terça-feira, 15 de julho de 2025

João Batista Damasceno: Entreguistas traidores da pátria!

Em 1862 o governo inglês promoveu um conjunto de exigências impróprias ao governo imperial brasileiro, dentre elas uma indenização pelo saque da carga de um navio britânico que encalhara no Rio Grande do Sul, a demissão dos militares que haviam prendido uns oficiais ingleses que, bêbados, haviam se metido em arruaça no Rio de Janeiro e um humilhante e formal pedido de desculpas. Apesar de soltos logo depois de identificados, o embaixador inglês William Christie, arrogantemente, exigia que os militares brasileiros que efetuaram a prisão fossem demitidos. Não aceitadas as imposições, embarcações inglesas invadiram as águas nacionais, adentraram na Baía de Guanabara e apreenderam cinco navios brasileiros como indenização pelo que requeriam.

A crise com a Inglaterra levou à derrubada do governo que era presidido por Duque de Caxias, cuja atuação não contemplava o interesse nacional. Mas o incidente contribuiu para o fortalecimento do sentimento nacionalista e o Brasil passou a buscar maior autonomia em relação à Inglaterra. Até Teófilo Otoni, crítico do Imperador D. Pedro II, apoiou o monarca ante a necessidade de prevalência dos interesses nacionais.

O nacionalismo crescente e a vitória na Guerra do Paraguai, que terminou em 01 de março de 1870, influiu no ânimo dos militares que acabaram se sobrepondo ao Estado, culminando com o golpe da Proclamação República em 1889. Desde então várias foram as intervenções militares no funcionamento dos poderes do Estado. O judiciário contribuiu para que tal acontecesse, acolhendo o que se chamava “Objeção do Caso Político”. Tratava-se do afastamento da apreciação de um caso pelo judiciário, se a questão envolvesse interesses políticos. Rui Barbosa insistia que mesmo em casos com interesses políticos, cabe ao judiciário a arbitragem com fundamento na lei, no que tivesse sido alegado e no que tivesse sido provado. Mas Rui perdia sempre.

Os militares usurparam poder e se julgaram árbitros de conflitos políticos em toda a República. A Marinha, formada sob orientação de oficiais ingleses, sempre manteve pretensão aristocrática e antipopular. A Aeronáutica, pelo momento de sua criação em 1941, luta na Segunda Guerra Mundial e orientação dos EUA, tinha expressiva parte dos seus quadros ligados ao elitismo asséptico da UDN. A Força Aérea Brasileira teve seus quadros formados a partir da aviação do Exército. Este parecia uma Arca de Noé, com bicho de todo tipo e era plural até 1964.

O golpe empresarial-militar de 01 de abril de 1964, tramado por militares e empresários entreguistas brasileiros, com o apoio dos EUA, buscou suprimir das Forças Armadas os militares democratas, nacionalistas, liberais, socialistas ou com qualquer concepção que pudesse ser considerada popular ou à esquerda do espectro político. Restou a gentalha, também conhecida como “Linha Dura”, responsável pelo que se fez nos porões dos quartéis. Até os quadros oriundos ou influenciados pelo tenentismo foram perseguidos. Restaram os entreguistas, interesseiros, lambedores de botas ianques e grileiros de terras nas regiões submetidas aos seus comandos.

O golpe de 1964 foi tramado por brasileiros que colocaram seus interesses acima dos interesses nacionais e para satisfação dos EUA. A abertura dos arquivos dos EUA revelou a atuação do presidente Lyndon Johnson, a possibilidade de divisão do Brasil a exemplo do que fora feito com outros países (Coreia, Vietnã, Iemen etc) e o envio da Quarta Frota para apoiar os golpistas, nominada de Operação Brother Sam. O documentário ‘O Dia que Durou 21 anos’ expõe os documentos já publicizados nos EUA.

Neste momento, a decisão do governo Trump de impor sanções comerciais ao Brasil visando a pressionar o funcionamento do STF é mais um embate desses que já vivenciamos na construção da nossa soberania. Felizmente sempre tivemos brasileiros de matizes ideológicas diversas que tinham visão institucional e não se renderam às chantagens estrangeiras. Aqueles nacionalistas inadmitiram pressão sobre o funcionamento de nossas instituições que hão de ser harmônicas e independentes. Os poderes são harmônicos quando cada um se limita às suas funções e serão independentes se não precisarem, para funcionar, de autorização dos demais. Nem dos demais, nem de potências estrangeiras.

O nazifascismo é tosco e desumano. Sua indigência intelectual não lhe permite compreender padrões de civilidade. Por isso não compreende o conceito de soberania nacional, autodeterminação dos povos, independência de poderes e limites civilizatórios. O filme estadunidense ‘Amistad’, de 1997, de Steven Spielberg, baseado em eventos reais, retrata a luta de um grupo de africanos escravizados em território estadunidense, desde a revolta a bordo do navio ‘La Amistad’, em 1839, até o julgamento por um tribunal e sua libertação. A rainha da Espanha não compreendia a falta de poder do presidente dos EUA em liberar o navio apreendido e sua carga humana. Não adiantava a explicação de que a questão estava subordinada a um tribunal, que não haveria de sofrer ingerência para contemplação dos interesses de Sua Majestade.

Além da pressão ao STF para satisfazer entreguistas, o que contraria os EUA é a formação dos BRICs, a viabilidade de comércio intermediado pelas próprias moedas e a possibilidade de criação de uma moeda comum que não seja o dólar americano. Como escreveu o Estadão em seu editorial de quinta-feira (10), “que o Brasil não se vergue diante dos arreganhos de Trump. E que aqueles que são verdadeiramente brasileiros não se permitam ser sabujos de um presidente americano”, porque isso é “coisa de mafiosos’.

•        Criticados por viralatismo, governadores bolsonaristas mudam discurso sobre taxação de Trump

Os principais representantes do bolsonarismo nos governos estaduais têm acusado, em declarações públicas, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de “colocar a ideologia acima dos interesses do país”. No entanto, ao reagir à taxação de 50% sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos, os líderes da extrema direita revelam outros interesses em jogo e determinadas inconsistências no discurso.

Há uma estratégia que parece alinhada: culpar o governo brasileiro por supostamente “provocar” o presidente estadunidense. “As empresas e os trabalhadores brasileiros vão pagar, mais uma vez, a conta do Lula, da Janja e do STF. Ignorar a boa diplomacia, promover perseguições, censura e ainda fazer provocações baratas vai custar caro para Minas e para o Brasil”, publicou ainda na quarta-feira (9) o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).

Em sintonia, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) publicou na rede social X: “Lula colocou sua ideologia acima da economia e esse é o resultado. Tiveram tempo para prestigiar ditaduras, defender a censura e agredir o maior investidor direto no Brasil. Outros países buscaram a negociação. Não adianta se esconder atrás do Bolsonaro. A responsabilidade é de quem governa. Narrativas não resolverão o problema”.

A publicação foi respondida pela deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP), com uma foto do governador paulista usando um boné com as insígnias “Make América great again” [Faça a América grande de novo, em português], lema da campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, e o comentário: “Ops, você deixou cair essa foto aqui”.

Outro bolsonarista que se pronunciou horas após o anúncio de Trump foi Ronaldo Caiado (União), governador de Goiás. O político comparou Lula ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez que, segundo ele, “afrontava gratuitamente o governo americano” em nome da soberania. Na rede social X, o chefe do Executivo goiano acusa o presidente brasileiro de se “ajoelhar ao narcotráfico” e propõe que as negociações com o governo estadunidense sejam lideradas por uma comissão de parlamentares do Senado e da Câmara, sem a participação do governo federal.

“Com as medidas tomadas pelo governo americano, Lula e sua entourage tentam vender a tese da invasão da soberania do Brasil. Mas Lula não representa o sentimento patriótico do nosso povo, e muito menos tem credenciais para defender a soberania brasileira. Lula já se ajoelhou ao narcotráfico e quer de toda maneira se aliar aos países que são verdadeiras tiranias sustentadas pelo ódio, a corrupção e o terrorismo”, disse o governador e pré-candidato a presidente.

Nenhum dos três governadores mencionou, até o momento, a articulação realizada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para que o presidente estadunidense adotasse medidas de força sobre o Brasil, nem tampouco se referem ao fato de Trump haver mencionado, em tom de chantagem, o processo judicial que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) enfrenta na justiça.

<><> Mudança de discurso

Nas postagens feitas pelos governadores há uma chuva de comentários, a maioria negativos. Segundo um levantamento do instituto de pesquisa e inteligência de dados Nexus, o tema da sobretaxa aos produtos brasileiros acumulou mais de 240 milhões de impressões e 9,1 milhões de curtidas no X, nas primeiras horas após o anúncio de Trump. Termos como “respeita o Brasil”, “Brasil soberano” e “traidores da pátria” estiveram entre os mais mencionados na rede durante todo o dia.

Diante da má repercussão, alguns governadores amenizaram o discurso. Embora sigam reafirmando sua defesa a Bolsonaro, tratando-o como vítima de uma perseguição jurídica, os políticos bolsonaristas passaram a condenar abertamente a sobretaxa anunciada por Trump, de olho nas perdas econômicas que os próprios estados devem ter devido à sobretaxa.

No dia seguinte ao anúncio das tarifas, Romeu Zema publicou um vídeo na rede X em que afirma que “a taxação imposta pelo presidente Trump a produtos brasileiros é uma medida errada, injusta” e sugere que ela seja revista pelo governo estadunidense. Não sem antes acusar o Supremo Tribunal Federal (STF) de ter “motivação política” no julgamento de Jair Bolsonaro e afirmar que permanece ao lado do ex-capitão. O STF, estamos vendo, já passou dos limites”, disse o governador mineiro, que volta a criticar supostas “provocações e intromissões de Lula em assuntos dos Estados Unidos”.

Tarcísio de Freitas usou as redes sociais para publicar vídeo de um encontro matutino com o ex-presidente réu. “A dupla vassalo e vacilão indo comemorar a taxação trumpista. Traidores da pátria”, comentou um usuário da rede X.

Mais tarde, durante uma coletiva de imprensa em um evento das obras do metrô de São Paulo, o governador paulista reconheceu o impacto negativo da medida anunciada pelos Estados Unidos. “O impacto é negativo, porque, como eu falei, São Paulo é um grande exportador. O maior destino de exportações industriais do Estado de São Paulo são os Estados Unidos”, declarou. “Isso não é bom para os brasileiros nem para os americanos”, completou o governador, pedindo prioridade da diplomacia brasileira na solução do problema.

Ronaldo Caiado não voltou a se pronunciar sobre o assunto. Outros governadores do espectro bolsonarista ficaram calados. É o caso de Ratinho Jr (PSD), governador do Paraná, Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro, e Jorginho Mello, de Santa Catarina, que chegou a comemorar, dois dias antes, a publicação de Trump em defesa de Bolsonaro, mas não deu declarações públicas sobre a sobretaxa anunciada na quarta-feira.

Todos os governadores citados na matéria foram contactados para que pudessem se posicionar oficialmente ou mesmo atualizar suas posições relativas à sobretaxa de Trump. A assessoria de imprensa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, respondeu ao contato encaminhando o áudio da entrevista coletiva mencionada nesta matéria. Os demais posicionamentos, sendo recebidos, serão imediatamente inseridos no texto.

<><> Ideologia acima da economia?

A relação entre economia e política, por vezes naturalizada, também foi criticada pelos governadores bolsonaristas, que não dedicaram atenção aos impactos que as novas taxações podem causar em cada estado.

Segundo dados da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), 31% das exportações brasileiras no primeiro trimestre de 2025 tiveram como destino o mercado estadunidense, com um total de US$ 3 bilhões de dólares e uma variedade grande de produtos, entre os quais sucos de frutas, aeronaves e combustíveis.

São Paulo é o maior exportador brasileiro para o país do norte, com um volume de US$ 13,6 bilhões em produtos vendidos, seguido pelo Rio de Janeiro, em segundo lugar, responsável por 17,8% das exportações, ou o equivalente a US$ 1,7 bilhão de dólares, e Minas Gerais, com US$ 1,1 bilhão de dólares o maior valor para o período desde o início da série histórica do Comex Stat, em 1997.

O principal item enviado de Minas aos Estados Unidos foi o café não torrado, que respondeu por 41,5% dos embarques, seguido do ferro fundido e outros produtos semimanufaturados de ferro ou aço.

No caso de Goiás, embora a China seja ainda o principal destino das exportações goianas, o estado envia aos Estados Unidos grande parte da produção local de soja, carne, milho e açúcar.

<><> Tarcísio tentou articular viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos

A coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, revelou, nesta sexta-feira (11) que o governo paulista Tarcísio de Freitas telefonou para ministros do STF para sugerir que o Supremo autorizasse a ida de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos para se encontrar com Donald Trump.

Segundo a coluna, o governador teria argumentado que o ex-presidente teria capacidade de negociar com Trump para retroceder na taxação de produtos brasileiros, o que teria sido considerado um pedido “fora de propósito” pelos ministros da corte, além de ser percebido por alguns como uma tentativa de fuga do ex-presidente, réu do Supremo pela tentativa de golpe de Estado.

Além disso, os ministros do STF teriam considerado que, sendo ex-presidente, sem cargo político, não teria legitimidade para negociar com o presidente estadunidense, cabendo às autoridades diplomáticas do Brasil realizar tais negociações. Bolsonaro está com o passaporte apreendido e impedido de viajar para o exterior.

•        Haddad sobre Tarcisio: “ou é candidato a presidente ou é candidato a vassalo”

Durante entrevista coletiva com mídias independentes nesta quinta-feira (10), transmitida pelo canal do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criticou duramente a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar tarifas de 50% sobre produtos importados do Brasil e afirmou que a medida não tem respaldo econômico ou comercial. Segundo ele, trata-se de uma retaliação política articulada dentro do Brasil com a participação da família Bolsonaro.

A entrevista, conduzida por Larissa Gould, coordenadora do Barão de Itararé, teve a participação de veículos como Brasil 247, CartaCapital, Fórum, Diário do Centro do Mundo e TVT News.

“Não há racionalidade econômica na medida que foi tomada”, declarou Haddad. O ministro argumentou que os Estados Unidos são superavitários na balança comercial com a América do Sul e com o Brasil e, portanto, não haveria lógica econômica para aplicar a tarifa, mesmo quando era de apenas 10%. “Hoje nós estamos falando de uma tarifa insustentável, tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista político, de 50%.”

Segundo Haddad, a medida tem motivações políticas e foi “gestada dentro do Brasil”. Ele apontou diretamente a atuação da família Bolsonaro, sugerindo que a imposição tarifária foi articulada como forma de retaliação em meio às investigações judiciais que envolvem o ex-presidente Jair Bolsonaro. “A única explicação é de caráter político envolvendo a família Bolsonaro. Isso não é uma acusação infundada que eu estou fazendo. O próprio Eduardo Bolsonaro disse a público que se não vier o perdão, as coisas tendem a piorar.”

O ministro também criticou a reação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que, segundo ele, deveria se posicionar diante de uma medida que afeta diretamente setores econômicos do estado. “O governador errou muito, porque ou bem uma pessoa é candidata a presidente ou é candidata a vassalo. E não há espaço no Brasil para vassalagem. Desde 1822 isso acabou”, afirmou Haddad. Ele destacou que produtos afetados pela tarifa incluem o suco de laranja paulista e aviões da Embraer.

Na avaliação do ministro, a diplomacia brasileira tem plenas condições de reverter a situação. Ele destacou a atuação do Itamaraty e as relações históricas de cooperação entre Brasil e Estados Unidos. “Nós temos uma diplomacia reconhecida no mundo inteiro como uma das mais profissionais. Nosso Itamaraty sabe negociar, sabe sentar à mesa.”

Haddad também rejeitou qualquer insinuação de alinhamento automático do Brasil a blocos econômicos específicos, como os BRICS, e reiterou a política externa de multilateralismo. “O Brasil é grande demais para ser apêndice de um bloco econômico. Os nossos interesses com a Europa, com China, com Estados Unidos, eles são de tamanho equivalente.”

Na entrevista, o ministro enfatizou a complementaridade das cadeias produtivas entre os dois países e afirmou que o comércio bilateral, que inclui produtos industrializados e tecnologia, tem sido historicamente equilibrado. “Não há por que não voltar a discutir em bases econômicas que sejam boas para os dois lados.”

Por fim, Haddad reforçou que as sanções impostas por Trump são prejudiciais ao próprio Brasil e à indústria paulista, e se mostram insustentáveis inclusive para a extrema direita que, segundo ele, deu “um tiro no pé”. “Eu quero crer que esse tiro no pé vai ser revertido porque ele é insustentável.”

 

Fonte: O Dia/O Cafezinho/Brasil 247

 

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