Danilo
Paris: Impactos e consequências da tentativa de ingerência de Trump na política
brasileira
Desde o
apoio a ditaduras militares no âmbito do Plano Condor nos anos 1960-70 até as
interferências políticas mais recentes na região, os Estados Unidos mantêm uma
longa tradição de ingerência nos assuntos internos da América Latina, adaptando
suas ações às circunstâncias políticas de cada época, papel cumprido ora por
Republicanos, ora por Democratas.
Casos
recentes, como a prisão da ex-presidente argentina Cristina Kirchner, mostram
que essa ingerência segue com toda força. No Brasil, essa intervenção se
manifestou de forma explícita em 2016, com o golpe institucional.
Para
tanto, empregam diferentes meios, desde ações veladas e conspirativas, como as
conexões entre o Departamento de Estado norte-americano e setores do judiciário
brasileiro durante a Lava Jato, até medidas ostensivas e declaradas, como as
atuais tarifas comerciais e declarações de Donald Trump.
Sobre
essa intervenção mais recente, entre as 22 tarifas adicionais anunciadas por
Trump, a aplicada ao Brasil é a mais alta, superando até mesmo os 25%
estabelecidos para Japão e Coreia do Sul.
O
republicano já declarou que caso o Brasil decida retaliar elevando suas
próprias tarifas, os Estados Unidos aumentarão ainda mais a porcentagem,
somando novos valores aos 50% já previstos.
Na
carta enviada ao Brasil, Trump declarou que as tarifas são, em parte, uma
resposta ao que chamou de "aos ataques insidiosos do Brasil às eleições
livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos
americanos".
A
justificativa faz menção a medidas do STF (Supremo Tribunal Federal) que
determinaram a retirada de postagens de plataformas digitais dos EUA, além de
citar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que responde a um processo por
envolvimento nos reacionários atos de 8 de janeiro de 2023.
Ele
ainda afirmou que a forma como o Brasil tem tratado Bolsonaro é uma
"vergonha" e que o julgamento contra o ex-presidente é uma "caça
às bruxas que precisa ser encerrada". Para um bom entendedor, Trump não
economizou meias palavras.
A
taxação tem essa motivação política, e visa favorecer seu principal aliado e
seus interesses no Brasil, uma ingerência imperialista à moda antiga. Por isso
é uma tarefa de primeira ordem rechaçar todas as declarações e medidas
reacionárias de Trump.
- Reflexos na
política nacional: o discurso da “unidade nacional”
Lula
reagiu às taxações dizendo que não aceitará ser tutelado por ninguém e afirmou
que as taxações de Trump serão respondidas com base na Lei da Reciprocidade
Econômica que prevê que o Brasil deve taxar quem também o taxa. Apesar de
contraditório, no imediato, a ofensiva trumpista pode favorecer Lula, porque
cria um sentido de unidade nacional contra uma agressão estrangeira.
Ainda é
cedo para avaliar o alcance dessas medidas sobre a economia brasileira mais a
longo prazo, especialmente porque Trump pode rever sua decisão, como já ocorreu
antes, ou escalar o que traria consequências maiores. Diante das debilidades
estruturais da economia brasileira, fortemente dependente da exportação, em
particular das commodities (no caso dos EUA, vende petróleo bruto, ferro, aço,
entre outros produtos primários), uma guerra tarifária contra os EUA pode
trazer consequências maiores, que ainda estamos por ver.
No
entanto, no imediato, as taxações provocaram uma reação de um claro chamado a
unidade nacional entre diferentes frações das classes dominantes, sobre a qual
Lula está se apoiando.
É
expressivo que um dos setores que foi mais próximo ao bolsonarismo esteja se
realinhando e declarando suas críticas à Trump. O agronegócio emitiu diversos
comunicados de suas diferentes federações e entidades, com um discurso em
defesa da soberania e da unidade nacional.
O
deputado Fausto Pinato (PP-SP), integrante da Frente Parlamentar da
Agropecuária (FPA) formulou de uma maneira sintomática: “não é uma questão de
direita, centro ou esquerda. É uma questão de defender a soberania do nosso
País. Ou o Brasil se ajoelha ou enfrenta.”
Os
setores industriais mais fortes do país também se posicionaram. A FIESP
(Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a CNI (Confederação
Nacional das Indústrias) emitiram uma nota afirmando que a soberania nacional é
inegociável.
As
posições e editoriais dos grandes meios de comunicação corroboram esse
espírito, e também reflete setores importantes da economia nacional. O
editorial do Estadão conclama “que o Brasil não se vergue diante dos arreganhos
de Trump”.
Já a
Folha de São Paulo, em seu editorial “Chantagem rasteira de Trump não passará”,
não só declara seu apoio ao governo e seu direito de retaliar, como adverte a
oposição de direita encabeçada por Tarcísio. Segundo o editorial: “Ou bem
Tarcísio defende os exportadores paulistas e a soberania brasileira ou continua
posando de joguete de boné de um agressor estrangeiro e da família Bolsonaro.”
Um sinal de maiores contradições para a extrema-direita brasileira que
desenvolveremos a seguir.
- Após embates
entre o governo e o Congresso, a tendência é de repactuação
As
medidas de Trump vieram precisamente em meio aos conflitos entre Lula e o
Congresso. Após a rejeição do aumento do IOF, Lula adotou um discurso de
“justiça social”, posicionando-se como defensor dos pobres contra os
privilégios dos ricos - ainda que a medida em questão não representasse de fato
nenhuma mudança na desigual estrutura tributária brasileira.
Fato é
que a narrativa de Lula encontrou ressonância social, indicando um apoio maior
ao governo. Agora, com a medida agressiva de Trump, as divisões internas entre
os setores do regime e da Frente Ampla tendem a se atenuar momentaneamente,
criando um cenário mais favorável ao governo no curto prazo.
É
sintomático que seja justamente nesse momento que esteja em curso uma tentativa
de acordo entre governo e Congresso, com a possibilidade de retomada do aumento
do IOF ainda que em patamares menores do que o governo pretendia inicialmente.
Também
é muito importante e um claro sinal político de reaproximação com o governo às
declarações dos presidentes das duas casas do Congresso, Motta e Alcolumbre,
dizendo que a Lei de Reciprocidade garante soberania e que estão prontos para
agir contra as medidas de Trump.
Uma
primeira consequência desse embate e do ataque de Trump, na sequência da
disputa entre o Governo e o Congresso é uma enorme politização de amplos
setores da população, em todo o país.
Lula
provavelmente buscará tirar proveito político deste momento de tensão
internacional também do ponto de vista social. O presidente, que já vinha
recuperando apoio popular com seu discurso contra as elites, agora se posiciona
com a imagem de um grande opositor ao maior expoente da extrema-direita
mundial. Dessa localização antagônica a Trump, tende a buscar tirar vantagens
significativas para ampliar ou fortalecer um apoio social interno.
Após
meses de queda nas pesquisas e dificuldades para recompor sua base eleitoral, o
governo parece estar enxergando nessa crise uma oportunidade para ganhar novo
fôlego. Os primeiros sinais sugerem uma possível reversão na tendência de
desgaste. No entanto, esse efeito positivo dificilmente se sustentará no tempo
na medida em que não está acompanhado de ações concretas e que gerem impacto
material significativo.
A
realidade é que nenhum discurso, por mais eficiente que seja, substitui como a
população sente suas próprias condições de vida. E, apesar do discurso, o
governo continua deixando claro que não irá tomar medidas que teriam esse
impacto, na medida em que iriam contrariar os interesses burgueses com os quais
não só está comprometido, mas que são parte do núcleo do governo - como é a
revogação do arcabouço fiscal e de todos os cortes bilionários que decorrem
dele, e nem falar das reformas feitas por Bolsonaro e Temer, mas também uma
verdadeira taxação das grandes fortunas.
Ainda
assim, sabendo disso, o governo aponta para aproveitar o momento para negociar
em melhores condições a aprovação da ampliação da faixa de isenção do IR. Ainda
que seja, na verdade, uma mera correção pela inflação do que já era a faixa de
isenção há décadas atrás, isso pode ser sentido por amplos setores como uma
concessão material deste governo, e é nisso que ele aposta. Se o governo não
conseguir fazer isso rapidamente, ou não for suficiente, o atual momento
favorável pode rapidamente se converter em nova onda de frustração.
Por
isso, o impacto da situação atual ainda pode ocorrer de diferentes maneiras,
dependendo do setor social. Naqueles mais politizados pode se dar uma
aproximação maior com Lula diante dessa conjuntura, dinâmica que será distinta
em setores mais amplos onde tem mais peso às condições de vida mais concretas.
Ao
mesmo tempo que o novo cenário é mais favorável para Lula buscar recompor uma
base social e buscar uma repactuação entre diferentes setores do regime, ele
também joga maiores contradições sobre a política da extrema-direita que segue
alinhada a Bolsonaro, em particular sobre o governador do estado de São Paulo,
Tarcísio de Freitas.
Foi ele
quem comemorou entusiasticamente a eleição de Trump, posando com um boné do
movimento MAGA (Make America Great Again - "Torne a América Grande
Novamente", em tradução livre, slogan de Trump) em suas redes sociais. Na
semana passada, compartilhou a postagem de Trump em apoio a Bolsonaro e afirmou
que o ex-presidente do Brasil "deve ser julgado somente pelo povo
brasileiro, durante as eleições".
Diante
dos impactos econômicos evidentes e de suas consecutivas consequências
políticas, precisou declarar que “o tarifaço é deletério”, chamando a
negociações independente de “questões ideológicas”.
Uma
situação que é desvantajosa para ele, que fica encurralado entre a defesa da
família Bolsonaro e a reação de grupos econômicos importantes do país afetados
pelo tarifaço, incluindo setores mais próximos a ele, como o agronegócio, com
alguns deles já declarando que podem colapsar ou ter grandes problemas como o
setor ligado à produção de laranja e carne.
- Um imperialismo
mais agressivo no contexto de crise de hegemonia dos EUA
Essas
movimentações se inserem em uma nova situação internacional cada vez mais tensa
a partir da ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, que
acirrou conflitos geopolíticos em diversos âmbitos. Há pouco tempo, Trump
bombardeou as instalações nucleares do Irã, o primeiro ataque direto ao país em
décadas feito pelos EUA.
O que
agora afeta mais diretamente o Brasil é uma marca do método Trump de governar e
negociar, mantendo sempre uma dúvida se suas declarações e chantagens mais
extremas são provocações ou um plano concreto, o que gera uma permanente
instabilidade internacional.
Em
realidade, o maior “nacionalismo econômico” e as guerras comerciais de Trump
são consequência da crise capitalista iniciada em 2008 e que representou um
esgotamento do modelo neoliberal. Foi isso que inaugurou uma fase marcada pelo
retorno das contradições clássicas do imperialismo, como as guerras (incluindo
as comerciais) e crises econômicas - o que pode desatar processos mais
convulsivos na luta de classes, não custa lembrar.
Vale
destacar que, entre os objetivos de Trump, está a oposição às iniciativas dos
BRICS. Após a última cúpula do bloco, ele declarou que os países membros e
aqueles que aderirem às suas políticas sofrerão tarifas adicionais de 10%.
Apesar de afirmar que o grupo não representa ’uma ameaça séria’, Trump
reafirmou que ’o dólar é rei’ e que os EUA trabalharão para mantê-lo nessa
posição.
Enquanto
promove medidas para enfraquecer o Brasil e os BRICS, Trump concentra esforços
significativos no apoio ao seu principal aliado regional, Javier Milei. Diante
de uma permanente escassez de reservas internacionais, o governo argentino
conseguiu alcançar uma relativa estabilização inflacionária graças a um dos
maiores pacotes de ajuda financeira já concedidos pelo FMI na história, que não
teria ocorrido do modo como ocorreu sem uma ajuda ativa de Trump.
De
fundo, todo esse cenário se insere no contexto de uma reação à prolongada
decadência da hegemonia estadunidense, com uma atuação imperialista mais
agressiva em função dos seus objetivos.
O
massacre selvagem que ocorre contra o povo palestino e os bombardeios ao Irã se
inserem nesse novo mundo convulsivo, no qual o Brasil começa a entrar mais
diretamente dentro das coordenadas mais violentas do imperialismo, que cada vez
mais vem assumindo um modo de ingerência abertamente intervencionista, em
paticular na América Latina.
- A construção de
uma mobilização realmente anti-imperialista
A
classe dominante brasileira tem um histórico de subserviência ao imperialismo
dos EUA. Embora hoje se posicione contra as medidas protecionistas de Trump,
sua trajetória histórica revela uma profunda subordinação aos interesses do
imperialismo norte-americano.
As
atuais tarifas atingem diretamente seus lucros e investimentos, criando um
conflito momentâneo. No entanto, os vínculos estruturais que unem as elites
nacionais às suas congêneres dos EUA permanecem intactos e continuam
reproduzindo a posição dependente do Brasil no cenário internacional e impondo
condições de vida mais precárias às grandes maiorias populares.
A
FIESP, que hoje se ergue em defesa da soberania nacional, tem um histórico
marcado por subserviência ao imperialismo. Foi essa mesma entidade que, em
1964, atuou ativamente na articulação do golpe militar, financiando inclusive
os aparatos repressivos da ditadura.
Seu
papel antidemocrático não se limitou ao passado distante: nas vésperas do golpe
institucional de 2016, os patos amarelos tornaram-se ícones dos protestos que
pavimentaram o caminho para o impeachment de Dilma Rousseff.
Do
mesmo modo, não se pode nunca esquecer que o agronegócio brasileiro desempenhou
um papel fundamental como base de apoio ao governo Bolsonaro - um setor que
sistematicamente atacou direitos básicos e promoveu um modelo de
desenvolvimento predatório, com impactos ambientais devastadores.
Portanto,
é essencial compreender o caráter reacionário dessa política de suposta
’unidade nacional’ contra Trump. É preciso identificar os atores envolvidos
nessa disputa, pois, no fim das contas, as diferentes frações da burguesia
atuarão justamente para bloquear qualquer mobilização anti-imperialista, já que
isso poderia se voltar contra seus interesses particulares.
A
chamada "unidade nacional" que o governo Lula pretende representar,
na realidade, é uma verdadeira armadilha para a luta anti-imperialista. Essa
falsa noção de que a unidade entre classes seria necessária para enfrentar
Trump serve apenas para desmobilizar trabalhadores e jovens, diluindo e
enfraquecendo sua força.
Na
prática, quem comandará esse discurso de unidade nacional será justamente a
Frente Ampla - e quanto mais as pessoas depositam esperanças em soluções vindas
de cima, menos preparadas estarão para resistir quando os ataques se
intensificarem.
Essa
política, longe de defender os interesses nacionais, na verdade enfraquece a
única força capaz de enfrentar de verdade as ameaças imperialistas que é a
organização independente da classe trabalhadora em conjunto com as massas
populares.
O papel
do Supremo Tribunal Federal nesse embate é revelador. Embora hoje se coloque em
rota de colisão com Trump, é o mesmo STF que, através de decisões e declarações
como as do ministro Barroso - que afirmou que "excesso de proteção
desprotege" -, legitima a precarização das relações de trabalho. Como
esperar que milhões de trabalhadores de aplicativos, sujeitos a jornadas
exaustivas e direitos mínimos, vejam nesse Judiciário um aliado contra o
imperialismo?
Além
disso, a oposição de Lula a Trump esbarra em contradições gritantes quando
observamos suas ações concretas. Enquanto critica o imperialismo
norte-americano em discursos, seu governo mantém relações econômicas e
diplomáticas intactas com Israel.
Segundo
a própria ONU, a Petrobras é uma das principais fornecedoras de combustível que
segue abastecendo o maquinário de guerra sionista. Ao mesmo tempo, Lula protege
os interesses do capital financeiro dos EUA, pagando religiosamente a dívida
pública e blindando os credores com o Arcabouço Fiscal.
Também
é importante dizer que a ilusão de que o Brasil pode se livrar da dominação dos
EUA simplesmente trocando de parceiro comercial - substituindo Washington por
Pequim ou Moscou - é uma armadilha perigosa para a classe trabalhadora.
A China
não é alternativa, seu tipo de capitalismo selvagem, impulsionado pelo Estado
como promotor da lei do valor, impõe condições brutais de superexploração aos
seus operários, um Estado que por óbvio não é aliado da luta da classe
trabalhadora brasileira. A diplomacia entre países capitalistas não é nossa
saída, ao contrário, o grito de guerra pela união dos trabalhadores do mundo é
que mantém toda a sua vitalidade nos tempos atuais.
Todos
aqueles que se dizem de esquerda e que sentem repulsa à agressividade
imperialista de Trump precisam urgentemente exigir das grandes centrais
sindicais e da UNE a romper com a passividade e construir uma luta unificada
contra o imperialismo de Trump e pelos direitos das grandes maiorias sociais.
Isso
exige a coordenação da mobilização em todos os locais de trabalho e estudo,
lutando por uma greve geral que combine a resistência às ingerências externas
com um programa concreto: derrubar o Arcabouço Fiscal que estrangula o país,
lutar pelo não pagamento da dívida pública, taxar verdadeiramente as grandes
fortunas e lucros dos banqueiros, acabar com a escala 6x1 que impõe as piores
condições de trabalho aos trabalhadores e garantir direitos plenos. Não basta
discursos, precisamos de ações que enfrentem simultaneamente o imperialismo e
os ataques, unindo a luta antiimperialista com as reivindicações da classe
trabalhadora.
Fonte:
Esquerda Diário

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