Barroso
diz em carta que tarifa de Trump se baseia em 'compreensão imprecisa dos fatos'
Em
carta divulgada neste domingo (13), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, afirmou que a
tarifa de 50% anunciada por Donald Trump sobre as exportações brasileiras se
baseia em uma "compreensão imprecisa" dos fatos ocorridos nos últimos
anos o Brasil.
"Em
9 de julho último, foram anunciadas sanções que seriam aplicadas ao Brasil, por
um tradicional parceiro comercial, fundadas em compreensão imprecisa dos fatos
ocorridos no país nos últimos anos", afirmou Barroso.
O
ministro afirmou, ainda, que diferentes visões de mundo "não dão direito a
ninguém de torcer a verdade ou negar os fatos concretos que todos viram e
viveram". Barroso termina o texto dizendo que "como as demais
instituições do país, o Judiciário está ao lado dos que trabalham a favor do
Brasil e está aqui para defendê-lo."
Esta é
a primeira manifestação do STF a respeito do anúncio feito por Donald Trump,
que alegou que a tarifa seria aplicada em razão do que chama de "caça às
bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que é réu no Supremo
por tentativa de golpe de Estado.
Na
carta, Barroso citou o histórico de tentativas de ruptura institucional
ocorridas nos últimos 90 anos no país – incluindo o golpe de 1964 – e, em
seguida, episódios que aconteceram no Brasil a partir de 2019, como:
- a tentativa de
atentado terrorista a bomba no aeroporto de Brasília;
- a tentativa de
explosão de bomba no Supremo Tribunal Federal (STF);
- as acusações
falsas de fraude eleitoral na eleição presidencial; e
- a tentativa de
golpe que, segundo a Procuradoria-Geral da República, incluía o plano para
assassinar o presidente Lula (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB)
e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
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Julgamento do golpe
Barroso
afirmou que "no Brasil de hoje, não se persegue ninguém. Realiza-se a
justiça, com base nas provas e respeitado o contraditório" e que o STF vai
fazer o julgamento da denúncia da tentativa de golpe de Estado "com
independência e com base nas evidências". E complementou:
"Se
houver provas, os culpados serão responsabilizados. Se não houver, serão
absolvidos. Assim funciona o Estado democrático de direito", afirmou.
<><>
Julgamento sobre responsabilidade das redes sociais
Barroso
negou, na carta, que exista censura no Brasil – outro argumento usado por Trump
ao anunciar a taxa de 50%, citando exemplos de julgamentos recentes da Corte.
"(...)
entre outras decisões, declarou inconstitucionais a antiga Lei de Imprensa,
editada no regime militar (ADPF 130), as normas eleitorais que restringiam o
humor e as críticas a agentes políticos durante as eleições (ADI 4.1451), bem
como as que proibiam a divulgação de biografias não autorizadas (ADI 4815).
Mais recentemente, assegurou proteção especial a jornalistas contra tentativas
de assédio pela via judicial (ADI 6792)."
O
presidente do STF também tratou, na carta, do julgamento sobre a
responsabilidade das redes sociais. Em junho, a Corte definiu que elas
podem, em determinadas condições, ser
responsabilizadas por posts dos usuários.
"O
STF produziu solução moderada, menos rigorosa que a regulação europeia,
preservando a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de
empresa e os valores constitucionais", afirmou.
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Veja íntegra da carta
Em 9
de julho último, foram anunciadas sanções que seriam aplicadas ao Brasil, por
um tradicional parceiro comercial, fundadas em compreensão imprecisa dos fatos
ocorridos no país nos últimos anos. Cabia ao Executivo e, particularmente, à
Diplomacia – não ao Judiciário – conduzir as respostas políticas imediatas,
ainda no calor dos acontecimentos. Passada a reação inicial, considero de meu
dever, como chefe do Poder Judiciário, proceder à reconstituição serena dos
fatos relevantes da história recente do Brasil e, sobretudo, da atuação do
Supremo Tribunal Federal.
As
diferentes visões de mundo nas sociedades abertas e democráticas fazem parte da
vida e é bom que seja assim. Mas não dão a ninguém o direito de torcer a
verdade ou negar fatos concretos que todos viram e viveram. A democracia tem
lugar para conservadores, liberais e progressistas. A oposição e a alternância
no poder são da essência do regime. Porém, a vida ética deve ser vivida com
valores, boa-fé e a busca sincera pela verdade. Para que cada um forme a sua
própria opinião sobre o que é certo, justo e legítimo, segue uma descrição
factual e objetiva da realidade.
Começando
em 1985, temos 40 anos de estabilidade institucional, com sucessivas eleições
livres e limpas e plenitude das liberdades individuais. Só o que constitui
crime tem sido reprimido. Não se deve desconsiderar a importância dessa
conquista, num país que viveu, ao longo da história, sucessivas quebras da
legalidade constitucional, em épocas diversas.
Essas
rupturas ou tentativas de ruptura institucional incluem, apenas nos últimos 90
anos: a Intentona Comunista de 1935, o golpe do Estado Novo de 1937, a
destituição de Getúlio Vargas em 1945, o contragolpe preventivo do Marechal
Lott em 1955, a destituição de João Goulart em 1964, o Ato Institucional nº 5
em 1968, o impedimento à posse de Pedro Aleixo e a outorga de uma nova
Constituição em 1969, os anos de chumbo até 1973 e o fechamento do Congresso,
por Geisel, em 1977. Levamos muito tempo para superar os ciclos do atraso. A
preservação do Estado democrático de direito tornou-se um dos bens mais
preciosos da nossa geração. Mas não foram poucas as ameaças.
Nos
últimos anos, a partir de 2019, vivemos episódios que incluíram: tentativa de
atentado terrorista a bomba no aeroporto de Brasília; tentativa de invasão da
sede da Polícia Federal; tentativa de explosão de bomba no Supremo Tribunal
Federal (STF); acusações falsas de fraude eleitoral na eleição presidencial;
mudança de relatório das Forças Armadas que havia concluído pela ausência de
qualquer tipo de fraude nas urnas eletrônicas; ameaças à vida e à integridade
física de Ministros do STF, inclusive com pedido de impeachment; acampamentos
de milhares de pessoas em portas de quarteis pedindo a deposição do presidente
eleito. E, de acordo com denúncia do Procurador-Geral da República, uma
tentativa de golpe que incluía plano para assassinar o Presidente da República,
o Vice e um Ministro do Supremo.
Foi
necessário um tribunal independente e atuante para evitar o colapso das
instituições, como ocorreu em vários países do mundo, do Leste Europeu à
América Latina. As ações penais em curso, por crimes diversos contra o Estado
democrático de direito, observam estritamente o devido processo legal, com
absoluta transparência em todas as fases do julgamento. Sessões públicas,
transmitidas pela televisão, acompanhadas por advogados, pela imprensa e pela
sociedade.
O
julgamento ainda está em curso. A denúncia da Procuradoria da República foi
aceita, como de praxe em processos penais em qualquer instância, com base em
indícios sérios de crime. Advogados experientes e qualificados ofereceram o
contraditório. Há nos autos confissões, áudios, vídeos, textos e outros
elementos que visam documentar os fatos. O STF vai julgar com independência e
com base nas evidências. Se houver provas, os culpados serão responsabilizados.
Se não houver, serão absolvidos. Assim funciona o Estado democrático de
direito.
Para
quem não viveu uma ditadura ou não a tem na memória, vale relembrar: ali, sim,
havia falta de liberdade, tortura, desaparecimentos forçados, fechamento do
Congresso e perseguição a juízes. No Brasil de hoje, não se persegue ninguém.
Realiza-se a justiça, com base nas provas e respeitado o contraditório. Como
todos os Poderes, numa sociedade aberta e democrática, o Judiciário está
sujeito a divergências e críticas. Que se manifestam todo o tempo, sem qualquer
grau de repressão. Ao lado das outras instituições, como o Congresso Nacional e
o Poder Executivo, o Supremo Tribunal Federal tem desempenhado com sucesso os
três grandes papeis que lhe cabem: assegurar o governo da maioria, preservar o
Estado democrático de direito e proteger os direitos fundamentais.
Por
fim, cabe registrar que todos os meios de comunicação, físicos e virtuais,
circulam livremente, sem qualquer forma de censura. O STF tem protegido
firmemente o direito à livre expressão: entre outras decisões, declarou
inconstitucionais a antiga Lei de Imprensa, editada no regime militar (ADPF
130), as normas eleitorais que restringiam o humor e as críticas a agentes
políticos durante as eleições (ADI 4.1451), bem como as que proibiam a
divulgação de biografias não autorizadas (ADI 4815). Mais recentemente,
assegurou proteção especial a jornalistas contra tentativas de assédio pela via
judicial (ADI 6792).
Chamado
a decidir casos concretos envolvendo as plataformas digitais, o STF produziu
solução moderada, menos rigorosa que a regulação europeia, preservando a
liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de empresa e os
valores constitucionais. Escapando dos extremos, demos um dos tratamentos mais
avançados do mundo ao tema: conteúdos veiculando crimes em geral devem ser
removidos por notificação privada; certos conteúdos envolvendo crimes graves,
como pornografia infantil e terrorismo devem ser evitados pelos próprios
algoritmos; e tudo o mais dependerá de ordem judicial, inclusive no caso de
crimes contra honra.
É
nos momentos difíceis que devemos nos apegar aos valores e princípios que nos
unem: soberania, democracia, liberdade e justiça. Como as demais instituições
do país, o Judiciário está ao lado dos que trabalham a favor do Brasil e está
aqui para defendê-lo.
¨
Presidente do STM sai em defesa de Barroso após ataques
de Trump: "proteger a soberania nacional"
A
presidente do Superior Tribunal Militar (STM), ministra Maria Elizabeth Rocha,
divulgou nesta segunda-feira (14) uma nota em que expressa "irrestrita
solidariedade" ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro
Luís Roberto Barroso. A manifestação foi publicada após Barroso tornar pública
uma carta institucional em resposta à decisão do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, de aplicar medidas tarifárias contra o Brasil e, no mesmo
movimento, criticar o processo judicial contra Jair Bolsonaro (PL).
De
acordo com a ministra do STM, a resposta de Barroso foi “altiva e pedagógica” e
esteve “à altura das justas expectativas das nossas instituições e do povo
brasileiro”. Ela considerou a iniciativa do presidente do STF legítima diante
da “ambiência político-institucional” enfrentada atualmente no país.
Maria
Elizabeth também enfatizou que cabe ao Judiciário, amparado pela Constituição,
“proteger a soberania nacional, o pleno funcionamento da democracia, a
independência e livre manifestação dos Poderes da República”. Em sua avaliação,
a existência de um Judiciário “forte e independente” é uma condição essencial
para a preservação do Estado Democrático de Direito.
Ao
avaliar o cenário político atual, a presidente do STM alertou para o que
classificou como um momento de “tensionamento” no país, provocado por
“descabidas e inéditas intromissões externas”. Ela defendeu a necessidade de
pacificação institucional e de superação da polarização política. “O Brasil
precisa de paz para promover seu desenvolvimento com inclusão social”, afirmou.
No
domingo (13), o ministro Luís Roberto Barroso divulgou uma carta na qual, sem
mencionar diretamente os Estados Unidos ou Trump, listou episódios de tentativa
de ruptura institucional ao longo da história brasileira. Ele citou desde
eventos ocorridos a partir de 2019, como a tentativa de ataque com bomba ao
aeroporto de Brasília e ao próprio STF, até as acusações infundadas de fraude
nas eleições presidenciais — usadas como base para o incentivo à desconfiança
no processo democrático e, mais tarde, para a tentativa de golpe de Estado após
a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 2022.
Barroso
destacou que o STF julgará os envolvidos na trama golpista “com independência e
com base nas evidências”, assegurando que “se houver provas, os culpados serão
responsabilizados. Se não houver, serão absolvidos. Assim funciona o Estado
democrático de direito”.
O
ministro também refutou os ataques ao Judiciário disfaçados de liberdade de
expressão. “Só quem viveu uma ditadura sabe o que é falta de liberdade,
tortura, desaparecimentos forçados e perseguição a juízes”, escreveu, numa
crítica indireta à relativização de regimes autoritários e em defesa da memória
histórica brasileira.
Leia a
íntegra da nota do STM:
“O
Superior Tribunal Militar vem, por sua Ministra-Presidente, formalizar
manifestação de irrestrita solidariedade e de pleno apoio aos termos da Carta
trazida a público pelo Ministro Luís Roberto Barroso, Presidente do Supremo
Tribunal Federal (STF).
O seu
conteúdo, altivo e pedagógico, correspondeu às justas expectativas das nossas
instituições e do povo brasileiro. A pertinência e a legitimidade de sua
iniciativa acham-se plenamente justificadas pelas circunstâncias presentes na
atual ambiência político-institucional.
A
realidade ora vivenciada pela sociedade brasileira, bem assim as situações de
tensionamento provocadas por descabidas e inéditas intromissões externas na
vida do nosso país, estavam a reclamar uma posição firme e corajosa do Poder
Judiciário brasileiro, que tem o direito, constitucionalmente assegurado, de
proteger a soberania nacional, o pleno funcionamento da democracia, a
independência e livre manifestação dos Poderes da República, bem como garantir
a inviolabilidade dos direitos fundamentais do seu povo.
Os
países civilizados reconhecem a supremacia de sua Constituição, a separação
harmônica e independente dos órgãos de Estado e a garantia dos direitos
fundamentais como pressupostos básicos de um Estado Democrático de Direito, que
se apresenta como um valor fundante de uma nação soberana e civilizada.
Sem um
Poder Judiciário forte e independente, não se pode falar em Estado Democrático
de Direito nem em segurança jurídica, capazes de oferecer à sociedade a busca
por sua justa realização e felicidade.
O
Brasil precisa de paz para poder promover o seu desenvolvimento com inclusão
social, para o que é desejável que se supere essa desnecessária polarização no
seio da nossa sociedade.
Para
isso, a contribuição da nossa classe política e dirigente tem um papel
importante a cumprir, com lucidez e acentuado espírito público na condução
deste país ao seu grande destino, que é o de ser uma nação próspera e
desenvolvida, onde o seu povo possa encontrar sua justa realização e plena
felicidade.
ASS.: Maria
Elizabeth Rocha
¨ Bolsonaro vincula
tarifaço de Trump a anistia e mina esforços de aliados para responsabilizar
Lula
A
postagem deste domingo (13) na qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) vinculou o tarifaço de Donald Trump à
aprovação da anistia frustrou aliados do Centrão que tentam, há dias,
atribuir ao governo Lula a responsabilidade sobre a taxa imposta pelo americano
a produtos brasileiros.
Desde a
ameaça da sanção, na última quarta-feira (9), governadores da oposição,
inclusive Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, e Romeu Zema
(Novo), de Minas Gerais, deram declarações culpando a diplomacia de Lula (PT)
pela promessa de ampliar em 50% as tarifas sobre produtos brasileiros a partir
de agosto.
Percebendo
a reação, em especial de empresários e industriais de São Paulo, Tarcísio
recuou – e muito – no tom. Disse, no sábado (12), que era preciso despolitizar
o tema e buscar "união nacional" para solucionar o impasse.
Ato
contínuo, Bolsonaro, neste domingo, fez a postagem dizendo que só a
anistia trará paz econômica, vinculando diretamente o tarifaço ao fim da
responsabilização da tentativa de golpe em 2023.
Um
aliado, que liderava a montagem do discurso para ligar Lula ao tarifaço, reagiu
de imediato ao gesto do ex-presidente: "É difícil".
¨ Tarifaço de Trump:
governo Lula seguirá na defesa da soberania para fragilizar Bolsonaro e seu
grupo
O
governo Lula seguirá nesta
semana nos campos político e técnico sua estratégia de atuar contra o tarifaço de 50% a produtos
brasileiros vendidos
para os Estados Unidos.
No
campo político, o governo vai intensificar o discurso nas redes
sociais e nas entrevistas de Lula em defesa da soberania nacional para
fragilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo.
Pela
primeira vez desde o início do ano, o governo está liderando o debate nas redes
sociais com dois temas: o da justiça tributária e da união do país contra o
ataque de Donald Trump, em associação com
Bolsonaro, aos interesses do país e dos brasileiros.
No
campo técnico, o governo vai regulamentar a Lei da Reciprocidade
Econômica para ser usada caso as tarifas de 50% sejam mantidas.
Além
disso, reuniões com empresários serão realizadas para definir uma estratégia de
negociação com o governo de Donald Trump, com a criação de um comitê integrado
pelo governo e setor empresarial.
Enquanto
isso, a pressa demonstrada por bolsonaristas para que a pressão de Trump tenha
o efeito desejado — de evitar que Bolsonaro e seus ex-assessores sejam
condenados — está diretamente ligada ao ritmo do julgamento da ação penal.
O
chamado "núcleo crucial" da trama golpista, que reúne o ex-presidente
e equipe, pode ser julgado em breve, até setembro.
Por
isso, os bolsonaristas insistem que a única forma de o país ser
"perdoado" por Trump é a aprovação de uma anistia ampla, geral e irrestrita
para os golpistas. Só que, antes do recesso parlamentar, não há tempo viável.
Nem
clima: avaliação dentro do Legislativo é que aprovar anistia para ceder a
uma chantagem de Trump seria o mesmo que o país perder sua soberania.
No STF,
o processo segue seus passos normais. A Procuradoria Geral da República
(PGR) entrega nesta segunda as alegações
finais contra o núcleo crucial, o acusado de planejar o golpe para evitar a
posse de Lula.
Enquanto
isso, a Primeira Turma começará a
interrogar os réus dos núcleos 3 e 4, responsáveis, segundo a PGR, de colocar em
prática o plano elaborado pelo núcleo crucial.
Fonte:
g1/Brasil 247

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