brasileiros.

Para além desses fundamentos do dia a dia, há também cooperação de alto nível em andamento. A colaboração espacial é um exemplo. Ao longo de três décadas, China e Brasil desenvolveram e lançaram em conjunto seis Satélites de Recursos Terrestres. O programa — iniciado no começo da década de 1990 — já foi visto como uma exceção. Hoje, exemplifica como dois países em desenvolvimento podem reunir recursos para alcançar avanços tecnológicos de ponta. Esses satélites agora contribuem com tudo, desde o monitoramento do desmatamento na Amazônia até previsões de enchentes — serviços que antes eram oferecidos exclusivamente pela NASA ou pela Agência Espacial Europeia.

A energia limpa tornou-se um foco estratégico na parceria China-Brasil. Durante a visita de Lula a Pequim, o Brasil garantiu quase US$ 5 bilhões em novos investimentos chineses, sendo mais de 30% destinados à energia limpa, incluindo projetos emblemáticos como o que se tornará a maior usina solar flutuante do mundo, na Amazônia. Com mais de 3.000 horas de sol por ano, o potencial solar brasileiro é vasto — e a tecnologia chinesa está pronta para impulsionar sua expansão de 24 GW para 50 GW até 2030.

À medida que os países do BRICS buscam ampliar sua autonomia financeira, novos mecanismos estão sendo desenvolvidos para oferecer maior flexibilidade nos acordos comerciais internacionais.

Em outubro de 2024, foi lançado o BRICS Pay — um sistema baseado em blockchain que permite liquidações em tempo real, em moedas locais, entre os países-membros. Ele foi concebido para reduzir a dependência do dólar americano e servir como alternativa ao sistema SWIFT.

Aproveitando esse impulso, a China anunciou, durante o Fórum China–CELAC de 2025 em Pequim, quase US$ 10 bilhões em linhas de crédito denominadas em yuan para países da América Latina e do Caribe. A iniciativa faz parte de um esforço mais amplo para fortalecer a autonomia financeira regional, aprofundar o comércio em moedas locais e fomentar um panorama financeiro global mais plural.

Sob o guarda-chuva dos BRICS, a parceria China–Brasil oferece um estudo de caso convincente sobre como pode ser a cooperação Sul-Sul em uma economia mundial fragmentada. Trata-se de uma relação impulsionada por necessidades convergentes e fundamentada no pragmatismo — e, numa era em que as antigas certezas da globalização já não se aplicam, esse tipo de realismo pode se revelar uma fonte duradoura de influência.

¨      Qual a relevância do Brics, que se reúne no Brasil agora em julho?

Os líderes das economias do Brics, que estão entre as que mais crescem no mundo, se reúnem no Rio de Janeiro entre os dias 6 e 7 de julho com o objetivo de fortalecer o bloco diante da política tarifária agressiva do presidente dos EUA, Donald Trump, e de outras medidas protecionistas do Ocidente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sediará a cúpula do bloco, a primeira desde a criação da categoria de Estados-parceiros do grupo. Entre as lideranças presentes estarão o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e seu homólogo chinês, Li Qiang.

O presidente russo, Vladimir Putin, que tem um mandado de prisão pendente emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por supostos crimes de guerra relacionados à invasão da Ucrânia, não comparecerá.

A DW faz um resumo da história do Brics e dos planos do bloco para enfrentar o protecionismo das nações mais desenvolvidas.

<><> Como o Brics começou?

O economista do Goldman Sachs Jim O'Neill cunhou o termo Bric em 2001 para identificar Brasil, Rússia, Índia e China como economias que cresciam rapidamente e que tinham potencial para se tornar potências econômicas globais até 2050.

O termo destacava o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), as grandes populações e a crescente influência global desses países.

Apesar das diferenças em ideologias políticas e estruturas sociais, os formuladores de políticas dos quatro países passaram a trabalhar juntos, inicialmente por meio de conversas informais.

O bloco acabou se desenvolvendo como um contraponto ao G7, grupo das economias desenvolvidas composto pelos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão.

Com a consolidação das negociações, a primeira cúpula dos países foi realizada em Ekaterinburg, na Rússia, em 2009. Um ano depois, a África do Sul foi convidada a juntar-se ao bloco emergente, acrescentando o "S" ao acrônimo Brics.

Desde então, a criação do Brics tem sido descrita como um grande desafio aos sistemas políticos, econômicos e financeiros globais liderados pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial.

Os membros originais defendem uma ordem mundial multipolar e uma voz maior para os países em rápido desenvolvimento do Sul Global nos assuntos mundiais. Ao longo do tempo, o bloco criou uma alternativa ao Banco Mundial, que financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento, bem como um novo mecanismo para fornecer suporte financeiro durante crises econômicas, rivalizando também com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os formuladores de políticas do Brics agora discutem a possibilidade de lançar uma alternativa ao dólar americano no comércio mundial. A proposta ainda se desenvolve lentamente no bloco, mas irritou Trump, que prometeu sobretaxar os países do grupo em retaliação.

Assim como fez no G20, o Brasil tem trazido ao Brics a discussão sobre a taxação dos super-ricos e a crítica ao unilateralismo americano e ao protecionismo comercial.

Por outro lado, enfrentam disputas internas sobre seu papel anti-Ocidente

<><> Como o Brics evoluiu até hoje?

O bloco tem demonstrado interesse em incorporar outras nações em desenvolvimento, especialmente aquelas que buscam maior alinhamento com economias em rápido crescimento.

Hoje o bloco já conta com 10 países. Além dos cinco originais, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia também ingressaram no grupo. A Argentina chegou a ser convidada, mas recusou a adesão.

Embora continue sendo um bloco informal, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) classificou o Brics como "a primeira associação transregional de Estados não ocidentais", em um relatório preliminar para a cúpula.

Apesar de não ter um tratado fundador, estrutura administrativa permanente ou sede formal, o Brics cresceu, no papel, para se tornar uma potência geopolítica e econômica significativa.

O bloco representa mais de 40% da população mundial e mais de um terço do crescimento econômico global, com base na paridade do poder de compra, superando o G7.

Os países do Brics também controlam mercados significativos de commodities, incluindo cerca de 40% da produção global de petróleo, graças ao papel de seus novos membros, como Irã e Emirados Árabes Unidos. O bloco controla ainda quase três quartos do estoque global de terras raras, segundo o site do Brics.

O bloco ainda avança na pesquisa. De acordo com o Cebri, as nações do Brics registraram entre 2009 e 2023 mais da metade de todos os registros mundiais de patentes.

Por meio do seu Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Brics aprovou mais de US$ 39 bilhões (R$ 210 bilhões) para 120 projetos de infraestrutura, energia limpa e desenvolvimento sustentável.

A presidência do bloco é rotativa e muda cada ano. Os líderes têm pressionado por reformas em instituições globais como o Conselho de Segurança da ONU, FMI e Banco Mundial.

O comércio mútuo entre os membros também avança e já ultrapassou US$ 1 trilhão (R$ 5,4 trilhões), informa o site. As trocas comerciais intra-Brics são cada vez mais feitas em moedas locais e sob sistemas de pagamento alternativos ao Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT), apoiado pelo Ocidente.

No entanto, os planos para uma moeda Brics enfrentaram obstáculos internos, devido à resistência de alguns membros, especialmente a Índia, preocupada com a dominância econômica da China.

<><> Quem mais quer entrar no Brics?

O Brics está prestes a crescer exponencialmente, com 44 países tendo formalmente pedido adesão ou tomado medidas para se juntar ao bloco.

Em sua última cúpula, em outubro de 2024, o grupo criou a categoria de país parceiro, um prelúdio para a adesão formal. Sob o nome Brics+, ganharam este status Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão.

Outras nações que demonstram interesse em entrar incluem Azerbaijão, Bahrein, Bangladesh, Burkina Faso, Camboja, Chade, Colômbia, República do Congo, Guiné Equatorial, Honduras, Laos, Kuwait, Marrocos, Mianmar, Nicarágua, Paquistão, Senegal, Sudão do Sul, Sri Lanka, Síria e Zimbábue.

Já a Arábia Saudita, que tem fortes laços com os Estados Unidos, deveria entrar no Brics no ano passado, mas acabou não tomando uma decisão final. O site do grupo, no entanto, ainda lista o país como membro.

O plano da Turquia de entrar foi vetado pela Índia, que rechaça os laços próximos de Ancara com o Paquistão. Já o plano da Venezuela foi vetado pelo Brasil.

<><> Quais os próximos passos do Brics?

Analistas avaliam que a mudança das relações multipolares diante do protecionismo americano pode dar maior poder ao Brics de desafiar as instituições globais lideradas pelo Ocidente. Por outro lado, as divisões internas e interesses nacionais concorrentes do grupo podem atrapalhar seu progresso.

China e Rússia, por exemplo, posicionam o Brics ativamente como um contrapeso à hegemonia ocidental, enquanto Índia e Brasil priorizam a cooperação econômica em detrimento do confronto geopolítico, o que cria tensões dentro do bloco.

O ingresso de novos membros também gera atrito. Além da disputa de fronteira já existente entre China e Índia, rivalidades entre Arábia Saudita, se ingressar, e Irã, ou entre Egito e Etiópia pelo rio Nilo, podem dificultar o consenso em questões políticas e diluir a capacidade do bloco de avançar seus interesses.

O papel arraigado do dólar no comércio global e as restrições da China ao uso do yuan no comércio internacional podem dificultar a desdolarização, vista por alguns mais como uma tentativa de Pequim e Moscou de contornar sanções ocidentais do que uma estratégia realista para uma nova moeda de reserva.

Os EUA e União Europeia impuseram medidas punitivas à Rússia após a invasão da Ucrânia em 2022, e a economia do Irã também é prejudicada por sanções relacionadas ao programa nuclear de Teerã e o conflito com Israel.

Outros países apoiam planos para um sistema financeiro alternativo para se protegerem caso enfrentem sanções semelhantes no futuro, dizem analistas.

Disparidades econômicas entre os membros representam outro desafio à medida que o bloco cresce. O PIB da China é muito superior ao da África do Sul, por exemplo, ou dos membros mais recentes, como a Etiópia, o que dá poder a Pequim de direcionar as prioridades do bloco. 

Há também preocupações crescentes sobre como democracias como Índia e Brasil podem se alinhar com autocracias como China, Irã e Rússia.

O economista Jim O'Neill, que cunhou o termo Bric, agora considera o grupo um projeto fracassado. Em novembro, escreveu que o Brics "não serve a nenhum propósito real além de gerar gestos simbólicos e retórica grandiosa."

 

Fonte: Brasil 247/DW Brasil

 

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