Gilberto
Menezes Côrtes: Trump e Bolsonaro fazem ataque 'hacker' ao Brasil
Imagine,
caro leitor, se ainda estivessem vivas a filósofa judia alemã, Hanna Arendt, e
a escritora Barbara W. Tuchman, considerada a maior historiadora americana, o
que diriam dos argumentos do presidente Donald Trump para ameaçar taxação de
50% sobre as exportações brasileiras aos Estados Unidos, a partir de 1º de
agosto? Hanna Arendt assistiu ao Julgamento de Nuremberg, e cunhou a expressão
“banalidade do mal” para definir a indiferença que sentiu por parte dos réus,
altos oficiais nazistas, que diziam cumprir as ordens de Adolf Hitler que
levaram à “solução final” e ao holocausto de seis milhões de judeus na Segunda
Guerra Mundial. Barbara Tuchman, ganhadora do Prêmio Pulitzer por antecipar a
primeira guerra mundial, ficou famosa pela sua obra “A marcha da insensatez”,
que aborda (desde Troia até o Vietnã) o paradoxo de governos que insistem em
caminhos errados.
O
saudoso deputado Ulysses Guimarães, que presidiu a Assembleia Nacional
Constituinte, disse, em discurso, ao promulgar a Constituição Federal, em 5 de
outubro de 1988, que “Traidor da Constituição é traidor da pátria”. O que
diriam ele e as duas pensadoras ao saber que, derrotado na campanha da
reeleição por Lula, para quem não reconheceu a derrota em 30 de outubro de
2022, Bolsonaro passou a conspirar um golpe contra o Estado Democrático de
Direito, para impedir a posse de Lula e do vice, Geraldo Alckmin? Para não
passar a faixa presidencial a Lula, Jair Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos
em 30 de dezembro de 2022. Antes, estimulou os radicais bolsonaristas a acampar
diante dos quartéis e marchar sobre Brasília, em 8 de janeiro de 2023, com a
invasão e depredação das sedes dos Três Poderes da República. Entre os 33
asseclas acusados na tentativa de golpe para mudar o resultado eleitoral
circulou o Plano “Punhal verde amarelo”, que previa o sequestro e morte de
Lula, de Alckmin e do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de
Moraes, que, à época, presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Usando
o argumento de que está havendo “uma caça às bruxas”, uma perseguição política
ao ex-presidente Jair Bolsonaro, ideia “vendida” ao presidente dos Estados
Unidos e aos subterrâneos do governo Trump, o filho 03 do ex-presidente, o
deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se licenciou do cargo em março
para ficar nos EUA, tramou, junto com o economista e ex-comentarista da Jovem
Pan, Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar, o general
João Barista Figueiredo (que também não passou a faixa ao vice-presidente José
Sarney), para convencer a ultradireita do Partido Republicano de que o Brasil
vive sob ditadura, e assim impor sanções contra Alexandre de Moraes e o STF. A
cruzada, que é contra Moraes e o STF, acabou convencendo Trump a agir contra o
governo Lula, argumentando ainda (o que é uma mentira) que o Brasil acumulava
superávits comerciais contra os Estados Unidos. Aparentemente, foi um erro do
“copia e cola”, pois repetiu os termos das cartas justificando tarifas a países
com saldo.
Se o
caro leitor, assim como as duas brilhantes escritoras do primeiro parágrafo, já
está achando o enredo rocambolesco e incompreensível, imagina como a alma do
Dr. Ulysses estaria inconformada ao saber que a dupla que se intitula a
vanguarda dos patriotas aproveitou que Trump está preocupado com a progressiva
perda de importância do dólar como moeda de troca e de reserva (depois de seus
agressivos tarifaços os maiores bancos centrais reduziram ainda mais a posição
de suas reservas em dólar) e se irritou com um discurso do presidente Lula no
encontro do Brics no Rio, no qual proclamou a maior aproximação comercial, com
trocas bilaterais de moedas, entre os 11 integrantes, para envenenar o irado
presidente americano, que dispara tarifas pelo mundo afora.
Na
carta que enviou ao presidente Lula, quarta-feira, 9 de julho, divulgada antes
em rede social, o que feriu regras diplomáticas, Trump invocou uma suposta
perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e exigiu,
“IMEDIADIATAMENTE" [na internet, o uso de letras maiúsculas equivale a
gritos], a suspensão dos processos contra o ex-presidente e a sua liberdade”,
em clara intromissão na soberania brasileira e em assuntos internos do Poder
Judiciário. Jair Bolsonaro responde no Supremo Tribunal Federal, em liberdade e
assistido por advogados, a processo pela tentativa de golpe contra o Estado
Democrático de Direito. Em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em
2023, Bolsonaro foi condenado por abuso de poder e ficou inelegível até 2030.
<><>
Tiro pela culatra
O uso
da chantagem política para ameaçar os altos interesses do comércio exterior do
Brasil e pode infligir sérios prejuízos a negócios de empresas, com risco ao
emprego de milhares de trabalhadores em vários estados do Brasil, caiu muito
mal entre os empresários e deu munição ao governo Lula para liderar uma
campanha nacionalista em defesa dos interesses brasileiros. O argumento
econômico foi desmentido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e pela
Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham).
A
Amcham Brasil divulgou sexta-feira, 11 de julho, o “Monitor do Comércio
Brasil-Estados Unidos”, referente ao primeiro semestre deste ano, que desmente
radicalmente a afirmação de Donald Trump de que o Brasil impõe déficits
comerciais históricos aos EUA para justificar a ameaça de taxar em 50% as
exportações brasileiras a partir de 1º de agosto. Haddad já demonstrou que os
EUA acumulam superávits de US$ 400 bilhões na balança comercial com o Brasil
desde 2009. E a Amcham lembrou que “o superávit comercial dos Estados Unidos em
relação ao Brasil no primeiro semestre deste ano alcançou US$ 1,7 bilhão”, o
que representou “um aumento de aproximadamente 500% em comparação com o mesmo
período de 2024”.
<><>
Amcham defende diálogo diplomático
Embora
neste século tenha sido superado pelos Países Baixos e a Espanha no apetite por
novos investimentos no Brasil, os Estados Unidos ainda são os maiores
investidores estrangeiros no país. E o comércio no primeiro semestre registrou
mais crescimento para o lado americano. De janeiro a junho de 2025, a corrente
de comércio entre Brasil e EUA somou US$ 41,7 bilhões, o segundo maior valor da
série histórica. As exportações brasileiras aumentaram 4,4%, somando US$ 20
bilhões, com destaque para carne bovina (+142%), sucos de frutas (+74%), café
não torrado (+39%) e aeronaves (+12,1%). Já as importações brasileiras de
produtos norte-americanos cresceram em ritmo mais acelerado, com alta de 11,5%,
alcançando US$ 21,7 bilhões, com saldo favorável aos Estados Unidos de US$ 1,7
bilhão no período.
Diante
dos prejuízos já causados às exportações de aço e alumínio, taxadas em 25%, e o
risco ainda maior com a taxação de 50%, o presidente da Amcham Brasil, Abrão
Neto, reforça o apelo por solução negociada para evitar novas tarifas. “Os
resultados do primeiro semestre mostram a relevância do comércio bilateral para
ambas as economias e reforçam a necessidade de buscar solução equilibrada e
pragmática, com esforço diplomático coordenado entre os dois governos, diante
da escalada tarifária prevista para o curto prazo”, afirma o presidente da
Amcham Brasil. “Estamos ante um grave cenário que pode inviabilizar boa parte
das exportações brasileiras aos Estados Unidos, sobretudo bens industriais, com
prejuízos para ambas as economias. Há risco de impactos severos sobre empregos,
investimentos e cadeias produtivas integradas. O caminho deve ser o
entendimento, que sempre caracterizou as relações entre Brasil e Estados
Unidos”, conclui Abrão Neto.
A
Amcham chama a atenção para o fato de que “setores estratégicos já começam a
apresentar retração nas vendas aos EUA como consequência direta das tarifas
atualmente em vigor. Dentre os dez principais produtos que tiveram queda nas
exportações, oito deles estão sujeitos a aumentos tarifários, como celulose
(-14,9%), motores (-7,6%), máquinas e equipamentos (-23,6%), manufaturas de
madeira (-14,0%) e autopeças (-5,6%).
<><>
Estados mais afetados são bolsonaristas
O
paradoxo que configura o tiro pela culatra da ação do clã Bolsonaro é que, dos
10 estados mais afetados pelo "tarifaço" foram os colégios eleitorais
onde Bolsonaro ganhou por larga margem, com a liderança de São Paulo, principal
centro industrial do país, sede da Embraer, da indústria automobilística e de
autopeças, além do café, do suco de laranja e do açúcar e do álcool, e mais Rio
Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás,
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Minas Gerais é o único dos estados a ser
atingido (pelo café, que divide com o ES o mercado americano, e os produtos
siderúrgicos) em que Lula venceu por pouco
Depois
de uma primeira reação de aplauso às ameaças de Donald Trump pelos aliados de
Bolsonaro, à frente as lideranças do PL, partido do ex-presidente, e que foi
secundado pelos governadores que almejam angariar os apoios dos bolsonaristas
em 2026, para herdar o eleitorado de Jair Bolsonaro, como Ronaldo Caiado
(União-GO) e Romeu Zema (Novo-MG), houve reação da classe empresarial e da
opinião pública, o que deixou a direita desorientada.
Herdeiro
natural dos votos bolsonaristas, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos-SP), depois de manifestar apoio ao ex-presidente, fez algumas
correções de rota em suas posições. Na sexta-feira, ele se reuniu em Brasília
com o encarregado de negócios dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, defendendo a
abertura de um diálogo entre a diplomacia dos dois países. Mas o movimento de
sensatez, para baixar a fervura causou revolta entre integrantes do núcleo
bolsonarista, e também na família do ex-presidente - especialmente o deputado
Eduardo Bolsonaro.
Em
declaração nos Estados Unidos, o deputado licenciado disse que, ao se encontrar
com o representante da gestão Donald Trump no Brasil e negociar o tarifaço, “o
governador atrapalha o plano de pressionar as autoridades brasileiras por uma
anistia ampla e irrestrita que favoreceria, em tese, a Jair Bolsonaro”. A
promessa que Eduardo Bolsonaro e o economista Paulo Figueiredo vêm fazendo após
o anúncio do presidente americano é de que, se a anistia nesse modelo avançar,
Trump reveria a sobretaxa de 50% que impôs aos produtos brasileiros.
O caro
leitor há de recordar que já mencionei aqui que a reação do PL ao aumento do
IOF era, na verdade, parte do plano do círculo bolsonarista de condicionar a
aprovação das demandas do governo à aprovação de anistia que alcançasse
principalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro. A desfaçatez, a cara de pau da
família foi assumida pelo próprio ex-presidente e, ao vivo, na GloboNews, na
sexta-feira, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ou seja, a família assumiu
a trama para forçar Trump a pugnar pela anistia a Bolsonaro, nem que isto custe
o sequestro de uma parcela expressiva do PIB brasileiro.
O
escândalo dos “hackers” que usaram a senha (negociada em troca de R$ 15 mil) de
um funcionário da provedora de serviços C&M teria produzido um prejuízo de
R$ 1 bilhão a bancos e “fintechs” que tiveram seus arquivos invadidos, segundo
investigações da Polícia Federal divulgada sexta-feira, 11 de julho. Mas, um
estudo divulgado no mesmo dia, no site do jornal “Valor Econômico”, estima que
o “sequestro” do Brasil por Trump e o clã Bolsonaro pode custar nada menos de
R$ 14,4 bilhões em perda de negócios.
<><>
Bradesco vê danos de US$ 15 bilhões (0,6% do PIB)
Economistas
do departamento macroeconômico do Bradesco estimam, preliminarmente, “se as
tarifas entrarem em vigor” (...), uma redução de US$ 15 bilhões (0,6% do PIB)
das exportações brasileiras (perda adicional de US$ 13,6 bilhões em relação à
tarifa de 10% inicialmente anunciada)”. Para manter as contas externas estável,
o câmbio poderia ter uma depreciação da ordem de 6%. Caso o real deprecie 6%, a
inflação poderia subir 0,35 ponto percentual. Os impactos seriam percebidos
ainda nesse ano, com IPCA pouco abaixo de 5,5% (o Bradesco tinha reduzido a
projeção do IPCA de 5,4% para 5,1% no dia 7 de julho e o Ministério da Fazenda
está prevendo 4,9%).
O
governo brasileiro respondeu dizendo que “qualquer medida de elevação de
tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei brasileira de
Reciprocidade Econômica”. A lei, sancionada em abril, permite ao governo
brasileiro restringir importações, suspender concessões comerciais, de
investimento e de obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual.
As regras da Organização Mundial de Comércio compreendem trocas de bens e de
serviços. Nos serviços (patentes, cartões de crédito, direitos autorais e
transações financeiras) os ganhos dos EUA são ainda mais expressivos.
Na
avaliação do Bradesco, “além dos impactos de balança comercial, uma tarifa tão
alta traz impactos de elevação da incerteza para a economia brasileira. As
exportações terão uma perda importante, com alguns setores sendo
particularmente mais afetados. O impacto sobre crescimento pode ser da ordem
de-0,3 p.p. neste ano. Todos esses impactos são estimativas preliminares, não
incorporados em nosso cenário, uma vez que as tarifas só entram em vigor em
agosto e há tempo para negociação”, acredita o banco.
<><>
As voltas que o mundo dá
“O
mundo gira e a Lusitana roda”, já dizia a velha propaganda da firma de
mudanças. Mas a ideia se aplica como uma luva à política. Conversando é
possível aparar arestas. Vejam o caso do IOF, que se misturou ao caso da
isenção do IR para quem ganha até cinco salários-mínimos e pode ter compensação
com aumento da taxação sobre os mais ricos, ajustando as contas fiscais em
2026. A oposição travou os trabalhos na Câmara, na tentativa de aprovar a
anistia para Bolsonaro e os demais golpistas, e derrubou o IOF.
Quem
poderia imaginar que a solução para o acerto de contas poderia vir antes do dia
15, prazo dado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, para um entendimento
entre o Executivo e o Legislativo, e que viria do deputado Arthur Lira (PP-AL)?
Relator do Projeto de Lei para isenção do IR, o alagoano apresentou esta semana
seu substitutivo ao projeto de isenção do IR. Lira manteve a criação de um
imposto de renda mínimo de 10% sobre os chamados "super-ricos", e
estendeu a isenção proporcional de IR para quem ganha até R$ 7.350 reais, o
que, segundo a estimativa apresentada por ele, beneficiará adicionalmente mais
500 mil contribuintes. Do ponto de vista político, ficou bom para o governo e,
mais uma vez, ruim para o PL.
Mas a
convergência política do ex-presidente da Câmara dos Deputados aos interesses
do governo Lula envolveu, de quebra, uma negociação paroquial. Esta semana, o
presidente Lula indicou Marluce Caldas para uma vaga no Superior Tribunal de
Justiça. Caldas é tia de João Henrique Caldas, o JHC, prefeito de Maceió,
aliado de Lira. A indicação dela fez parte de um acordo para favorecer o plano
de Arthur Lira para se candidatar a senador por Alagoas em 2026. Com a tia no
STJ, o prefeito de Maceió teria se comprometido a não sair candidato ao Senado
no próximo ano. A outra das duas vagas em disputa seria do outro cacique
alagoano, o senador Renan Calheiros, do MDB.
Fonte:
JB

Nenhum comentário:
Postar um comentário