Delegados
licenciados da PF receberam R$ 2,4 milhões por investigação privada para Unimed
Uma
empresa de consultoria pertencente a dois delegados da Polícia Federal
recebeu R$ 2,5 milhões da Unimed Cuiabá para produzir relatórios sobre a gestão
anterior do plano de saúde e prestar serviços de compliance. O
resultado da investigação privada embasou uma operação da própria PF e do
Ministério Público Federal, desencadeada em 2024, contra os diretores de uma
chapa adversária da gestão que contratou a empresa.
Um dos
delegados empresários é Rodrigo Piovesano Bartolamei, ex-superintendente da PF
em São Paulo, cargo-chave para o qual foi nomeado durante o governo de Jair
Bolsonaro (2019-2022), e ex-chefe da Interpol no Brasil durante o governo de
Michel Temer (2016-2018).
Em
resposta ao Intercept Brasil, os delegados afirmaram que atuaram para a
empresa durante licenças da PF a fim de tratar de interesse particular, com
aval do setor jurídico do órgão e decisão superior. Eles defenderam a
legalidade da sua atuação e afirmaram que não mantiveram contato com nenhuma
autoridade da PF e do MPF para tratar de interesses do plano de saúde.
Bartolamei afirmou que não atuou na fase da investigação interna, apenas no
serviço de estruturação de compliance.
A
Trinity Consultoria recebeu os valores da Unimed Cuiabá de abril de 2023 a
março de 2025. Trata-se de um plano de saúde sediado em Mato Grosso com mais de
201 mil beneficiários. No papel, a empresa dos delegados teria o objetivo de
fazer um “levantamento diagnóstico e revisão de processos” para a
recém-empossada gestão do plano de saúde, entre outras atividades.
O
trabalho da consultoria teria ajudado a revelar um suposto esquema, segundo a
denúncia do MPF, de uso de documentos falsos e falsidade ideológica na
elaboração de documentos contábeis, tudo supostamente praticado pela gestão
anterior da Unimed. Em abril de 2024, o MPF fez um acordo de leniência com o
plano de saúde, no qual era previsto a implementação de “programas de
integridade”.
Os
contratos entre a Unimed e a Trinity começaram com R$ 87 mil por mês e depois
aumentaram para R$ 135 mil mensais. Isso sem contar “honorários de êxito”
incluídos num segundo contrato, que estipulam pagamentos milionários à empresa
dos policiais caso a Unimed consiga recuperar o dinheiro. Os delegados dizem
que, até o momento, nada receberam em função desse segundo contrato.
Os
sócios da Trinity – donos de 98% das quotas – são Bartolamei e o delegado
federal aposentado Carlos Eduardo Fistarol, que era delegado da ativa em Santa
Catarina, mas pediu exoneração em dezembro de 2024, em meio à execução do
contrato com a Unimed. Os outros 2% pertencem a Denise Caroline Mutti Perroni
Fistarol, servidora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e esposa de
Fistarol.
Um
ofício da direção da Unimed Cuiabá de março deste ano, ao qual o Intercept teve
acesso, confirma que os trabalhos da Trinity Consultoria resultaram na
“responsabilização dos antigos gestores, na operação Bilanz da PF e em várias
ações de responsabilidade cível e criminal”.
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Indicado por Bolsonaro
Sediada
num apartamento no bairro Ponta Aguda, em Blumenau, em Santa Catarina, e com um
capital social declarado de apenas R$ 10 mil, a Trinity diz em seu contrato
social ter como objetivo “a exploração dos ramos de prestação de serviços de
consultoria em segurança corporativa, integridade e conformidade”.
Segundo
os registros da Junta Comercial de Santa Catarina, a Trinity foi criada em 3 de
abril de 2023. Apenas nove dias depois, ela fechou o contrato com a Unimed
Cuiabá.
Durante
o governo Bolsonaro, o delegado Bartolamei, sócio da Trinity, ocupou de 2021 a
2022 um dos mais prestigiosos cargos na Polícia Federal, o de superintendente
regional do órgão em São Paulo. O nome teve aval da família Bolsonaro, segundo
a imprensa registrou na
época. O delegado nega relações políticas com o clã Bolsonaro e diz que seu
nome foi uma escolha do então diretor-geral da PF, Paulo Maiurino.
Desde
2020, requisitado à PF pelo Palácio do Planalto, ele ocupava o cargo de
assessor técnico no Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, então comandado
pelo general da reserva Augusto Heleno na Presidência da República. O delegado
disse ao Intercept que essa escolha também foi uma decisão do então
diretor-geral da PF, Rolando de Souza, e que historicamente a PF mantém um
delegado no GSI mesmo antes de Heleno.
Bartolamei
foi exonerado do comando da Superintendência paulista logo no começo do governo
Lula, em 18 de janeiro de 2023. Um ano depois, ainda nos quadros da PF mas sob
licença, Bartolamei decidiu ingressar na vida empresarial. Por meio de uma
alteração contratual, tornou-se sócio da Trinity Consultoria. Bartolamei obteve
da PF sua licença para tratar de interesse particular em novembro de 2023. O
ato foi assinado pelo atual diretor geral da PF, Andrei Rodrigues.
No
papel, o contrato assinado pela Trinity com a Unimed Cuiabá dizia que seu
objetivo era “apurar demandas” da empresa “nas áreas de segurança orgânica,
conformidade legal e integridade corporativa”.
Suas
atividades se dariam “por meio de levantamento diagnóstico e revisão de
processos; identificação de possíveis adequações e/ou soluções; e recomendações
de práticas de melhoria e/ou correção”. A princípio, soa como um típico
trabalho de compliance, uma série de práticas e procedimentos que
as empresas devem adotar para que estejam em conformidade com leis e normas.
Contudo,
documentos obtidos pelo Intercept dão novos contornos à atividade da Trinity e
relacionam suas consequências à operação desencadeada pela PF e pelo
Ministério Público Federal contra os antigos gestores do plano de saúde.
Em
ofício assinado pelo diretor administrativo financeiro da Unimed Cuiabá, Junior
Ratto, e pelo diretor de Recursos Próprios, Erleno Pereira de Aquino, o plano
de saúde afirmou ao seu conselho fiscal que os trabalhos da Trinity “resultaram
na base do sucesso do acordo de leniência” assinado pela empresa com o
Ministério Público Federal, “no entendimento da ANS [Agência Nacional de Saúde
Suplementar] na responsabilização dos antigos gestores, na operação Bilanz da
Polícia Federal e em várias ações de responsabilidade cível e criminal, assim
como fundamentação de denúncias ao CDC [Comissão de Disciplina
Cooperativista]”.
A
Operação Bilanz, citada no ofício, abalou as estruturas da Unimed Cuiabá e teve
grande repercussão em Mato Grosso. Ela foi desencadeada pela PF e pelo MPF em
outubro passado –
um ano e meio depois da contratação da Trinity.
Em
agosto de 2024, o MPF denunciou ao Judiciário seis ex-gestores responsáveis
pela administração e finanças no quadriênio 2019-2023, incluindo o
ex-diretor-presidente, Rubens Carlos de Oliveira Junior. O MPF argumentou que
houve “a ocultação de um prejuízo” de R$ 400 milhões no período e que os
ex-gestores “dificultaram e obstruíram a fiscalização” além de “ocultar desvios
patrimoniais”.
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‘Apenas uma semana depois da Operação Bilanz, a Unimed Cuiabá e a Trinity
assinaram um novo contrato’
No
início de outubro, o juiz da 5ª Vara Federal de Cuiabá, Jeferson Schneider,
acolheu a denúncia e aceitou o pedido dos novos gestores da Unimed Cuiabá para
que passassem a atuar no processo como assistentes de acusação dos ex-gestores.
Apenas
uma semana depois da deflagração da Operação Bilanz, a Unimed Cuiabá e a
Trinity assinaram, em 6 de novembro de 2024, um novo contrato. Dessa vez, ele
previa o pagamento de “honorários ad exitum [em função do
sucesso]” em um percentual escalonado, de acordo com a íntegra do contrato, “a
ser calculado sobre valores e bens que eventualmente sejam recuperados ao
patrimônio da Unimed, em decorrência dos elementos probatórios angariados, das
peças produzidas, da estratégia estabelecida e das orientações fornecidas pela
Contratada [Trinity]”.
O
contrato, assinado pelo diretor-presidente da Unimed Cuiabá, o médico Carlos
Eduardo de Almeida Bouret, e o delegado Fistarol inclui uma planilha de cálculo
da futura remuneração.
Se o
plano de saúde recuperar até R$ 15 milhões, a firma dos delegados da PF
receberá 9% (ou R$ 1,35 milhão). Caso a recuperação varie de R$ 15 milhões a R$
45 milhões, o valor a ser pago à consultoria será de 7% (oscilando de R$ 1,35
milhão a R$ 3,15 milhões). E se a recuperação passar dos R$ 45 milhões, a firma
dos delegados receberá 4% do total.
O plano
de saúde esclareceu, no contrato, que a previsão de remuneração está
relacionada a seis “ações civis já ajuizadas por advogados” da Unimed Cuiabá,
mas novas ações poderão ser acrescidas, desde que “utilizem os meios
probatórios coletados pela Contratada [Trinity]”.
Mas
qual a relação entre os trabalhos da firma dos delegados e a recuperação dos
ativos em favor do plano de saúde? O contrato esclarece que a Trinity fora
contratada para, entre outras tarefas, “identificar possíveis irregularidades
praticadas na gestão da Cooperativa” a fim de que “a nova Administração eleita
na Assembleia de 04/03/2023 pudesse adotar as devidas medidas corretivas”.
O
documento da Unimed Cuiabá informa que, “a partir de então, diante dos
elementos apurados que indicavam para condutas violadoras do estatuto da
Unidade”, das normas da ANS e “das normas penais”, a Trinity “passou a
circunstanciar os elementos de prova coletados”.
Com
isso em mãos, a nova gestão da Unimed Cuiabá protocolou uma notícia-crime no
Ministério Público Federal, ajuizou ações cíveis de reparação, tomou medidas
administrativas e respondeu “aos diversos questionamentos realizados pelo MPF
no âmbito do acordo de leniência assinado em 22/04/2024”.
O
contrato menciona uma relação direta entre os trabalhos da Trinity e a Operação
Bilanz. “Quando já em trâmite no âmbito da Diretoria-Executiva a definição dos
percentuais e a formalização do presente contrato, posto que aprovado nas
reuniões da Diretoria-Executiva de 23.05.2024 e 30.10.2024, foi deflagrada em
31/10/2024 a denominada ‘Operação Bilanz’, sob coordenação do Ministério
Público Federal”.
O
documento cita um reconhecimento que o MPF teria feito sobre o papel
fundamental da UC nas investigações. “Na oportunidade [da deflagração], a
Procuradoria da República [em Mato Grosso] divulgou em nota que: ‘A colaboração
da Unimed Cuiabá foi crucial para o avanço das investigações, fornecendo
informações e provas significativas, incluindo uma notícia-crime formulada pela
própria operadora em 31 de julho de 2023’”.
O texto
do contrato não detalha a origem exata dessa manifestação do MPF, mas diversas
notícias publicadas pela imprensa em Cuiabá indicam que se tratou de uma nota
divulgada pelo MPF aos meios de comunicação em virtude da deflagração da
operação.
Detalhes
sobre o papel “crucial” da Unimed Cuiabá, segundo a expressão usada pelo MPF,
também aparecem no acordo de leniência assinado em 22 de abril de 2024 entre
dois procuradores da República e a nova gestão do plano de saúde – homologado
em junho de 2024 pela 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF.
No
documento, o MPF reconhece “o interesse de cooperação” da Unimed Cuiabá,
especialmente a propósito de uma notícia-crime formulada pelo plano de saúde,
“bem como em apurações internas e outras representações criminais”.
O MPF
diz que a Unimed Cuiabá “subsidiou a abertura do inquérito civil” e de um
Procedimento Investigatório Criminal (PIC), ambos em 2023. O número do PIC
mencionado (1.20.000.000849/2023-30) é o mesmo que aparece como a origem da
“Operação Bilanz”, conforme consta logo no início da denúncia oferecida pelo
MPF.
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Unimed Cuiabá: guerra pelo poder
A
contratação da firma de consultoria dos delegados da PF ocorreu no contexto de
uma disputa política entre dois grupos políticos opostos na Unimed Cuiabá.
Liderada pelo médico Carlos Bouret, a gestão que tomou posse em março de 2023 e
contratou a Trinity no mesmo mês fez uma campanha com ataques à gestão
anterior, do também médico Rubens Junior. Ele estava à frente da Unimed Cuiabá
desde 2016.
O
ex-diretor Rubens Junior disse ao Intercept que perdeu a reeleição em 2023 em
meio “a uma campanha dos adversários que queria atingir a nossa imagem”.
Durante a disputa pelos cerca de 1,5 mil sufrágios de cooperados aptos a votar,
foi divulgado um vídeo em que um rapaz aparece jogando notas de dinheiro para
cima. A peça acusa a gestão de Junior de ter gerado “mais de R$ 17 milhões de
prejuízos acumulados”. E termina com o slogan: “Bouret. Cuidar melhor do
que é nosso”.
Rubens
Junior negou qualquer irregularidade na sua gestão e disse que foi o
responsável pela própria criação do departamento de compliance, em
2016.
“Nós
fizemos uma auditoria externa e todas as contas foram aprovadas. Não tive
enriquecimento ilícito nenhum, não houve desvio nenhum. Ele [Bouret] espalhou
na cidade que teve ‘rombo’, mas não teve ‘rombo’ nem desvio.”
Na sua
defesa anexada ao processo, Rubens Junior afirmou que a nova gestão do plano
“incutiu a [em] todos os cooperados de que haveria, na gestão do apelante
[Junior], desvios de verbas, favorecimento de pessoas ligadas aos mesmos”.
Segundo o ex-diretor, o objetivo era “não só vencê-los politicamente, mas
também massacrá-los patrimonialmente e, acima de tudo, colocar por terra a
reputação que construíram em anos de médicos e gestores”.
Contratada
pela defesa de Rubens Junior, uma análise técnico-contábil produzida pelo
Instituto Telo de Perícias Ltda., de São Paulo, concluiu em 2024 que, apesar de
ter ocorrido, nos balanços do plano de saúde, “uma superavaliação do patrimônio
líquido”, “não houve prejuízo financeiro direto à cooperativa ou aos seus
membros, visto que os valores não foram indevidamente extraídos ou utilizados
de maneira que comprometesse a saúde financeira da instituição”.
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Taxa de sucesso é incomum
Falando
em tese, sem conhecer os detalhes do caso, o advogado Matheus Puppe,
especialista em compliance, mestre e doutorando pela Universidade
de Frankfurt, disse ao Intercept que “não é comum” um contrato de consultoria
externa para atividade de compliance que inclua “cláusula de
sucesso” por eventual recuperação de ativos. Com atuação no Brasil, Alemanha e
Portugal, ele disse que “nunca viu ou soube” da existência de um contrato do
gênero.
O
especialista também disse que também “não é tão usual” a participação de
policiais em investigações de compliance. “Por um lado, o policial
tem uma capacidade investigativa, mas por outro pode ser uma pessoa atuando com
um viés pré-determinado a fim de chegar a um determinado objetivo. Geralmente
esse trabalho é feito por acadêmicos de direitos, profissionais com formação
jurídica na área específica do compliance, como ex-empregados no
setor”.
Puppe
reconheceu que uma atividade de investigação paralela à ação do compliance interno
é uma prática comum no mercado, porém considerou o valor pago no caso da Unimed
Cuiabá, de R$ 135 mil ao mês, “acima do mercado”. Ele citou que, recentemente,
soube de uma grande investigação externa, com diversos profissionais, relativa
a uma das maiores empresas brasileiras, que custou R$ 500 mil pelo prazo de um
ano. O trabalho da Trinity para a Unimed contou exclusivamente com a mão de
obra do delegado, sem a participação de outros profissionais, segundo Fistarol.
Sobre a
contratação de uma investigação externa à empresa, ainda que já exista um compliance interno,
Puppe disse que é uma atividade cada vez mais frequente no Brasil. “O compliance interno
tende a ficar enviesado, então se recorre ao externo, entrevistas são feitas,
quase uma investigação mesmo, às vezes até de forma mais rígida, pode ser feito
um dossiê para ser encaminhado ao compliance interno. Isso
acontece, sim. Como se fosse uma investigação interna para a empresa se
prevenir de qualquer ilícito. Se for identificada uma ação individual ilícita,
isso é documentado e encaminhado para as providências cabíveis.”
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Policiais são submetidos a estatuto
Também
falando em tese, sem conhecer detalhes do caso, o advogado Fernando Dantas, que
atua no campo do direito público há quase 20 anos, disse que, embora seja
permitido ao servidor público possuir cotas em empresas, a atuação de policiais
federais é submetida a uma legislação específica, como o Estatuto da Polícia
Federal (lei nº 9266/1996), e vedações impostas no nível infralegal, que são
atos administrativos que regulamentam leis.
O
advogado cita, por exemplo, uma nota técnica do Ministério do Planejamento,
Orçamento e Gestão (nº 538/2011). O documento diz que “os servidores
integrantes da Carreira de Policial Federal estão submetidos ao regime de
trabalho de dedicação exclusiva, ou seja, devem desempenhar, exclusivamente, as
atividades e atribuições do cargo efetivo, sendo vedado, de forma expressa, o
exercício de outra atividade remunerada, na iniciativa pública ou privada, que
enseje conflitos de interesses com aquelas desenvolvidas em razão do cargo que
ocupa, ressalvando-se o magistério”.
“De um
modo geral, um servidor público pode ser sócio cotista em uma empresa, desde
que não exerça atos de gerência e administração. Mas, no caso de um policial
federal, há um outro ingrediente, pois é submetido a uma legislação especial.
No meu entendimento, o policial [na ativa] pode dar aulas, mas não desenvolver
qualquer outra atividade remunerada ou não. Para mim, há uma vedação legal
explícita e quem infringe essa norma pode ser alvo de um procedimento
administrativo disciplinar”, disse Dantas.
A
respeito das licenças para tratamento de interesse particular obtidas na PF
pelos dois delegados, o especialista disse que essa situação “atenua, modera um
pouco os efeitos de um impedimento”. O especialista disse que, para se chegar a
uma resposta mais definitiva, é preciso analisar todos os contornos do caso
para concluir se a atividade empresarial desenvolvida pelos delegados “é
ou não compatível com a atividade policial”.
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Contrato acabou em março
A ata
da 1ª reunião extraordinária realizada em 2025 pela diretoria executiva da
Unimed Cuiabá indica que o contrato do plano de saúde com a consultoria Trinity
não foi renovado a partir de 2025 porque os gestores entenderam “que não há
mais necessidade em manter a contratação, eis que o trabalho executado no
contrato anterior já contemplou todo o escopo previsto em seu objeto, não
havendo necessidade de renovação”.
Durante
a reunião, dois diretores da Unimed Cuiabá opinaram favoravelmente a um novo
contrato, “por ser necessário o acompanhamento da consultoria, em face do
acordo de leniência assinado”. Contudo, foram votos vencidos e decidiu-se, por
maioria, pela não renovação. A ata, contudo, nada esclarece sobre o futuro do
segundo contrato assinado com a Trinity, o que prevê os “honorários de
êxito”.
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Delegados defendem legalidade
Em
conversa com o Intercept, o ex-delegado Carlos Eduardo Fistarol defendeu que
seu trabalho de investigação privada para a Unimed Cuiabá ocorreu durante o
período em que estava licenciado do órgão. Além disso, garantiu que não fez
nenhum tipo de contato com a PF ou com o MPF sobre o assunto.
“Eu
estava dentro da Unimed fazendo os trabalhos para os quais eu fui contratado,
afastado da polícia, sem acesso nenhum ao sistema da PF e sem nunca ter ido em
nenhuma reunião no MPF ou na Polícia Federal.” Segundo o ex-delegado, os
advogados do plano de saúde decidiram por conta própria repassar o material de
investigação interna para as autoridades.
Fistarol
também defendeu que tanto o seu pedido de licença para tratar assuntos privados
quanto o seu pedido de exoneração da corporação não foram motivados pelos
contratos com a Unimed Cuiabá. “Eu não precisava do salário da polícia para
sobreviver. (…). Entenda que, para mim, aquilo ali era muito mais um hobby do
que um ganha-pão”, alegou o ex-delegado, que é de uma família que atua no
mercado hoteleiro e de construção civil. Fistarol também classifica a atuação
na Trinity Consultoria como um hobby. Atualmente, ele diz trabalhar com a venda
de souvenirs.
Em
relação ao valor cobrado no contrato, Fistarol afirmou que fez um orçamento a
partir do trabalho que seria necessário e a Unimed aceitou as condições. Já
sobre a cláusula de sucesso, ele disse que isso deve acontecer ao final do
processo, caso o plano de saúde consiga a recuperação de valores supostamente
desviados. O ex-delegado confirmou que a Trinity Consultoria tem outros
clientes, mas disse que não pode revelar seus nomes por razões contratuais.
Quando
na ativa, Fistarol teve uma atuação relevante na área de combate ao crime
organizado na PF de Mato Grosso. Em 2008, por exemplo, ele esteve à frente da
Operação Termes, que apurou um suposto esquema de venda de madeira ilegal.
O
delegado Rodrigo Bartolamei disse ao Intercept que não participou da
investigação realizada pela Trinity na Unimed, pois entrou como sócio da
empresa numa etapa posterior, em janeiro de 2024, e que seu papel estava
vinculado exclusivamente ao tema do compliance. De qualquer forma,
porém, defendeu a lisura e a legalidade da prática de investigações internas
como um dos “pilares do compliance em todo o mundo”.
Ao
solicitar a licença da PF, o delegado foi instado pela administração do órgão,
como é de praxe, a preencher um formulário padrão e declarou que sua atividade
empresarial não incide nas hipóteses de conflito de interesses previstas em
lei. No formulário, o delegado indicou que iria desenvolver atividade na
iniciativa privada. Os documentos mostram que seu pedido recebeu o parecer
favorável do setor jurídico da direção da PF em Brasília, onde está lotado
desde 2023, que não apontou nenhum óbice à licença.
“Não
vou fazer nada em detrimento da União. Não faço nada em detrimento da União.
Não participamos de licitação [pública]. E não vou prestar serviço para
empresas cuja atividade é fiscalizada e regulada pela própria Polícia Federal”,
disse o delegado.
De
acordo com o delegado, a partir da concessão da licença, autorizada pela PF
dois meses antes de sua entrada na Trinity, ele perdeu todo o acesso aos emails
e aos bancos de dados da PF, além de deixar de receber o salário mensal.
“Quando você sai da polícia, eles cortam tudo. Você não tem acesso a nada.”
O
delegado disse que a licença para atuar na iniciativa privada tem sido adotada
por outros policiais federais e defendeu a regularidade e a legalidade do
trabalho na Trinity. O Intercept confirmou que Bartolamei está em licença da PF
desde novembro de 2023, dois meses antes de ingressar como sócio da Trinity
Consultoria.
Segundo
Bartolamei, seu trabalho no contrato com a Unimed Cuiabá era dar “um suporte
ao compliance interno”. “Por quê? Para trazer uma visão de
fora, uma visão independente.” O delegado disse que foi certificado em
fevereiro de 2024 a trabalhar nos temas do compliance após ser
aprovado em curso ministrado pela LEC (Legal, Ethics Compliance).
O
delegado reiterou que não manteve contato com autoridades da PF e do MPF ao
longo do seu trabalho na consultoria. “Nós nunca tivemos nenhum contato com
qualquer órgão. Eu, na minha fase, sei que ele [Fistarol] também não estava. E
antes, acredito que ele também não fez nunca, porque era um trabalho totalmente
interno.”
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Direção da PF: atividade não pode ser incompatível
Em nota
enviada ao Intercept, a direção-geral da PF informou que “os servidores da
Polícia Federal podem integrar o quadro societário de empresas privadas,
ficando-lhes vedado o exercício da gerência ou administração da empresa.
Deverão observar, ainda, os procedimentos previstos na Lei de Conflito de
Interesses (Lei nº 12.813, de 16 de maio de 2013)”.
Indagada
sobre as orientações que repassa aos seus servidores, a PF informou que elas
“decorrem dos comandos legais, em especial a Lei nº 12.813, de 16 de maio de
2013 (Lei de Conflito de Interesses) e a Lei nº 15.047, de 17 de dezembro de
2024 (Regime disciplinar da Polícia Federal e da Polícia Civil do Distrito
Federal)”.
“Em
caso de infração disciplinar prevista na Lei nº 15.047, de 17 de dezembro de
2024, fica o servidor sujeito à processo disciplinar. Nos termos do art. 15,
III da Lei nº 15.047, de 17 de dezembro de 2024, constitui infração disciplinar
‘exercer, a qualquer título, atividade remunerada incompatível com a atividade
policial’”, diz a nota da PF.
A PF
informou ainda que não poderia informar a atual lotação de Bartolamei porque
dados do gênero sobre servidores públicos são considerados “dados pessoais e,
como tal, estão protegidos por sigilo, nos termos da Lei de Acesso à
Informação”.
A PF
informou que Fistarol “foi exonerado à pedido”, conforme portaria de 26 de
dezembro de 2024 publicada em Diário Oficial em 2 de janeiro de 2025.
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Unimed: consultoria incluiu ‘coleta de informações’
Em nota
ao Intercept, a Unimed Cuiabá afirmou que o contrato com a Trinity durou de
abril de 2023 a abril de 2025 para “prestação de serviços de consultoria em
segurança corporativa, integridade e conformidade”. Segundo a Unimed, a
contratação “integrou um conjunto mais amplo de iniciativas de fortalecimento
dos controles internos e governança corporativa, que também envolveu outras
empresas especializadas em consultoria e auditoria”.
“Os
serviços contratados tiveram como objetivo aprimorar nossos processos de compliance e
contribuir para a coleta de informações a serem encaminhadas aos órgãos
competentes de investigação e controle, em face de possíveis ilícitos cometidos
durante a gestão anterior da cooperativa.”
Segundo
o plano de saúde, a Trinity “não teve qualquer participação na condução do
acordo de leniência firmado entre a Unimed Cuiabá e o Ministério Público
Federal, tendo sido o mesmo conduzido exclusivamente pela Diretoria Executiva
da Unimed Cuiabá com o auxílio de assessoria jurídica especializada”.
“Durante
toda a vigência contratual, os trabalhos foram acompanhados pelo setor de compliance da
cooperativa. A Unimed Cuiabá reafirma seu compromisso com a transparência, a
ética e o cumprimento rigoroso de todas as normas aplicáveis ao setor
cooperativista de saúde. Seguimos à disposição dos órgãos competentes e da
sociedade para quaisquer esclarecimentos adicionais.”
Fonte:
Por Rubens Valente e Thalys Alcântara, em The Intercept

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